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zassu

31
Mar20

Versejando com imagem - Cântico de Humanidade, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CÂNTICO DE HUMANIDADE

lavrar-a-terra

Hinos aos deuses, não.

Os homens é que merecem

Que se lhes cante a virtude.

Bichos que lavram no chão,

Atuam como parecem,

Sem um disfarce que os mude.

 

Apenas se os deuses querem

Ser homens, nós os cantemos.

E à soga do mesmo carro,

Com os aguilhões que nos ferem,

Nós também lhes demonstremos

Que são mortais e de barro.

 

Miguel Torga, in Nihil Sibi

21
Mar20

Versejando com imagem - Confiança, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

E porque hoje é o Dia Mundial da Poesia, nesta nossa rubrica deixamos aqui um poema do nosso poeta maior – Miguel Torga – com o desejo, face aos tempos difíceis por que passamos, em nós renasça a confiança de podermos (re)construir o mundo, se possível, muito melhor.

 

2020.- Ecovia do Rabaçal (PR3-VLP) - Nikon (257)

CONFIANÇA

 

O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura…

E que a doçura que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova…

 

Miguel Torga, In "Cântico do Homem", 1950.

18
Mar20

Versejando com imagem - Viagem, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VIAGEM

 

2020.- Vila do Conde (Porto) (273)

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé do marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar…

Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

 

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar,

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

 

Miguel Torga, Câmara Ardente

14
Mar20

Versejando com imagem - Perenidade, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PERENIDADE

 

Camélia rosa

Nada no mundo se repete.

Nenhuma hora é igual à que passou.

Cada fruto que vem cria e promete

Uma doçura que ninguém provou.

 

Mas a vida deseja

Em cada recomeço o mesmo fim.

E a borboleta, mal desperta, adeja

Pelas ruas floridas do jardim.

 

Homem novo que vens, olha a beleza!

Olha a graça que o teu instinto pede.

Tira da natureza

O luxo eterno que ela te concede.

 

Miguel Torga, in «Libertação»

11
Fev20

Versejando com imagem - Vindima, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VINDIMA

 

20200211_141746

 

Mosto, descantes e um rumor de passos

Na terra recalcada dos vinhedos.

Um fermentar de forças e cansaços

Em altas confidências e segredos.

 

Laivos de sangue nos poentes baços.

Doçura quente em corações azedos.

E, sobretudo, pés, olhos e braços

Alegres como peças de brinquedos.

 

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe

A medida precisa que lhe cabe

No tempo, na alegria e na tristeza.

 

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.

Ergue-se em cheio a taça

À própria confusão da natureza.

 

 

Miguel Torga, In “O outro livro de Job”

20200211_141908

Na «Casa do Vinho», Valpaços-Norte de Portugal

21
Jan20

Versejando com imagem - A Baco, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A BACO

 

2013 - Vista sobre o Pinhão (12)

Vou-te cantando, Baco!

Não pela colheita de hoje, que é pequena,

Mas pela de amanhã, muito maior!

Vou-te pondo nos cornos estas flores,

Que não querem ser líricas nem puras,

Mas humanas, sinceras e maduras.

 

Vou-te cantando, e vou cantando o sol,

A terra, a água, o lume e o suor.

Vou erguendo o meu hino

Como levanta a enxada  o cavador!

 

Lá nesse Olimpo em geios,

Único Olimpo etéreo em que acredito,

Aí me prosterno, rendo e te repito

Que és eterno,

Mais do que Deus e mais do que o seu mito!

 

Beijo-te  os pés — os cascos de reixelo;

Olho-te os olhos de pupila em fenda;

E sabendo que és  fauno, ou sátiro ou demónio,

Sei que não és mentira nem és lenda!

 

Dionisos do Douro!

Pêlos no púbis como um homem,

Calos nas mãos ossudas!

E bêbado de mosto e de alegria,

À luz  da negra noite e do claro dia!

 

Cachos de alvaralhão de cada lado

Da marca universal da natureza!

Ela, roxa e retesa

Como expressão  da vida!

À beleza Sempre no seu lugar, erguida!

 

E folhas de formosa pelos ombros,

Pelos rins, pelos braços,

Por onde a seiva rasga o seu caminho.

E a cabeça coberta

De cheiro a sémen e a rosmaninho!

 

Modula a sensual respiração

Do arcaboiço fundo do teu peito

Uma flauta de cana alegre e musical.

E és humano,

Quanto mais és viril e animal!

 

Eis os meus versos, pois, filho de Agosto

E dos xistos abertos!

Versos que não medi, que não contei,

Mas que estão certos, 

Pela sagrada fé com que tos dei!

 

 

Miguel Torga,

Odes (Coimbra, 1946) 

14
Jan20

Versejando com imagem - O vinho, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O VINHO

_NOC7665

 

Sumo das pedras, colorida fonte

Onde Narciso se não pode olhar, 

É nela que se tenta embebedar, 

Nas horas de mais negro sofrimento, 

O pobre e atribulado sentimento 

De solidão, 

Que vive incompreendido 

E ressentido 

Em cada coração. 

 

Miguel Torga, Poemas ibéricos (Coimbra, 1965) 

Poesia Completa (Dom Quixote, 2000), p. 696.

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