Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

zassu

16
Set25

Viver ... a diferentes caminhares

CRÓNICA IV 

VIVER… A DIFERENTES CAMINHARES 

 

SENSAÇÃO


Pelas tardes azuis do verão,

Irei pelas sendas,

Guarnecidas pelo trigal,

Pisando a erva miúda.

Sonhador,

Sentirei a frecura

A meus pés;

Deixarei o vento banhar

Minha cabeça nua.

Não falarei mais.

Mas um amor infinito

Me invadirá a alma.

E irei longe, bem longe,

Como um boémio,

Pela natureza,

- Feliz como com uma mulher.

Arthur Rimbaud

 

FB_IMG_1504341445642

(Cortesia de Pablo Serrano)

Na nave central daquela igreja, Nona teve a sensação que se tinha deslocado ali como se fora uma estrela cadente. Um meteoro.

Ali estavam familiares do defunto (já muito poucos) e seus amigos (também já escassos, pois a idade não perdoa), numa missa de corpo presente.  Simplesmente…

Mas nada do que ali se passava tinha a ver consigo.

Nona não sabia muito bem o que ali estava a fazer. Há muito que tinha deixado de acreditar em certas coisas.  Seria um gesto de solidariedade? Homenagem? Mas, para quem, se seu amigo já não podia ver e sentir? Seu amigo tinha partido.

Com certeza que não era só pelo seu amigo que, dele, nada mais havia, a não ser «os restos» do homem que tinha sido. Sua vida, como a de todos nós, foi uma simples passagem por este planeta. Uma simples passagem, sim. Um caminhar. O seu caminhar. Tão somente. Ali, apenas, recordava os momentos de vida vividos com ele. Solitários e solidários.

E pensou que, afinal, estava ali por ele mesmo. No crepúsculo do amigo, sentiu o seu.

E tal, como J.J. Rousseau, ao chegar aos seus sessenta anos, pensava que não passava de um proscrito: perseguido e mal-amado. Da vida. Pela vida. Muitas vezes madastra.

Mas nada disso o deprimia. Ele assim tinha determinado que assim fosse. Assim se tinha conformado. 

Há muito que virara a página das suas ambições sociais, das amizades cintilantes, equívocas, das modas e dos mexericos.

Optou por uma caminhada diferente, mais solitária. Feita de muitas outras caminhadas, percorrendo outros trilhos. Procurando outras sensações. Sozinho. Afastado do bulício.

E que descanso não ter de verificar todos os dias a sua quota de aceitação social; o calcular quais sejam os seus amigos; o avaliar os seus inimigos; o deixar de avaliar os seus pretensos protetores; o deixar de se medir em importância aos olhos dos outros que, na sua maioria, não passa(va)m de imbecis e vaidosos!

Sim, há muito tempo que Nona tinha deixado de estar aí.

Olhava para a frente e para o lado e só tinha a sensação que estava ali sozinho: todas as suas máscaras, e quiçá a dos outros, tinham derretido ao sol dos caminhos percorridos por cada um. Sim, as dele e as dos restantes.

E, tal como o seu J.J. Rousseau, uma vez mais, nas palavras de Fréderric Gros, na sua obra Caminhar, uma filosofia, constatou que tinha agora nascido em si um ser totalmente «transparente, um lago de compaixão».

As suas longas horas de caminhadas secaram todas as invejas e rancores, tal como fazemos com os lutos ou as grandes mágoas. Mas tal não significava que se lançasse nos braços daqueles seus «amigos» ou «inimigos», que o rodea(va)m. A sua nova vida de andarilho contumaz, por muitas e variadas veredas, trouxeram-lhe um novo estado de alma: não sentia nada em particular pelo «outro» ao seu lado e à sua frente, nem agressividade mesquinha, nem fraternidade comunicativa; apenas, e tão só, «uma disponibilidade benevolente ante a infelicidade».

Quando seus ódios se acalmavam e suas obsessões se extinguiram, por lassidão, chegavam as suas caminhadas; quando já nada resta(va) para fazer ou crer e apenas lembrar, surgiam as suas caminhadas. Caminhar fê-lo reencontrar-se na simplicidade da sua presença; para além de qualquer esperança; para além de qualquer expetativa. Andar não buscando um «eu autêntico, uma identidade perdida», pelo contrário, escapar da própria ideia de identidade; fugir da tentação de ser alguém. Melhor ainda, dar a si mesmo a possibilidade de reinventar-se sempre, na peugada de Henry David Thoreau.

As memórias assumem, no decorrer das suas caminhadas, um aspeto fraternal: são as suas velhas irmãs gastas.

Nona, caminhante solitário, decidiu procurar, sob a crosta da cultura, a verdade nativa das paixões humanas. Em solidão!

Nos tempos de hoje, com o pensamento de J.J. Rousseau, de então, a convocá-lo, a nos convocar, para uma profunda reflexão sobre o homem dito civilizado, saturado de cortesias e hipocrisias, de malvadezes e invejas, que o transformam numa verdadeira besta. A um mundo social com todas as suas injustiças e vivências, suas desigualdades e misérias. Bem assim os Estados, com as suas polícias e exércitos, tal qual selvas. A que tudo submetem.

Hoje, mais que nunca, o Homem, o ser social moderno, é um ser repleto de rancores, raiva, inveja e ressentimento.

Só o caminhar dá a Nona a sensação de ser o senhor das suas imagens e dos seus sonhos. Que traz consigo a doçura do desapego. Porque se limita, simplesmente, a existir.

Até que um dia nos vamos. Simplesmente partimos. Como o seu amigo.

 

António de Souza e Silva

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Arquivo

    1. 2025
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Em destaque no SAPO Blogs
pub