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zassu

21
Jan20

Versejando com imagem - A Baco, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A BACO

 

2013 - Vista sobre o Pinhão (12)

Vou-te cantando, Baco!

Não pela colheita de hoje, que é pequena,

Mas pela de amanhã, muito maior!

Vou-te pondo nos cornos estas flores,

Que não querem ser líricas nem puras,

Mas humanas, sinceras e maduras.

 

Vou-te cantando, e vou cantando o sol,

A terra, a água, o lume e o suor.

Vou erguendo o meu hino

Como levanta a enxada  o cavador!

 

Lá nesse Olimpo em geios,

Único Olimpo etéreo em que acredito,

Aí me prosterno, rendo e te repito

Que és eterno,

Mais do que Deus e mais do que o seu mito!

 

Beijo-te  os pés — os cascos de reixelo;

Olho-te os olhos de pupila em fenda;

E sabendo que és  fauno, ou sátiro ou demónio,

Sei que não és mentira nem és lenda!

 

Dionisos do Douro!

Pêlos no púbis como um homem,

Calos nas mãos ossudas!

E bêbado de mosto e de alegria,

À luz  da negra noite e do claro dia!

 

Cachos de alvaralhão de cada lado

Da marca universal da natureza!

Ela, roxa e retesa

Como expressão  da vida!

À beleza Sempre no seu lugar, erguida!

 

E folhas de formosa pelos ombros,

Pelos rins, pelos braços,

Por onde a seiva rasga o seu caminho.

E a cabeça coberta

De cheiro a sémen e a rosmaninho!

 

Modula a sensual respiração

Do arcaboiço fundo do teu peito

Uma flauta de cana alegre e musical.

E és humano,

Quanto mais és viril e animal!

 

Eis os meus versos, pois, filho de Agosto

E dos xistos abertos!

Versos que não medi, que não contei,

Mas que estão certos, 

Pela sagrada fé com que tos dei!

 

 

Miguel Torga,

Odes (Coimbra, 1946) 

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