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15
Jul15

Grande Guerra (1914-1918) - 58

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

 

CONSIDRAÇÕES FINAIS

 

 

2.- 1914 - O apagar das Luzes de um século

Não é nosso intento deixar aqui plasmadas quaisquer conclusões resultantes do trabalho que trouxemos até ao leitor(a). Não é esse (ou foi) o nosso intento nem tão pouco o nosso saber e arte são bastantes para a realização de tal tarefa.

Nosso propósito é (foi) muito mais modesto. Apenas desejamos deixar aqui alguns pontos de vista, interrogações, uma ou outra frase ou pensamento à reflexão, resultantes da leitura e reflexão dos trabalhos sobre os quais nos debruçámos.

E comecemos por essa Europa.

Por essa Europa, cujo século, que se inicia em 1914, acaba com ela.

Uma Europa, cujos europeus, em 1914, pensavam que encarnava o Progresso e que, por isso mesmo, seriam os senhores do Futuro e do Mundo.

De uma Europa, cujos seus habitantes, se julgavam os detentores únicos de uma civilização por excelência, impar, universal e superior.

Uma Europa, que no século XX, iniciado sob as promessas de um futuro radioso, tinha a certeza de ser a maior na ciência, na técnica, nos costumes, na arte, na espiritualidade, na economia, na política, enfim, na cultura.

Uma Europa de europeus crentes num futuro radioso, na certeza de que a ciência e o saber, como fatores do progresso e da sabedoria, os levaria, cada vez mais, a serem os verdadeiros senhores e possuidores da Natureza e do Mundo.

Adquirida a vitória sobre as coisas e o domínio de si próprio, o homem europeu acreditava que a paz e o entendimento entre os homens estabelecer-se-ia por si próprio. Os próprios laços de dependência económica entre as potências (e até dos laços familiares entre as monarquias reinantes), acreditava-se, forçosamente levaria a Europa a uma paz perpétua.

Em suma, antes de 1914, a Europa considerava-se o centro do universo, dominando o mundo com todo o seu poderio, não tendo ainda rompido com o seu passado. Uma Europa que tinha entrado com audácia e confiança na modernidade.

Mas o impiedoso século XX e os seus conflitos desmentiram tais ilusões.

A Europa, o continente da liberdade, da democracia, da riqueza e do humanismo, como foi idealizada pelos grandes mestres do Renascimento, em 1914, chega ao seu fim.

***

Recuando um pouco, desde os princípios do século XIX, com o triunfo da burguesia, numerosos europeus não se reviam nesta Europa edílica. Pelo contrário, tinham dela uma perspetiva diferente. Uma Europa do reino das convulsões, tal como no-la relata Karl Marx no seu «Manifesto de 1848» em que “«em toda a parte onde tomou o poder, a burguesia espezinhou as relações feudais, patriarcais e idílicas. Todos os complexos e variados laços que ligavam o homem feudal aos seus superiores naturais, quebrou-se sem piedade, não deixando subsistir outro laço entre os homens a não ser o do frio interesse...» A burguesia é, aqui, o rosto da modernidade” (Venner, 2009: 42), diz Dominique Venner.

Max Weber é um dos autores que melhor sintetiza as inquietações que a modernidade trouxe. Via que a lógica do domínio dos homens sobre a natureza e pela criação e apropriação de riquezas, era acompanhada por uma lógica da submissão dos homens aos bens materiais e que os instrumentos de emancipação moderna se transformaram em mecanismos de alienação. Ou seja, o reinado da Razão acabou por dar resultados opostos às esperanças das Luzes.

Oswald Spengler, um outro autor da época, não acreditava no progresso. Para ele, a história não tinha nem princípio nem fim: era feita de ciclos descontínuos, descrevendo cada um o nascimento, apogeu e morte de uma grande «cultura», petrificada sob a forma de «civilização», ao entrar em declínio. Para O. Spengler, o crescimento das cidades, a especulação financeira, o utilitarismo e o individualismo, bem assim a pseudomorfose das religiões, eram a manifestação visível desse declínio. Segundo Dominique Venner, para Spengler, “cada cultura [...] é uma experiência única, uma arte, uma ciência, uma moral, uma maneira de pensar e de criar, que são incompreensíveis do exterior do espírito que as anima. «Uma cultura morre quando [a sua] alma realizou a soma completa das suas possibilidades. A «civilização ocidental», a que ele chama «civilização fáustica», não é portanto o último avanço da humanidade na sua evolução, como pretende a interpretação linear da história, mas a fase terminal de uma cultura em decomposição. Após ela, jorrará um novo ciclo, portador de uma nova verdade, gerador de novas raças mentais e novas ciências” (Venner, 2009: 45).

Nesta linha de pensamento, já desde os finais do século XIX, alguns visionários tinham vindo a prever o declínio e hegemonia do «homem europeu», como Gobineau, Nietzsche ou Dostoievski. E autores como Freud, e os teóricos do inconsciente, e grande parte dos sociólogos tinham vindo também neste reforço dos profetas da decadência. Mesmo um liberal convicto, como Raymond Aron, no final das suas «Memórias», segundo Julliard (1983), citado por Dominique Venner, “sem adotar a interpretação spengleriana segundo a qual a civilização urbana utilitária, democrática, marca enquanto tal uma fase de decadência das culturas, [afirma que] é legítimo perguntarmo-nos, seguindo Pareto e muitos outros, se o florescimento das liberdades, o pluralismo das convicções, o hedonismo não põem em perigo a coesão das sociedades e a sua capacidade de ação” (Venner, 2009: 46).

Não está aqui em questão se somos ou não adeptos do pensamento dos autores que acima referimos ou que sejamos contra a(s) liberdade(s), ou o pluralismo das convicções e a democracia. O que nos deve preocupar é o fazermos, nos tempos que correm, uma análise crítica e pertinente dos seus pontos de vista e questionarmo-nos com o que fazemos da liberdade, da sinceridade do pluralismo das convicções, da aceitação (sincera) das diferentes culturas e modos de ver o mundo, e da forma como construímos a democracia.

***

O concerto europeu assentava em valores civilizacionais comuns a todas as elites dirigentes. Contudo, desde os finais do século XIX, a democratização da vida pública, a chegada ao poder de novas camadas, põe em causa aquele clube internacional que, até então, tinha governado os assuntos europeus. E, lenta e inexoravelmente, aqueles valores fundamentais em que a vida europeia assentava foram esquecidos, abandonados.

Ao contrário do muito que se escreve(u), não foram as elites que levaram à catástrofe: foi o seu esquecimento. Por isso, não admira o despertar das paixões nacionalistas e dos ódios entre europeus, nas vésperas de 1914. Eles são, em si mesmo, a manifestação do esquecimento dos valores entretanto partilhados e cuja experiência já vinha da Revolução Francesa. Sem pormos em causa os ideais fundamentais da Revolução Francesa, alicerce fundamental da construção de novos povos e da democracia moderna, há que refletir e ter em devida conta que os revolucionários substituíram, de um só golpe, o ódio aos outros - aristocratas ou estrangeiros - à antiga «piedade» pela pátria de sangue. E esta substituição revelou-se eficaz para inflamar multidões de indivíduos que tinham perdido as suas antigas fidelidades. E foi tão eficaz que, gradualmente, foi sendo adotada na Europa pelos adversários da Revolução, que acabaram por a virar contra ela: é, assim, neste cadinho, que, no decurso do século XIX, nasce o nacionalismo rancoroso, um instrumento detestável e poderoso, unindo as «massas» mais ou menos desenraizadas. E, tomando o lugar dos afetos dinásticos, o nacionalismo de aversão “conseguiu federar dessa maneira o que sobrenadava das antigas fidelidades feudais e comunitárias, que a democratização da sociedade, isto é, a sua autonomização individualista, tinha destruído [...] Para o acordar, ou reavivá-lo em sentido negativo, era preciso designar um inimigo absoluto, exortar a uma luta de vida ou de morte (...)” (Venner, 2009: 89).

Se, na opinião de Dominique Venner, era preciso fundar na razão a ideia de que a França era de uma natureza essencialmente diferente da Alemanha: que a primeira era a encarnação do direito, da liberdade, da civilização e a outra, que não passava de barbárie, o ódio ao vizinho, que daqui nasce, foi instrumentalizado como fator de coesão nacional capaz de se sobrepor às divisões sociais e políticas que dilaceravam a França. E é a conjugação destes sentimentos violentos que se revela eficaz e sinistra quando, a partir da declaração de guerra, é quebrada a solidariedade internacional do movimento socialista a favor da União Sagrada.

***

Mas é importante também refletirmos na compreensão das causas da Grande Guerra. Que são mais complexas do que as que tradicionalmente nos são transmitidas pelos manuais escolares, como o(s) imperialismo(s) e o(s) nacionalismo(s).

Porquanto, apesar de tudo, não é correto fazer-se querer que, quer o imperialismo, quer o nacionalismo exacerbado dos povos europeus foram a principal causa da guerra, se bem que, nas vésperas do conflito, quer na França, quer na Inglaterra, as paixões nacionalistas tenham sido levadas ao rubro pela imprensa, atingindo aspetos que bem poderiam ser enquadrados como um verdadeiro quadro patológico.

Mas também não foi nem na imprensa nem na rua que se decidiu o desencadeamento do conflito.

Que dizer, em todas as capitais da Europa, nos momentos decisivos, dos homens políticos?

E do seu silêncio aveludado nos palácios governamentais, quando sob pressão dos seus Estados-maiores e do jogo desordenado da diplomacia? Basearam-se em critérios políticos ou, pelo contrário, apoiaram-se exclusivamente em imperativos técnicos?

Porque “ninguém na Europa tinha tirado seriamente as lições da Guerra de Secessão americana, que, de 1861 a 1864, prefigurou muitos dos aspetos da «modernidade» de 1914-1918 e que custou à América escassamente povoada na época (32 milhões de habitantes) 620 000 mortos, muitos mais do que qualquer outro conflito travado ulteriormente pelos Estados Unidos, incluindo a II Guerra Mundial” (Venner, 2009: 81) bem como da guerra dos bóeres contra a Inglaterra!

Porventura ninguém tinha previsto, e pensado seriamente no gigantismo, na duração, no horror e nas consequências do conflito?

Porventura não tinham sido dado alertas de que guerra poderia não ser curta, fácil e, bem entendido, vitoriosa, com as que tinha conduzido Bismarck, cerca de 50 anos antes, contra a Dinamarca, a Áustria e a França?

***

Spengler, num ensaio de 1919, põe em destaque, de forma lapidar, as duas formas de religiosidade que saíram da Reforma no século XVII, gerando duas visões do mundo opostas: a primeira, nasceu em Inglaterra com o calvinismo revolucionário; a outra, com o pietismo luterano. Para o pietismo luterano há um profundo desprezo pela nova riqueza, pelo luxo, pelo conforto, pelo prazer, pela «felicidade». E, toda esta ideia de religiosidade, diz Spengler, está prenhe na mentalidade prussiana, na própria essência do espírito do soldado e do seu funcionalismo. Quer dizer, para o prussiano, o trabalho em si próprio - que não os seus resultados, como a riqueza e o êxito - é um valor ético, um mandamento de Deus. Já para o protestante inglês é todo o contrário. A religião, puramente laica, tem por base a Bíblia, que cada um a interpreta como muito bem entende, como se um puro soberano fosse. E, a esta luz de encarar a religião, tudo quanto, do ponto de vista moral se faça, é sempre justo, ao ponto de não passar pela cabeça de cada inglês qualquer dúvida sobre isso. O êxito foi sempre sinal da Graça Divina e a responsabilidade moral das ações cabe sempre a Deus. Pelo contrário, para o pietista, a responsabilidade moral atribui-a a si próprio. Foi, desta forma, com esta segurança absoluta e esta ausência de escrúpulos, diz Dominique Venner, que surgiu o povo inglês. E que muitos dos episódios por ela protagonizados (mesmo com Portugal), antes e depois da Grande Guerra nesta base se explicam.

E, assim, há quem pense que a própria guerra, para além das tradicionais razões assentes em fatores económico-imperialistas e nos nacionalismos, é vista também como afrontamentos, mais que ideológicos, em princípios ou razões espirituais.

***

Mas, com isto, não temos a pretensão, decorridos que são 100 anos do Grande Conflito, ter encontrado as verdadeiras razões do mesmo. Estamos, uma vez mais, com Dominique Venner: “Depois dos rios de sangue durante a guerra, têm corrido rios de tinta para elucidar as suas origens. O mistério, porém, mantém-se intacto. Quanto mais avançamos as investigações, menos claras parecem as causas do conflito” (Venner, 2009: 75).

E, porventura, daremos razão a Bertrand Russel quando afirma que, apesar dos «avisos» de alguns «iluminados», o pensamento ocidental, antes de 1914, sobrestimou o papel da razão e subestimou o da pulsão. Ou, ainda no dizer de Edgar Morin, quando na sua obra «O paradigma perdido - A natureza humana» nos chama a atenção que o homem tem tanto de sapiens como de demens, e, a certa altura, afirma: “A ordem está na cultura, na sociedade. E, certamente, a desprogramação genética está ligada à programação sociocultural, ao sistema de normas e de interdições, às regras de organização da sociedade, que sustem a desordem e lhe sabem dar folga, designadamente nos dias de festa. Mas, logo que entramos na era das sociedades instáveis, quer dizer, na era histórica, veremos desencadear-se a ubris e a desordem, os antagonismos internos, as lutas pelo poder, os conflitos exteriores, as destruições, os suplícios, os massacres, as exterminações, a ponto de o «ruido e o furor» constituírem um aspeto principal da história humana” (Morin, 1999: 108). Fatalismo? Não! Apenas uma simples constatação: de uma antropogénese que ainda não atingiu a sua total plenitude, mas que lá chegará desde que um qualquer cataclismo não a mate e o próprio Homem saiba preservar o berço - o Planeta Terra em que lhe é dado viver - e onde se deve realizar a sua Humanidade. Em vivência sã, sábia e pacífica.

E agora peguemos num episódio histórico, relatado por vários historiadores. E citemo-lo dum pequeno relato de Dominique Venner: “No decurso do Verão de 1916, confrontam-se duas visões opostas do futuro tendo como pomo de discórdia a questão da independência da Grã-Bretanha em relação ao Estados Unidos. O governo no poder, dirigido por Herbert Asquith, coligação de liberais e conservadores, tem consciência de que a guerra se arrisca a precipitar a desaparição da antiga ordem europeia e da própria Grã-Bretanha como potência autónoma. É por essa razão que o governo de Asquith tenta negociar com a Alemanha para pôr fim ao conflito pagando o preço de uma paz branca.

Esta política é combatida por Llyod George e uma outra fação dos liberais. Estes pensam, pelo contrário, que se deve fazer tudo para destruir o poderio político e económico do Reich, o que implica obter a participação dos Estados Unidos e a criação, no futuro, de uma espécie de condomínio anglo-americano. Este voto corresponde ao dos meios financeiros e intelectuais que, à volta de lorde Milner, defendem uma comunidade cultural e política “atlantista” avant lettre.

A queda do Gabinete Asquith e a chegada ao poder de Llyod George, em 6 de Dezembro de 1916, decidem a questão. Ao receber Walter Page, embaixador dos Estados Unidos, a 29 de Dezembro, Llyod George dir-lhe-á que a paz permanente desejada pelo presidente Wilson não é concebível sem que primeiro seja destruída a casta militar austro-alemã. Apelando a uma estreita colaboração entre Londres e Washington, sublinha que entre as democracias americana e britânica existem “a amizade, os laços de sangue, os mesmos ideais e um destino comum”. A subida ao poder de Llyod George marcava o nascimento da special relationship (a relação especial anglo-americana) (Venner, 2008: 108-109).

Não pretendemos fazer especulação. Tão-somente relatar um facto e pô-lo à reflexão. Sobre o que poderia hoje ser a Europa. Como o conflito poderia, em 1916, ter acabado. Qual o porquê das atuais, e das passadas, hegemonias mundiais. Porque a Europa se subalternizou e vive hoje num impasse. Sobre a lógica e as razões dos novos centros de poder mundiais.

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