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zassu

13
Jul22

Versejando com imagem - A um mosquito, de Jacinto Freire de Andrade

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A UM MOSQUITO

Mosquito

Invencível mosquito,

Émulo do mais livre pensamento,

Sem corpo, e de todo espírito,

Que deste fim a um tão alto intento,

Quando precipitado

O céu de Délia acometeste ousado.

 

As portas de diamante

Cerradas ao clamor de tanta gente

Abriste triunfante,

Zombando da esperança impertinente,

Que entre temor, e espanto

Nunca acabou comigo esperar tanto.

 

Cupido, que inquieta

Délia sentiu ferida,

Espera, que o sinta,

A lança, que tiraste em sangue tinta,

Que o peito endurecido

É prova das setas de Cupido.

 

Porém de nada disto

Te mostres tão soberbo, e presumido,

Que podes sem ser visto

Passar a mais ferir, sem ser sentido,

E para castigar-te,

Não ocupas lugar nalguma parte.

 

Foras de amor ferido,

Se tivera o teu erro algum desconto,

Ou se achara Cupido

Aonde a ponta da seta pôr o ponto.

Condolação bastante;

Pois não picaste a Délia como amante.

 

Buscaste a noite escura

Por cometer a Délia mais oculto;

Quem medo te afigura,

Se não faz o teu corpo nenhum vulto,

Pobre de ti tão pobre,

Que a mesma luz do Sol te descobre.

 

Hidrópico mosquito,

Por beber sangue assim não te condeno,

Nem cometes delito,

Que com os olhos da alma tão pequeno,

Quando apenas te vejo,

Que desejas lugar para o desejo.

 

Tanto o saber Divino

Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,

Que Ambrósio Calepino

Não tem nome, que imprima o teu tamanho,

Porque o diminutivo

É mais em ti, que o teu superlativo.

 

Por tradição antiga

Deves graças a Deus humilde, e mudo;

Pois não falta quem diga,

Que de nada te fez, o que fez tudo:

Sendo que bem pudera

Fazer de ti nada, se quisera.

 

Causas ao Mundo todo

Admiração tão grande, que se espanta

De ver por novo modo

Em corpo tão pequeno traça tanta;

Porque o entendimento

Fábrica vê em ti sem fundamento.

 

Oh de suprema ideia,

Subtil debuxo, amostra primorosa!

Porque em ti mais campeia,

Que na máquina altiva, e majestosa:

Que em fazer-te tão pobre

Sua grandeza muito mais descobre.

 

Somente, se se adverte,

Dos vidraceiros és bem grande afronta;

Pois não têm para ver-te

Óculos nenhuns, que cheguem à conta;

Pois para ver mosquitos

É necessário ter graus infinitos.

 

E vós, que antes do dia

Das culpas castigais levando a palma,

Por nova tirania,

Que fizeste do corpo inferno da alma

Se fizeste do corpo inferno da alma:

Se por esta vitória

Tendes glória, ou vanglória.

Entre tantos rigores não durmais,

Pois se as almas sem culpas castigais,

Para desinquietar

Vosso rigor severo, e infinito

Basta só o sonida de um mosquito.

 

Jacinto Freire de Andrade

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