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zassu

28
Abr20

Poesia em tempos de desassossego - Pequeno poema, Sebastião da Gama

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

PEQUENO POEMA

 

mother-and-baby1

Quando eu nasci,

ficou tudo como estava,

Nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais...

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.

 

Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.

 

As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...

 

P'ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama

22
Abr20

Poesia em tempos de desassossego - Hora Vermelha, Sebastião da Gama

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

HORA VERMELHA

2013 - Trilho dos Moinhos (Serra da Arrábida) 1047a

Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
eretos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.

Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).

E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.

Sebastião da Gama, in 'Cabo da Boa Esperança'

16
Abr20

Poesia em tempos de desassossego - Pelo sonho é que vamos, Sebastião da Gama

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

PELO SONHO É QUE VAMOS

 

 

Como os (as) nossos(as) leitores(as) sabem, de vez em quando, neste blogue, publico um ou outro poema, acompanhado de uma imagem, de autores que mais nos «tocam».

 

Aqui há dias, uns amigos faziam-nos um desafio para trocarmos textos – em poesia ou em prosa – nestes tempos de desassossego.

 

Naquela altura, andávamos a ler um pequeno livrinho de Michel Onfray. E, uma das passagens, fez-nos refletir se efetivamente, como é vulgar ouvirmos, «uma imagem vale mais que mil palavras». Vejamos o excerto do texto:

 

"Apenas a experiência escrita permite dar conta da totalidade dos nossos sentidos. Os outros suportes sofrem de indigência face aos seus concorrentes: a aguarela, o desenho e a fotografia apreendem o real numa das suas modalidades - a cor, a linha o traço, o desenho,  a imagem -, nunca na íntegra.

O poema, como quinta-essência do texto, mas também a prosa, podem, pelo contrário, convocar e apreender o odor do jasmim num jardim oriental, o reflexo da luz de uma cidade nas águas de um rio, a temperatura morna de uma floresta tropical saturada dos perfumes provenientes da terra, do húmus e das folhas em decomposição, o murmurejar de um riacho dissimulado pela atmosfera quente e húmida daquele lugar. Apenas o verbo circunscreve os cinco sentidos, e muitos outros. O trajeto faz-se das coisas às palavras, da vida ao texto, da viagem ao verbo, de si a si. Na operação que nos conduz do universo infinito à sua fórmula pontual e momentaneamente acabada sintetizam-se os fragmentos de memória transfigurados em recordações cintilantes".

Michel Onfray, in «Teoria da Viagem - Uma poética da Geografia»

 

É uma pura verdade! Passamos tempos infindos à procura de uma imagem que procure resumir – encontrar a «quinta essência» - do que vertemos num poema. E a sensação com que sempre ficamos é que a imagem não abrange, nem de longe nem de perto, o seu conteúdo.

 

Muito embora saibamos desta incompletude, porque amantes da fotografia, continuaremos a fazer acompanhar cada poema que partilhamos com uma imagem, como forma de dar a conhecer aos(ás) nossos(as) leitores(as) a imagem que, para nós, a escrita vertida, mais nos sugeriu.

 

Feito o esclarecimento, aqui fica o poema de hoje.

luggage-3167372_960_720

Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

 

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

 

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.

 

Chegamos? Não chegamos?

– Partimos. Vamos. Somos.

 

Sebastião da Gama, in Pelo Sonho é que Vamos (1953)

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