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18
Mar21

Palavras Soltas... - A Sociedade «sobremoderna» - Cap. IV - Cidade «sobremoderna» e processo de «metapolização»

PALAVRAS SOLTAS...

 

A SOCIEDADE «SOBREMODERNA»

  

CAPÍTULO IV

CIDADE «SOBREMODERNA» E PROCESSO DE «METAPOLIZAÇÃO»

05.- sampms7

Quando nos referíamos à urbanização e à cidade fordista, dizíamos que se tratava de uma formação de um «estrato urbano» desigualmente repartido, cujas características estavam fortemente ligadas não só a lógicas económicas, mas sobretudo, a lógicas sociais, políticas, culturais, científicas e técnicas coerentes, porque partilhavam os mesmos paradigmas ou noções vizinhas. A análise que temos vindo a realizar sobre as dinâmicas em ação nas novas formas de organização das atividades permite elaborar algumas hipóteses sobre as potenciais componentes económicas de uma nova coerência, de um novo ciclo, a que vimos apelidando de «sobremoderno».

 

Da mesma forma que as cidades precedentes não foram totalmente transformadas pelo fordismo, também as metrópoles atuais não serão totalmente subvertidas pela expressão utilizada por ASCHER de «metapolização». De resto não é adquirido que cada época construa coerências tão fortes como aquelas que caracterizaram «Os Trinta Gloriosos». Poderemos, contudo, por nos esforçar em encontrar ou identificar as transformações mais características, para eventual emergência de uma nova coerência de conjunto, sintetizando, assim, as dimensões territoriais das dinâmicas económicas «sobre modernas».

 

A globalização tende para o reforço dos centros metapolitanos e megapolitanos, grandes aglomerações urbanas e em continuum, concentrando aí as funções estratégicas das empresas multinacionais e os serviços «avançados» de que têm necessidade.

 

A recomposição das atividades dos grupos multinacionais aglomera as suas atividades comerciais e de I&D em espaços «metropolitanos», mas no interior das «metápoles» estas atividades possuem localizações relativamente variadas, embora situadas sobre eixos ou nós de transportes que lhes permitam comunicar em boas condições com os centros de negócios.

 

As atividades de produção e de administração estão menos dependentes das grandes aglomerações, tendendo a localizar-se em zonas bem servidas pelas redes de transporte de mercadorias, e as atividades administrativas procuram estar conectadas com as redes de telecomunicação.

 

O aprovisionamento e a distribuição exercem poderosos efeitos centralizadores, daí que as atividades logísticas tendem a autonomizar-se e a reagruparem-se em torno ou no interior das plataformas mono ou multimodais, podendo atrair para aí as empresas para as quais a ligação direta com o mercado é particularmente estratégica.

 

Estas lógicas de recomposição desenrolam-se num duplo contexto que favorece as localizações na proximidade ou dentro das grandes aglomerações urbanas: é aí que se encontra o mercado de trabalho com a mão de obra qualificada ou altamente qualificada de que têm necessidade as indústrias e os serviços em grande desenvolvimento; e é também aí que a produção de infraestruturas e de edifícios é a mais pertinente e a mais rendível de um ponto de vista estritamente económico.

 

Desta forma, as dinâmicas «sobremodermas» são, por isso, fortemente metropolitanas, contribuindo para a aludida formação das «metápoles».

 

Segundo ASCHER (:73), “alguns autores pretenderam, apesar disso, vislumbrar nas dinâmicas da «terceira Itália» ou na região de Choletais a emergência de novas modalidades de «distritos industriais», isto é, zonas não necessariamente metropolitanas, mas nas quais as formas de cooperação e as sinergias entre empresas de dimensão diversa permitem o desenvolvimento de uma «especialização flexível», particularmente competitiva”. Evidentemente que estas teses seduziram os partidários do «desenvolvimento endógeno», convencidos de que uma forte cultura local comum e uma mobilização coletiva podiam constituir os ingredientes necessários e decisivos do desenvolvimento económico e até da competitividade internacional.

 

Criticando a «utopia pós-industrial», alguns autores consideram que as problemáticas em termos de desenvolvimento endógeno exageram a «desintegração vertical» das grandes empresas e o papel do local. Muito pelo contrário, insistem mais na necessária integração dos territórios na economia globalizada. Insistem. É sobretudo nas «metápoles» que esta integração é mais fácil: é lá que, simultaneamente, as grandes empresas encontram os nós de comunicação e de interconexão das redes, os espaços diversificados para as suas diferentes funções, os mercados de trabalho de que necessitam, o potencial científico e técnico no qual se devem apoiar. É, concluem, nas «metápoles» que encontram as «externalidades» indispensáveis à sua competitividade e é também lá que as pequenas empresas podem achar o maior número de oportunidades.

 

Para estes autores, particularmente ASCHER, as «metápoles» servem assim de quadro para uma mutualização das despesas urbanas, as quais tomam cada vez mais a forma de centralizações funcionais: centros de negócios, centros comerciais, centros de comunicações avançadas, plataformas logísticas, tecnopolos, parques de atividades científicas e tecnológicas e também parques de lazer, etc.

 

É o aparecimento, no dizer de BARATA SALGUEIRO (:226), dos “«enclaves», na «mistura de usos», no «padrão aleatório» dos novos acontecimentos urbanos, que ora surgem no centro, ora na periferia, uns são fruto da reabilitação de imóveis degradados, outros nascem com a renovação de áreas obsoletas, outros ainda são construídos de raiz num sítio que rapidamente ganhou acessibilidade ou, pelo contrário, cujo isolamento permite adquirir o solo a baixos custos, como no caso da habitação social” Enfim, o surgimento da «cidade fragmentada», ainda segundo aquela autora. Mas a «cidade fragmentada» não substitui a «cidade segregada» na medida em que não desaparecem as situações de segregação sócio espacial. Em primeiro lugar, porque a fragmentação pode ser vista como uma segregação à escala micro, um patchwork ou manta de retalhos, em vez de organização em grandes manchas a que os modelos da «Escola Ecológica» nos habituaram; mas, por outro lado, existe uma profunda inércia nas sociedades e no espaço que dificulta a emergência do novo padrão. O que importa salientar é que, também, e paralelamente à segregação, surgem casos em que grupos sociais partilham o mesmo espaço. Isto é particularmente nítido nos bairros antigos com qualidade ambiental e patrimonial que têm sido objeto de ações pontuais de «nobilitação» (gentrification), surgindo prédios de prestígio em sítios pouco valorizados, onde os «sem abrigo» procuram as portas das grandes empresas ou as montras do comércio de luxo do centro para dormir, revelando igualmente uma apropriação mais variada dos territórios.

 

Assim, a multiplicidade dos atores económicos, políticos e sociais nas aglomerações, fazem da «metápole», na fórmula de PIERRE VELTZ, uma «seguradora de riscos»: em caso de falência de um subcontratado, torna-se mais fácil numa cidade muito grande do que numa pequena encontrar rapidamente um substituto; é mais fácil mudar de tecnologia e encontrar novos especialistas, enfim, fazer face a diferentes perturbações.

 

As metrópoles continuam e continuarão a crescer, a concentrar uma quota crescente dos homens e da riqueza, a estenderem-se sobre territórios cada vez mais vastos, a integrar no seu sistema quotidiano zonas urbanas e rurais cada vez mais afastadas, formando «metápoles» de várias centenas de milhares ou até de vários milhões de habitantes.

 

Nas grandes aglomerações, esta evolução coloca por vezes problemas difíceis e suscita interrogações que podem ser angustiantes quer para os habitantes das zonas metapolizadas, quer para os que lhes ficam à margem.

 

Apesar disso, nenhuma política de ordenamento do território nem nenhum urbanismo se pode opor radicalmente à «metapolização» não só porque ela é provocada por dinâmicas internacionais sobre as quais as políticas nacionais e locais – mesmo que a quisessem impedir sujeitar-se-iam a ficar à margem dos processos de reforma económica global –  e apenas tendo efeitos limitados, mas porque se inscrevem num processo histórico de urbanização ligado ao próprio desenvolvimento dos meios de troca e comunicação. A globalização da economia integra cada vez mais íntima e diretamente todos os sistemas de produção e de troca, mesmo os mais particulares, em redes mundiais, fazendo simultaneamente depender o desenvolvimento local das qualidades intrínsecas da sua economia-território e da sua articulação com os fluxos internacionais de bens, de informação e de pessoas.

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