Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

zassu

17
Fev20

Versejando com imagem - Tu Sentado à tua mesa, Sophia de Mello Breyner Andresen

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TU SENTADO À TUA MESA

20200211_141402

 

Tu sentado à tua mesa

Bebes vinho comes pão

Quem é que plantou a vinha?

Quem é que semeia o grão?

 

Lá no socalco da serra

Anda a cavar teu irmão

Debruçado sobre a terra

P'ra que tenhas vinho e pão

 

Para além daquela serra

P'ra que tenhas vinho e pão

Abrindo o corpo da terra

Dobra o corpo o teu irmão

 

Sua mão concha do cacho

sua mão concha do grão

Em cada gesto que faz

Põe a vida em comunhão.

 

Tu sentado... e Sophia de M. B. Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen, de "Poemas Dispersos"

in "Obra Poética",  da "CAMINHO" 2010.

20200211_141818

Casa do Vinho, Valpaços - Norte de Portugal

16
Fev20

Versejando com imagem - A amendoeira do cômoro, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A AMENDOEIRA DO CÔMORO

 

2020.- Alfandega da Fé (253)

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos, irmã, vamos ao campo:

Doce é o perfume

que entra, com sol, em nossa casa.

 

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos colher duas pétalas

das mais belas,

                               das mais brancas,

e pô-las no regaço da brisa.

A brisa tem palavras de bondade

e irá ter

                com uns lábios roxos,

uma alma triste,

e levará um pouco de beleza.

 

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos, irmã, vamos ao campo.

Naquele altar de flores

rezaremos a Deus.

 

António Cabral

in Poemas Durienses

 

2020.- Alfandega da Fé (264)

14
Fev20

Ao Acaso... Uma retificação e um pequeno apontamento a propósito da memória de Miguel Torga em Chaves

 

AO ACASO…

 

UMA RETIFICAÇÃO E UM PEQUENO APONTAMENTO

A PROPÓSITO DA MEMÓRIA DE MIGUEL TORGA EM CHAVES

 

20200214_114418

No dia 5 do corrente mês, sob esta mesma rubrica, e com o título «Onde para a memória do ‘nosso’ Miguel Torga em Chaves?», a certa altura dizíamos que “nós, flavienses, e responsáveis autarcas, fomos, até ao momento, incapazes de, com dignidade, na nossa terra, perpetuar a memória deste Grande Homem Transmontano, amigo de Chaves e das suas gentes!”.

 

Pedimos desculpa pela nossa imprecisão!

 

Acontece que, hoje, no passeio matinal, que habitualmente fazemos pelas margens urbanas do Tâmega na nossa cidade, Ao Acaso… vendo aqueles dois corações com cadeados apostos no relvado das Termas, e lembrando-nos que hoje é Dia de Namorados – embora não liguemos muito à importada efeméride – na espectativa de encontrar ali hoje algo de novo, «embicamos» e fomos ver aquela «escultura», mais em pormenor.

 

Continuamos a defender, como já o fizemos noutro local e num outro nosso blogue, que se trata de uma «obra» de gosto duvidoso. E depois do que, mais em pormenor, vimos hoje, mais convencido ficámos.

 

Tem cor vermelha, quando talvez devesse ser rosa, embora não mandada fazer pelos partidários de cor rosa ou vermelha. Condiziria melhor o laranja.

 

Mas… como dizíamos, olhando a «obra», mais em pormenor, verificámos que, colada ao plinto, onde os corações dos namorados se procuram enlaçar, vimos uma placa com o seguinte soneto:

 

AMOR

A jovem deusa passa

Com véus discretos sobre a virgindade;

Olha e não olha, como a mocidade;

E um jovem deus pressente aquela graça.

 

Depois, a vide do desejo enlaça

Numa só volta a dupla divindade;

E os jovens deuses abrem-se à verdade,

Sedentos de beber na mesma taça.

 

É um vinho amargo que lhes cresta a boca;

Um condão vago que os desperta e toca

De humana e dolorosa consciência.

 

E abraçam-se de novo, já sem asas.

Homens apenas. Vivos como brasas,

A queimar o que resta da inocência.

 

Para nosso espanto, o poema de quem era?

 

De Miguel Torga. Da sua obra «Libertação».

 

Aqui fica, assim, a retificação e as nossas desculpas pela imprecisão do post do passado dia 5.

 

Contudo, e pelo que vimos hoje em pormenor, mais se enraizou em nós o que pensamos quanto àquela «obra».

 

É, positivamente, pouco adequada à memória que, na nossa terra, deveríamos preservar do nosso escritor maior, transmontano.

 

Esta «obra», na nossa modesta opinião, é mesmo pindérica, face à grandeza do homem que se pretende homenagear com a sua escrita!

20200214_114359

(A placa e o soneto aposto no plinto)

12
Fev20

Palavras Soltas - Autêntico e genuíno

 

PALAVRAS SOLTAS

 

AUTÊNTICO E GENUÍNO

 


Se não for verdadeiro para comigo mesmo,
malograr-se-á o sentimento da minha vida
e fracassarei naquilo que para mim
significa ser humano.

 

Charles Taylor,

in «A Ética da Autenticidade»

 


Tinha, há pouco mais de hora e meia, pegado, pela segunda vez, na leitura da «A Ética da Autenticidade», de Charles Taylor.

E acabava de repisar sobre este parágrafo:


O que precisamos de explicar é o que é peculiar ao nosso tempo. Não se trata apenas de que as pessoas sacrifiquem pela carreira as suas relações sentimentais e a atenção aos filhos. Talvez sempre se tenha passado algo semelhante. A questão é que hoje em dia muitas pessoas se sentem chamadas a fazê-lo, sentem que devem fazê-lo, sentem que as suas vidas seriam de algum modo desperdiçadas ou não realizadas se não o fizessem”.

 

E a notícia, numa pequena pausa, enquanto nos púnhamos em contacto com as redes sociais, nomeadamente o Facebook, caiu-nos abrupta, inesperada e brutal – João Geraldes, aos 66 anos, acabava de nos privar com a sua presença e convivência pessoal!

 

Sinceramente não sabíamos do seu estado de saúde!

 

Já há duas boas dezenas de anos que não convivíamos profissional e pessoalmente. Apenas esporadicamente nos cruzámos e nos encontrávamos um com o outro.

 

E víamos sempre nele aquela postura apaziguadora, calma, gentil e afável.

 

Tal como sempre aconteceu quando, desempenhando funções autárquicas na Câmara Municipal de Chaves, nos encontrávamos para tratar de assuntos de carácter técnico, relacionados com os projetos e ações que a Câmara pretendia levar a cabo, e, na qual, o Eng. João Geraldes, desempenhava as funções de Chefe de Divisão.

 

Foi sempre, positivamente, um verdadeiro chefe e um profissional competente. Sério.

 

Nunca foi qualquer obstáculo ao nosso relacionamento pessoal e profissional, quer eventuais posicionamentos ideológicos, quer político-partidários. Nossa relação nunca se pautou por esses parâmetros, quer um, como eleito; quer outro, como funcionário. Apenas o desenvolvimento das terras e das populações a quem servíamos era o que nos norteava.

 

Ao contrário das palavras acima citadas de Charles Taylor, a sua vida e realização profissional – a sua carreira – não contendeu com as suas relações sentimentais e atenção às filhas e netos.

 

Apesar do apelo ou chamada dos tempos que correm em por a carreira profissional à sua frente, o Eng. Geraldes soube estabelecer um correto equilíbrio entre carreira e vida familiar.

 

Ficava particularmente sensibilizado com as manifestações de carinho que, nas redes sociais, manifestava para com seus netos.

 

E o amor que, passados 47 anos de relacionamento, manifestava a sua esposa. Por isso, não resistimos a citar as suas últimas públicas palavras, que deixava a sua mulher, em forma de poema:


Meu amor, o importante é o sorriso
Para seguir viagem
Com a coragem, que é preciso...

Não adianta, deitar contas a vida
A ternura dos sessenta
Não tem conta, nem medida!

 

Cremos que o Eng. Geraldes, como homem e ser humano, nos seus ainda curtos 66 anos de existência, não fracassou.

 

A atestá-lo aqui fica o seu rasgado sorriso, quando é beijado por um dos seus netos.

84273027_2737747579596122_8544142801741283328_n

João Geraldes foi, manifestamente, um ser humano autêntico e verdadeiramente genuíno.

 

Obrigado, João Geraldes, por este legado ou lição de vida que nos deixaste do teu viver.

 

Até sempre!

 

António de Souza e Silva

 

 

11
Fev20

Versejando com imagem - Vindima, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VINDIMA

 

20200211_141746

 

Mosto, descantes e um rumor de passos

Na terra recalcada dos vinhedos.

Um fermentar de forças e cansaços

Em altas confidências e segredos.

 

Laivos de sangue nos poentes baços.

Doçura quente em corações azedos.

E, sobretudo, pés, olhos e braços

Alegres como peças de brinquedos.

 

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe

A medida precisa que lhe cabe

No tempo, na alegria e na tristeza.

 

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.

Ergue-se em cheio a taça

À própria confusão da natureza.

 

 

Miguel Torga, In “O outro livro de Job”

20200211_141908

Na «Casa do Vinho», Valpaços-Norte de Portugal

09
Fev20

Versejando com imagem - O Pinhão, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O PINHÃO

 

2019.- ADV - I (58)

 

Lá em baixo, na curva do rio,

vazadouro e fornalha, está o Pinhão.

 

Belo!, belo- dirá o turista.

E o burocrata: progressivo.

 

Mas o Pinhão não é nada disso,

é mais do que isso, não é nada

 

do que mostram os documentários de cinema

ou qualquer “Life” comercial.

 

Pinhão!, capital do suor, os teus caminhos

são pedaços de sangue coagulado.

 

António Cabral, In Poemas Durienses

05
Fev20

Ao Acaso... Onde pára a memória do «nosso» Miguel Torga em Chaves?

 

AO ACASO…

 

ONDE PARA A MEMÓRIA DO «NOSSO» MIGEUL TORGA EM CHAVES?

 

Grafiti - Destino, Miguel Torga

 

Já vai para mais de dois anos que, periodicamente, com os nossos amigos da fotografia – Fernando, Berto e João – temos vindo a percorrer todos os cantinhos (andanhos) do nosso Barroso.

 

Não há, por aquelas bandas, nenhuma terra, por onde Miguel Torga tenha passado, que o nosso poeta maior tenha, sobre ela, escrito as suas memórias e comentários nos seus Diários.

 

Como forma de reconhecimento, não só pelos comentários como pelo apreço que o homem Adolfo Rocha tinha pelas suas terras, os seus responsáveis institucionais não quiseram deixar em branco as palavras e comentários que Miguel Torga teceu sobre elas e suas gentes. E esculpiram, nos mais diversos suportes, as suas palavras, textos ou mensagens. Nomeadamente, no caso de Boticas, a sua estátua está bem destacada no centro da vila.

 

A maioria dos flavienses sabem que Miguel Torga, andarilho como era, não deixou um palmo do nosso Trás-os-Montes por percorrer e, não raras vezes, calcorrear a pé. Chaves, o seu concelho e as terras da «nossa» fronteira não foram exceção.

 

Particularmente, nos últimos dias da sua vida, religiosamente aportava a Chaves para, nas suas Caldas, vir tratar das maleitas de que padecia.

 

Lembramo-nos ainda duma célebre tarde de setembro, nos idos de 90 do século passado, quando autarca, juntamente com o Presidente da Câmara, fomos ter com ele ao recinto das Caldas para estar um pouco com ele e desejar-lhe as boas vindas.

 

E recordamo-nos bem dos conselhos que nos deu quanto ao serviço da causa pública e à postura ética que deveríamos ter como responsáveis políticos pelos desígnios da nossa terra: servir e nunca ser servido.

 

Miguel Torga, para além de um grande poeta/escritor, era um homem bom. Um Grande Homem. Fiel às suas raízes. Amante do seu país. Comungando a fundo a cultura Ibérica da qual ele, aliás, foi buscar, para constituir o seu nome literário, o nome de dois grandes vultos da nossa Ibéria Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno.

 

Já se passaram, há bem pouco, 25 anos da sua morte. Como o tempo passa!

 

E nós, flavienses, e responsáveis autarcas, fomos, até ao momento, incapazes de, com dignidade, na nossa terra, perpetuar a memória deste Grande Homem Transmontano, amigo de Chaves e das suas gentes!

 

Habitualmente fazemos o percurso pedestre ao longo das margens urbanas do Tâmega na nossa cidade.

 

Ao Acaso…, um dia destes, numa das estruturas da represa a seguir às «poldras», num grafite, nele aposto,  fomos encontrar este pequeno texto:

20200118_152144

Trata-se, naturalmente, de um escrito de, provavelmente, um flaviense anónimo que não se esqueceu das palavras e mensagem de Torga…

 

É certo que o que Miguel Torga escreveu não foi exatamente o que ali está escrito. Segundo a sua Antologia Poética, in Fernão de Magalhães, Lisboa: D. Quixote, 1999  – mais um grande transmontano desaparecido prematuramente – o texto exato é o seguinte:

Destino, Miguel Torga

Quando teremos coragem, nós, flavienses, de fazer perpetuar a memória deste Grande Transmontano na(s) nossa(s) terra(s) e/ou cidade?

25
Jan20

Versejando com imagem - Balada da morgue, de Miguel Torga

 

 

VERSAEJANDO COM IMAGEM

 

BALADA DA MORGUE

2012 - Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro 072

 

Olho este corpo morto aqui deitado

E sinto impulsos de beijá-lo e ter

Como ele não sei que enfado

Por quem vive e quer viver.

 

Que bruta sinceridade!

Que vaidade!

Que mentira! Que verdade!

Todo nu! Só tatuado

De livores,

Arco-íris gangrenado,

De mil cores.

 

Não é de mulher, não é;

Nem de homem, nem de animal

Irracional.

É de anjo predestinado

Que foi sacrificado

Para dar a noção exata da renúncia.

 

Ai dos enclausurados em sarcófagos!

Ai de quem morre vestido!

Nesta luxúria da morgue

Há todo o satanismo

Que nos foi prometido

No final...

São os gestos parados,

Os olhos vidrados,

Os ouvidos tapados,

Os sexos castrados,

E por cima de tudo o silêncio das bocas.

 

Quero Amar este sol da terra

Que mostra o calor do céu.

O alto céu onde mora

Um Deus que na mesma hora

Nos criou e nos perdeu.

 

Miguel Torga, Rampa, 1930

sarcófago

Fonte:- https://pixabay.com/pt/photos/sarc%C3%B3fago-egito-antiguidade-m%C3%BAmia-4078156/

24
Jan20

Versejando com imagem - Guardai-me!, mas de si! da vida não!, José Régio, in As Encruzilhadas de Deus

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

GUARDAI-ME!, MAS DE SI! DA VIDA NÃO!

Prometheus Bound, Peter Paul Rubens

Prometheus Bound, de Peter Paul Rubens

 

O seu olhar, então, fuzila como um facho.
Suas asas sem fim vibram no ar como um açoite...
E até no leito em que me deito o acho,
E nós lutamos toda a noite.




Até que, vencido, imbele
Ante o esplendor da sua face,
De repente me prostro, e beijo o chão diante de Ele,
Reconhecendo o seu disfarce.

E rezo-lhe: - “Meu Deus! perdão...: Senhor Papão!
“Eu não sou digno desta guerra!
“Poupe-me à sua Revelação!
“Deixe-me ser cá da terra!”

Quando uma súbita viragem
Me faz ver (truque velho!...)
Que estou em frente do espelho,
Diante da minha imagem.

 

José Régio
As Encruzilhadas de Deus

23
Jan20

Palavras Soltas - Lucidez na velhice ou tristeza?

 

PALAVRAS SOLTAS

 

LUCIDEZ NA VELHICE OU TRISTEZA?

 

01.- 'Woman_in_Three_Stages'_by_Edvard_Munch,_Bergen_Kunstmuseum

(Woman: Three Stages, Edvard Munch, 1894)

 

A velhice não é apenas um fenômeno biológico e psicológico.

Depende do modo como cada cultura

e sociedade concebem o que é ser jovem e velho,

bem como a intensidade do valor atribuído a cada uma dessas etapas da vida.

Particularmente hoje, com a aceleração do tempo

e a apologia da boa forma e da performance,

a velhice é repetidas vezes negada.

(…) ser velho é um destino,

e que, na passagem do tempo,

é a condição humana que prevalece.

 

Maria Ester de Freitas

 

 

É assim o resumo, acima citado, do texto que Maria Ester de Freitas faz no seu artigo «Velhice com destino», na Revista GV Executivo, 58 • VOL.5 • Nº5 • NOV./DEZ. 2006, na rubrica «Especial Longevidade».

 

E não resistimos em citar a primeira parte do seu artigo:

“Apesar de as sociedades contemporâneas, particularmente as ocidentais, valorizarem exageradamente a juventude e a beleza corporal, como atesta o crescimento vertiginoso da indústria de bens e serviços estéticos, cosméticos e de cirurgias plásticas, a busca do rejuvenescimento e da beleza duradoura perde-se nas brumas do tempo. Mitos dão conta de alguns exemplos, como o caso da discórdia, no Olimpo, entre Afrodite, Hera e Atena, para a escolha da mais bela. Ou mesmo a tragédia que se abate sobre Narciso, o jovem eternamente  belo. Personagens históricos belos e sedutores podem ser representados por Cleópatra e seus cuidados com a pele ou por Casanova e seu zelo com o corpo e a mente. A literatura adulta também dá o seu testemunho da obsessão pela beleza e juventude com Dorian Gray; com o acordo de alma feito por Fausto e Mefistófeles; com o encanto físico e linguístico de Don Juan, etc. Em todos esses casos, existe um embate entre o Bem e o Mal, cujo final quase sempre é o de uma alma perdida vagando ou da morte pura e simples. O Bem é quase sempre jovem e lindo, enquanto a feiura tem a cara velha

02.- veijo 2

e malvada do Mal. Juventude e velhice. O significado de belo é difícil de ser consensual, porém o que é a juventude é quase um ponto pacífico, ainda que os limites que separam os jovens dos velhos sejam culturalmente determinados e historicamente mutáveis. A juventude é o momento da vida em que existe o futuro, no qual as capacidades físicas e intelectuais estão em ascensão e o organismo se fortifica e torna-se mais resistente. Já na velhice, o futuro não existe e o presente é ambíguo, ao passo que o passado retorna na forma de lembranças, delírios, devaneios, hábitos empedernidos e teimosias irascíveis. Ser velho e doente são quase sinônimos. Numa comparação como essa, não poderiam deixar de ser compreensíveis os motivos que levam indivíduos e sociedades a considerar a velhice um estorvo, um mal a ser evitado, um tabu e uma fase da vida a ser negada. O orgulho próprio da juventude, e de uma vida adulta saudável, leva-nos a esquecer (ou a negar) que cada um de nós traz o velho dentro de si. Eufemismos como “a melhor idade” traduzem muito mais uma ironia e um cinismo que um consolo ou uma verdade, pois ninguém em sã consciência diria que no momento em que o corpo se degrada de todas as formas se tem o melhor da vida. Por outro lado, a lucidez aparece como o maior elogio que se pode fazer a alguém. A expressão “mas ele continua lúcido” é uma forma de mascarar as outras deficiências e valorizar o que ainda resta do sujeito, como se ele apresentasse um atributo positivo pelo qual é responsável e que é digno de registo.

Envelhecer é um tema que incomoda os jovens, adultos e velhos. Incomoda os velhos porque eles podem ficar ainda mais velhos; mas provoca em todos nós a necessidade de pensar no próprio destino, na transformação a ser operada pelo tempo, pensar que existe uma lei da vida que faz do declínio algo inexorável.

A velhice chega, inevitavelmente, com o tempo: ela se enreda na passagem dos nossos melhores dias e de forma tão silenciosa que não percebemos o ponto de inflexão que nos transforma em velhos. É claro que observamos mudanças na aparência, no vigor físico, nas falhas da memória e em outros sinais, mas não sabemos exatamente em que momento ficamos velhos, em que momento o nosso organismo começou a exibir os traços do declínio. A velhice é um fenômeno biológico dinâmico que provoca alterações profundas no nosso corpo, além daquelas que aparecem no espelho”.

 

A autora acima fala-nos que, na velhice, «a lucidez aparece como o maior elogio que se pode fazer a alguém».

 

É esta também a opinião do nosso Teixeira de Pascoaes no texto que aqui deixamos, da sua obra «Saudade e Saudosismo»:

“A mocidade é noivado, como a velhice é viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, é noivo ainda; e um velho, embora casado, é já viúvo... um solitário guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu espírito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza é o que resta dum incêndio, essa purificação suprema. Por isso, a consciência é um atributo da velhice, e também a ciência. A consciência é a ciência connosco, a ciência identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice é uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera límpida ou varrida pelo zéfiro da morte, a única Deusa verdadeira”.

03.- Guido_Reni_-_St_Matthew_and_the_Angel_-_WGA19308

(Guido Reni – São Mateus e o Anjo)

Ligeiramente diferente era a opinião «caustica» do «agreste» Miguel Torga quando, em 1 de maio de 1974, falando da velhice, sentenciava: «A Velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez».

 

Neste ponto, Chico Buarque, em certo sentido, segue o nosso poeta transmontano quando afirma que «nem toda a loucura é genial, nem toda a lucidez é velhice».

 

Outros autores «pintam-nos» a velhice com cores menos sombrios e mais garridas.

 

E o caso Cláudia Márcia Teixeira Santos et al., quando nos fala dos pintores, no artigo «A temática da velhice em pinturas expressionistas»:

“O ápice do expressionismo, ocorrido no início do século XX, trouxe às telas de seus precursores cores vivas e expressivas, deixando obras extraordinárias de seus representantes. Dentre estes, vários pintores retrataram com grande beleza a faceta da evolução humana na fase do envelhecimento, contribuindo para o entendimento dessa fase da vida de forma nostálgica e engrandecedora por meio de cores, formas e expressões”.

van-gogh

(Vicent van Gogh, At Eternity's Gate, 1882)

Em jeito de remate, e face a opiniões tão díspares quanto a esta fase da vida humana, estamos com Stendhal quando nos diz que a velhice é essa época da vida em que se julga a vida e em que os prazeres do orgulho se revelam em toda a sua miséria.

 

Quem sabe, talvez o que resta, mesmo no fim de tudo, seja

 

Tristêza

O sol do outomno, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir...

Eis como a minha vida vae passando
Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir
Silencios da minh'alma e o resurgir
De mortos que me fôram sepultando...

E fico mudo, extatico, parado
E quasi sem sentidos, mergulhando
Na minha viva e funda intimidade...

Só a longinqua estrela em mim actua...
Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
Petreficada esphinge de saudade...

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'

04.- assistência-ao-idoso

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Há decénios que Chaves está em dívida com Miguel T...

  • Fer.Ribeiro

    Sem comentários!

  • Anónimo

    Indique-me o seu mail, por favor.

  • Anónimo

    Bom dia, por favor, envie-me seu mail para lhe res...

  • Anónimo

    Bom dia, Poderia fornecer a bibliografia subjacent...

Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D