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zassu

07
Jan20

Ao Acaso... Paixão e Morte de Inês de Castro

 

AO ACASO…

 

PAIXÃO E MORTE DE INÊS DE CASTRO

ines_de_castro

Fonte:- http://lobusdaestepe.blogspot.com/2011/03/alcobaca-triste-historia-de-amor-de.html

Andávamos à procura de fontes para melhor conhecermos a história conjunta – de lutas e alianças – entre as famílias nobres do então Portugal nascente e do reino de Castela, particularmente as «escaramuças»  junto à raia norte, compreendendo os hoje vales de Chaves, Verín e da Límia, e, as poucas fontes ou escritos que fomos lendo, trazem-nos novidades escassas.

 

Facto corroborado por Miguel Gomes Martins, no seu artigo «A guerra esquiva. O conflito luso-castelhano de 1336-1338», na sua Introdução, quando nos diz:

A exemplo do que acontece com a maior parte dos conflitos militares anteriores ao reinado de D. Fernando, também a guerra que opôs, entre 1336 e 1338, os reinos de Portugal e de Castela continua por estudar, conhecendo-se apenas e em traços muito gerais alguns dos seus principais episódios. Apesar da importância política e militar de que se reveste, muito pouco tem sido escrito sobre o tema, facto que se por um lado se deve à falta de interesse pela História Militar deste período, por outro, deriva também da pouca atenção que tem sido dedicada aos 35 anos de reinado de D. Afonso IV”.

 

Vale a pena ler este artigo, porquanto nele poderemos aquilatar das razões das lutas intestinas entre Portugal e Castela – de caráter pessoal, entre famílias nobres, e de questões políticas - por via das alianças -, para alargamento dos territórios de ambos os reinos. As depressões que representam os vales de Chaves, Verín e da Límia, porque fáceis de invasão, foram preocupações constantes dos monarcas de ambos os reinos, bem assim da Galiza, no sentido da defesa e alargamento dos seus territórios.

 

Foi tentando compreender, neste período, quais as muralhas defensivas que ambos os reinos iam por estas paragens contruindo, que fomos dar com um artigo de Carlos G. Salgado, escrito em Xinzo de Limia, em agosto de 2010, sob o título «As cen Torres da Límia - (Portelam de Sanctio Iohannis) – O Castelo da Pena».

 

A preocupação deste autor é de nos elucidar sobre a organização defensiva da Límia nesta época, destacando 4 castelos, e daquilo que hoje restam, que defendiam a Límia, à volta da Lagoa de Antela: Porqueira; Sandiás; os restos dos torreões do Castelo de Celme, erguidos a 830 metros de altitude, sobre o monte Ponte Liñeares, na paróquia de Congostro, perto da aldeia de Santo André e, fundamentalmente, a torre que mais desenvolve – a de Portela da Pena ou Portelam de Sanctio Iohannis.

 

Mas, da leitura do texto, aquilo que mais nos despertou a curiosidade foi a seguinte passagem, que reproduzimos em galego:

Ines de Castro: A dama que logrou reinar despois de morta 

Nacida na Limia por volta de 1320. Así e como encabezan moitos dos textos a biografía da raína de Portugal.  A tradición popular, sitúa o lugar de nacemento precisamente na Torre da Portela,

Torre_da_Pena_5

Fonte:- https://www.wikiwand.com/es/Torre_de_Pena

fundamentalmente dous son os argumentos en que se apoia tal aseveración: por una parte o factor dos seus proxenitores: O Castelo da Portela pertenceu a casa de Lemos, polo tanto a familia dos  Castro, a que pertencía o seu pai, tamén e ben sabido que a familia da súa mai, dos Valladares, tivo solar e asento na bisbarra da Limia, mesmo unha casa en Xinzo de Limia. O segundo factor foi, que a lenda forxouse durante longo tempo, e na Limia, a única fortaleza e casa que permaneceu en pé o longo dos últimos séculos, foi precisamente a da Portela, chegándose a reducción: Casa de Lemos= Castelo na Limia=Castelo de Portela.

 

Ines de Castro era filla natural de don Pedro Fernández de Castro e de dona Aldonza Soares de Valladares. O pouco de nacer quedouse orfa de mai. Esta circunstancia é unha remota relación de parentesco do seu pai coa familia real castelá, fixeron posible que a cativa fora trasladada a Valladolid. Alí foi educada no Castelo de Peñafiel onde se converteu en dama de Compaña de Dona Constanza Manuel.

penafiel_castelo

Fonte:- http://pt.trekearth.com/gallery/Europe/Spain/Castilla_y_Leon/Valladolid/Penafiel/photo1561820.htm

En 1336, dona Constanza casou por poderes na localidade de Ébora co príncipe Pedro, fillo do rei portugués Alfonso IV. Cinco anos mais tarde trasladábanse ambas damas definitivamente a Portugal, insospeitadamente unha para ser esposa, e a outra para ser amante do mesmo home, o príncipe Pedro de Portugal. O morrer Constanza os amantes fuxiron xuntos e casáronse en segredo. En 1355 Ines foi asasiñada na quinta das Lagrimas, a caron da fonte dos amores, en Coimbra polos leales o rei Alfonso IV pai de Pedro. Este feito orixinou tras o  levantamento do seu fillo, unha longa guerra civil. Despois de perder o trono Alfonso e acceder o mesmo D. Pedro I, obrigou as Cortes Portuguesas e o seu pai, a que aceptaran a D. Ines como raiña, e poñendo o cadáver no trono, fixo que os nobres portugueses rendésenlle preitesía”.

 

Afinal de contas, onde nasceu Inês de Castro?

 

Estamos com Miguel Gomes Martins, quando no artigo acima referido nos diz que “ao longo da elaboração [deste seu trabalho, a sua principal dificuldade foi] a incontornável escassez de fontes, tanto documentais como narrativas, diretamente relacionadas com o assunto em análise, uma realidade que nos impediu de ultrapassar muitas das dúvidas surgidas”.

 

Beatriz Alcântara, no seu artigo «Pedro e Inês, paixão e morte», afirma que “De sua origem remota, os dados que nos chegam distam do século xiv, trazendo imprecisão a qualquer informação. A travessia secular veio até nossos dias à mercê de rudimentares crônicas de época, devaneio humano e criações de cunho literário, artístico. (…) D. Inês Pires de Castro teria nascido no castelo de Lemos, por volta de 1310, na Galiza. (…)

photos-9139-14155-castillo_de_monforte_de_lemos

Fonte:- https://www.info4camper.com/castillo_de_monforte_de_lemos_monforte_de_lemos_galiza_9139.html?lg=pt

Órfã de mãe aos seis anos, cedo Inês foi afastada do pai para viver em companhia de uma ilustre família de Albuquerque.

alburquerque

Fonte:- https://oliraf.wordpress.com/2016/10/24/a-descubierta-de-alburquerque-uma-vila-desconhecida-da-extremadura-espanhola/

Educada na mansão senhorial de D. João Afonso de Albuquerque e sua esposa D. Teresa. Protegida, perfilhada da tia nobre, Inês cresceu recebendo educação e estudo esmerados, de modo que, pelo casamento de Constança Manuel com o herdeiro português ao trono, o infante D. Pedro, ela foi escolhida e chamada a acompanhar a princesa espanhola, passando a integrar seu séquito de damas. Desde a chegada à corte portuguesa da esposa do príncipe herdeiro, a beleza extraordinária de sua aia, D. Inês de Castro, passou a ser referência elogiosa entre o séquito real. A dama de companhia espanhola ganhou denominações como colo de alabastro, olhos de esmeralda ou colo de garça, possuidora que era de uma tez muito branca, radiosa, emoldurada por brilhantes e anelados cabelos dourados. A nobre galega chamou desde cedo a atenção do infante real D. Pedro, um jovem garboso, bem apessoado, impulsivo, cavaleiro destro, intrépido caçador, gozando grande popularidade entre o povo com quem dançava em folguedos. Um príncipe perfeito, não fosse uma evidente limitação, a gaguez que ocasionalmente originava atos intempestivos de superação”.

 

Vejamos agora a história contada  pelo nosso historiador Prof. José Hermano Saraiva.

 

HISTÓRIA QUE O TEMPO APAGOU – PORQUE MORREU INÊS DE CASTRO

Mais adiante, Beatriz Alcântara, enquadra-nos no drama e morte de Inês, já cima abordado pelo Prof. Hermano Saraiva: “Os amores de D. Inês de Castro e D. Pedro desencadearam uma grave crise na corte lusitana, não apenas por razões de ordem moral, mas de igual dimensão, motivos de ordem religiosa e política. Levando-se em conta o desmedido puritanismo do rei D. Afonso IV, ainda assim as razões de tão forte oposição ao romance de seu filho e a aia não residiam apenas no fato de relações adulterinas em família. Ódios camuflados [tal como José Hermano Saraiava aponta] apontavam para o fato de D. Inês haver sido educada pelos Albuquerques, herdeiros do irmão bastardo preferido pelo pai de D. Afonso IV [D. Dinis], contudo, credite-se de maior vulto a razão política. Ao monarca D. Afonso IV chegavam rumores de que os fidalgos castelhanos e irmãos de D. Inês, D. Álvaro, D. Dinis e D. Fernando Pires de Castro eram visitas frequentes e demoradas, ora no paço da Serra d'El-Rei, como na aprazível quinta Canidelo na Foz do Douro,

[Veja-se em Porto Canal, no Programa «Caminhos da História | Rei D. Pedro I e Inês de Castro», um pouco sobre esta quinta de Canidelo na Foz do Douro],

CAMINHOS DA HISTÓRIA

REI D. PEDRO I E INÊS DE CASTRO

A QUINTA DE CANIDELO NA FOZ DO DOURO

e, por fim, no paço de Santa Clara em Coimbra, capital do reino à época. O temor dessas visitas tão assíduas estava ligado à sucessão da coroa portuguesa. Observe-se o relato: um ‘mirabolante plano dos Castras induzirem o infante D. Pedro a proclamar-se rei de Leão e Castela e, depois, de Portugal, por morte de pai. Dizia-se que os irmãos de Inês tinham logrado convencer D. Pedro a meter-se nessa aventura insensata. D. Afonso assustou-se seriamente. Ele sabia que com um monarca português ou castelhano, a união dos dois reinos só traria como resultado a absorção de Portugal por uma Castela maior em território, em população e em recursos económicos; seria a perda de uma independência que já custara mais de duzentos anos de sacrifícios e lutas. Ah! Maldita a hora em que aquela mulher entrara em Portugal!’ Atento ao menor detalhe régio sucessório da coroa, D. Afonso receava que uma vez D. Pedro feito rei, tirasse o direito de trono e sucessão ao infante D. Fernando, filho legítimo do seu casamento com D. Constança, em favor de um dos filhos de Inês. Instigado especialmente por três conselheiros, o velho monarca levou a julgamento a jovem dama espanhola, não fosse o trono português cair em mãos castelhanas, haja visto que os irmãos Castro eram aguerridos revoltosos espanhóis, chefes da conjura pela unificação da Península Ibérica e exerciam forte influência sobre a irmã. Sentença julgada por um Conselho do Reino, o rei ordenou que Diogo Lopes Pacheco, Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves realizassem a execução sumária de Inês aproveitando-se da ausência ocasional do príncipe herdeiro de terras coimbrãs aonde o casal e os três filhos haviam se recolhido”.

 

Local da tragédia – Quinta do Pombal, Coimbra, então capital do reino de Portugal

 

Diz-nos a Wikipedia, na sua entrada «Quinta das Lágrimas»: “A área da então denominada «Quinta do Pombal» constituiu-se em couto de caça da Família Real Portuguesa desde pelo menos o século XIV. (…)

 

O documento mais antigo que refere a propriedade data de 1326, ano em que Santa Isabel de Aragão, Rainha de Portugal mandou fazer um canal para levar a água de duas nascentes para o Convento de Santa Clara. Ao sítio onde saía a água chamou-se Fonte dos Amores,

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (44)

(Pormenor)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (48)

(Cenário I)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (35)

(Cenário II)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (54)

(Cenário III)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (61)

(Cenário III - Pormenor da borracheira - «Ficus elastica Roxb.»)

por ter presenciado a paixão de D. Pedro, neto da soberana, por Inês de Castro, fidalga galega que servia de dama de companhia à esposa de D. Pedro, D. Constança. (…). A outra fonte da quinta, ligeiramente mais distante da primeira em relação ao convento, foi denominada por Luís de Camões em «Os Lusíadas», como Fonte das Lágrimas,

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (78)

(Pormenor I)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (81)

(Cenário)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (74)

(Pormenor II)

referindo que a mesma nascera das lágrimas vertidas por Inês ao ser assassinada a mando de Afonso IV de Portugal. O sangue de Inês terá ficado preso às rochas do leito, ainda rubras após [mais de] seis séculos e meio...”. (…)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (152)

Depois de ser propriedade da Universidade de Coimbra e de uma ordem religiosa, em 1730, a quinta foi adquirida pela família Osório Cabral de Castro, que mandou construir um palácio. Data desse período a atual designação de Quinta das Lágrimas.

 

Em 1813, Arthur Wellesley, então ainda visconde de Wellington, comandante das tropas luso-britânicas que defendiam o reino das forças francesas de Napoleão Bonaparte, foi hóspede na quinta, a convite de seu ajudante-de-campo, António Maria Osório Cabral de Castro, seu então proprietário. Wellington plantou, na ocasião, duas sequóias (Sequoia sempervirens) - e que aqui se paresenta uma -, perto da Fonte dos Amores

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (157)

e ergueu-se uma lápide com a célebre estrofe de «Os Lusíadas» que situa a história de Pedro e Inês na Quinta.

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (77)

O palácio original foi destruído por um violento incêndio em 1879, sendo reconstruído ao estilo dos antigos solares rurais portugueses, com biblioteca e capela. Na área ao redor do palácio ainda podem ser vistos os restos das antigas edificações rurais tais como o espigueiro, o armazém e o lagar de azeite (…).

 

Os espaços da Quinta e do Palácio foram recuperados nas décadas de 1980 e década de 1990 pelo arquiteto José Maria Caldeira Cabral (Arquivo do Arquiteto Caldeira Cabral). Em 1995 foi inaugurado o Hotel Quinta das Lágrimas, integrante da rede da cadeia Relais & Châteaux, considerado como um dos melhores do país”.

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (178)

(Entrada para o Palácio)

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (109)

(Fachada principal do Palácio)

A personagem de Inês de Castro permanece como uma das maiores figuras míticas portuguesas, quase a par e passo com o lendário Encoberto, D. Sebastião, e, por vezes suplantando, em fama, a legendária Rainha Santa Isabel.

 

Onde jazem Pedro e Inês?

 

Na Igreja do Convento do Mosteiro de Alcobaça. Vejamos, primeiro, esta obra prima do génio humano, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade.

 

VISITA GUIADA AO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA – OBRA PRIMA DO GÉNIO HUMANO

- PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE –

Agora, os seu túmulos, que aqui se encontram, que são duas verdadeiras obras-primas da escultura gótica em Portugal, cuja construção se situa entre 1358 e 1367. A sua autoria é desconhecida.

2017.- Mosteiro de Alcobaça (290)

(Igreja e Mosteiro de Alcobaça)

2017.- Mosteiro de Alcobaça (127)

(Aspeto geral da Igreja Conventual - Nave central)

2017.- Mosteiro de Alcobaça (32)

(Túmulo de D. Pedro I com o jacente)

2017.- Mosteiro de Alcobaça (36)

(Túmulo D. Pedro I - Pormenor I)

2017.- Mosteiro de Alcobaça (29)

(Túmulo D. Pedro I - Pormenor II)

2017.- Mosteiro de Alcobaça (20)

(Túmolo de D. Inês de Castro com o jacente)

2017.- Mosteiro de Alcobaça (85)

(Túmulo D. Pedro I - Pormenor)

Para uma melhor compreensão dos motivos decorativos de cada um dos túmulos, consulte-se a Wikipédia, sob o título «mulos de D. Pedro I e de Inês de Castro».

 

É muita a literatura produzida – bem assim a ficção - a propósito destes amores que, em muitos aspetos, virou lenda.

 

Queremos apenas deixar aqui o link de um sítio da web - «Inês de Castro – Outra era a vez – II Parte – Razão de estado ou complexo de Édipo», recomendando vivamente a sua leitura.

 

Bem assim este «delicioso» excerto da obra de António Cândido Franco:

 

 Memória de Inês de Castro,

Publicações Europa-América, Lisboa, 1990 

 

Há qualquer coisa de miraculoso no encontro em que Pedro

repara pela primeira vez, com atenção, em Inês.

O infante tinha chegado da Atouguia, com seu ar despreocupado,

meio aborrecido e cheio de uma sede insaciável.

Foi Inês que preparou na cozinha a bebida de Pedro.

Ele agradeceu ligeiramente com a cabeça e bebeu,

sem reparar em mais nada.

Quando ergueu a cabeça e fitou o rosto de Inês,

reparou, intrigado, que os cabelos desta pareciam despedir labaredas.

Era um lume que crepitava em silêncio.

Foi então que Inês, de forma inesperada,

lhe encostou a ponta dos dedos na face.

Todas as margens do ser, a esse contacto,

foram incendiadas, os diques derrubados.

Foi, porém, um gesto inocente, quase pueril.

A célebre gaguez de Pedro pode datar desse instante.

O amor foi nele o terror dum susto. [...]

Inês ganhou Pedro e depois a própria coroa portuguesa,

não por um privilégio de matrimónio,

mas pelo privilégio humano dos seus próprios dons.

Ela encarnava qualidades humanas raras

e todo o seu corpo era a expressão silenciosa

das mais altas virtudes do homem. [...]

- Senhora, abri, que é El-Rei de Portugal.

Inês estava junto da janela onde esvoaçava o lençol branco do seu enxoval.

Mandou Fátima ir passear pela alameda com as crianças.

A solidão do aposento apareceu-lhe como a expressão do seu sacrifício.

Preparava-se para a morte como se tinha antes preparado para o amor.

Penteou-se e vestiu-se de branco.

Inês vestiu-se de branco para morrer

e pôs nas mãos um colar de pedras que Pedro lhe dera.

E fê-lo, não para interpelar Afonso,

mas para mostrar à morte a sua aliança com a vida. [...]

A entrada do rei e dos seus conselheiros nos aposentos de Inês foi intempestiva.

Vinham sobretudo preparados para um longo desacordo com Inês,

mas a gelada indiferença desta petrificou-lhes os intentos.

Todas as tradicionais hesitações atribuídas a Afonso

no momento de assassinar Inês devem-se justamente à inesperada atitude dela:

nem filhos nem palavras.

É fácil vencer um opositor armado e feroz,

mas é difícil matar uma mulher que, em vez de brandir argumentos,

nos apresenta um vestido branco cheio de silêncio. [...]

O sol declinava no horizonte.

Afonso trazia enfim a mão manchada de sangue e os olhos baixos. [...]

Pedro, de madrugada, quando chegou à alameda dos olhos de água,

onde hoje é a fonte dos amores,

avistou o lençol branco a esvoaçar ao vento.

Teve de arrombar sucessivas portas fechadas, no palácio deserto,

enquanto gritava desalmadamente por Inês.

Quando viu o corpo de Inês desfeito em sangue,

a voz ficou-lhe presa na garganta.

A célebre gaguez de Pedro, tão falada por Femão Lopes, não era congénita.

A gaguez de Pedro foi a consequência imediata da morte de Inês.

Se o amor, em vida de Inês, lhe tirou o significado das palavras,

o amor, com a morte, tirou-lhe para sempre a fala.

Era de madrugada e em Coimbra

levantavam-se os primeiros rumores sobre a morte de Inês de Castro.

Amanheceu baço e sem luz aquilo que foi o dia.

 

E deixamos, por fim, aos nossos leitores(as) com estas duas estrofes do Lusíadas:

 

Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo o doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a Fortuna não deixa durar muito;

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuto,

Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.

 

 

De teu príncipe ali te respondiam

As lembranças que na alma lhe moravam,

Que sempre ante seus olhos te traziam,

Quando dos teus fermosos se apartavam;

De noite, em doces sonhos que mentiam,

De dia, em pensamentos que voavam,

E quanto enfim cuidava e quanto via

Eram tudo memórias de alegria.

 

Todo este arrazoado foi escrito porque, precisamente hoje, - 7 de janeiro - cumprem-se 665 da morte de D. Inês de Castro às mãos dos sicários de D. Afonso IV, pai de D. Pedro I.

2017.- Coimbra (Quinta das Lágtimas - Exterior) (6)

PS – E hoje, também, passam 3 anos da morte de Mário Soares. Não será, com certeza uma lenda na História de Portugal, todavia, quer uns o odeiem, quer outros o adorem, será um nome incontornável da História Contemporânea Portuguesa.

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