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zassu

21
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 32

 

 

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

V

AS FRENTES DE COMBATE

(OU AS GRANDES ONDAS DE CHOQUE)

 

2.4.3.3.- As ofensivas e a miragem das operações de rutura

(Janeiro a maio de 1917)

 

A frente ocupada pela FEB alongou-se 35 Km para sul do Somme, em resultado da substituição dos franceses no setor compreendido entre Péronne e Roye.

“O esforço de manobra acordado, em novembro de 1916, na reunião de Chantilly - esforço na região do Somme e penetração do dispositivo alemão, junto à costa, para capturar os postos belgas - não obteve a anuência do general Nivelle (Afonso; Gomes, 2013: 282), argumentando que o setor do Somme ficara transformado num complexo de escombros e crateras, depois das batalhas de 1916. Qualquer esforço de rutura nesse setor não teria qualquer êxito pela dificuldade de progressão. A escolha de Nivelle foi no sentido de se voltar a uma opção análoga a 1915, atacando nas alas do saliente. Assim, “a FEB atacaria no noroeste, na região de Arras e Vimy, e o exército francês faria outro tanto no setor sul do Aisne, na região do Chemin des Dames” (Afonso; Gomes, 2013: 282), um terreno muito acidentado e arborizado, impróprio para a infantaria andar depressa. Uma inabilidade, na opinião de David Martelo.

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(General R. Nivelle)

Face a esta mudança de objetivos atacantes, o Corpo de Exércitos do general Micheler conduziria o ataque principal no setor de Chemin des Dames-Reims, enquanto a FEB executaria um ataque secundário no setor de Arras.

 

a).- Ofensiva da FEB

 

A ofensiva foi marcada para Abril de 1917. As condições meteorológicas não eram das melhores. Parecia que ainda se estava em pleno inverno, com chuva, neve e temperaturas baixas.

A FEB iniciou o seu ataque a 9 de abril. O corpo canadiano desempenhava o papel principal. A preparação de artilharia teve um efeito devastador sobre as posições alemãs, particularmente no que dizia respeito à destruição do arame farpado. Destruiu grande parte das linhas telefónicas e, deste modo, diz David Martelo, “as tropas da primeira linha alemã - que, segundo a nova doutrina da defesa em profundidade, eram em reduzido número - não puderam, com a rapidez necessária, pedir fogo de apoio e alertar as unidades de reserva para o desencadeamento de um ataque da dimensão da que estava em curso” (Afonso; Gomes, 2013: 283).

O primeiro dia de combate foi muito favorável aos britânicos pois, além de se apoderarem das alturas de Vimy, com certa facilidade, fizeram mais de 9 000 prisioneiros.

Mas foi um êxito mal aproveitado. De noite, os alemães movimentaram as suas reservas e, nos dias a seguir, a FEB foi, cada vez mais, sentindo a pressão defensiva dos alemães. Havia que fazer uma pausa e continuar a ofensiva a 23 de abril. Mas, nessa altura, as facilidades iniciais já não eram as mesmas. Depressa os alemães se recompuseram e a rutura da frente não se deu.

 

b).- Ofensiva francesa

 

No setor entre Chemin des Dames e Reims, os alemães já se encontravam informados dos preparativos franceses. Para além das 21 divisões que colocaram em primeiro escalão, possuíam mais 15 de reserva, como reforço ao contra-ataque. As suas unidades em primeiro escalão, de acordo com as novas táticas, apenas eram guarnecidas quase só por observadores com a função de vigiar a frente. Por detrás desta linha, posicionavam-se os “ninhos de metralhadoras, alguns deles em pontos fortes, capazes de permitir o prosseguimento dos fogos, mesmo se ultrapassados pela infantaria inimiga” (Afonso; Gomes, 2013: 284). A verdadeira força encontrava-se à retaguarda, com reservas bem protegidas de artilharia e prontas a contra-atacar as penetrações, se entretanto surgissem.

O ataque iniciou-se no dia 16 de abril, depois de uma longa preparação de artilharia. A partir daqui, as tropas francesas começaram a percorrer o terreno difícil, fortemente inclinado e arborizado, em direção aos seus objetivos de rutura. No início, enquanto a defesa alemã não se recompôs, parecia que o avanço era efetivo. Mas, com o avançar no terreno, foi-se dando conta que as concentrações rolantes de artilharia progrediam a uma velocidade superior à da infantaria, deixando esta a descoberto. E foi exatamente neste ponto que a eficácia dos ninhos de metralhadoras começaram a sua atividade arrasante e devastadora. Se a artilharia alemã tivesse dado conta «desta anomalia tática», o massacre seria muito maior. Conforme a infantaria francesa avançava, ia dando conta que a sua artilharia não tinha sido eficaz na destruição das redes de arame farpado. Mais uma contrariedade a superar: seria ela a fazer este trabalho, à custa, como é evidente, de pesadíssimas baixas.

Em suma, com três dias de ofensiva ou combate, eis os números da parte francesa: 130 000 baixas, das quais 29 000 mortos. A ofensiva foi um fracasso. Os ganhos de terreno não ultrapassaram mais de 7 Km. E as linhas de resistência alemãs ficaram praticamente intactas. Foi um rude golpe para o exército francês, em termos ofensivos.

 

2.4.3.4.- O moral das tropas francesas cai a pique. Revolta nas fileiras e recuperação do moral

 

É aqui que o moral das tropas francesas começa a ser preocupante. Não tendo encaixado este insucesso, o poder político substitui Nivelle por Philippe Pétain como comandante-chefe das Forças Armadas Metropolitanas, enquanto Foch subia ao cargo de chefe do Estado-Maior do Exército francês.

Muito se discutiu se este clima de revolta se deveria classificar de «motim» (indisciplina conjugada com o uso da força contra os superiores) ou por «indisciplina» (colapso da «ordem»).

Refere David Martelo: “Ora sucede que, mesmo nas unidades claramente revoltadas - como foi o caso do regimento de infantaria 74 - os soldados não hostilizavam os superiores imediatos que com eles partilhavam as agruras das primeiras linhas. A insatisfação visava bem mais alto e traduzia-se por uma firme determinação de não retornar para as trincheiras [...] e apresentaram motivações inspiradas nas lutas laborais: mais tempo de licenças, melhor alimentação, maior apoio às famílias dos soldados mobilizados, fim à injustiça e carnificina e, finalmente, a mágica palavra «paz»” (Afonso; Gomes, 2013: 285).

Positivamente, aqui chegados, a chama patriótica de 1914 extinguiu-se!

E não se cuide que era apenas da parte dos franceses. O desejo de paz foi tal que tomou a forma de tréguas, “tacitamente aceites em ambos os lados da terra-de-ninguém” (Afonso; Gomes, 2013: 285).

Não se pense que este clima de revolta se circunscrevia única e restritamente ao campo militar. De alguma forma, o que se passava no exército era o reflexo ou espelho do mau estar das outras instituições que ele representa e salvaguarda. Ou seja, a generalidade da população também já estava exausta desta guerra.

Coube ao general P. Pétain a tarefa de, na sequência mal sucedida da ofensiva de abril de 1917, repor o clima de «motim» ou «indisciplina» que se seguiu nas fileiras francesas, que atingiu quase metade das unidades nos diferentes teatros de operações a Ocidente.

Refira-se, para um mais cabal e melhor enquadramento, que, é precisamente neste momento, que as forças do Corpo Expedicionário Português (CEP) começam a chegar à Flandres.

Pétain, para além de repor a ordem nas tropas, levando-as a uma quase normalidade - o que demorou alguns meses do segundo semestre de 1917 - interrompeu as ações ofensivas com significado.

No exército alemão, entretanto, aderiu-se plenamente ao sistema de defesa em profundidade, implicando, assim, que, o volume de efetivos das trincheiras ao alcance da artilharia inimiga diminuísse substancialmente, com menor desgaste para as unidades de infantaria, o maior número em campo. Os alemães, ocupados noutras frentes, não se aperceberam desta situação, perdendo aqui uma extraordinária oportunidade de tentarem uma ação efetiva de rutura na Frente Ocidental, suscetível de mudar, nesta data, o rumo da guerra.

 

2.4.3.5.- Retalhos de memória do 1º semestre de 1917

 

Numa carta que foi publicada nos jornais ingleses, em julho de 1917, Sasson escreveu que era sua convicção “«que esta guerra, na qual entrei porque era uma guerra de defesa e de libertação, se tornara uma guerra de agressão e conquista» e prossegue: «Vi e suportei sofrimentos dos soldados, e não posso continuar a fazer parte do prolongamento desses sofrimentos, para fins que creio serem malévolos e injustos. Não protesto contra a condução da guerra, mas contra os erros políticos e a falta de sinceridade pelos quais os homens em luta estão a ser sacrificados. Em nome daqueles que sofrem, faço este protesto contra o logro que está a ser praticado sobre eles; e acredito também que posso ajudar a destruir a insensível complacência com que a maioria dos que estão em suas casas encaram a continuação da agonia que eles não compartilham, e que não têm imaginação suficiente para compreender»”. (Gilbert, 2007: 523). A 23 de julho de 1917, Sasson foi admitido no Hospital Militar Craiglockert para oficiais neurasténicos. Teve sorte, em vez de ser presente um tribunal marcial!

O soldado britânico Alfred Pollard refletia, nesta altura, sobre a raiz do seu achado de uma trincheira repleta de cadáveres. Dizia: “«Eu não era mais do que um jovem que olhava a vida com a esperança e otimismo e via a guerra como uma aventura interessante. Quando naquele dia descobri os corpos dos hunos mortos pelo fogo das nossas granadas, fui tomado pela compaixão por aqueles homens cujas vidas tinham sido ceifadas no momento do seu máximo vigor. Em contrapartida, eu era agora um homem e sabia que passariam anos antes de terminar a guerra. E olhava para uma trincheira cheia de corpos sem sentir absolutamente nada. Nem pena nem medo de também eu poder em breve estar morto; nem sequer raiva contra os homens que os tinham matado. Era apenas uma máquina que procurava cumprir o seu dever o melhor possível»” (Canal da História, 2013: 256).

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