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zassu

06
Mai21

Versejando com imagem - Viagens na minha terra, de António Nobre

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VIAGENS NA MINHA TERRA

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Às vezes, passo horas inteiras

Olhos fitos nestas braseiras,

Sonhando o tempo que lá vai;

E jornadeio em fantasia

Essas jornadas que eu fazia

Ao velho Douro, mais meu Pai.

 

Que pitoresca era a jornada!

Logo, ao subir da madrugada,

Prontos os dois para partir:

- Adeus! adeus! é curta a ausência,

Adeus! - rodava a diligência

Com campainhas a tinir!

 

E, dia e noite, aurora a aurora,

Por essa doida terra fora,

Cheia de Cor, de Luz, de Som,

Habituado à minha alcova

Em tudo eu via coisa nova,

Que bom era, meu Deus! que bom!

 

Moinhos ao vento! Eiras! Solares!

Antepassados! Rios! Luares!

Tudo isso eu guardo, aqui ficou:

ó paisagem etérea e doce,

Depois do Ventre que me trouxe

A ti devo eu tudo que soul

 

No arame oscilante do Fio,

Amavam (era o mês do cio)

Lavandiscas e tentilhões...

Águas do rio vão passando

Muito mansinhas, mas, chegando

Ao Mar, transformam-se em leões!

 

Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!

Os lavradores mai-los filhos

A terra estrumam, e depois

Os bois atrelam ao arado

E ouve-se além, no descampado

Num ímpeto, aos berros: - Eh! bois!

 

E, enquanto a velha mala-posta,

A custo vai subindo a encosta

Em mira ao lar dos meus Avós,

Os aldeãos, de longe, alerta,

Olham pasmados, boca aberta...

A gente segue e deixa-os sós.

 

Que pena faz ver os que ficam!

Pobres, humildes, não implicam,

Tiram com respeito o chapéu:

Outros, passando a nosso lado,

Diziam: "Deus seja louvado!"

"Louvado seja!" dizia eu.

 

E, meiga, tombava a tardinha...

No chão, jogando a vermelhinha,

Outros vejo a discutir.

Carpiam, místicas, as fontes...

Água fria de Trás-os-Montes

Que faz sede só de se ouvir!

 

E, na subida de Novelas,

O rubro e gordo Cabanelas

Dava-me as guias para a mão:

Isso... queriam os cavalos!

Que eu não podia chicoteá-los...

Era uma dor de coração.

 

Depois, cansados da viagem,

Repoisávamos na estalagem

(Que era em Casais, mesmo ao dobrar...)

Vinha a S.ra Ana das Dores

"Que hão de querer os meus Senhores?

Há pão e carne para assar..."

 

Oh! ingênuas mesas, honradas!

Toalhas brancas, marmeladas,

Vinho virgem no copo a rir...

O cuco da sala, cantando. . .

(Mas o Cabanelas, entrando,

Vendo a hora: "É preciso partir").

 

Caía a noite. Eu ia fora,

Vendo uma estrela que lá mora,

No Firmamento português:

E ela traçava-me o meu fado

"Serás Poeta e desgraçado!"

Assim se disse, assim se fez.

 

Meu pobre Infante, em que cismavas,

Por que é que os olhos profundavas

No Céu sem-par do teu País?

Ias, talvez, moço troveiro,

A cismar num amor primeiro:

Por primeiro, logo infeliz...

 

E o carro ia aos solavancos.

Os passageiros, todos brancos,

Ressonavam nos seus gabões:

E eu ia alerta, olhando a estrada,

Que em certo sítio, na Trovoada,

Costumavam sair ladrões.

 

Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!

Fazer parte duma quadrilha,

Rondar, à Lua, entre pinhais!

Ser Capitão! trazer pistolas,

Mas não roubando, - dando esmolas

Dependuradas dos punhais ...

 

E a mala-posta ia indo, ia indo.

o luar, cada vez mais lindo,

Caía em lágrimas, - e, enfim,

Tão pontual, às onze e meia,

Entrava, soberba, na aldeia

Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!

 

Lá vejo ainda a nossa Casa

Toda de lume, cor de brasa,

Altiva, entre árvores, tão só!

Lá se abrem os portões gradeados,

Lá vêm com velas os criados,

Lá vem, sorrindo, a minha Avó.

 

E então, Jesus! quantos abraços!

- Qué dos teus olhos, dos teus braços,

Valha-me Deus! como ele vem!

E admirada, com as mãos juntas,

Toda me enchia de perguntas,

Como se eu viesse de Betlém!

 

- E os teus estudos, tens-me andado?

Tomara eu ver-te formado!

Livre de Coimbra, minha flor!

Mas vens tão magro, tão sumido...

Trazes tu no peito escondido,

E que eu não saiba, algum amor?

 

No entanto entrava no meu quarto:

Tudo tão bom, tudo tão farto!

Que leito aquele! e a água, Jesus!

E os lençóis! rico cheiro a linho!

- Vá, dorme, que vens cansadinho.

Não adormeças com a luz!

 

E eu deitava-me, mudo e triste.

(- Reza também o Terço, ouviste?)

Versos, bailando dentro em mim...

Não tinha tempo de ir na sala,

De novo: - Apaga a luz! - Que rala!

Descansa, minha Avó, que sim!

 

Ora, às ocultas, eu trazia

No seio, um livro e lia, lia,

Garrett da minha paixão...

Daí a pouco a mesma reza:

- Não vás dormir de luz acesa,

Apaga a luz! ... (E eu ainda... não!)

 

E continuava, lendo, lendo...

O dia vinha já rompendo,

De novo: - Já dormes, diz?

- Bff!... e dormia com a idéia

Naquela tia Dorotéia,

De que fala Júlio Dinis.

 

Ó Portugal da minha infância,

Não sei que é, amo-te a distância,

Amo-te mais, quando estou só...

Qual de vós não teve na Vida

Uma jornada parecida,

Ou assim, como eu, uma Avó?

 

António Nobre

Paris, 1892.

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