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zassu

19
Mar21

Versejando com imagem - Teus velhos sapatos manchados de terra, de Vinicius de Moraes

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TEUS VELHOS SAPATOS MANCHADOS DE TERRA

Paizinho 02

Meu pai,

dá-me os teus velhos sapatos

manchados de terra

dá-me o teu antigo paletó

sujo de ventos e de chuvas

dá-me o imemorial chapéu

com que cobrias a tua paciência

e os misteriosos papéis

em que teus versos inscreveste.

meu pai,

dá-me a tua pequena

chave das grandes portas

dá-me a tua lamparina de rolha,

estranha bailarina das insônias

meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.

 

Vinicius de Moraes

unnamed

15
Mar21

Versejando com imagem - A mulher que passa, de Vinicius de Moraes

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A MULHER QUE PASSA

FB_IMG_1506328278071

Meu Deus, eu quero a mulher que passa. 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
Tem sete cores nos seus cabelos 
Sete esperanças na boca fresca! 

Oh! Como és linda, mulher que passas 
que me sacias e suplicias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Teus sentimentos são poesia 
Teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pelos leves são relva boa 
Fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
Longe das vozes da ventania. 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 

Como te adoro, mulher que passas 
Que vens e passas, que me sacias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Porque me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
Que te perdia se me encontravas 
E me encontrava se te perdias? 

Por que não voltas, mulher que passa? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
Sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida 
Para o que sofro não ser desgraça? 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
A minha amada mulher que passa! 

No santo nome do teu martírio 
Do teu martírio que nunca cessa 
Meu Deus, eu quero, quero depressa 
A minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacifica 
Que é tanto pura como devassa 
Que bóia leve como a cortiça 
E tem raízes como a fumaça.

 

Está naquela idade inquieta e duvidosa, 
Que não é dia claro e é já o alvorecer; 
Entreaberto botão, entrefechada rosa, 
Um pouco de menina e um pouco de mulher. 

Às vezes recatada, outras estouvadinha, 
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor; 
Tem coisas de criança e modos de mocinha, 
Estuda o catecismo e lê versos de amor. 

Outras vezes valsando, e seio lhe palpita, 
De cansaço talvez, talvez de comoção. 
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita, 
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração. 

Outras vezes beijando a boneca enfeitada, 
Olha furtivamente o primo que sorri; 
E se corre parece, à brisa enamorada, 
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri. 

Quando a sala atravessa, é raro que não lance 
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar 
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance 
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar. 

É que esta criatura, adorável, divina, 
Nem se pode explicar, nem se pode entender: 
Procura-se a mulher e encontra-se a menina, 
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!

 

Vinicius de Moraes

 

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    Olá, por acaso tem a análise deste poema?

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  • Aqui há coração

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    Depois de ler o texto e do qual gostei imenso (poi...

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