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zassu

06
Jul20

Poesia em tempos de desassossego - O Vos Omnes, Miguel Torga

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

O VOS OMNES

 

M.84.20

(Mattia Preti - Veronica com o véu)

 

Ainda que eu cantasse como os outros,

Uma nota saía discordante.

E não é do arranjo da garganta:

Mas por motivos tais e tão ocultos

Que mesmo minha Mãe os desconhece.

Por isso, não digam mal...

Foi, realmente, incómodo que eu viesse.

Mas agora é deixar-me e respeitar-me

Como se faz às pedras das montanhas.

Que o penitente conserve

O seu rosto verdadeiro

No doloroso caminho

Do  Calvário

Para que possa a Verónica

Com a toalha de linho

Tirar-lhe o santo sudário...

 

Miguel Torga

O outro livro de Job, 1936

13
Mai20

Poesia em tempos de desassossego - Conquista, Miguel Torga

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO 

 

CONQUISTA

Grilhão

Livre não sou, que nem a própria vida

Mo consente.

Mas a minha aguerrida

Teimosia

É quebrar dia a dia

Um grilhão da corrente.

 

Livre não sou, mas quero a liberdade.

Trago-a dentro de mim como um destino.

E vão lá desdizer o sonho do menino

Que se afogou e flutua

Entre nenúfares de serenidade

Depois de ter a lua!

 

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

03
Mai20

Dia da Mãe - Mãe, Miguel Torga

 

DIA DA MÃE

MÃE

 

Hoje é o Dia da Mãe.

 

Para aqueles que já não a têm entre eles, aqui fica este poema - tão a propósito - do nosso poeta maior - Miguel Torga.

Mãe

 

 

Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,

Que ficaste insensível e gelada?

Que todo o teu perfil se endureceu

Numa linha severa e desenhada?

 

Como as estátuas, que são gente nossa

Cansada de palavras e ternura,

Assim tu me pareces no teu leito.

Presença cinzelada em pedra dura,

Que não tem coração dentro do peito.

 

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.

Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.

Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes

Por detrás do terror deste vazio.

 

Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!

Diz que me vês ainda, que me queres.

Que és a eterna mulher entre as mulheres.

Que nem a morte te afastou de mim!

 

Miguel Torga, in 'Diário IV'

19
Abr20

Poesia em tempos de desassossego - Ar Livre, Miguel Torga

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSEGO

 

AR LIVRE

hiking-top-of-mountain.pdf

Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!

Miguel Torga, Cântico do Homem, 1950

PS - Este foi-me enviado pelo amigo Amério N. Peres

12
Abr20

Versejando com imagem - Refúgio, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

REFÚGIO

2013 - Trilho dos Moinhos (Serra da Arrábida) 1009

«Sozinho a ouvir o mar, que não diz nada.

Férias do mundo e de quem lá anda.

Concha de ouriço, mas desabitada,

Aberta no lençol da areia branda.

Não se lembrem de mim esta semana!

Matem o Cristo, e ele que ressuscite!

Eu, nesta angústia humana ou desumana,

Quero apenas que o sono me visite.»

Arrábida, Páscoa de 1952, Miguel Torga

31
Mar20

Versejando com imagem - Cântico de Humanidade, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CÂNTICO DE HUMANIDADE

lavrar-a-terra

Hinos aos deuses, não.

Os homens é que merecem

Que se lhes cante a virtude.

Bichos que lavram no chão,

Atuam como parecem,

Sem um disfarce que os mude.

 

Apenas se os deuses querem

Ser homens, nós os cantemos.

E à soga do mesmo carro,

Com os aguilhões que nos ferem,

Nós também lhes demonstremos

Que são mortais e de barro.

 

Miguel Torga, in Nihil Sibi

21
Mar20

Versejando com imagem - Confiança, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

E porque hoje é o Dia Mundial da Poesia, nesta nossa rubrica deixamos aqui um poema do nosso poeta maior – Miguel Torga – com o desejo, face aos tempos difíceis por que passamos, em nós renasça a confiança de podermos (re)construir o mundo, se possível, muito melhor.

 

2020.- Ecovia do Rabaçal (PR3-VLP) - Nikon (257)

CONFIANÇA

 

O que é bonito neste mundo, e anima,

É ver que na vindima

De cada sonho

Fica a cepa a sonhar outra aventura…

E que a doçura que se não prova

Se transfigura

Numa doçura

Muito mais pura

E muito mais nova…

 

Miguel Torga, In "Cântico do Homem", 1950.

18
Mar20

Versejando com imagem - Viagem, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VIAGEM

 

2020.- Vila do Conde (Porto) (273)

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé do marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar…

Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

 

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura…

Mas corto as ondas sem desanimar,

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

 

Miguel Torga, Câmara Ardente

14
Mar20

Versejando com imagem - Perenidade, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PERENIDADE

 

Camélia rosa

Nada no mundo se repete.

Nenhuma hora é igual à que passou.

Cada fruto que vem cria e promete

Uma doçura que ninguém provou.

 

Mas a vida deseja

Em cada recomeço o mesmo fim.

E a borboleta, mal desperta, adeja

Pelas ruas floridas do jardim.

 

Homem novo que vens, olha a beleza!

Olha a graça que o teu instinto pede.

Tira da natureza

O luxo eterno que ela te concede.

 

Miguel Torga, in «Libertação»

11
Fev20

Versejando com imagem - Vindima, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VINDIMA

 

20200211_141746

 

Mosto, descantes e um rumor de passos

Na terra recalcada dos vinhedos.

Um fermentar de forças e cansaços

Em altas confidências e segredos.

 

Laivos de sangue nos poentes baços.

Doçura quente em corações azedos.

E, sobretudo, pés, olhos e braços

Alegres como peças de brinquedos.

 

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe

A medida precisa que lhe cabe

No tempo, na alegria e na tristeza.

 

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.

Ergue-se em cheio a taça

À própria confusão da natureza.

 

 

Miguel Torga, In “O outro livro de Job”

20200211_141908

Na «Casa do Vinho», Valpaços-Norte de Portugal

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