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05
Mar21

Palavras Soltas... - Comentário à obra|comunicação «La ciudad dispersa y las aldeas virtuales. Los estudios geogtáficos y el entorno a la cultura» - Primeira Parte

PALAVRAS SOLTAS...

 

COMENTÁRIO

À OBRA|COMUNICAÇÃO DE CARLOS FERRÁS SEXTO

 

«LA CIUDAD DISPERSA Y LAS ALDEAS VIRTUALES. LOS ESTUDIOS GEOGRÁFICOS Y EL RETORNO A LA CULTURA»

PRIMEIRA PARTE

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DESENVOLVIMENTO DAS PRINCIPAIS IDEIAS

 

CARLOS FERRÁS SEXTO, na sua Introdução, explica o quadro do projeto de investigação em que a sua comunicação se insere - «A contra-urbanização e as políticas de desenvolvimento rural-regional». Refere que a mesma representa as primeiras conclusões da sua investigação e reflexão comparada que levou a cabo no Condado de Staffordshire-Inglaterra, sob o assessoreamento do Professor John Naylon e, com o trabalho de campo que levou a cabo na cidade de Newcastle Under Lyme e nas paróquias de Bartley e Keele, e que pretendia dar resposta à seguinte pergunta: “Como se podia estudar, desde o ponto de vista da geografia, as novas relações rural-urbanas de fim de século?” (Sublinhado nosso).

 

1.- CIDADE DISPERSA

Segundo o autor, a “identificação do Declínio das Cidades postindustriais e o Renascimento Rural postprodutivo”, em conformidade com os autores que cita como BERRY, CLOKE, HALL, FIELDING, entre outros, é um “processo de mudança que traz consigo a superação da Urbanização Industrial, caracterizada pela concentração demográfica e o emprego não agrário em grandes aglomerações urbanas, a favor da Urbanização Postindustrial, onde a desconcentração é dominante”. Assim surge o conceito de Cidade Dispersa, em oposição e substituindo a Cidade Compacta, fordista, dos «Trinta Gloriosos» que, segundo o Autor, está associado, e em íntima relação, com a difusão da urbanização do campo.

 

Com a Cidade Dispersa, o êxodo do campo-cidade transformou-se no sentido contrário, ou seja, êxodo cidade-campo, ao se verificar que um grande número de famílias e indivíduos abandonam a cidade para fixarem residência nos espaços rurais tradicionais, atraídos por imagens bucólicas do campo e «fustigados» por aquilo que, na linha de FONT et al designamos pelas novas «terrae incognitae», do Quarto Mundo, de matriz Ocidental.

 

Com efeito, o êxodo das famílias e indivíduos dos núcleos urbanos tem ínsito uma nova conceção de cidade cuja característica principal é a dispersão, definidora de um novo processo de urbanização. Associado a este novo processo de urbanização andam dois conceitos: o de contra-urbanização e o de suburbanização. O primeiro, e ainda segundo o nosso Autor, citando CLOKE (1985), a favor de um novo renascimento das áreas rurais remotas; o segundo, a favor de áreas rurais próximas das cidades.

 

Fatores económicos, nomeadamente relacionados com a crise das indústrias tradicionais de fabricação de automóveis, aço ou têxtil mediante a competência de novos países industrializados ou em vias de industrialização bem como a aparição de novas indústrias de alta qualificação técnica como a aeroespacial ou a eletrónica, que se localizam foram das grandes aglomerações urbanas bem assim ainda os fatores sociais e culturais, decorrentes dos económicos, levam a que um número cada vez maior de pessoas prefiram viver e instalar-se fora das aglomerações urbanas atraídas por novos empregos que nelas se localizam. Por outro lado, considerações sobre o meio ambiente com menos contaminações, melhor qualidade da habitação e a menores custos e uma maior segurança cidadã, andam também aliados ao fenómeno da desconcentração [veja-se FIELDING, A. J.: «Contra-urbanização: Ameaça ou Bênção?», in PINDER, David (Org.) (1994): Europa Ocidental – Desafios e Mudanças, Oeiras, Celta Editora, pág.s 295-313].

 

O autor refere ainda na sua comunicação que os estudos levados a cabo sobre a Cidade Dispersa, ou sobre os fenómenos associados com a desconcentração urbana ou o renascimento rural foram elaborados fundamentalmente a partir de estatísticas demográficas gerais e, salvo raras exceções, os autores/investigadores, a partir daqui, elaboraram as suas teorias. O nosso Autor, CARLOS FERRÁS aconselha a que se façam mais estudos de detalhe que possam permitir “um maior conhecimento das implicações que geram nas comunidades rurais e o significado para a urbanização e a cidade do futuro” (O trabalho de FIELDING acima citado achamos muito oportuno para o efeito).

 

Segundo ainda CARLOS FERRÁS, e na perspetiva dos investigadores urbanos, o Declínio Urbano postindustrial, manifestando-se na perda da população das grandes concentrações urbanas, “é uma fase da evolução das cidades, ainda que não exista acordo sobre se esta é irreversível ou transitória”. Na perspetiva dos investigadores rurais, a urbanização do campo é um processo que “adquire maior relevância com o passar do tempo” (veja-se «CAP. IV.- Dos novos desafios à nova abordagem», in SOUTO GONZÁLEZ et al (2001): Planeamento Estratéxico e Mercadotecnia Territorial, Vigo, Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, pág.s 63 a 71).

 

A contra urbanização contribui para a difusão da urbanização no território e na sociedade, implicando assim a difusão de valores, de hábitos, de cultura e de atividades económicas mais relacionadas com o espaço urbano no espaço rural.

 

Contudo, e como muito bem diz o nosso autor, reportando-se aos trabalhos dos investigadores sociais, “a difusão do urbano é espacial e socialmente seletivas”, provocadora de desigualdades e contradições bem assim, e ainda segundo o nosso Autor, criadora de desherarquização dos sistemas de povoamento, de ineficiências funcionais, de impactos ambientais, da dependência excessiva do automóvel, dos deslocamentos diários em massa, do desperdício energético e dos recursos para dotar de serviços uma população desconcentrada ou a ocupação indiscriminada de grande parte de parcelas de solo rural (veja-se também a este propósito o artigo de FIELDING já supra citado) .

 

2.- AS ALDEIAS VIRTUAIS COMO HIPÉRBOLE SOCIAL

Concordamos com CARLOS FERRÁS quando afirma que existe uma imagem bucólica do campo entre as famílias urbanas, razão pela qual se estão criando autênticas Aldeias Virtuais na perceção das famílias acomodadas de origem urbana que procuram satisfazer o seu desejo de fugir do ruído da cidade, da poluição e dos perigos que podem chegar a seus filhos.

 

Neste sentido, o meio rural postindustrial converte-se numa construção cultural mercantilizada.

 

Os meios de comunicação e determinadas campanhas publicitárias, as empresas imobiliárias, ou seja, a aldeia em potência ou possível, onde não existem problemas e a harmonia e convivência é perfeita para o desenvolvimento humano, mercantilizam o desejo de se escapar dos perigos e vícios das grandes metrópoles, de «possuir uma casa no campo», na mais estreita obediência aos interesses capitalistas e do mercado. Assim, “o desejo das famílias de viver numa casa unifamiliar ampla no campo, rodeada de amplos espaços verdes e num meio ambiente tranquilo, mas bem ligada por uma auto-estrada com a cidade, converteu-se num estereotipo internacional”.

           

Desta forma, aliado ao conceito de Cidade Dispersa joga um papel fundamental a imagem virtual dos valores culturais relativos ao urbano e ao rural. “Viver no campo sem renunciar às comodidades da cidade” é, no dizer de CARLOS FERRÁS, um projeto que reflete o histórico e tradicional desejo dos britânicos de viver no campo, com o mais profundo significado pela circunstância de terem sidos eles os pioneiros da industrialização e da urbanização no século XVIII.

 

Em conclusão, «Construir uma casa no campo», imagem essencialmente criada de forma idílica pelas empresas imobiliárias, de molde a ampliarem e diversificarem os seus negócios, tem por trás de si o conceito de Aldeias Virtuais, mais entendido como uma «hipérbole social» do que um novo «construto social».

 

3.- A NECESSIDADE DO ESTUDO DOS SIGNIFICADOS CULTURAIS DAS RURALIDADES

 Segundo ainda CARLOS FERRÁS, antes de 1950 primava o regionalismo segundo o qual os estudos geográficos descreviam individualmente a cidade e o campo como duas partes integrantes da região; depois de 1950, os estudos de geografia aplicada desenvolveram-se no sentido de contribuir para a planificação do campo e da cidade; atualmente, as novas formas de teorização das ciências sociais vinculadas à economia política, ao postmodermismo e ao postestruturalismo obrigam o geógrafo a procurar novas formas de análise do campo e da cidade, ou seja, “já não é suficiente o estudo morfológico ou estrutural da paisagem e da tecnologia”, impõe-se agora “a necessidade de estudar a cultura social como elemento fundamental para compreender o comportamento do ser humano e as relações que estabelece com o meio urbano e rural. O postmodernismo enfatiza-nos a ideia de superação da tirania urbana associada ao racionalismo cartesiano e à confiança cega no binómio razão-progresso, e apresenta-nos a ruralidade como uma categoria discursiva, socialmente construída, ambígua e ambivalente, numa sociedade post-rural”.

 

Ao conformar Cidade Dispersa com o conceito e em relação com a «criação» das Aldeias Virtuais, com a consequente mudança de valores que tem experimentado a sociedade postindustrial, CARLOS FERRÁS remata dizendo que devemos “prestar mais atenção à cultura como elemento de análise espacial”. Os geógrafos, diz, devem “analisar documentos escritos como novelas, periódicos ou revistas, documentos visuais como fotografias, quadros pictóricos, mapas, material de propaganda, postais, películas, programas de televisão ou vídeos amadores (pessoais) e promocionais, além das mensagens e sons provenientes da telefonia ou da música popular”.

 

Parafraseando ainda uma vez mais o nosso Autor, “devemos superar o fetichismo numérico, ou seja, a quantificação obsessiva do comportamento do ser humano, e encontrar a interpretação qualitativa da condição cultural dos indivíduos e das sociedades de que fazem parte (...) A mercadotecnia vende imagens de estilo de vida ideais em conformidade com os valores culturais das pessoas”.

 

Em suma, e na nossa opinião, CARLOS FERRÁS «apela» para a necessidade de o Geógrafo utilizar novas metodologias, novos enfoques metodológicos perante o novo paradigma social do «viver humano profusamente urbano».

 

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