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03
Mai15

Grande Guerra (1914-1918) - 12

 

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

E A PARTICIPAÇÃO DOS MILITARES DO RI 19 E DO ALTO TÂMEGA NO CONFLITO

 

PRIMEIRA PARTE

CONTEXTO INTERNACIONAL

(DA PLACIDEZ TECTÓNICA AO MOVIMENTO DAS PLACAS) 

 

III

PENSANDO NA GUERRA, ELABORANDO PLANOS

 

2.- As «vozes» e os movimentos ténues «sonhadores» da paz

Quem, em finais do século XIX, e princípios do século XX, levantava a sua voz a falar da paz, da arbitragem, do desarmamento e da convivência pacífica entre os povos?

Já vimos que a Exposição Universal de Paris de 1900, (aliás como todas as Exposições), foi uma gigantesca parada de marketing propagandístico que, em nome da paz e do progresso, outra coisa não fez, ou procurou mostrar, senão o poderio de cada nação.

Mas, pelo seu Palácio de Congressos, os temas da paz, do desarmamento, da arbitragem e do concerto dos povos foram temas de debate. Eficácia, em termos práticos, é que não foi muito sentida.

Vamos recordar, sumariamente, ao longo do tempo, e antes da eclosão da Grande Guerra, algumas «vozes» e movimentos que tiveram algum eco.

2.1.- Ivan Bloch (ou Jean Bloch)

 

Ivan_Bloch.jpg

Em 1898, Jean Bloch (ou Ivan Bloch) publica uma obra em seis volumes, juntando argumentos económicos contra a guerra, com os desenvolvimentos espetaculares da própria arte da guerra. Seu intento era defender que a própria ideia de guerra era obsoleta. E especificava seu ponto de vista: as guerras futuras serão terrivelmente mortíferas e vão absorver enormes recursos e mão-de-obra; serão em larga escala e transformar-se-ão num impasse, destruindo as sociedades nela envolvidas; nestes termos, a guerra será um enorme suicídio.

Embora Bloch não tivesse em devida conta a enorme coragem, sacrifício e pertinaz resistência, bem assim a enorme capacidade de mobilização de recursos, nomeadamente com a integração da mão-de-obra feminina no esforço de guerra, quanto ao resto, tinha razão, quando defendia que os progressos tecnológicos, “com armas que disparavam mais certeiras e com mais rapidez ou explosivos melhores, estarem a tornar quase impossível para os exércitos atacarem posições bem defendidas [bem assim] a conjugação de terra, pá e arame farpado [permitindo] aos defensores criar fortes obstáculos, a partir dos quais podiam distribuir um campo de fogo mais devastador perante os seus atacantes [não havendo nada] ao longo da linha do horizonte que mostre donde surgiram os projéteis que trouxeram a morte” (MacMillan, 20124: 369).

E prosseguia, dizendo que o atacante iria precisar de ter uma vantagem de, pelo menos, oito a um para transpor a linha de fogo. “As batalhas provocariam baixas massivas, «a uma escala de tal modo terrível que tornaria impossível arranjar soldados para travar a batalha até um ponto decisivo»” (MacMillan, 2014: 369). E Margaret MacMillan continua com o raciocínio de Bloch dizendo que, “«na verdade, nas guerras do futuro, seria impossível que alguma vez pudesse haver uma vitória clara. E, embora o campo da batalha fosse um campo de morte, as privações, na retaguarda, conduziriam à agitação e, em última instância, à revolução. A guerra [...] seria «uma catástrofe que destruiria todas as instituições políticas existentes» ” (MacMillan, 2014: 369).

Convenhamos que este autor foi uma das poucas vozes a alertar os dirigentes políticos, os militares (que, pelos vistos, não o levaram muito a sério) e a opinião pública, de uma forma espantosamente lúcida e premonitória.

2.2. - Norman Angell (A Grande Ilusão)

 

Norman_Angell_01.jpg

Era um jornalista que, em 1909, publicou no Continental Daily Mail, em Paris, um panfleto Europe’s Optical Illusion, e que, ao longo de edições subsequentes, se tornou numa obra com a designação A grande Ilusão.

Contrapunha-se à ideia generalizada de que a guerra compensava. Afirmava que “num mundo economicamente interdependente do século XX, até mesmo as nações poderosas precisavam de parceiros comerciais e de um mundo estável e próspero onde pudessem encontrar mercados, recursos e locais de investimento. Saquear inimigos derrotados e reduzi-los à miséria só prejudicaria os vencedores [...] Nas últimas décadas, sempre que houvera tensões internacionais que ameaçavam degenerar em guerra, os negócios tinham sofrido e consequentemente os financeiros, tanto em Londres como em Nova Iorque, Viena ou Paris [tinham-se] juntado para por termo à crise «não por uma questão de altruísmo, mas por uma questão de autoproteção comercial». No entanto, a maioria dos europeus continuava a acreditar, perigosamente [...] que, por vezes, a guerra era necessária. No continente, havia estados a reforçar as suas forças armadas e a Grã-Bretanha e a Alemanha estavam envolvidos numa competição naval. Os europeus deveriam pensar que as suas poderosas forças armadas eram apenas para fins defensivos mas o efeito global do militarismo e da corrida aos armamentos era tornar mais provável a guerra. Os dirigentes políticos da Europa deveriam ver isso e, por outro lado, também eles, a grande ilusão” (MacMillan, 20124: 370-371).

E MacMillan arremata dizendo que dado o estado de grande nervosismo em que a Europa se encontrava nesse momento, o sentido de oportunidade de Norman Angell foi excelente e a receção da sua ideia foi encorajadora para os defensores da paz. Mas era uma das poucas vozes «pregando no deserto»!...

2.3.- Bertha von Suttner

 

Bertha_von_Suttner_portrait.jpg

Secretária do rico industrial sueco Alfred Nobel foi uma grande publicista e uma excelente representante de grupos de pressão a favor da paz. Fundou a Sociedade Austríaca dos Amigos da Paz; foi ativa no Comité de Amizade Anglo-germânico; editou um jornal; escreveu cartas, petições, artigos, livros e romances, alertando o público para os perigos do militarismo, os custos humanos da guerra e os meios por que devia ser evitada. Enfim, foi uma autêntica lutadora, mantendo, ao longo da sua vida, uma permanente cruzada contra a guerra. Alfred Nobel, diz-se, que um dia teria desabafado com a sua antiga secretária nestes moldes: ”«Gostaria de poder produzir uma substância ou máquina com uma eficácia de tal modo terrível, em termos de devastação total, que as guerras se tornassem, por isso mesmo, completamente impossíveis». Quando morreu, em 1896, deixou parte da sua considerável fortuna para financiar um prémio para a paz” (MacMillan, 2014: 365-366).

2.4.- Movimentos a favor da paz

 

International%20Peace%20Bureau.jpg

 

Nas últimas décadas do século XIX, e na primeira do século XX, na Europa e na América do Norte, desenvolveram-se organizações a favor da paz, contra a corrida aos armamentos e o militarismo, fundamentalmente com o apoio das classes médias.

Em 1891, em Berna, é criado o International Peace Bureau, que ainda hoje existe.

As preocupações fundamentais destes movimentos centravam-se em questões como a arbitragem de conflitos e o desarmamento.

É por esta altura que começam a aparecer as palavras pacifista, pacifismo ou até pacificismo. Era um emaranhado de opiniões que iam desde a hostilidade à guerra, em todas as circunstâncias, às tentativas de a delimitar ou evitar.

O militarismo, a corrida aos armamentos e uma política externa agressiva eram todos eles vistos como males relacionados que tinham de ser resolvidos para que houvesse paz duradoura.

Registe-se que, apesar de toda a proliferação de sentimentos pacifistas, também havia um amplo e, muitas vezes, amargo desacordo quanto à construção de um mundo pacífico.

Uma questão relativamente à qual os movimentos pacifistas estavam de acordo, antes de 1914, mostrando algum progresso, era a arbitragem, mais do que o desarmamento.

Mas muitos pacifistas preferiam mais concentrarem-se no desarmamento ou, pelo menos, na questão da limitação das armas. Debalde todas estas tentativas! Os representantes dos diferentes governos «passeavam-se» por todos estes fóruns, uns, de uma forma cínica; outros, para a «fotografia», fazendo figuras de decoro na «cena».

Das diferentes Conferências e Convenções, particularmente na Convenção para a Solução Pacífica dos Conflitos Internacionais, há a registar a criação de um Tribunal Permanente de Arbitragem, sediado em Haia, que, embora tivesse vindo a resolver uma dezena de casos antes da guerra, foi de uma fraca eficácia. Tal como hoje sucede, dependia da boa disposição dos governos para lhe apresentar as questões!...

2.5.- II Internacional Socialista

 

Os governos fizeram pouco, até 1914, para promover a causa da paz.

Havia uma esperança, que residia na II Internacional, uma organização fundada em 1889 para juntar os operários de todo o mundo e os seus partidos socialistas. A I Internacional, fundada pelo próprio Karl Marx, em 1864, desmoronou-se doze anos depois devido a diferenças doutrinárias. A II Internacional era unida por um inimigo partilhado - o capitalismo -, e por uma ideologia fortemente influenciada por Marx e Fiedrich Engels.

A estratégia mais prevalecente no seio da II Internacional era que o uso das urnas de voto, a lei e a cooperação com outros partidos políticos, quando os seus interesses coincidiam, era a mais acertada, ao contrário da revolução sangrenta.

Um dos grandes defensores da paz, contra o militarismo e a guerra, foi o socialista francês, Jean Jaurès, que, no Congresso da II Internacional, em 1904, saiu derrotado. Venceram os nacionalismos contra o lutador internacional anti-belicista.

Figura 8.jpg

O que verdadeiramente neste período «desuniu» a II Internacional não foi a doutrina ou a estratégia ou a tática. A fraqueza fundamental da II Internacional Socialista foi o nacionalismo. É esta a opinião de Marc Ferro quando contraria a posição de que o espírito internacionalista tinha entrado em crise e que os socialistas não conseguiram impedir a guerra, traindo os seus juramentos, impressionando, por tal facto, os seus concidadãos. Justificando os vencedores naquele congresso diz que, naquela época, cada cidadão “estava persuadido do contrário; ao responder ao apelo do seu país, estava a cumprir o dever de patriota e de revolucionário” (Ferro, 2008: 21). Lutava-se por uma guerra justa, inelutável, libertadora.

A parir desta sua derrota, Jean Jaurès “começou a ficar cada vez mais preocupado com a deterioração da situação internacional e dedicou grande parte das suas energias à causa da paz. Havia muito que apoiava a arbitragem e o desarmamento, mas agora estudava a própria guerra [levando] a cabo um estudo sério, lendo teoria militar e história da guerra e trabalhando com um jovem capitão do exército francês, Henry Gérard. Numa noite em que os dois homens estavam sentados num café em Paris, Jaurès descreveu como seria uma guerra futura: «O fogo de artilharia e as bombas; as nações inteiras dizimadas; milhões de soldados espalhados pela lama e o sangue; milhões de cadáveres [...]». Durante uma batalha na frente ocidental, alguns anos depois, um amigo perguntou a Gérard por que razão estava a olhar fixamente para o espaço. «Sinto como se tudo isto me fosse familiar», respondeu Gérard. «Juarès profetizou este inferno, esta aniquilação total»” (MacMillan, 2014: 390).

Ironicamente, Jean Juarès, um pacifista que pretendia, pela diplomacia, evitar a guerra entre os estados, foi assassinado, a 31 de julho de 1914, num café de Paris, às mãos de Raoul Villain, um jovem nacionalista francês que desejava a guerra contra a Alemanha!...

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