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zassu

31
Mar20

Versejando com imagem - Cântico de Humanidade, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CÂNTICO DE HUMANIDADE

lavrar-a-terra

Hinos aos deuses, não.

Os homens é que merecem

Que se lhes cante a virtude.

Bichos que lavram no chão,

Atuam como parecem,

Sem um disfarce que os mude.

 

Apenas se os deuses querem

Ser homens, nós os cantemos.

E à soga do mesmo carro,

Com os aguilhões que nos ferem,

Nós também lhes demonstremos

Que são mortais e de barro.

 

Miguel Torga, in Nihil Sibi

29
Mar20

Versejando com imagem - Pérola solta, José Régio

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PÉROLA SOLTA

5387000eec958e6719938be9d69661a7

Sem que eu a esperasse,

Rolou aquela lágrima

No frio e na aridez da minha face.

Rolou devagarinho...,

Até à minha boca abriu caminho.

Sede! o que eu tenho é sede!

Recolhi-a nos lábios e bebi-a.

Como numa parede

Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,

Na boca me cantou,

Breve como essa lágrima,

Esta breve elegia.

 

José Régio, in Filho do Homem

25
Mar20

Versejando com imagem - Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NÃO É FACIL, SENHOR, A VIDA QUE NOS DESTE

 

2018.-Vidago -  Parque do Palace Hotel (48)

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

Se há momentos serenos como lagos

inundados de sol,

também há a selva escura,

infindável e escura, de muitas horas

que cansam e fazem doer a alma.

 

Há longas esperanças que, depois

de levarem o melhor dos nossos sonhos,

desabam de repente.

Há o fracasso, o desânimo

e a insegurança de tudo quanto nos vem às mãos.

 

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

Luta-se muito, temos de lutar,

todos os dias, por qualquer coisa,

qualquer coisa que acaba por nos fugir,

como se a vida se reduzisse

a um puro jogo das escondidas,

como se nos criasses apenas

para te servirmos de passatempo.

 

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

Por isso, muitos corações

se vão assemelhando a pequenos pântanos

onde se desenvolve o limo da melancolia

ou a serpente do desespero.

Por isso as árvores do sonho

mal conseguem dar frutos

e os poucos frutos

deixam nos lábios um sabor a fel…

 

Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste.

 

António Cabral, in Poemas Durienses

21
Mar20

Versejando com imagem - Confiança, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

E porque hoje é o Dia Mundial da Poesia, nesta nossa rubrica deixamos aqui um poema do nosso poeta maior – Miguel Torga – com o desejo, face aos tempos difíceis por que passamos, em nós renasça a confiança de podermos (re)construir o mundo, se possível, muito melhor.

 

2020.- Ecovia do Rabaçal (PR3-VLP) - Nikon (257)

CONFIANÇA

 

O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura…

E que a doçura que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova…

 

Miguel Torga, In "Cântico do Homem", 1950.

18
Mar20

Versejando com imagem - Viagem, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VIAGEM

 

2020.- Vila do Conde (Porto) (273)

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé do marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar…

Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

 

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar,

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

 

Miguel Torga, Câmara Ardente

23
Fev20

Versejando com imagem - Da terra..., José António Silva

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DA TERRA…

20200211_143505

 

 Da terra, das raízes, do suor salgado do rosto

Do labor de mãos nodosas e sedentas da jornada

Vem o prémio generoso e gárrulo que é o mosto

Tinto e alegre ardor da alma libertada.

 

As palavras, fáceis, escorregam aos bagos,

Inchadas de sumo e espuma de laço

Ressumam, dançantes, de todos os tragos

E trazem no casco o calor de um abraço.

 

Ergam os copos em pâmpanos gestos

Para brindar a dádiva desta natureza

De duros granitos e aráveis modestos.

 

Riqueza arrancada à terra todo o ano

Que no jarro enfeita a alva mesa

De todo e qualquer lar transmontano.

Da terra..., José António da Silva

José António Silva, Professor

20200211_141840

17
Fev20

Versejando com imagem - Tu Sentado à tua mesa, Sophia de Mello Breyner Andresen

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TU SENTADO À TUA MESA

20200211_141402

 

Tu sentado à tua mesa

Bebes vinho comes pão

Quem é que plantou a vinha?

Quem é que semeia o grão?

 

Lá no socalco da serra

Anda a cavar teu irmão

Debruçado sobre a terra

P'ra que tenhas vinho e pão

 

Para além daquela serra

P'ra que tenhas vinho e pão

Abrindo o corpo da terra

Dobra o corpo o teu irmão

 

Sua mão concha do cacho

sua mão concha do grão

Em cada gesto que faz

Põe a vida em comunhão.

 

Tu sentado... e Sophia de M. B. Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen, de "Poemas Dispersos"

in "Obra Poética",  da "CAMINHO" 2010.

20200211_141818

Casa do Vinho, Valpaços - Norte de Portugal

16
Fev20

Versejando com imagem - A amendoeira do cômoro, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A AMENDOEIRA DO CÔMORO

 

2020.- Alfandega da Fé (253)

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos, irmã, vamos ao campo:

Doce é o perfume

que entra, com sol, em nossa casa.

 

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos colher duas pétalas

das mais belas,

                               das mais brancas,

e pô-las no regaço da brisa.

A brisa tem palavras de bondade

e irá ter

                com uns lábios roxos,

uma alma triste,

e levará um pouco de beleza.

 

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos, irmã, vamos ao campo.

Naquele altar de flores

rezaremos a Deus.

 

António Cabral

in Poemas Durienses

 

2020.- Alfandega da Fé (264)

14
Fev20

Ao Acaso... Uma retificação e um pequeno apontamento a propósito da memória de Miguel Torga em Chaves

 

AO ACASO…

 

UMA RETIFICAÇÃO E UM PEQUENO APONTAMENTO

A PROPÓSITO DA MEMÓRIA DE MIGUEL TORGA EM CHAVES

 

20200214_114418

No dia 5 do corrente mês, sob esta mesma rubrica, e com o título «Onde para a memória do ‘nosso’ Miguel Torga em Chaves?», a certa altura dizíamos que “nós, flavienses, e responsáveis autarcas, fomos, até ao momento, incapazes de, com dignidade, na nossa terra, perpetuar a memória deste Grande Homem Transmontano, amigo de Chaves e das suas gentes!”.

 

Pedimos desculpa pela nossa imprecisão!

 

Acontece que, hoje, no passeio matinal, que habitualmente fazemos pelas margens urbanas do Tâmega na nossa cidade, Ao Acaso… vendo aqueles dois corações com cadeados apostos no relvado das Termas, e lembrando-nos que hoje é Dia de Namorados – embora não liguemos muito à importada efeméride – na espectativa de encontrar ali hoje algo de novo, «embicamos» e fomos ver aquela «escultura», mais em pormenor.

 

Continuamos a defender, como já o fizemos noutro local e num outro nosso blogue, que se trata de uma «obra» de gosto duvidoso. E depois do que, mais em pormenor, vimos hoje, mais convencido ficámos.

 

Tem cor vermelha, quando talvez devesse ser rosa, embora não mandada fazer pelos partidários de cor rosa ou vermelha. Condiziria melhor o laranja.

 

Mas… como dizíamos, olhando a «obra», mais em pormenor, verificámos que, colada ao plinto, onde os corações dos namorados se procuram enlaçar, vimos uma placa com o seguinte soneto:

 

AMOR

A jovem deusa passa

Com véus discretos sobre a virgindade;

Olha e não olha, como a mocidade;

E um jovem deus pressente aquela graça.

 

Depois, a vide do desejo enlaça

Numa só volta a dupla divindade;

E os jovens deuses abrem-se à verdade,

Sedentos de beber na mesma taça.

 

É um vinho amargo que lhes cresta a boca;

Um condão vago que os desperta e toca

De humana e dolorosa consciência.

 

E abraçam-se de novo, já sem asas.

Homens apenas. Vivos como brasas,

A queimar o que resta da inocência.

 

Para nosso espanto, o poema de quem era?

 

De Miguel Torga. Da sua obra «Libertação».

 

Aqui fica, assim, a retificação e as nossas desculpas pela imprecisão do post do passado dia 5.

 

Contudo, e pelo que vimos hoje em pormenor, mais se enraizou em nós o que pensamos quanto àquela «obra».

 

É, positivamente, pouco adequada à memória que, na nossa terra, deveríamos preservar do nosso escritor maior, transmontano.

 

Esta «obra», na nossa modesta opinião, é mesmo pindérica, face à grandeza do homem que se pretende homenagear com a sua escrita!

20200214_114359

(A placa e o soneto aposto no plinto)

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