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zassu

30
Abr15

Grande Guerra (1914-1918) - 9

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS)

 

 

II

A CORRIDA ÀS ALIANÇAS E OS FATORES DE PERTURBAÇÃO DO SUL DA EUROPA

 

 

3.- Fatores de perturbação no sul da Europa

3.1.- Problemas decorrentes da corrida naval no sul da Europa

Foi neste capítulo que a diplomacia e as «habilidades» da Grã-Bretanha foram mais postas à prova, exigindo-lhe maior empenhamento. Vejamos porquê.

Eram, como vimos, cada vez mais crescentes, a partir de 1898, as preocupações do Reino Unido face às ambições navais do «impulsivo» kaiser Guilherme II e o seu «ambicioso» e incentivador Almirante Tirpitz.

Lovis-Corinth-Portrait-of-Admiral-Alfred-von-Tirpi

(Almirante Albert von Tirpitz)

Obviamente o que a Alemanha pretendia era avançar com a construção de uma marinha de alto mar que, a breve trecho, pusesse em causa a hegemonia naval britânica - a base do seu poder global.

A Grã-Bretanha não podia aceitar esta situação. Tinha de reagir pronta e fortemente.

Diz António José Telo que a “primeira preocupação do governo de Sua Majestade foi a de saber se esse desafio era para levar a sério, ou seja, se a Alemanha, que contava com uma marinha reduzida em 1898, podia efetivamente colocar em causa o poder marítimo militar britânico” (Telo, n.d.: 15).

A pergunta era simples: a partir de quando constitui a marinha alemã um perigo efetivo?

E a resposta foi pronta, imediata, e clara: “se os planos navais alemães se concretizarem, a hegemonia naval britânica estará assegurada ainda por 16 anos (ou seja, até 1914), mas, depois disso, tudo pode acontecer” (Telo, n.d.: 15).

Face a esta situação tão clara, qual foi a estratégia britânica? “Até 1914 podemos e devemos tentar o entendimento com a Alemanha, com concessões que a levem a desistir do seu programa naval; se isso não for possível, então é preferível ir para a guerra quando a nossa hegemonia naval ainda for clara e forte, ou seja, tendo como limite o ano de 1914” (Telo, n.d: 15).

Segundo A. J.Telo, “é esta resposta, muito simples, mas absolutamente decisiva, que está na base de toda a grande política britânica de 1898. É uma política dupla, aparentemente contraditória, na realidade muito lúcida” (Telo, n.d.: 16).

Londres, a partir de 1898, em negociações e contactos com a Alemanha, vai-lhe acenando coisas considerados não fundamentais, tentando obter em troca o compromisso de acabar com a corrida naval.

Quais são as questões negociáveis e não negociáveis para a Inglaterra nas relações e negociações com a Alemanha.

A.- Questões não negociáveis

Fundamentalmente impedir que a Alemanha obtenha portos no Atlântico fora do mar do Norte. Como muito bem diz Telo, (in ob. cit.), o grande problema estratégico naval da Alemanha é que tinha a sua marinha contida em dois pequenos mares regionais (o Báltico e o mar do Norte), não podendo passar para o oceano sem antes enfrentar a Royal Navy, que sairia a barrar-lhe o caminho.

Coisa diferente era se a Alemanha conseguisse um porto nas ilhas Atlânticas ou em Marrocos. Desta feita, tudo mudava e a equação do poder naval seria muito mais complicada. Dai que a preocupação da Inglaterra para com Portugal e a Espanha residia nos Açores, Madeira e Cabo Verde e nas Canárias, respetivamente.

A Inglaterra tudo fez para obter, quer de Portugal quer da Espanha, a garantia de que não seria feita qualquer concessão com significado estratégico, em qualquer dos seus portos, sem prévio consentimento de Londres. Quer Lisboa, quer Madrid, responderam afirmativamente. E veja-se só: esta garantia, secreta, foi de tal modo importante, que se manteve, no que concerne a Portugal, um dos poucos segredos mais bem guardados da política portuguesa, desconhecidos da opinião pública até muito depois da Grande Guerra (Telo, n.d. e 2010).

De 1898 a 1916, afirma A.J.Telo, “formaram-se dezenas de governos, tanto da Monarquia como da República, dos mais diversos partidos e, sempre que um governo se formava, logo o representante de Sua Majestade pedia uma audiência ao novo Ministro dos Negócios Estrangeiros para renovação das garantias secretas” (Telo, n.d.: 16). E todos os governos responderam afirmativamente. Formidável!

No âmbito das questões também não negociáveis estão as Crises de Marrocos. Ainda segundo António José Telo, “por três vezes a Alemanha tenta a sua sorte em Marrocos, e por três vezes tem de recuar perante o forte entendimento entre o Reino Unido, a França, a Rússia e a Espanha, com o apoio de Portugal. Marrocos acabará por ser dividido, mas somente entre a França, que fica com a maior parte, e a Espanha, sem qualquer fatia para a Alemanha” (Telo, n.d.: 23).

Estas crises em Marrocos foram um fator importante para a consolidação da Entente, como entendimento formal, prevendo uma estratégia militar em caso de guerra.

B.- Questões negociáveis

No que concerne particularmente a Portugal:

  • A primeira convenção secreta para uma eventual divisão das colónias portuguesas é assinada em 1898. Mas esta convenção é anulada mediante o acordo secreto respeitante aos Açores, Madeira e Cabo Verde, que já acima falámos. O que a Inglaterra consegue, muito habilmente com a Alemanha, é a sua postura de neutralidade estrita quanto à questão relacionada com a guerra bóer;
  • A segunda convenção secreta, entre a Alemanha e a Grã-Bretanha, para uma eventual divisão das colónias portuguesas, em 1912-1913. A recente República Portuguesa conhece o documento secreto e teme o pior. O acordo não se concretiza porque, manifestamente, a Alemanha não desiste da corrida naval.

Estamos de acordo com Telo e Martelo quando afirmam que foi a política de expansão naval Alemã e a consequente obtenção de um porto Atlântico fora do Mar do Norte que mais lançou Londres e Paris, juntamente com a Rússia, nos braços uns dos outros, dando fim ao célebre «conserto das nações», pela criação da Entente Cordiale.

Perfilhamos a posição de A. J. Telo quando diz que a Alemanha não percebeu, ou conseguiu entender “que havia uma linha na areia, um ponto para além do qual Londres preferia ir para a guerra do que continuar a fazer cedências” (Telo, n.d.: 17). Porque esta questão, para o Reino Unido, era o seu ponto vital!...

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