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zassu

23
Jan20

Palavras Soltas - Lucidez na velhice ou tristeza?

 

PALAVRAS SOLTAS

 

LUCIDEZ NA VELHICE OU TRISTEZA?

 

01.- 'Woman_in_Three_Stages'_by_Edvard_Munch,_Bergen_Kunstmuseum

(Woman: Three Stages, Edvard Munch, 1894)

 

A velhice não é apenas um fenômeno biológico e psicológico.

Depende do modo como cada cultura

e sociedade concebem o que é ser jovem e velho,

bem como a intensidade do valor atribuído a cada uma dessas etapas da vida.

Particularmente hoje, com a aceleração do tempo

e a apologia da boa forma e da performance,

a velhice é repetidas vezes negada.

(…) ser velho é um destino,

e que, na passagem do tempo,

é a condição humana que prevalece.

 

Maria Ester de Freitas

 

 

É assim o resumo, acima citado, do texto que Maria Ester de Freitas faz no seu artigo «Velhice com destino», na Revista GV Executivo, 58 • VOL.5 • Nº5 • NOV./DEZ. 2006, na rubrica «Especial Longevidade».

 

E não resistimos em citar a primeira parte do seu artigo:

“Apesar de as sociedades contemporâneas, particularmente as ocidentais, valorizarem exageradamente a juventude e a beleza corporal, como atesta o crescimento vertiginoso da indústria de bens e serviços estéticos, cosméticos e de cirurgias plásticas, a busca do rejuvenescimento e da beleza duradoura perde-se nas brumas do tempo. Mitos dão conta de alguns exemplos, como o caso da discórdia, no Olimpo, entre Afrodite, Hera e Atena, para a escolha da mais bela. Ou mesmo a tragédia que se abate sobre Narciso, o jovem eternamente  belo. Personagens históricos belos e sedutores podem ser representados por Cleópatra e seus cuidados com a pele ou por Casanova e seu zelo com o corpo e a mente. A literatura adulta também dá o seu testemunho da obsessão pela beleza e juventude com Dorian Gray; com o acordo de alma feito por Fausto e Mefistófeles; com o encanto físico e linguístico de Don Juan, etc. Em todos esses casos, existe um embate entre o Bem e o Mal, cujo final quase sempre é o de uma alma perdida vagando ou da morte pura e simples. O Bem é quase sempre jovem e lindo, enquanto a feiura tem a cara velha

02.- veijo 2

e malvada do Mal. Juventude e velhice. O significado de belo é difícil de ser consensual, porém o que é a juventude é quase um ponto pacífico, ainda que os limites que separam os jovens dos velhos sejam culturalmente determinados e historicamente mutáveis. A juventude é o momento da vida em que existe o futuro, no qual as capacidades físicas e intelectuais estão em ascensão e o organismo se fortifica e torna-se mais resistente. Já na velhice, o futuro não existe e o presente é ambíguo, ao passo que o passado retorna na forma de lembranças, delírios, devaneios, hábitos empedernidos e teimosias irascíveis. Ser velho e doente são quase sinônimos. Numa comparação como essa, não poderiam deixar de ser compreensíveis os motivos que levam indivíduos e sociedades a considerar a velhice um estorvo, um mal a ser evitado, um tabu e uma fase da vida a ser negada. O orgulho próprio da juventude, e de uma vida adulta saudável, leva-nos a esquecer (ou a negar) que cada um de nós traz o velho dentro de si. Eufemismos como “a melhor idade” traduzem muito mais uma ironia e um cinismo que um consolo ou uma verdade, pois ninguém em sã consciência diria que no momento em que o corpo se degrada de todas as formas se tem o melhor da vida. Por outro lado, a lucidez aparece como o maior elogio que se pode fazer a alguém. A expressão “mas ele continua lúcido” é uma forma de mascarar as outras deficiências e valorizar o que ainda resta do sujeito, como se ele apresentasse um atributo positivo pelo qual é responsável e que é digno de registo.

Envelhecer é um tema que incomoda os jovens, adultos e velhos. Incomoda os velhos porque eles podem ficar ainda mais velhos; mas provoca em todos nós a necessidade de pensar no próprio destino, na transformação a ser operada pelo tempo, pensar que existe uma lei da vida que faz do declínio algo inexorável.

A velhice chega, inevitavelmente, com o tempo: ela se enreda na passagem dos nossos melhores dias e de forma tão silenciosa que não percebemos o ponto de inflexão que nos transforma em velhos. É claro que observamos mudanças na aparência, no vigor físico, nas falhas da memória e em outros sinais, mas não sabemos exatamente em que momento ficamos velhos, em que momento o nosso organismo começou a exibir os traços do declínio. A velhice é um fenômeno biológico dinâmico que provoca alterações profundas no nosso corpo, além daquelas que aparecem no espelho”.

 

A autora acima fala-nos que, na velhice, «a lucidez aparece como o maior elogio que se pode fazer a alguém».

 

É esta também a opinião do nosso Teixeira de Pascoaes no texto que aqui deixamos, da sua obra «Saudade e Saudosismo»:

“A mocidade é noivado, como a velhice é viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, é noivo ainda; e um velho, embora casado, é já viúvo... um solitário guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu espírito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza é o que resta dum incêndio, essa purificação suprema. Por isso, a consciência é um atributo da velhice, e também a ciência. A consciência é a ciência connosco, a ciência identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice é uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera límpida ou varrida pelo zéfiro da morte, a única Deusa verdadeira”.

03.- Guido_Reni_-_St_Matthew_and_the_Angel_-_WGA19308

(Guido Reni – São Mateus e o Anjo)

Ligeiramente diferente era a opinião «caustica» do «agreste» Miguel Torga quando, em 1 de maio de 1974, falando da velhice, sentenciava: «A Velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez».

 

Neste ponto, Chico Buarque, em certo sentido, segue o nosso poeta transmontano quando afirma que «nem toda a loucura é genial, nem toda a lucidez é velhice».

 

Outros autores «pintam-nos» a velhice com cores menos sombrios e mais garridas.

 

E o caso Cláudia Márcia Teixeira Santos et al., quando nos fala dos pintores, no artigo «A temática da velhice em pinturas expressionistas»:

“O ápice do expressionismo, ocorrido no início do século XX, trouxe às telas de seus precursores cores vivas e expressivas, deixando obras extraordinárias de seus representantes. Dentre estes, vários pintores retrataram com grande beleza a faceta da evolução humana na fase do envelhecimento, contribuindo para o entendimento dessa fase da vida de forma nostálgica e engrandecedora por meio de cores, formas e expressões”.

van-gogh

(Vicent van Gogh, At Eternity's Gate, 1882)

Em jeito de remate, e face a opiniões tão díspares quanto a esta fase da vida humana, estamos com Stendhal quando nos diz que a velhice é essa época da vida em que se julga a vida e em que os prazeres do orgulho se revelam em toda a sua miséria.

 

Quem sabe, talvez o que resta, mesmo no fim de tudo, seja

 

Tristêza

O sol do outomno, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir...

Eis como a minha vida vae passando
Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir
Silencios da minh'alma e o resurgir
De mortos que me fôram sepultando...

E fico mudo, extatico, parado
E quasi sem sentidos, mergulhando
Na minha viva e funda intimidade...

Só a longinqua estrela em mim actua...
Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
Petreficada esphinge de saudade...

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'

04.- assistência-ao-idoso

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