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zassu

20
Set20

Versejando com imagem - Fronteira, Fernando Pinto do Amaral

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

FRONTEIRA

Eu-fui-a-Veneza-

É doce

a tentação do labirinto

assim que o sono chega e se propaga

ao contorno das coisas. mal as sinto

quando confundo a onda sempre vaga

 

deste falso cansaço que regressa

ao som da minha estranha e dócil fala

cada vez mais submersa como essa

pequena luz da rua que resvala

 

pelo interior da noite. É quase um sonho

A respirar lá fora enquanto o quarto

se dilui na fronteira que transponho

e afoga a consciência de onde parto

 

agora sem direito nem avesso

no incerto momento em que adormeço.

 

 

Fernando Pinto do Amaral

 

10
Set20

Versejando com imagem - Deceção à regra, João Luís Barreto Guimarães

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DECEÇÃO À REGRA

noticiasconcursos.com_.br-homem-sentado-no-banco

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum, mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

 

João Luís Barreto Guimarães

02
Set20

Versejando com imagem - Nunca gostei de portas, José Miguel Silva

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NUNCA GOSTEI DE PORTAS

28.- 2020.- Lubián 01 (115)

Eu nunca gostei de portas, sempre as vi como

um grosseiro despotismo. Não percebia por

que razão davam passagem a uns e outros não.

Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.

Decidido a contestar os seus desígnios, passei

os melhores anos da minha juventude a estudar

o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei

uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução

dos meus arames. As portas franqueadas, e não

o que atrás delas se defende, procurava. Poucas

vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir

desordem na composta segurança duma casa.

Agora que penso nisso, acho que havia algo

de bárbaro nessa minha obsessão por destruir

a ilusória placidez das fortalezas, os escudos

da propriedade, da suficiência. Porta atrás

de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,

a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.

Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se

o caso (e esse é o castigo da minha soberba)

de não saber se estou no céu ou no inferno.

 

 

José Miguel Silva,

in Erros Individuais, ed. Relógio D' Água

31
Ago20

Versejando com imagem - Sabes, leitor, Daniel Faria

 

VERTSEJANDO COM IMAGEM

 

SABES, LEITOR

cfbcd4e6e0e9c4b0264a83774840d32d

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página

e aproveito o facto de teres chegado agora

para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.

a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar

que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito acredita,

que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,

que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre

apesar de nós.

esta raiz para a palavra que ela lançou no poema

pode bem significar que no ramo que ficar desse lado

a flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,

mesmo que a recuses

nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,

a colherei

a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra

e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.

 

Daniel Faria,

in «Dos Líquidos», (2000)

 

 

25
Ago20

Versejando com imagem - Crepúsculo de Agosto, Albano Dias Martins

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CREPÚSCULO DE AGOSTO

 

FB_IMG_1596828484038

Para a minha filha

Dos amigos que perdi

não falo. Sei

que estamos em agosto, mês

dos remos escaldantes, sei

que há lodo sob as algas,

sob a pele. Oblíqua,

sei também, a sombra

cai sobre as oliveiras. É

tempo de içares

tuas velas, teus ergueres

teus guindastes

junto ao rio.

Disponíveis estão

as luzes; preparadas,

ermas estão as águas.

 

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir

os móveis e o tato.

Preciso de opor o tempo ao tempo.

O espaço ao espaço.

 

Albano Dias Martins

23
Ago20

Versejando com imagem - Virgens que passais, António Nobre

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

FB_IMG_1597605139625

Virgens

que passais, ao Sol-poente,

Pelas estradas ermas, a cantar!

Eu quero ouvir uma canção ardente,

Que me transporte ao meu perdido lar.

 

Cantai-me, nessa voz omnipotente,

O sol que tomba, aureolando o Mar

A fartura da seara reluzente,

O vinho, a graça, a formosura, o luar!

 

Cantai! Cantai as límpidas cantigas!

Das ruínas do meu lar desaterrai

Todas aquelas ilusões antigas

 

Que eu vi morrer num sonho, como um ai....

Ó suaves e frescas raparigas,

adormecei-me nessa voz...cantai!

 

António Nobre

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