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07
Mar21

Palavras Soltas... - Comentário à obra|comunicação «La ciudad dispersa y las aldeas virtuales. Los estudios geogtáficos y el entorno a la cultura» - Segunda Parte

PALAVRAS SOLTAS...

 

COMENTÁRIO

À OBRA|COMUNICAÇÃO DE CARLOS FERRÁS SEXTO

 

«LA CIUDAD DISPERSA Y LAS ALDEAS VIRTUALES. LOS ESTUDIOS GEOGRÁFICOS Y EL RETORNO A LA CULTURA»

 

SEGUNDA PARTE

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OPINIÃO CRITICA PESSOAL QUANTO À COMUNICAÇÃO DO AUTOR

 

Em nossa modéstia opinião, estamos perante um dos mais interessantes trabalhos publicados e /ou divulgados, de entre alguns, já por nós lidos, da já significativa obra do autor.

 

Cremos estarmos já longe de um certo «fundamentalismo» proselitista quanto ao conceito de contra-urbanização, colocando-nos, aliás como faz FIELDING no artigo que citámos, perante uma realidade para a qual os «antigos instrumentos» de análise espacial já não se dão tão bem perante as novas realidades do(s) novo(s) processo(s) de urbanização.

 

Cremos ainda que o autor nos põe perante a relatividade dos diferentes «tempos» e «processos» de urbanização tendo em conta a diversidade e multiplicidade de elementos a ter em conta na análise face aos diferentes espaços/territórios em presença.

 

Se é certo que os processos de urbanização pós-industrial, na perspetiva do autor, apontam quer na sociedade norte-americana quer nos países da Europa Ocidental mais desenvolvidos, particularmente os de matriz anglo-saxã, para o aparecimento de fenómenos como os da contra-urbanização, já, por outro lado, nos países do sul, mediterrâneos, bem assim noutros quadrantes do globo, tal fenómeno não se processa de igual forma.

 

Aliás o Autor, revelando já reflexão, mediante trabalho de campo e estudo comparado, na sua própria comunicação, acaba por, relativizando o fenómeno, afirmar, quando, citando MONCLÚS, diz: “Devemos ter presente que foram definidos dois modelos de expansão difusa da cidade. Por um lado, o próprio do mediterrâneo tradicional pelo qual a cidade e a expressão física de um núcleo amuralhado que, a partir do Século XIX, se expande sobre o campo mais próximo, mas que continua sendo rural; por outro lado, o modelo anglo-saxão pelo qual a cidade e a sociedade urbana se expandem sobre o campo, substituindo a sua condição rural pela urbana”.

 

Noutro registo ainda, e no novo quadro do processo de urbanização postindustrial ou urbanização sobremoderna, como mais prefiro chamar, há que distinguir entre cidade difusa ou desconcentrada, processo(s) de metropolização ou, no dizer de ASCHER, metapolização, e fenómenos de suburbanização e/ou contra-urbanização associados.

 

Salvo melhor entendimento, e face a leitura de alguma literatura sobre o assunto, a sociedade postindustrial ou sobremoderna, fundamentalmente a dos países «relativamente periféricos» dos países do «centro», Europa Ocidental, como Portugal e Espanha – e, no que concerne a Portugal, a Região Norte de Portugal – para além do fenómeno de litoralização (alta concentração populacional na faixa litoral), aliás como na Galiza, embora aqui nos pareça um pouco menos acentuada, atravessa, face inclusive ao fenómeno da globalização, um processo de metropolização difusa, com desconcentração da área central e aparecimento de novas centralidades e criação de outros espaços urbanos, outrora suburbanos. [Veja-se INE, Destaque de 26 de Junho de 2001, Informação à Comunicação Social, Censos 2001 – Resultados Preliminares para a Região Norte. Da análise dos dados que nos são aqui disponibilizados, comparados com os dos Censos de 1991, para além do reforço da Área Metropolitana do Porto, (embora com desconcentração da área central da cidade do Porto mas com aumentos muito significativos nas outrora coroas circundantes, como sejam, Maia, Vila Nova de Gaia, Gondomar, etc.) no conjunto da Região Norte, e do reforço da conurbação litoral em detrimento das zonas mais periféricas a esta área, profundamente rurais, e em perda acentuada há duas décadas a esta parte, como sejam, e em termos de NUTS III, o Douro e Alto Trás-os-Montes, somente os aglomerados urbanos das áreas urbanas sedes dos Municípios, e aglomerados rurais periféricos a estas, como sejam Vila Real, Chaves, Bragança e Mirandela, é que mantêm alguma vitalidade].

 

Sem deixarmos de estar de acordo com aquilo que o autor designa na sua comunicação «como as primeiras conclusões» de um trabalho de investigação e reflexão comparada, pensamos que a realidade apresentada, resultante de um trabalho de campo por si efectuado em Inglaterra, não é, contudo, passível, de excessiva generalização para outros contextos. Quiçá para parte do território galego e «a fortiori» para grande parte da Região Norte de Portugal.

 

Entendemos, por outro lado, que, trabalhos de campo desta natureza, são deveras importantes e fundamentais para, e como muito bem diz o nosso autor, não só aprofundar o debate (internacional) sobre a problemática da cidade postindustrial, dispersa ou sobremoderna como forma de se “investir mais” na ordenação, planificação e marketing territorial.

 

Quando abordávamos a problemática do desenvolvimento do Concelho de Chaves, face a este pano de fundo, dizíamos que:

É, assim, essencialmente nestes espaços urbanos, de pequena e média dimensão, que a revalorização dos espaços rurais é indissociável da valorização do quadro de vida, dos equipamentos e da animação sócio-cultural dos principais centros urbanos".

 

Por outras palavras, a aposta na valorização dos pólos urbanos principais surge como praticamente a última oportunidade de suster a desertificação, de potenciar os esforços realizados na dinamização do mundo rural e, consequentemente, de evitar a transferência da população mais jovem para áreas de concentração com quadros de vida mais atraentes e compatíveis com os valores associados à urbanização.

 

Em jeito de conclusão global, pode dizer-se que a contenção e, a prazo, a inversão das tendências de despovoamento global da sub-região e de cada um dos concelhos que a constituem surge como a condição-base e uma aposta de viabilização de um processo de desenvolvimento que urge dinamizar.

 

Complementarmente, estamos de acordo quando, em sede do Plano Estratégico da Cidade de Chaves, se diz: “deve ser encarado com frontalidade o facto de que não é muito folgada a «margem de manobra» disponível para essa dinamização, devido não só à magnitude das carências e bloqueamentos que é necessário ultrapassar, mas também ao facto de nenhuma das potencialidades latentes apresentar individualmente dimensão suficiente para se constituir como motor do referido processo”.

 

BIBLIOGRAFIA

  • AAVV, (1997): As Redes Urbanas – Unha nova Xeografía das Cidades, edição a cargo de Petros Petsemeris, Santiago de Compostela, Universidade de Santiago de Compostela;
  • ASCHER, François (1998): Metapolis – Acerca doFuturo da Cidade, Oeiras, Celta Editora;
  • BAGNASCO, A. et al (1996): As Redes Urbanas – Unha Nova Geografía das Cidades (edición a cargo de Petros Petsémeris), Santiago de Compostela, Universidade de Santiago de Compostela, Serviços de Publicacións e Intercambio Científico;
  • BARATA SALGUEIRO, Teresa (1999): “Cidade pósmoderma. Espaço fragmentado”, Inforgeo, Associação Portuguesa de Geógrafos, Dezembro de 1998, página 225 a 235;
  • BRAMANTI, Alberto (1999): “De l'Espace au Territoire: développement relationnel et competitivité territoriale. L'aproche du GREMI dans le debat contemporain”, Revue D'Economie Regionale et Urbaine, 3, 429-448;
  • CASTELLS, Manuel (1984): Problemas de Investigação em Sociologia Urbana, 3ª Edição, Lisboa, Editorial Presença;
  • CASTELLS, Manuel; Hall, Peter (2001): Tecnópolis del Mundo – La formación de los complejos industriales del siglo XXI, Madrid, Alianza Editorial;
  • CERQUEIRA, Carlos E. D. (2001): As Parcerias no Desenvolvimento Local: o papel dos agentes de mediação numa abordagem territorial do desenvolvimento. Disponível [on line]: <http:\\www.carloscerqueira.com/index cv.htm [12 de Março de 2002];
  • FERRÁS SEXTO, Carlos (1995): “La Contraurbanización y planificación territorial: los casos de Irlanda y Galicia”, en Ciudad y Territorio-Estudios Territoriales, 3.106, pp. 861-875;
  • FERRÁS SEXTO, Carlos (1996): Cambio Rural na Europa Atlántica: os casos de Irlanda e vGalicia (1970-1990), Santiago de Compostela, Xunta de Galicia y Universidade de Santiago;
  • FERRÁS SEXTO, Carlos (1998): La Contraurbanización. Fundamentos teóricos y estudio de casos en Irlanda, España y México, Guadalajara-México, Universidad de Guadalajara-México y Xunta de Galicia;
  • FONT, Joan Nogué; Rufi, Joan Vicent (2001): Geopolítica, Identidad y Globalización, Barcelona, Ariel Geografía;
  • GIDENS, Anthony (1998): Consequências da Modernidade, Oeiras, Celta Editora
  • GRUPO ADUAR, (2000): Diccionario de Geografía Urbana, Urbanismo y Ordenación del Territorio, Barcelona, Ariel Referencia;
  • JOHNSON, Bjorn; Lundvall, Bengt-Ake (2000): Promoting Inovation Systems as Response to the Globalising Learning Economy. Disponível [online]: <http://www.business.auc.dk/druid/summer2000/papergal.htm> [16 de Setembro de 2000];
  • LACAZE, Jean-Paul (1998): O ordenamento do Território, Lisboa, Instituto Piaget, Biblioteca Básica de Ciência e Cultura;
  • LOPES, Raul (2001): Competitividade, Inovação e Território, Oeiras, Celta Editora;
  • LUNDVALL, Bengt-Ake (1996): The Social Dimension of the Learnig Economy, DRUID Working Paper nº 96-1. Disponível [online]: <http://www.business.auc.dk/druid/wp/wp1996.html> [1 de Julho de 2000];
  • MAILLAT, Denis; Kébir, Leila (1999): “Learnig Region e Sistemes Territoriaux de Production”, Revue D'Economie Regionale et Urbaine, 3, 429-448;
  • MANDER, Jerry; Goldsmith, Edward (1997): Economia Global/Economia Local – A Controvérsia, Oeiras, Celta Editora;
  • MELA, Alfredo (1999): A Sociologia das Cidades, Lisboa, Editorial Estampa, Temas de Sociologia;
  • NETO, Paulo Alexandre (1999): A Integração Espacial – Economias de Rede e Inovação, Lisboa, Instituto Piaget;
  • PINDER, David (Org.), (1994): Europa Ocidental – Dasafios e Mudanças, Oeiras, Celta Editora;
  • PORTUGAL, (1997): Colóquio «A Política das Cidades», Lisboa, Conselho Económico e Social, Série “Estudos e Documentos”;
  • REGALES, Manuel Ferrer (1992): Los Sistemas Urbanos, Los Paises Industrializados del Hemisferio norte e Iberoamérica, Madrid, Editorial Sintesis, Coleción Espacios Y Sociedades;
  • SOUSA SANTOS, Boaventura de (Org.), (2001): Globalização – Fatalidade ou Utopia, Porto, Edições Afrontamento;
  • SOUTO GONZÁLEZ, Xosé Manuel et al., (2001): Planeamento Estratéxico e Mercadotecnia Territorial, Vigo, Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular;
  • TOFFLER, Alvin (1984): A Terceira Vaga, Lisboa, Edição «Livros do Brasil»;
  • VELTZ, Pierre (1999): Mundialización, Ciudades y Territorios, Barcelona, Ariel Geografía.

 

05
Mar21

Palavras Soltas... - Comentário à obra|comunicação «La ciudad dispersa y las aldeas virtuales. Los estudios geogtáficos y el entorno a la cultura» - Primeira Parte

PALAVRAS SOLTAS...

 

COMENTÁRIO

À OBRA|COMUNICAÇÃO DE CARLOS FERRÁS SEXTO

 

«LA CIUDAD DISPERSA Y LAS ALDEAS VIRTUALES. LOS ESTUDIOS GEOGRÁFICOS Y EL RETORNO A LA CULTURA»

PRIMEIRA PARTE

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DESENVOLVIMENTO DAS PRINCIPAIS IDEIAS

 

CARLOS FERRÁS SEXTO, na sua Introdução, explica o quadro do projeto de investigação em que a sua comunicação se insere - «A contra-urbanização e as políticas de desenvolvimento rural-regional». Refere que a mesma representa as primeiras conclusões da sua investigação e reflexão comparada que levou a cabo no Condado de Staffordshire-Inglaterra, sob o assessoreamento do Professor John Naylon e, com o trabalho de campo que levou a cabo na cidade de Newcastle Under Lyme e nas paróquias de Bartley e Keele, e que pretendia dar resposta à seguinte pergunta: “Como se podia estudar, desde o ponto de vista da geografia, as novas relações rural-urbanas de fim de século?” (Sublinhado nosso).

 

1.- CIDADE DISPERSA

Segundo o autor, a “identificação do Declínio das Cidades postindustriais e o Renascimento Rural postprodutivo”, em conformidade com os autores que cita como BERRY, CLOKE, HALL, FIELDING, entre outros, é um “processo de mudança que traz consigo a superação da Urbanização Industrial, caracterizada pela concentração demográfica e o emprego não agrário em grandes aglomerações urbanas, a favor da Urbanização Postindustrial, onde a desconcentração é dominante”. Assim surge o conceito de Cidade Dispersa, em oposição e substituindo a Cidade Compacta, fordista, dos «Trinta Gloriosos» que, segundo o Autor, está associado, e em íntima relação, com a difusão da urbanização do campo.

 

Com a Cidade Dispersa, o êxodo do campo-cidade transformou-se no sentido contrário, ou seja, êxodo cidade-campo, ao se verificar que um grande número de famílias e indivíduos abandonam a cidade para fixarem residência nos espaços rurais tradicionais, atraídos por imagens bucólicas do campo e «fustigados» por aquilo que, na linha de FONT et al designamos pelas novas «terrae incognitae», do Quarto Mundo, de matriz Ocidental.

 

Com efeito, o êxodo das famílias e indivíduos dos núcleos urbanos tem ínsito uma nova conceção de cidade cuja característica principal é a dispersão, definidora de um novo processo de urbanização. Associado a este novo processo de urbanização andam dois conceitos: o de contra-urbanização e o de suburbanização. O primeiro, e ainda segundo o nosso Autor, citando CLOKE (1985), a favor de um novo renascimento das áreas rurais remotas; o segundo, a favor de áreas rurais próximas das cidades.

 

Fatores económicos, nomeadamente relacionados com a crise das indústrias tradicionais de fabricação de automóveis, aço ou têxtil mediante a competência de novos países industrializados ou em vias de industrialização bem como a aparição de novas indústrias de alta qualificação técnica como a aeroespacial ou a eletrónica, que se localizam foram das grandes aglomerações urbanas bem assim ainda os fatores sociais e culturais, decorrentes dos económicos, levam a que um número cada vez maior de pessoas prefiram viver e instalar-se fora das aglomerações urbanas atraídas por novos empregos que nelas se localizam. Por outro lado, considerações sobre o meio ambiente com menos contaminações, melhor qualidade da habitação e a menores custos e uma maior segurança cidadã, andam também aliados ao fenómeno da desconcentração [veja-se FIELDING, A. J.: «Contra-urbanização: Ameaça ou Bênção?», in PINDER, David (Org.) (1994): Europa Ocidental – Desafios e Mudanças, Oeiras, Celta Editora, pág.s 295-313].

 

O autor refere ainda na sua comunicação que os estudos levados a cabo sobre a Cidade Dispersa, ou sobre os fenómenos associados com a desconcentração urbana ou o renascimento rural foram elaborados fundamentalmente a partir de estatísticas demográficas gerais e, salvo raras exceções, os autores/investigadores, a partir daqui, elaboraram as suas teorias. O nosso Autor, CARLOS FERRÁS aconselha a que se façam mais estudos de detalhe que possam permitir “um maior conhecimento das implicações que geram nas comunidades rurais e o significado para a urbanização e a cidade do futuro” (O trabalho de FIELDING acima citado achamos muito oportuno para o efeito).

 

Segundo ainda CARLOS FERRÁS, e na perspetiva dos investigadores urbanos, o Declínio Urbano postindustrial, manifestando-se na perda da população das grandes concentrações urbanas, “é uma fase da evolução das cidades, ainda que não exista acordo sobre se esta é irreversível ou transitória”. Na perspetiva dos investigadores rurais, a urbanização do campo é um processo que “adquire maior relevância com o passar do tempo” (veja-se «CAP. IV.- Dos novos desafios à nova abordagem», in SOUTO GONZÁLEZ et al (2001): Planeamento Estratéxico e Mercadotecnia Territorial, Vigo, Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, pág.s 63 a 71).

 

A contra urbanização contribui para a difusão da urbanização no território e na sociedade, implicando assim a difusão de valores, de hábitos, de cultura e de atividades económicas mais relacionadas com o espaço urbano no espaço rural.

 

Contudo, e como muito bem diz o nosso autor, reportando-se aos trabalhos dos investigadores sociais, “a difusão do urbano é espacial e socialmente seletivas”, provocadora de desigualdades e contradições bem assim, e ainda segundo o nosso Autor, criadora de desherarquização dos sistemas de povoamento, de ineficiências funcionais, de impactos ambientais, da dependência excessiva do automóvel, dos deslocamentos diários em massa, do desperdício energético e dos recursos para dotar de serviços uma população desconcentrada ou a ocupação indiscriminada de grande parte de parcelas de solo rural (veja-se também a este propósito o artigo de FIELDING já supra citado) .

 

2.- AS ALDEIAS VIRTUAIS COMO HIPÉRBOLE SOCIAL

Concordamos com CARLOS FERRÁS quando afirma que existe uma imagem bucólica do campo entre as famílias urbanas, razão pela qual se estão criando autênticas Aldeias Virtuais na perceção das famílias acomodadas de origem urbana que procuram satisfazer o seu desejo de fugir do ruído da cidade, da poluição e dos perigos que podem chegar a seus filhos.

 

Neste sentido, o meio rural postindustrial converte-se numa construção cultural mercantilizada.

 

Os meios de comunicação e determinadas campanhas publicitárias, as empresas imobiliárias, ou seja, a aldeia em potência ou possível, onde não existem problemas e a harmonia e convivência é perfeita para o desenvolvimento humano, mercantilizam o desejo de se escapar dos perigos e vícios das grandes metrópoles, de «possuir uma casa no campo», na mais estreita obediência aos interesses capitalistas e do mercado. Assim, “o desejo das famílias de viver numa casa unifamiliar ampla no campo, rodeada de amplos espaços verdes e num meio ambiente tranquilo, mas bem ligada por uma auto-estrada com a cidade, converteu-se num estereotipo internacional”.

           

Desta forma, aliado ao conceito de Cidade Dispersa joga um papel fundamental a imagem virtual dos valores culturais relativos ao urbano e ao rural. “Viver no campo sem renunciar às comodidades da cidade” é, no dizer de CARLOS FERRÁS, um projeto que reflete o histórico e tradicional desejo dos britânicos de viver no campo, com o mais profundo significado pela circunstância de terem sidos eles os pioneiros da industrialização e da urbanização no século XVIII.

 

Em conclusão, «Construir uma casa no campo», imagem essencialmente criada de forma idílica pelas empresas imobiliárias, de molde a ampliarem e diversificarem os seus negócios, tem por trás de si o conceito de Aldeias Virtuais, mais entendido como uma «hipérbole social» do que um novo «construto social».

 

3.- A NECESSIDADE DO ESTUDO DOS SIGNIFICADOS CULTURAIS DAS RURALIDADES

 Segundo ainda CARLOS FERRÁS, antes de 1950 primava o regionalismo segundo o qual os estudos geográficos descreviam individualmente a cidade e o campo como duas partes integrantes da região; depois de 1950, os estudos de geografia aplicada desenvolveram-se no sentido de contribuir para a planificação do campo e da cidade; atualmente, as novas formas de teorização das ciências sociais vinculadas à economia política, ao postmodermismo e ao postestruturalismo obrigam o geógrafo a procurar novas formas de análise do campo e da cidade, ou seja, “já não é suficiente o estudo morfológico ou estrutural da paisagem e da tecnologia”, impõe-se agora “a necessidade de estudar a cultura social como elemento fundamental para compreender o comportamento do ser humano e as relações que estabelece com o meio urbano e rural. O postmodernismo enfatiza-nos a ideia de superação da tirania urbana associada ao racionalismo cartesiano e à confiança cega no binómio razão-progresso, e apresenta-nos a ruralidade como uma categoria discursiva, socialmente construída, ambígua e ambivalente, numa sociedade post-rural”.

 

Ao conformar Cidade Dispersa com o conceito e em relação com a «criação» das Aldeias Virtuais, com a consequente mudança de valores que tem experimentado a sociedade postindustrial, CARLOS FERRÁS remata dizendo que devemos “prestar mais atenção à cultura como elemento de análise espacial”. Os geógrafos, diz, devem “analisar documentos escritos como novelas, periódicos ou revistas, documentos visuais como fotografias, quadros pictóricos, mapas, material de propaganda, postais, películas, programas de televisão ou vídeos amadores (pessoais) e promocionais, além das mensagens e sons provenientes da telefonia ou da música popular”.

 

Parafraseando ainda uma vez mais o nosso Autor, “devemos superar o fetichismo numérico, ou seja, a quantificação obsessiva do comportamento do ser humano, e encontrar a interpretação qualitativa da condição cultural dos indivíduos e das sociedades de que fazem parte (...) A mercadotecnia vende imagens de estilo de vida ideais em conformidade com os valores culturais das pessoas”.

 

Em suma, e na nossa opinião, CARLOS FERRÁS «apela» para a necessidade de o Geógrafo utilizar novas metodologias, novos enfoques metodológicos perante o novo paradigma social do «viver humano profusamente urbano».

 

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