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09
Mar21

Palavras Soltas... - Breves notas sobre os artigos de Dematteis e Bagnasco - Cap. I - Novas formas de organização territorial

PALAVRAS SOLTAS...

 

BREVES NOTAS SOBRE OS ARTIGOS DE DEMATTEIS E BAGNASCO

 

CAPÍTULO I 

NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO TERRITORIAL

(GIUSEPPE DEMATTEIS)

 

Tudo começou com a Revolução do Neolítico,

logo que os nossos longínquos antepassados começaram a renunciar à vida errante das tribos de caçadores-predadores.

Para selecionar as raças de animais suscetíveis de serem domesticados, e as espécies vegetais cultiváveis,

foram conduzidos a transformar os seus territórios, a desbravar florestas, a sanear pântanos, a construir,

nos vales do Nilo e do Eufrates, os primeiros ordenamentos hidráulicos.

                Esta Revolução impôs também uma especialização do trabalho entre agricultores, artesãos,

comerciantes e guerreiros que protegiam as reservas alimentares contra rapinas das tribos de caçadores.

As primeiras cidades foram edificadas e a organização social tornou-se mais complexa.

Desde então, esses aspetos da atividade das sociedades humanas não cessaram de evoluir em conjunto:

os modos de ocupação dos territórios continuam sempre determinados,

numa larga medida, pelos sistemas económicos e pelo tipo de civilização

 

(LACAZE, 1998:13-14).

 

“(...) a cidade é um sistema social de grande complexidade que, por assim dizer,

apresenta no seu interior, de forma «concentrada», a quase totalidade dos fenómenos típicos de sistemas de dimensões mais amplos,

como as sociedades nacionais ou mesmo os sistemas internacionais. Por conseguinte,

não se presta a ser interpretada por meio de uma única chave de leitura,

nem se pode dizer que existe uma dimensão prioritária do fenómeno urbano, ou seja,

uma dimensão que determina todas as outras e está em condições de as explicar.

Pode, pois, afirmar-se (ou deve mesmo afirmar-se) que a cidade é simultaneamente um fenómeno

económico, político, cultural, etc., e acrescentar que todo o aspeto está ligado indissoluvelmente aos outros,

por isso, e influenciado por eles é, ao mesmo tempo, contribui para os definir

 

 (MELA, 1999:43).

 

É o que deixam perceber os futuristas e os filósofos ao estimarem

que o desenvolvimento das telecomunicações e dos transportes

acabará por dissolver as cidades num imenso «continuum»

semeado de unidades de habitação autónomas e intercomunicantes.

É o que creem certos sociólogos, que veem desaparecer algumas das formas tradicionais de vida urbana.

É o que preocupa os politólogos, confrontados com a fragmentação dos interesses

coletivos e com a desligitimação das instituições urbanas.

É a isto que os urbanistas procuram opor-se, consagrando os seus esforços na tentativa de recriar a antiga urbanidade,

fazendo e refazendo a cidade como outrora. Agitando estas perspetivas inquietantes

de uma não-cidade em proliferação e sem coesão social – como uma gangrena que ataca zonas extensas

em volta das grandes cidades abafadas pelo seu próprio crescimento

e que deixa o resto do território abandonado – os políticos tornam-se,

então os apóstolos de um ordenamento do território que teria como princípio «o equilíbrio»,

e por prioridade o rural e o urbano profundos.

                O mérito de todas estas teses é o de colocar as cidades no centro das interrogações

sobre o futuro das sociedades industrializadas e urbanizadas

 

(ASCHER,1998:1-2).

 

01.- 812acovas

Neste texto, GIUSEPPE DEMATTEIS, segundo PETROS PETSIMERIS, vê a contra urbanização e a desconcentração urbana como novas formas de organização do território.

 

Servindo-se  do contributo do geógrafo americano B. BERRY quando, nos inícios dos anos 70, ao examinar os dados demográficos relativos às cidades dos Estados Unidos, utilizou o termo «contra urbanização» para significar que, ao contrário do passado, e nos começos da Revolução Industrial, que se observava uma inversão de tendência na distribuição geográfica das taxas de crescimento da população, ou seja, as áreas centrais (grandes cidades, áreas metropolitanas) tinham taxas de crescimento muito altas em comparação com as áreas não metropolitanas (cidades pequenas e médias e zonas rurais – que regrediam) e que agora sucede o contrário, DEMATTEIS refere que, também anos depois, nos países da Europa Ocidental industrializada, se passou o mesmo. Por outro lado, diz ainda que se se aprofundar a análise, não à escala da cidade mas dos sistemas urbanos, considerados isoladamente, verificou-se que o declínio  urbano se propaga das zonas centrais das áreas urbanas até às periferias, introduzindo assim aqui a hipótese de um ciclo de vida das cidades, quer dizer, o desenvolvimento urbano, no período médio e longo, propagar-se-ia de forma cíclica, partindo primeiro dos centros metropolitanos (core), passando depois para os seus centros externos (ring), indo depois ainda para os centros menores das regiões não metropolitanas para, no final do ciclo, voltar a afectar os mesmos centro urbanos de partida, seguindo assim aqui os quatro estádios, na óptica do «Grupo de Vienna Centre», quando utilizou como sistema de referência a Região Funcional Urbana (RFU): Urbanização; Suburbanização; Desurbanização e Reurbanização.

 

Mas, para DEMATTEIS, na óptica de PETSIMERIS, estes modelos, assim como o paradigma da tidal wave, que remonta já a BLUMENFELD (1949), funcionam apenas como «representações analógico-metafóricas» destes fenómenos e, por isso, não explicam total e cabalmente aquilo que designa pelos “aspectos mais relevantes dos complexos processos de urbanização”. Estes modelos foram e são metáforas úteis no plano empírico-descritivo ao permitem reunir e confrontar dados sobre regiões e países diferentes.

 

Para DEMATTEIS é necessário passar através do reconhecimento “das dimensões mais vastas da organização territorial”, ou seja, por uma mudança de escala, e também pelo reconhecimento “de uma nova organização do território de tipo reticular”.

 

A nova forma de mobilidade territorial das famílias opera de tal forma que os movimentos demográficos que se dão dentro de uma RFU tem o mesmo significado dos que, no passado, tinham lugar entre distintos sectores de um só centro urbano”. Deste jeito, na apreciação da diferente escala de análise (entre centro urbano e sistema urbano/RFU) há que atender muito bem ao conceito de contra urbanização. O mesmo se passando também com o de desurbanização pois não é correto falar-se de desurbanização à escala da RFU, “só porque algum centro do mesmo sistema esteja em fase de declínio, mesmo que seja o sistema principal”.

 

DEMATTEIS refere que o maior crescimento dos sistemas menores e periféricos deriva do saldo de dois movimentos: por um lado, do descentramento dos postos de trabalho num momento localizados ou localizáveis nos sistemas metropolitanos que se mudam ou criam «ex novo» nos sistemas menores; por outro, na centralização que leva para os centros metropolitanos novos postos de trabalho, quase sempre ligados a atividades muito qualificadas e não presentes, nos sistemas menores. As áreas metropolitanas compactas (tal como enormes manchas de óleo à volta das maiores cidades) dos finais dos anos 60 cedem lugar a «novos campos de externalidades» que já não têm forma compacta, nem um raio tão limitado. Agora configuram-se em redes, articuladas em centros e sistemas urbanos pequenos e grandes, sobre extensões territoriais que tendem a ser nacionais e internacionais.

 

Desta forma, para DEMATTEIS, a circunstância do aparecimento de novos e vastos «campos de externalidades» dá, por sua vez, origem a que se produzam novas externalidades metropolitanas favoráveis ao desenvolvimento centrado de atividades terciárias superiores e de tecnologias avançadas, favorecendo, por esta via, o descentramento de redes de muitas das velhas atividades metropolitanas. Nestes termos reforça-se ainda mais a dependência hierárquica entre o nível metropolitano e os sistemas menores, embora esta diferença seja mais qualitativa que quantitativa (sistema piramidal).

 

E assim DEMATTEIS «arrasta-nos» para a análise das novas dimensões territoriais de forte relevância geográfica como a «despolarização/polarização seletiva», a «nova divisão espacial do trabalho» (NDET), ou como outros, a nova divisão espacial funcional do trabalho (NDEFT), a “nova articulação espacial da procura e da oferta do trabalho e serviços» e, finalmente, “«fatores endógenos de diferenciação territorial». Ou seja, para DEMATTEIS, o que agora aqui está em causa não é o fenómeno polarização/descentramento mas uma nova fase de polarização pouco seletiva, “que tinha em conta também atividades manufatureiras de alta intensidade e trabalho pouco qualificado, a uma fase muito mais seletiva”.

 

Assim, segundo DEMATTEIS, a desconcentração e a contra urbanização à escala suprarregional, observadas nos últimos 15 anos, vão a par com os processos de reestruturação económica entretanto verificados que têm, entre outros, por base as inovações  de carácter tecnológico e organizativo que permitiram uma articulação do território de uma forma mais vasta por parte das empresas multilocalizadas, graças ao nível e à  expansão das infraestruturas materiais e sociais, numa grande parte do território nos países industrializados, permitindo uma maior difusão e mobilidade das atividades económicas no território. As novas dinâmicas económicas, sociais e políticas e as formas espaciais de elas derivam «obrigam-nos» a substituir a ideia clássica de posição geográfica relativa ou absoluta pela de posição relacional, a qual se refere a um espaço descontínuo e não homogéneo.

 

Segundo nos parece inferir, pela leitura do texto que estamos sumariando, para DEMATTEIS, num mundo e numa economia cada vez mais global, o espaço possui características que mudam de lugar a lugar, “segundo a disposição e a superposição de distintas redes de relações económicas, culturais e políticas que passam por cada um deles”. Ou seja, cada lugar e cada sujeito localizado pode pertencer a redes distintas, com interações a escalas distintas.

 

Neste sentido, a comunidade de interesses baseada na contiguidade de áreas a nível social e regional debilitou-se muito, “seccionando em muitos segmentos as sociedades locais, particularmente as mais complexas, urbanas e metropolitanas”, trazendo assim, ao de cima, a problemática da sua nova gestão e governabilidade.

 

Finalmente para DEMATTEIS, no ponto de vista de PETSIMERIS, para a análise das transformações territoriais, é importante analisar não só os aspetos quantitativos da desconcentração urbana como também, e sobretudo, a evolução das interações entre funções economia e espaço e espaço e sociedade. Porque, se queremos ir mais longe, “devemos ser capazes de elaborar novas representações do território, novos modelos interpretativos capazes de levar a cabo as mesmas funções que os velhos, mas também mais adaptados às novas situações”.

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