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14
Jul15

Grande Guerra (1914-1918) - 57

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

 

CONSIDRAÇÕES FINAIS

 

 1.- A Grande Guerra à luz do novo paradigma histórico-militar

Tentámos, ao longo deste trabalho, dar uma perspetiva o mais abrangente e integradora, quanto possível, do primeiro conflito mundial de 1914-1918, mais conhecido como Grande Guerra.

Chegados ao fim do nosso trabalho, não é nossa intenção apresentar aqui conclusões, conclusões essas sempre provisórias, e constantemente sujeitas ao escrutínio da refutabilidade pelo contraditório. Nossa intenção é muito mais modesta. Não sendo o autor desta despretensiosa obra historiador, ou sequer especialista de qualquer segmento da história, em especial da militar, a incursão feita ao longo do trabalho, que o(a) leitor(a) tem nas suas mãos, feita a partir de um guião, que inicialmente construiu, e que ao longa da elaboração do texto foi fazendo, aqui e ali, ligeiras alterações, consoante as obras que entretanto ia consultando e aquelas que lhe serviram de referência, e muitas das vezes, longamente citadas, representa apenas uma leitura, uma certa leitura, que se faz a propósito do tema que lhe serve de base.

Face a esta certa leitura que o autor vos apresenta sobre o tema, a conclusão da mesma outra coisa não poderia ser senão que Considerações Finais que, a final, o autor retira.

Considerações Finais sempre, e necessariamente, sujeitas à crítica e ao contraditório, com base nos factos e nas visões que cada um, individualmente, tem sobre os mesmos.

O essencial, portanto, não é o produto final que aqui se apresenta, sempre sujeito a aperfeiçoamento, ou mesmo a revisão total, porquanto temos plena consciência da sua incompletude, mas o debate que o mesmo possa suscitar. Porque é este, essencialmente, o nosso desiderato.

Tentámos, a partir dos ensinamentos de François Simiand, principalmente da sua obra «Méthode Historique et Sciences Sociales»; do paradigma dos «Annales» e dos seus «pais» fundadores - Marc Bloch e Lucien Febvre - os quais, criticando os três ídolos da tribo da historiografia tradicional assente no político, no individual e no cronológico, e contra o recitativo político-militar, encontrar uma história que assentasse mais na economia e na sociedade, baseada em vários domínios, desde a demografia às mentalidades, e contra uma história do sujeito como herói individual, relevando mais uma história total da sociedade. Tentámos, mas não temos a certeza de o termos conseguido.

A exemplo de Fernand Braudel, procurámos evidenciar uma pluralidade de tempos históricos, tendo sempre em atenção que:

  • Todos os factos humanos são históricos, consequentemente, digno da história;
  • O sujeito histórico não é um sujeito individual, não é um herói, mas sim as sociedades e os grupos sociais;
  • E, finalmente, à história não interessa apenas o acontecimento, mas também a conjuntura e a estrutura, e os tempos que lhe são inerentes, enquadrados na média e longa duração.

A história, a partir deste entendimento, afasta-se do ponto de vista epistemológico da historiografia tradicional, quando partilhava da mesma conceção de facto, tempo e sujeito histórico: facto histórico único, singular, atomizado, acontecimento que se particularizava em especial no grande feito militar e, inevitavelmente, nas suas consequências políticas; tempo histórico linear, contínuo e irreversível, com a sucessão desses mesmos acontecimentos; finalmente, sujeito histórico, sempre individual e voluntarista, como o protagonista dos grandes acontecimentos - o herói, o homem de estado, o chefe militar.

Ao infletirmos para um novo paradigma epistemológico-histórico assente na interdisciplinaridade com as ciências sociais, em especial, e cujos modelos teóricos, métodos e técnicas tentámos aplicar ao estudo do passado, o centro de interesse do historiador passa da sucessão dos grandes feitos, protagonizados pela figura dos heróis (em que não raras vezes coincidiam com o chefe político e chefe militar), ou seja, do tradicional objeto político-militar, para a economia, a demografia ou as mentalidades.

Neste novo paradigma, baseado na lógica explicativa das ciências sociais, procuramos, se não leis, pelo menos, regularidades tendenciais, abandonando aquilo que alguns autores apelidam do «recitativo événenmetiel».

Neste novo paradigma, o discurso historiográfico é, assim, posto em causa e, como muito bem diz Severiano Teixeira (1990), a própria função política da história. A nova história, e portanto, modestamente o nosso intento, não foi no sentido ou função patriótica comemorativa nem tão pouco procurámos legitimar (ou deitar abaixo) a historiografia tradicional. Nosso esforço foi no sentido de, a partir dos factos, fornecer argumentos, apresentar pontos de vista. Não procurámos alimentar um sentido de nação ou fazer a apologia de governantes com o intuito de alimentar a necessidade de alguma legitimação retrospetiva. Pelo contrário, nosso desiderato foi, a partir de diferentes autores e visões, encontrar os meios para melhor compreender a realidade e, por isso mesmo, fornecermos matéria e mecanismos para uma eventual melhor gestão da realidade social.

Na esteira de Severiano Teixeira (1990), na elaboração deste trabalho, nortearam-nos certas constantes e linhas de força que poderemos aqui traçar como características da nova história militar:

  • O alargamento do campo historiográfico - introdução de novas problemáticas importadas de outros campos científicos (ciências sociais; políticas; pensamento estratégico, passando pelos estudos de defesa nacional), com deslocamento dos centros de interesse do domínio estritamente militar, das estratégias e das operações táticas para a logística, a medicina e, sobretudo, as experiências de combate - o moral do combatente, os movimentos de dissidência, os motins e a deserção, a experiência do cativeiro de guerra e, por outro lado ainda, o estudo da «frente interna», isto é, da sociedade em guerra - da mobilização industrial à organização da propaganda, do crescimento do estado à opinião pública, do recrutamento militar à fabricação da memória e à construção dos mitos.
  • A utilização no campo histórico das teorias, métodos e técnicas de outras ciências - desde a dinâmica de grupos à teoria dos jogos, dos métodos quantitativos à psicanálise, da informática ao pensamento estratégico. A história militar deve trocar, assim, e em definitivo, o «recitativo événementiel» pela compreensão e a explicação, à procura de um conhecimento tão rigoroso e objetivo quanto possível no campo das ciências sociais.
  • O abandono da função tradicional, patriótica e comemorativa - À história militar não cabe mais uma função legitimadora, mas sim uma função de natureza eminentemente técnica que, para além de outras finalidades, sirva a formação dos quadros militares e, não de todo despiciendo, o seu contributo para a resolução dos problemas presentes, na esteira do que já Lucien Febvre dizia que a história era a ciência do passado tanto quanto ciência do presente, bem assim quando Marc Bloch dizia que se deveria compreender não só o passado pelo presente mas também o presente pelo passado, pois passado e presente poderiam e deveriam iluminar-se reciprocamente.
  • A existência de duas tendências distintas dentro da história militar: a primeira, aponta para o estudo interno da organização militar e, em particular, do núcleo duro que é a batalha e o combate; a segunda, para o estudo da guerra, em contexto, e, consequentemente, da relação militar-civil e guerra-política, ou seja, entre a «história dos militares», para a primeira acessão, e a «história militar», para a segunda.
  • Um novo tipo de relações entre as duas componentes da história militar - a dos historiadores e a dos militares. Se a renovação foi marcada pelo retorno dos historiadores ao fenómeno militar, foi-o também pelo abandono do «événementiel» por parte dos militares. Abriu-se, assim, um novo capítulo marcado pela colaboração entre civis e militares que se materializa institucionalmente nas comissões nacionais de história militar, segundo nos explana Severiano Teixeira.

***

O século XIX e a revolução industrial aumentaram consideravelmente a capacidade não só de mobilização das tropas, com o caminho-de-ferro, mas também o potencial de destruição com a industrialização da tecnologia militar.

Estamos, com a Grande Guerra, no cerne daquilo que mais tarde, e mais acertadamente, poderemos designar por guerra total, cujo maior paradigma foi a II Guerra Mundial (ou segundo episódio da Grande Guerra).

Na verdade, ao contrário da guerra tradicional, a guerra total é uma guerra em que a lógica não é a da limitação, muito pelo contrário, assume proporções ilimitadas, a diferentes níveis:

  • Quanto ao espaço - são guerras globais, mundiais;
  • Quanto ao tempo - são guerras de longa duração;
  • Quanto aos objetivos - são guerras que mobilizam meios não só militares mas também a sociedade global: a nível militar - uma mobilização de massas; a utilização de uma tecnologia industrializada de elevado potencial destrutivo, que afeta não só os exércitos mas também as populações civis; ao nível global, a mobilização de toda a sociedade para o esforço de guerra, desde a constituição de uma economia de guerra à organização da propaganda, envolvendo forças materiais e morais;
  • Finalmente, uma guerra deixa marcas profundas no próprio tecido social: alterações demográficas, não só no aumento das taxas de mortalidade mas de todos os movimentos naturais da população, com distorções graves do sistema económico não só decorrentes da mobilização industrial mas também das alterações da composição da mão-de-obra, com a entrada massiva da mão-de-obra feminina e o aparecimento de fenómenos como o desemprego e a inflação; mudanças ao nível institucional e político com o crescimento do fenómeno do estado, da sua intervenção e controlo sobre a economia e a sociedade e a consequente inversão do primado institucional (legislativo) sobre o executivo. Em suma, é uma guerra que afeta as próprias estruturas sociais e, mais do que isso, se constitui como fator de mudança social (Teixeira, 1990).

Cartel-Esposición-La-GuerraTotal.jpg

A guerra total tornou completamente obsoleto o paradigma tradicional da história, em particular da história militar. Até então era possível conceber uma história militar centrada sobre o enunciado das campanhas militares e a biografia dos seus chefes. Com a guerra total - que a Grande Guerra inaugurou - mobilizando a sociedade global e impondo-lhe mudanças estruturais, tornou-se impossível uma história militar concebida em termos de batalhas decisivas.

Em suma, é nosso entendimento que, constituindo a história sempre uma meditação sobre a existência através dos personagens reais, não pensemos que qualquer grande estudo histórico revela (sempre) uma total objetividade sobre a realidade. Na verdade, qualquer estudo histórico traz sempre consigo uma certa «visão» que o autor tem do «mundo» e da realidade que estuda e que no-la apresenta ou transmite.

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