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zassu

28
Ago25

Ser normal

 

CRÓNICA

SER NORMAL

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(Imagem retirada de «https://br.pinterest.com/pin/447756387952095531/»)

Conheceram-se aquando a criação da Associação Lumbudus, de Fotografia e Gravura. Pablo, galego adotado, vindo da Estremadura espanhola; Anton, de alma duriense, mas de coração flaviense.

Une-os a extrema bonomia de Pablo e o entusiasmo de Anton para lhe ouvir as suas histórias de vida; o gosto pela fotografia e o caminhar pela natureza galaico-portuguesa. Não há cantinho de Trás-os-Montes e da Galiza que não tenham calcorreado. Deles fazendo história e contando as suas histórias. Algumas delas no antigo blog do andarilho Anton – Andarilho de Andanho(s).

Num dos seus encontros, nas caminhadas que fazem, por estes recantos de Trás-os-Montes e da Galiza, um dia, presenciei-lhes a seguinte conversa:

- Pensar demasiado nas «coisas», nos «problemas» nem sempre é a abordagem ou a atitude mais certa, meu caro Anton. Criam obsessão. É necessário o espaço de tempo para que tudo flua. À força de tanto pensarmos, acabamos por ficarmos perturbados por essas mesmas coisas e problemas. E para quê, quando a vida é tão curta e não está nas nossas mãos a mudança para um comportamento ou estilo de vida que achamos ser o mais normal para os nossos, para quem amamos?

Carpe diem, já dizia o latino Horácio. É a melhor atitude a ter e assumir perante a vida, tão curta que é!

Deixemo-nos de questionar se esta ou aquela pessoa é, ou não é, normal. Tal como Sarah Chaney defende na sua obra - As pessoas normais não existem!

As pessoas que nunca puseram em causa a sua sanidade mental estão iludidas. Positivamente, não há pessoas normais!

O que hoje é normal deixará de o ser amanhã, e vice-versa, apontou já Émile Durkheim.

E, a propósito de algo que aflige muita gente de certas famílias quanto às pessoas borderline, leiamos Alexander Kriss na sua obra – Borderline (Biografia de uma perturbação de personalidade), que, a páginas tantas, diz:

A perturbação borderline toca-nos a todos. É normal, mas isso não a torna uma identidade. É um sítio de passagem, não de paragem; um ponto intermédio no trajeto para o autoconhecimento; um reconhecimento da experiência universal do sofrimento e da maneira como as relações nos moldam.»»»

O poder para definir normal é um dos maiores poderes concedidos a qualquer figura de autoridade. Os pais criam expectativas do que os filhos deviam esperar do mundo; os líderes políticos determinam quais os problemas sociais que são toleráveis e quais os que necessitam de ser enfrentados; os médicos e os terapeutas decidem quem é chamado de doente e quem é chamado de saudável. A PPB (Perturbação da Personalidade Borderline) – tanto a sua história como as inúmeras pessoas que sofrem dela hoje em dia – é a prova viva de como este poder corrompe. A alteração desta realidade não pode apenas ocorrer no consultório do terapeuta: exige uma reconsideração mais ampla de como tentamos afastar as realidades do sofrimento humano e do abuso – como clivamos, estigmatizamos, medicalizamos, fazemos o que podemos para negar a psicose que nos une, para preservar um rígido sentido de normal".

- Tens razão, Pablo. Na verdade, não existe nenhum normal. Ou, se existir, está sempre a mudar e engloba não só felicidade e força, mas também dor e desintegração. A PPB, devido ao seu estatuto de milhares de anos como uma exceção, pode ensinar-nos a sermos um tipo saudável de normal, se estivermos dispostos a escutar. É a história de como nos movemos do caos para a estabilidade; de uma mundivisão a preto-e-branco para uma mais complexa; de uma vida definida pelo desespero para uma definida por um sentido de quem somos.

No fim de contas, na peugada de Sarah Chaney, cada um de nós deve-se perguntar:

- Serei normal?

- Bem, sim e não. Mas será essa, em última análise, a pergunta certa a fazer?

 

* António de Souza e Silva

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