A leitura como processo de desenvolvimento pessoal e terapêutico
CRÓNICA III
A LEITURA COMO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E TERAPÊUTICO
Nona, um personagem que aparece em alguns dos nossos escritos, é um inveterado devorador de livros. Um dia fomos dar com apontamentos retirados da obra de Sandra Barão Nobre – «Ler para viver» e o rascunho de uma crónica que lhe deu o nome - «A leitura como processo de desenvolvimento pessoal e terapêutico». Reproduzamos, em bruto, aquele seu rascunho.
Nunca tive um desgosto que uma hora de leitura não tivesse dissipado.
Montesquieu
Há homens que passam a vida a viver somente e que nunca existem.
O emprego do tempo é o emprego de si mesmo;
o sábio emprego do tempo é o sábio emprego de si mesmo.
Michel Onfray
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Sandra Barão Nobre, na obra acima citada diz que Caroline Shrodes defende que o ser humano é o produto da sua experiência de vida global, bem como essa experiência formativa inclui também os livros que leu.
Para nós, humanos, a ficção é tão real quanto o solo sobre o qual caminhamos. Ela é esse solo, afirma.
A literatura ou ficção foi construída para responder às nossas inquietações primordiais e para nos organizarmos socialmente.
Para Michèle Petit, «ler serve para descobrir (…) que o que nos assombra, o que nos assusta, é partilhado por todos».
A leitura de uma história dá ao ser humano a oportunidade para generalizar o que sente, perceber que não é o único a senti-lo, que outros, de outras eras históricas ou de outras culturas, já o sentiram ou ainda o sentem. E isso traz uma consciência que é apaziguadora.
FASES OU MOMENTOS DE UM PROCESSO DE LEITURA
De entre outras, apontadas por outros autores, atentemo-nos, fundamentalmente, nestas três fases:
- Identificação
Segundo Caroline Shrodes, citada por Sandra Barão Nobre, a identificação é genericamente definida como um mecanismo de adaptação que o ser humano utiliza, de forma largamente inconsciente, para aumentar a sua autoestima.
Acresce a tudo isto o facto de a identificação integrar dois movimentos: um de introjeção e outro de projeção — onde o consciente, o inconsciente, o positivo e o negativo se refletem.
As histórias permitem complementar tudo aquilo que na vida cotidiana é impossível de entender ou realizar.
Ainda para Shrodes, as histórias, sendo ao mesmo tempo fantasia e retrato realista do comportamento humano, permitem, paradoxalmente, tanto uma ilusão de distanciamento psicológico como de experiência imediata.
- Introspeção
O que importa frisar é que o indivíduo que participa num processo de leitura acaba — num determinado momento e a propósito de uma história, espontaneamente ou persuadido pelo mediador ou por outros participantes — por se confrontar consigo mesmo, olhar para dentro de si à luz do que a história lhe traz e proceder a uma forma de autoexame.
Para Hynes e Hynes-Berry, também citados por aquela autora Sandra Nobre, a introspeção é o segundo passo do processo e constitui «uma intensificação» da identificação.
Caroline Shrodes destaca que na relação do ser humano com uma história e no reviver das experiências que esta suscita, a oportunidade para o indivíduo contrapor semelhanças e diferenças, entender emocionalmente e intelectualmente as suas próprias motivações, e as de outras pessoas, e reorganizar a sua perceção de si e dos outros. Para ela, a introspeção é produtiva quando permite ao indivíduo perceber mais claramente a realidade.
A introspeção é um recuo que o ser humano realiza para dentro de si mesmo após a leitura, narração ou dramatização do objeto literário. A decisão de mudança ou não de comportamento é posterior à história, às vezes vários dias, pois o sujeito fica como que digerindo o que acabou de constatar.
Um processo de leitura bem-sucedido implica experienciar um momento de identificação que espolete a introspeção. Expressões como: libertação de tensões e emoções, válvula de escape, purgação, prazer ou apaziguamento são frequentes por parte daquele que lê uma obra.
- Catarse
Impõe-se, na relação entre a identificação e a introspeção, um terceiro elemento que elas tornam possível e que surge como incontornável: a catarse, como uma libertação de emoções vividas pelo ser humano na interação com a música, a poesia e a tragédia, graças a «uma identificação solidária com o herói trágico», ou, como ainda afirma Shrodes, graças a «uma identificação bem-sucedida entre o apreciador e a criação do artista». O resultado desta libertação — do que é estranho, do que perturba e do que corrompe o ser humano — é um estado de serenidade.
A catarse serve para a libertação de «tensões e ansiedades».
A LEITURA COMO INSTRUMENTO DE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E TERAPÊUTICO
A nossa autora Sandra, citando Marc-Alain Ouaknin, afirma que o homem não tem sentido, é ele (homem) que se atribui um sentido. O mundo também não tem sentido, é o homem que vai dar-lhe um sentido. Assim, a interpretação não é um jogo supérfluo e a fúria de interpretar é uma fúria de viver. O homem está condenado a interpretar, porque só assim consegue atribuir sentido à sua existência e ao mundo que o rodeia.
Pela interpretação, o ser humano abre-se ao que é novo, a novas formas de percecionar, interpretar e narrar a sua própria vida. Há uma oportunidade para aprofundar o autoconhecimento, para se reinventar e se renovar.
Nancy Huston, Maurice Meleau-Ponty, Michael Gazzaniga e Lamberto Maffei afirmam que o ser humano tem uma compulsão para a compreensão e atribuição de sentido a tudo o que experiencia. Esta compulsão tem na base a observação, o pensamento e a interpretação incessante mediados pela linguagem da palavra.
Toda a leitura implica um fenómeno de interpretação (sublinhado nosso).
Ao interpretar um texto ou uma história, o leitor reinventa-o, transforma-o, abre um espaço para a compreensão de si mesmo (vimos o poder catártico da identificação e da introspeção) e cria a oportunidade para abraçar a transformação.
Mas um texto ultrapassa sempre as intenções do seu autor, e a sua riqueza é maior que o conjunto das estratégias textuais a que o autor possa recorrer. As intenções do autor e do texto deixam de coincidir. O que diz o texto importa mais do que aquilo que o autor quis dizer. O texto é então estrutura e sentido orientados para o leitor. É o nível da compreensão subjetiva e existencial. O que se procura compreender não é a intenção do autor, mas o efeito do texto sobre o leitor que recebe e se apropria do sentido. Um sentido que, como vimos no ponto anterior, não procura ser verdadeiro, mas justo, em função da experiência de vida do leitor e da sua plataforma de conhecimento.
Ouaknin também citado por aquela autora Sandra, diz que cuidar do ser humano é reinseri-lo «numa temporalidade harmoniosa onde o futuro vai buscar forças ao passado, e a memória dá asas à esperança». Esse é o papel das histórias e da leitura: primeiro, porque a leitura impõe a necessidade de uma pausa no caos rotineiro, exige um intervalo; depois, porque essa clareira permite que o poder da história que lemos se manifeste: suscita e apazigua emoções, resgata memórias, induz associações diversas com a nossa experiência de vida, conduz a extrapolações — logo a imaginar, a levantar novas hipóteses, a descortinar outras perspetivas, a abrirmo-nos aos outros e a outras formas de ser e de agir, num constante renascimento, numa constante transfiguração.
A jornalista Laure Adler após a morte de um filho, encontrou na leitura uma tábua de salvação: «Sei que o livro, ao trocar o meu tempo pelo seu, o caos da minha vida pela ordem da narração, me ajudou a recuperar o fôlego e a avistar um futuro.»
Para Ouaknin, «o primeiro momento da doença é o enclausuramento, a impossibilidade de sair para além de si mesmo: autarcia e autismo. A cura é passagem, viagem e metáfora, saída de si, modalidade de ser dinâmica».
Ainda no entender de Ouaknin, a leitura põe em movimento a identidade do ser humano porque «a literatura oferece novas possibilidades de ser no mundo dentro da realidade quotidiana».
Através das histórias, continua aquele autor, acedemos a «propostas plurais de papéis, de personagens, de situações, de intrigas» que têm potencial para abrir brechas na imagem que o indivíduo tem de si mesmo e imaginar outras formas de ser. A imaginação e a narrativa permitem criar diversos projetos (de vida), para quem «o homem existe na sua capacidade de poder ser de outra forma». E Ouaknin argumenta que «devemos fazer um desvio (…) pela palavra do outro para escutar o eco das nossas próprias palavras. Não se trata da utilização do outro, mas da força do encontro e do diálogo. A narrativa do outro homem vem fraturar-me, abrir-me a outra dimensão do mundo e de mim mesmo. Encontrar a palavra do outro pode conduzir-me a mim mesmo».
É o diálogo do leitor com a história (que lê, ouve ou vê dramatizada); o diálogo consigo mesmo (pela introspeção) e o diálogo do leitor com o livro ou outros participantes nas atividades de leitura. Para além disso, o diálogo assenta na linguagem da palavra: as palavras que compõem a história; as palavras com as quais o(s) indivíduo(s) alvo do processo de leitura se expressa(m); as palavras que o leitor vai ler e/ou escutar ativamente e acolher com respeito.
A palavra e o diálogo são determinantes para o cuidado e a transformação do ser humano.
A prática da leitura é um parêntese na rotina diária, uma oportunidade para pôr em pausa a agitação, o excesso de solicitações, as preocupações, as distrações, a híper estimulação e até o entorpecimento que a vida contemporânea acarreta.
Abraçar novas perspetivas, novas atitudes, novas formas de pensar e agir; sentir-se acolhido, entendido pelos personagens das histórias; a partir daí, recuperar o alento, reforçar a autoestima, sentir-se harmonizado, com uma capacidade renovada para continuar a cuidar de si e dos outros e encarar os desafios do quotidiano de forma saudável. Tudo isto é, para mim, e de acordo com as minhas palavras, o que define a prática de uma boa leitura.
Leitura na perspetiva de Franz Kafka quando afirma que só devemos ler o tipo de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos a ler não nos acorda com uma pancada na cabeça, porque o lemos?
A LEITURA COMO REMÉDIO

Façamos uma rápida referência a um dos livros da vida da autora, Sandra Barão Nobre, (e também nosso). Procuremos na sua farmácia literária a obra de Leo Tolstoi – A morte de Ivan Illicht.

Podemos considerá-lo como um livro remédio para o leitor, porquanto, a partir deste curto romance, temos o ensejo de abordar temas, como refere Sandra Nobre, como o sentido da vida, a busca de significado, a identificação do propósito para esta curta passagem pelo planeta, o autoconhecimento e a autoestima, o papel das convenções sociais e a pressão destas sobre a natureza de cada um, o tomar das rédeas da própria vida, a capacidade de decidir, a assertividade, a felicidade.
APELO
Temos imensa pena, de acordo com o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística, em 2022, quando constatamos que 58,1% dos portugueses, com 16 ou mais anos, não tenha lido um único livro nos 12 meses anteriores àquela auscultação. O número é claro: a maioria dos portugueses não lê.
Não somos, infelizmente, um povo leitor.
Desprezando o ensejo que uma boa leitura nos pode propiciar, dando largas à nossa imaginação inventiva e criadora, na maior parte do tempo, não passamos de um povo doente, enfermo, que lança sobre os outros o veneno das suas frustrações e fracassos, invejando tudo e todos.
Não é por acaso que a obra maior, que consagramos na nossa lusitaneidade – Os Lusíadas - acaba com a expressão “ter inveja”.
Devemos sair do nosso casulo da mesquinhez e aventurarmo-nos, como os portugueses de antanho, mar adentro, numa nova gesta de ser português nos tempos desafiantes que nos esperam. Paremos de criticar e ter inveja dos outros. Debrucemo-nos sobre nós próprios, cultivemo-nos, abramos os olhos para um mundo e uma sociedade cada vez mais complexa e, por isso mesmo, mais desafiante.
Não façamos como os políticos da nossa praça que, à pequena contrariedade e fracasso, abandonam o barco e se lançam à conquista das premissas dos eldorados cobiçados por esse mundo fora, deixando-nos a chafurdar no pântano que eles também ajudaram a criar, lançando-nos no lamaçal em que hoje vivemos.
Leiamos atentamente o que nos relata António Granja na sua obra Grande aventura [Cenas da Grande Guerra]:
“[…] Conta-se que um oficial francês que, tendo ficado feridos ou mortos sob um bombardeamento quase todos os seus homens, e tendo os poucos ilesos procurando uma fuga, ao ver a primeira vaga inimiga, trepara ao parapeito, e, na transfiguração épica que dão as grandes horas, comandara:
- Mortos, a pé!
E os feridos levantaram-se, as metralhadoras começaram a crepitar e o assalto foi repelido.
Parece haver muitos portugueses que trazem dentro de si os corações mortos.
A nossa vida parece estar já nos nossos olhos para nos odiarmos, e nos nossos lábios para caluniarmo-nos.
Aos homens que na África e na Flandres afrontaram a morte compete saltar para o parapeito [saírem das suas covas] e gritar a esses corações: Mortos, a pé!” (Granjo, 1919: capítulo ‘Por Portugal’), para que o Portugal por que «sonhamos» se cumpra!
António de Souza e Silva
