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zassu

27
Abr15

Grande Guerra (1914-1918) - 7

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS)

 

 

II

A CORRIDA ÀS ALIANÇAS E OS FATORES DE PERTURBAÇÃO DO SUL DA EUROPA

 

 

O tempo em que a Alemanha deixou

a terra a um dos seus vizinhos,

o mar ao outro, e reservou para si o céu

onde reina a pura doutrina - esse tempo acabou.

 

Bernhard Bülow,

in Hewitson, Germany and the Causes,146-147,

(citado por MacMillan, 2014:133)

 

A corrida naval era o único desafio

que a Inglaterra não podia aceitar,

pelo que o objetivo principal das cedências

era levar a Alemanha a desistir da construção

de uma grande marinha oceânica.

 

António José Telo,

(in Afonso; Gomes, 2013: 194)

 

 

 

 

1.- O «concerto (europeu) das nações»

 

A partir do Congresso de Viena, em 1815, passou a existir, praticamente até ao fim do século XIX, na Europa continental, cinco grandes potências - França, Prússia, Áustria-Hungria, Rússia e Itália (depois da unificação). Estas potências mantinham entre si um equilíbrio relativo, mercê de constantes alianças e entendimentos, muitas vezes, frágeis e periclitantes. Mantiveram-se, contudo, como blocos permanentes.

Existia um outro poder europeu, mas diferente dos cinco restantes - a Grã-Bretanha. Segundo António José Telo (n.d.: 22) “o Reino Unido não mantinha qualquer aliança com outro grande poder - na realidade, a única aliança que tinha, que já vinha de 1373, com o Tratado de Windsor, era com Portugal, um pequeno poder nesta altura. Londres fazia entendimentos pontuais com um ou outro dos grandes poderes, em regra colocando o seu peso por detrás do mais fraco, de modo a manter o equilíbrio”.

O seu grande objetivo, que não era a «justiça», era que nenhum poder continental tentasse dominar os outros. Ou seja, sua política era «dividir para reinar». Mas sempre feita e aplicada com subtileza e arte.

Para a Grã-Bretanha, conquanto as potências continentais estivessem equilibradas, bem podia estar descansada na sua acolhedora casa de campo, fumando o seu fleumático charuto e contemplando a arte «adquirida» à custa da «conquista», que o seu império lhe facultava, vivendo no seu «esplêndido isolamento».

Sabia que, enquanto as outras potências se preocupavam pelas suas forças terrestres, “nenhuma teria recursos ou o desejo de colocar em causa o seu domínio dos oceanos” (Telo, n.d.: 22). Suas contas eram fáceis - enquanto as duas maiores potências, em conjunto, não ultrapassassem a capacidade da sua frota naval, não havia motivos para preocupações. Afirma António José Telo que, se porventura “um poder continental dominasse os outros, Londres não duvidava que ele, fosse qual fosse, procuraria em seguida construir uma marinha de alto mar que pusesse em causa o seu domínio nos mares, a única coisa que precisava ser defendida e preservada a qualquer custo” (Telo, n.d.: 22).

O «concerto (europeu) das nações» era, assim, o «sossego» da Grã-Bretanha. Ameaçado esse sossego, o concerto estava posto em causa.

A paz que a Europa viveu, de 1815 até 1914, assentava neste pilar fundamental.

 

2.- O começo do fim do «concerto (europeu) das nações» - As Alianças

2.1.- Tripla Aliança

Sucede que, com a Unificação da Alemanha, em 1871, depois da rotunda derrota da França em Sedan, com a anexação da Alsácia e parte da Lorena, surgiu no centro da Europa um grande e ameaçador poder - científico, tecnológico, económico, comercial e militar.

Não admira, pois, que a Alemanha começasse a queixar-se “de tudo, desde a falta de acesso a recursos vitais, até à falta de acesso aos oceanos, de colónias ou de espaço” (Telo, n.d.: 22).

Se bem que no tempo de Bismarck, após o Tratado de Francoforte, na sequência da vitória sobre a França, “a paz era um bem precioso que importava salvaguardar a todo o custo, [criando este estadista] “a impressão de que o equilíbrio europeu, a solução de diferendos e a paz continental passavam a ser intermediados pelo Império alemão [o que] em termos de prestígio, tratava-se de uma assinalável vitória para a nova potência da Europa central” (Martelo, 2013: 113-114), contudo, para Bismarck, conquistado o papel de intermediário europeu, achou chegado o momento de intervir diretamente em prole dos interesses do seu império.

Assim, em 1879, “em busca de algo mais sólido no capítulo da preservação da paz” (Afonso; Gomes, 2013: 114), julga ser chegada a hora de estabelecer uma sólida aliança com outra das grandes potências europeias.

Arredada, de momento, a França, face à memória fresca da anexação da Alsácia e parte da Lorena, suas preferências voltam-se para a Áustria-Hungria, seus vizinhos de língua alemã.

Apesar das reservas de kaiser Guilherme I, face a eventuais conflitos que, por via da Áustria, houvesse com a Rússia, Bismarck convocou o embaixador em Paris, príncipe Hohenlohe, o qual, em confidência com Friedrich von Holstein, mostrou não estar convencido da justeza de tal aliança. E, assim, o príncipe Hohenlohe dizia a seu amigo: “Em primeiro lugar, não confio na Áustria. Em segundo lugar, não considero que a Rússia seja realmente hostil. Finalmente, estou muito crente de que uma aliança austro-germânica irá provocar uma aliança franco-russa, e esta é sinónimo de guerra” (Martelo, 2013: 115).”

Mas, no dia seguinte, depois de se encontrar com Bismarck, Hohenlohe, segundo David Martelo, regista no seu diário: “Convenceu-me da necessidade [da aliança]. Afirma que a Áustria não pode por si só fazer frente às ameaças russas [face à miscelânea dos povos eslavos no seu império], pelo que buscará uma aliança com a Rússia ou com a França. Em qualquer dos casos, a Alemanha arriscar-se-á ao isolamento. O kaiser resiste [...], Bismarck ameaça demitir-se e o kaiser abdicar. Pediu-me para falar com o kaiser” (Martelo, 2013: 115)

Mas, finalmente, Guilherme I deu o seu assentimento a uma aliança defensiva com a Áustria-Hungria. Nascia, assim, o primeiro acordo defensivo de carácter permanente, celebrado em tempo de paz entre duas grandes potências desde os tempos do Antigo Regime. E havia a convicção que as diferentes ideologias entre a França e a Rússia seriam suficientemente dissuasoras de qualquer entendimento entre elas.

A Itália, temendo que a ambição da França no norte de África pusesse em risco a sua presença naquele continente, procurava aproximar-se da Alemanha.

“Bismarck, fiel à aliança com a Áustria, e sabendo das reivindicações italianas sobre o Alto Ádige, o Trentino e outros territórios banhados pelo Adriático, encaminhou as pretensões de aliança do governo de Roma para Viena” (Afonso; Gomes, 2013: 116). É, assim, neste contexto, que nasce o acordo designado por Tríplice Aliança, assinado a 20 de maio de 1882, pelo prazo de cinco anos.

E, por outro lado, diz David Metelo: “Como a geografia tem, frequentemente, uma importante palavra a dizer nas questões políticas, a Rússia acabaria por tomar a iniciativa de se aproximar dos dois impérios centrais, do que resultou a constituição, em junho de 1881, da Liga dos Três Imperadores, acordando-se que a mesma seria válida por três anos. A cláusula principal estipulava que cada um dos estados signatários adotaria uma neutralidade benévola se alguns dos outros dois entrasse em guerra com outra potência. Para Bismarck, a Liga afastava a hipótese de uma aliança entre a Rússia e a França e, consequentemente, o pesadelo de uma guerra em duas frentes” (Afonso; Gomes, 2013: 116).

Para Bismarck, o domínio britânico dos mares não representava uma ameaça para os interesses germânicos. Daí não ver a necessidade de criar uma marinha de guerra imperial. O papel marítimo da Grã-Bretanha à escala mundial era, para este estadista, visto como um fator de estabilidade.

A Grã-Bretanha estava, desta feita, descansada...

Quando o kaiser, Guilherme II, subiu ao poder, por morte de Guilherme I, Bismarck, o principal responsável pela criação da unificação alemã, é, por aquele, afastado.

 

Figura 5

 Bismarck, retirado para a sua residência próxima de Hamburgo, não deixou de acompanhar a política alemã e, a determinada altura, exterioriza o que sentia relativamente à política externa, entretanto seguida pelo kaiser, ao ponto de, nas páginas do jornal Hamburger Nachrichten expressar estas palavras que viriam a ser proféticas: “O que menos interessa à Alemanha é apoiar ambições da Áustria nos Balcãs [...] Seguindo o rumo que tem vindo a ser traçado, a Alemanha corre o risco de se tornar gradualmente dependente da Áustria e, no final, ter de pagar com o seu sangue e tesouro a política de Viena nos Balcãs” (Martelo, 2013: 120).

E aqui vem a propósito o que Margaret MacMillan diz sobre esta aliança e como os dirigentes alemães de altura gostavam de afirmar que a Alemanha ficava ao lado da sua aliada Áustria-Hungria com a lealdade digna dos Niebelungos. Só que “era uma escolha curiosa de uma metáfora que mostra um pouco as ambiguidades e tensões na Aliança Dual. Segundo o mito [...] os nobres guerreiros burgúndios da Idade Média morreram até ao último homem em consequência das intrigas entre duas mulheres” (MacMillan, 2014: 281). Corrobora-se aqui o ponto de vista de Bismarck.

Entretanto, o novo kaiser Guilherme II, na aproximação na renovação do Tratado de Ressegurança, de 1889, após a dissolução da Liga dos Três Imperadores, não manifesta intenção de o renovar.

Figura 6

Quando na Exposição Universal de 1900, em Paris, damo-nos conta do painel do pavilhão alemão com os dizeres «A estrela da Fortuna convida o homem corajoso a levantar âncora e partir à conquista das ondas», só os mais incautos é que não davam conta que algo, na política externa alemã, se estava a passar, mudando de rumo desde os tempos de Bismarck.

Com efeito, a influência do chanceler Bernhard Bülow, com a aproximação entre o kaiser e o obstinado Almirante Tirpitz, o «Mestre» ou o «Eterno», por sobreviver onde outros não sobreviviam (MacMillan, 2014: 145-146), a Alemanha mudou de rumo, à «conquista das ondas», do mar.

Era o por em prática a sonhada Weltpolitik.

E a Inglaterra começa a inquietar-se...

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