Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

zassu

10
Mar21

Palavras Soltas... - Breves notas sobre os artigos de Dematteis e Bagnasco - Cap. II - Porque é tão importante a análise social territorial

PALAVRAS SOLTAS...

 

BREVES NOTAS SOBRE OS ARTIGOS DE DEMATTEIS E BAGNASCO

 

CAPÍTULO II

PORQUE É TÃO IMPORTANTE A ANÁLISE SOCIAL TERRITORIAL

(ARNALDO BAGNASCO)

02.- pdm_home_3_1_900_500

Neste texto BAGNASCO, segundo PETSIMERIS, ao partir de algumas reflexões sobre as tendências significativas da economia contemporânea, como sejam, a crise da grande indústria, o descentramento dos polos urbano-industriais, a nova divisão internacional do trabalho, a interação entre os processos de organização territorial devidos ao capital internacional e os devidos ao desenvolvimento endógeno, a crise fiscal do Estado e o consequente debilitamento do Estado Providência, tenta caracterizar as relações inovadoras da dialética espaço/sociedade e a crescente importância dos factos locais para a organização das transformações estruturais e sociais.

 

Para BAGNASCO, ainda segundo PETSIMERIS, acabou-se um longo “trend” de homogeneização da sociedade no território. Não existe, desapareceu, já a tendência para a concentração industrial. E estamos perante uma diferenciação de formas organizativas do sistema económico que se manifestam de «formas distintas em lugares distintos».

 

Os modelos gerais ou dialéticos, refere ainda PETSIMERIS, no tocante a este artigo, já não são suficientes para analisar estes fenómenos. A exemplo do que já no Capítulo I DEMATTEIS apontava, precisamos de novos modelos interpretativos que «reconcetualizem» a importância da diferenciação espacial da sociedade. Para isso é, pois, necessário analisar a diversificação da economia em lugares distintos através de interações com formas sociais distinta.

 

E BAGNASCO, ainda na ótica de PETSIMERIS, faz uma tentativa pré-teórica, ao lançar «sugestões» sobre a importância da dimensão territorial, muitas vezes esquecida na análise social.

 

BAGNASCO, a final, sublinha a importância da produção de novos modelos, mais idóneos, para a análise de fenómenos muito complexos.

 

Sumariemos, um pouco mais em detalhe, este texto de BAGNASCO, tão brilhantemente esquematizado por PETSIMERIS.

 

1.- O estancamento ou declínio da ocupação na grande empresa e o descentramento dos polos urbano-industriais

 

O estancamento ou declínio da ocupação na grande empresa, face ao desenvolvimento da tecnologia e à modernização da indústria nos países industrializados, gerou uma tendência «à crise de proveito»  e o descentramento dos polos urbano-industriais, abrangendo, de uma forma mais ampla, a indústria manufatureira, provocando um aumento em flecha do desemprego e levando assim a novas formas de localismo social, não só com novas formas locais de economia paralela (e informal e doméstica) mas também com “redes sociais congruentes e referências simbólicas adequadas”.

 

É sabido que a grande empresa está, desde há muito tempo, numa fase de recessão. As causas são diversas. Contudo o custo do trabalho, em relação a outros parâmetros, parece jogar aqui um papel muito importante. Para BAGNASCO a empresa de menores dimensões adquire maior importância, recativando assim o mercado de trabalho em profunda crise.

 

Ainda segundo BAGNASCO a procura da pequena ou média dimensão da empresa não se deve apenas ao facto do custo da mão de obra ser mais barata ou à elasticidade no seu uso. Há outros motivos, como sejam, a dimensão ótima para uma certa escala de produção bem assim a elasticidade organizativa. Por outro lado, ainda, o desenvolvimento das indústrias energéticas e de informação «incitam», e tornam cada vez mais possível, esquemas descentrados de produção, com eficácia técnica semelhante à até então produção verticalizada. A reativação do mercado torna assim mais «móvel» a estrutura económica, inclusive no sentido espacial. A procura de um custo menor do trabalho põe em relevo, ou em evidência, os mercados de trabalho locais bem assim a sua descontinuidade territorial.

 

Desta forma, ao mesmo tempo que se verifica uma maior desconcentração dos polos urbano-industriais, pela procura de novas bolsas de trabalho mais barato, quer nas periferias das áreas metropolitanas, mais perto das áreas rurais, e pela entrada, cada vez maior do «braço feminino», assiste-se, por outro lado, à centralização das funções de gestão e de nível terciário superior nas grandes cidades e nos centros das áreas metropolitanas.

Para BAGNASCO, o conjunto destas circunstâncias levam a uma “redefinição na divisão regional do trabalho”. Mas, para compreender este aspeto acima referido, é necessário analisar os restantes. Assim:

 

2.- A importância da dimensão territorial na análise social 

2.1.- A crise fiscal do Estado e o consequente debilitamento do Estado Previdência

O redimensionamento da política social teve aqui duas consequências, mercê de políticas mais liberais. Por um lado, a compra e venda, de determinadas bens e serviços, obtidos pelos cidadãos junto de instituições públicas, a preços sociais, deixaram de ser prestados, entrando assim no esquema de mercado; por outro lado, uma série de deveres sobre a família, sobre redes de vizinhança de tipo associativo e outros foram realizados livremente de outro tipo. E, tais factos, deram lugar à tendência também para o aparecimento do localismo em termos de diferenciação do fator social que pode ser cultivada quer a nível regional (regiões, áreas) quer a nível microterritorial. Esta relevância do fator local é congruente com as mudanças macroestruturais embora não se possam considerar apenas como uma «adaptação passiva a um processo unívoco».

 

2.2.- A nova divisão internacional do trabalho e a interação entre os processos de organização territorial devidos ao capital internacional e ao desenvolvimento endógeno

No passado, a relação entre as áreas desenvolvidas e as áreas subdesenvolvidas estabelecia-se sobre uma divisão das funções segundo a qual os países subdesenvolvidos eram substancialmente abastecedores de matérias primas e produtos agrícolas. Nesta fase, que dura até ao final da II Grande Guerra Mundial, os investimentos dos países ditos «centrais» nas áreas desenvolvidas, da também dita «periferia», são de relativa importância e estão diretamente ligados às funções acima referidas.

 

Agora, nesta nova fase que se consolidou depois da II Grande Guerra Mundial, os investimentos dos países «centrais» nas «periferias» crescem e olham também, e especialmente, à produção manufatureira. Neste sentido, a economia mundial começa a reestruturar-se pela estruturação da divisão internacional do trabalho mais complexo e pelo aparecimento, na cena económica, principalmente depois de 1960, de alguns países da «periferia», ou do Terceiro Mundo, que chegam a ser exportadores de produtos da indústria manufatureira. Ou seja, o capital produtivo dos países «centrais» procura novas oportunidades de proveito no exterior. E, no cálculo das conveniências, o custo do trabalho, é um elemento crucial, junto com outros custos, como as matérias primas e os transportes para os mercados distribuidores e os gastos de infraestruturas, etc.

           

Todo este processo de reestruturação da economia abrange essencialmente os sectores têxtil, madeiras e calçado, mas também os produtos elétricos e eletrónicos, instrumentos óticos ou bens de investimento. Poderia parecer que todo este processo tinha apenas a ver, e fosse simplesmente organizado e determinado pelo capital multinacional. Segundo BAGNASCO, não só. Existe neste processo uma relação também muito forte entre a própria internacionalização do capital «central» e os processos endógenos nos países implicados, apelidados de «semiperiferias», «semi-industrializados» ou «emergentes».

 

É certo que as multinacionais foram decisivas no encaminhamento do processo, jogando um papel relevante no desenvolvimento posterior, contudo, os novos processos de divisão internacional do trabalho conduzem-nos diretamente a uma consequência específica de ordem espacial que nos interessa, isto é, é cada vez maior a relevância de novas áreas territoriais social e economicamente diferenciadas. E assim tal facto leva-nos, hoje em dia, a termos em conta a análise dos sistemas territoriais, ou seja, a análise do nível regional, aqui entendido no seu sentido mais amplo. Impõe-se, em suma, a compreensão dos processos históricos reais.

 

Ao contrário daqueles que outrora pensavam que o processo económico iria simplificar e homogeneizar a estrutura territorial, rompendo assim com as formas sociais locais diferenciadas, reconhece-se a importância de formas relevantes da sociedade local, mas não nos moldes de antanho.

 

Assim, e por mais incrível que pareça, as formas sociais locais diferenciadas nascem agora de novo. Contudo, tal facto, não significa que estejamos perante formas sociais de tipo pré-industrial.

 

O «centro» significava grande concentração industrial, alto nível de proletarização nas fábricas, organização formal, concentração da população, etc. Estas coisas continuam a existir (e sendo «centrais»), mas assistimos também ao aparecimento de “sujeitos das sociedades locais que são, também, sujeitos da sociedade global, implicados nas suas dinâmicas”, mas também «comprometidos» com as novas dinâmicas da sociedade local, redefinindo em parte os seus meios e contextos de ação. Desta forma, o fator local, por muito pequeno ou grande que seja, “não pode ser considerado simplesmente uma consequência de ação de forças externas (...) existe sempre uma interação e, na análise, consideram-se variáveis exógenas e endógenas. As características que assume o fator social não são um acidente que impeça ou modifique uma presumível e perfeita realização da ação do «centro»: são uma dimensão do processo”.

 

Os esquemas espaciais são sempre esquemas estruturais, contrapostos aos esquemas «históricos», construídos sobre o tempo, sublinha BAGNASCO.

 

Variáveis exógenas e endógenas, características estruturais e dinâmicas históricas “definiram-se a miúdo precisamente na análise da relação entre velho e novo”.

 

Chegados aqui poderíamos dizer que a maior mobilidade verificada hoje na indústria parece ligada a duas tendências: “a difusão de atividades à procura de determinadas condições favoráveis e, por outro lado, a «socialização territorial» de mais atividades em contextos determinados”.

 

3.- A importância da emergência de novos modelos para a análise de fenómenos mais complexos

A ideia de hierarquia, em contexto económico, utiliza-se normalmente para expressar as relações entre países e diferentes zonas.

 

Segundo BAGNASCO, citando G. ARRIGHI, “a coordenação da divisão internacional do trabalho no caso do velho capital comercial e financeiro era «anárquico-informal»”; por outro lado, “as empresas multinacionais, sediadas em diferentes países, tenderão a estabelecer coordenação «hierárquico-formal» através da divisão do trabalho «no seu interior»” Semelhante estratégia para além de ter dado um novo impulso a homogeneização das velhas diferenciações originais, por outro lado, estimulou o poder e a cultura dos estados nacionais e das sociedades locais.

 

Desta forma, o novo contexto económico não só se dá em função da divisão interna do trabalho da empresa multinacional como também é regulado por esta, por transações de mercado, intervenções públicas, com mais agentes, meios e estratégias que entram em jogo.

 

E, nesta conformidade, BAGNASCO deixa uma pergunta: o que sucederá quando e onde este processo se complexificar mais, quando se estabelecerem redes territoriais mais complexas de interações entre empresas externas e locais, quando a economia e a sociedade se complexificarem mais e aparecerem contextos com peso social próprio?

 

 

Muitos observadores, diz BAGNASCO, apoiando-se em WALLERSTEIN, estão dando conta já do aparecimento e emergência destes problemas, sublinhando a importância de tudo quanto está a suceder entre o «centro» e «periferia», imaginando uma fase na qual a «semiperiferia» vai ganhando mais importância numa análise mais diferencial e precisa em termos económicos e políticos.

 

E remata: “no plano do modo de produção, as teorias do capitalismo avançado mostraram importantes novidades estruturais que se referem, entre outras coisas, à articulação da dinâmica de classe com outras dinâmicas de interesses que se estabelecem entre economia e política. No plano do eixo territorial, os esquemas dualísticos dão o lugar a esquemas mais complexos e a novas formas sociais localizadas chegam a ser fenómenos a ter em conta”.

09
Mar21

Palavras Soltas... - Breves notas sobre os artigos de Dematteis e Bagnasco - Cap. I - Novas formas de organização territorial

PALAVRAS SOLTAS...

 

BREVES NOTAS SOBRE OS ARTIGOS DE DEMATTEIS E BAGNASCO

 

CAPÍTULO I 

NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO TERRITORIAL

(GIUSEPPE DEMATTEIS)

 

Tudo começou com a Revolução do Neolítico,

logo que os nossos longínquos antepassados começaram a renunciar à vida errante das tribos de caçadores-predadores.

Para selecionar as raças de animais suscetíveis de serem domesticados, e as espécies vegetais cultiváveis,

foram conduzidos a transformar os seus territórios, a desbravar florestas, a sanear pântanos, a construir,

nos vales do Nilo e do Eufrates, os primeiros ordenamentos hidráulicos.

                Esta Revolução impôs também uma especialização do trabalho entre agricultores, artesãos,

comerciantes e guerreiros que protegiam as reservas alimentares contra rapinas das tribos de caçadores.

As primeiras cidades foram edificadas e a organização social tornou-se mais complexa.

Desde então, esses aspetos da atividade das sociedades humanas não cessaram de evoluir em conjunto:

os modos de ocupação dos territórios continuam sempre determinados,

numa larga medida, pelos sistemas económicos e pelo tipo de civilização

 

(LACAZE, 1998:13-14).

 

“(...) a cidade é um sistema social de grande complexidade que, por assim dizer,

apresenta no seu interior, de forma «concentrada», a quase totalidade dos fenómenos típicos de sistemas de dimensões mais amplos,

como as sociedades nacionais ou mesmo os sistemas internacionais. Por conseguinte,

não se presta a ser interpretada por meio de uma única chave de leitura,

nem se pode dizer que existe uma dimensão prioritária do fenómeno urbano, ou seja,

uma dimensão que determina todas as outras e está em condições de as explicar.

Pode, pois, afirmar-se (ou deve mesmo afirmar-se) que a cidade é simultaneamente um fenómeno

económico, político, cultural, etc., e acrescentar que todo o aspeto está ligado indissoluvelmente aos outros,

por isso, e influenciado por eles é, ao mesmo tempo, contribui para os definir

 

 (MELA, 1999:43).

 

É o que deixam perceber os futuristas e os filósofos ao estimarem

que o desenvolvimento das telecomunicações e dos transportes

acabará por dissolver as cidades num imenso «continuum»

semeado de unidades de habitação autónomas e intercomunicantes.

É o que creem certos sociólogos, que veem desaparecer algumas das formas tradicionais de vida urbana.

É o que preocupa os politólogos, confrontados com a fragmentação dos interesses

coletivos e com a desligitimação das instituições urbanas.

É a isto que os urbanistas procuram opor-se, consagrando os seus esforços na tentativa de recriar a antiga urbanidade,

fazendo e refazendo a cidade como outrora. Agitando estas perspetivas inquietantes

de uma não-cidade em proliferação e sem coesão social – como uma gangrena que ataca zonas extensas

em volta das grandes cidades abafadas pelo seu próprio crescimento

e que deixa o resto do território abandonado – os políticos tornam-se,

então os apóstolos de um ordenamento do território que teria como princípio «o equilíbrio»,

e por prioridade o rural e o urbano profundos.

                O mérito de todas estas teses é o de colocar as cidades no centro das interrogações

sobre o futuro das sociedades industrializadas e urbanizadas

 

(ASCHER,1998:1-2).

 

01.- 812acovas

Neste texto, GIUSEPPE DEMATTEIS, segundo PETROS PETSIMERIS, vê a contra urbanização e a desconcentração urbana como novas formas de organização do território.

 

Servindo-se  do contributo do geógrafo americano B. BERRY quando, nos inícios dos anos 70, ao examinar os dados demográficos relativos às cidades dos Estados Unidos, utilizou o termo «contra urbanização» para significar que, ao contrário do passado, e nos começos da Revolução Industrial, que se observava uma inversão de tendência na distribuição geográfica das taxas de crescimento da população, ou seja, as áreas centrais (grandes cidades, áreas metropolitanas) tinham taxas de crescimento muito altas em comparação com as áreas não metropolitanas (cidades pequenas e médias e zonas rurais – que regrediam) e que agora sucede o contrário, DEMATTEIS refere que, também anos depois, nos países da Europa Ocidental industrializada, se passou o mesmo. Por outro lado, diz ainda que se se aprofundar a análise, não à escala da cidade mas dos sistemas urbanos, considerados isoladamente, verificou-se que o declínio  urbano se propaga das zonas centrais das áreas urbanas até às periferias, introduzindo assim aqui a hipótese de um ciclo de vida das cidades, quer dizer, o desenvolvimento urbano, no período médio e longo, propagar-se-ia de forma cíclica, partindo primeiro dos centros metropolitanos (core), passando depois para os seus centros externos (ring), indo depois ainda para os centros menores das regiões não metropolitanas para, no final do ciclo, voltar a afectar os mesmos centro urbanos de partida, seguindo assim aqui os quatro estádios, na óptica do «Grupo de Vienna Centre», quando utilizou como sistema de referência a Região Funcional Urbana (RFU): Urbanização; Suburbanização; Desurbanização e Reurbanização.

 

Mas, para DEMATTEIS, na óptica de PETSIMERIS, estes modelos, assim como o paradigma da tidal wave, que remonta já a BLUMENFELD (1949), funcionam apenas como «representações analógico-metafóricas» destes fenómenos e, por isso, não explicam total e cabalmente aquilo que designa pelos “aspectos mais relevantes dos complexos processos de urbanização”. Estes modelos foram e são metáforas úteis no plano empírico-descritivo ao permitem reunir e confrontar dados sobre regiões e países diferentes.

 

Para DEMATTEIS é necessário passar através do reconhecimento “das dimensões mais vastas da organização territorial”, ou seja, por uma mudança de escala, e também pelo reconhecimento “de uma nova organização do território de tipo reticular”.

 

A nova forma de mobilidade territorial das famílias opera de tal forma que os movimentos demográficos que se dão dentro de uma RFU tem o mesmo significado dos que, no passado, tinham lugar entre distintos sectores de um só centro urbano”. Deste jeito, na apreciação da diferente escala de análise (entre centro urbano e sistema urbano/RFU) há que atender muito bem ao conceito de contra urbanização. O mesmo se passando também com o de desurbanização pois não é correto falar-se de desurbanização à escala da RFU, “só porque algum centro do mesmo sistema esteja em fase de declínio, mesmo que seja o sistema principal”.

 

DEMATTEIS refere que o maior crescimento dos sistemas menores e periféricos deriva do saldo de dois movimentos: por um lado, do descentramento dos postos de trabalho num momento localizados ou localizáveis nos sistemas metropolitanos que se mudam ou criam «ex novo» nos sistemas menores; por outro, na centralização que leva para os centros metropolitanos novos postos de trabalho, quase sempre ligados a atividades muito qualificadas e não presentes, nos sistemas menores. As áreas metropolitanas compactas (tal como enormes manchas de óleo à volta das maiores cidades) dos finais dos anos 60 cedem lugar a «novos campos de externalidades» que já não têm forma compacta, nem um raio tão limitado. Agora configuram-se em redes, articuladas em centros e sistemas urbanos pequenos e grandes, sobre extensões territoriais que tendem a ser nacionais e internacionais.

 

Desta forma, para DEMATTEIS, a circunstância do aparecimento de novos e vastos «campos de externalidades» dá, por sua vez, origem a que se produzam novas externalidades metropolitanas favoráveis ao desenvolvimento centrado de atividades terciárias superiores e de tecnologias avançadas, favorecendo, por esta via, o descentramento de redes de muitas das velhas atividades metropolitanas. Nestes termos reforça-se ainda mais a dependência hierárquica entre o nível metropolitano e os sistemas menores, embora esta diferença seja mais qualitativa que quantitativa (sistema piramidal).

 

E assim DEMATTEIS «arrasta-nos» para a análise das novas dimensões territoriais de forte relevância geográfica como a «despolarização/polarização seletiva», a «nova divisão espacial do trabalho» (NDET), ou como outros, a nova divisão espacial funcional do trabalho (NDEFT), a “nova articulação espacial da procura e da oferta do trabalho e serviços» e, finalmente, “«fatores endógenos de diferenciação territorial». Ou seja, para DEMATTEIS, o que agora aqui está em causa não é o fenómeno polarização/descentramento mas uma nova fase de polarização pouco seletiva, “que tinha em conta também atividades manufatureiras de alta intensidade e trabalho pouco qualificado, a uma fase muito mais seletiva”.

 

Assim, segundo DEMATTEIS, a desconcentração e a contra urbanização à escala suprarregional, observadas nos últimos 15 anos, vão a par com os processos de reestruturação económica entretanto verificados que têm, entre outros, por base as inovações  de carácter tecnológico e organizativo que permitiram uma articulação do território de uma forma mais vasta por parte das empresas multilocalizadas, graças ao nível e à  expansão das infraestruturas materiais e sociais, numa grande parte do território nos países industrializados, permitindo uma maior difusão e mobilidade das atividades económicas no território. As novas dinâmicas económicas, sociais e políticas e as formas espaciais de elas derivam «obrigam-nos» a substituir a ideia clássica de posição geográfica relativa ou absoluta pela de posição relacional, a qual se refere a um espaço descontínuo e não homogéneo.

 

Segundo nos parece inferir, pela leitura do texto que estamos sumariando, para DEMATTEIS, num mundo e numa economia cada vez mais global, o espaço possui características que mudam de lugar a lugar, “segundo a disposição e a superposição de distintas redes de relações económicas, culturais e políticas que passam por cada um deles”. Ou seja, cada lugar e cada sujeito localizado pode pertencer a redes distintas, com interações a escalas distintas.

 

Neste sentido, a comunidade de interesses baseada na contiguidade de áreas a nível social e regional debilitou-se muito, “seccionando em muitos segmentos as sociedades locais, particularmente as mais complexas, urbanas e metropolitanas”, trazendo assim, ao de cima, a problemática da sua nova gestão e governabilidade.

 

Finalmente para DEMATTEIS, no ponto de vista de PETSIMERIS, para a análise das transformações territoriais, é importante analisar não só os aspetos quantitativos da desconcentração urbana como também, e sobretudo, a evolução das interações entre funções economia e espaço e espaço e sociedade. Porque, se queremos ir mais longe, “devemos ser capazes de elaborar novas representações do território, novos modelos interpretativos capazes de levar a cabo as mesmas funções que os velhos, mas também mais adaptados às novas situações”.

01a.- MMXm3O3kl9

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Arquivo

    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Em destaque no SAPO Blogs
pub