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zassu

12
Fev20

Palavras Soltas - Autêntico e genuíno

 

PALAVRAS SOLTAS

 

AUTÊNTICO E GENUÍNO

 


Se não for verdadeiro para comigo mesmo,
malograr-se-á o sentimento da minha vida
e fracassarei naquilo que para mim
significa ser humano.

 

Charles Taylor,

in «A Ética da Autenticidade»

 


Tinha, há pouco mais de hora e meia, pegado, pela segunda vez, na leitura da «A Ética da Autenticidade», de Charles Taylor.

E acabava de repisar sobre este parágrafo:


O que precisamos de explicar é o que é peculiar ao nosso tempo. Não se trata apenas de que as pessoas sacrifiquem pela carreira as suas relações sentimentais e a atenção aos filhos. Talvez sempre se tenha passado algo semelhante. A questão é que hoje em dia muitas pessoas se sentem chamadas a fazê-lo, sentem que devem fazê-lo, sentem que as suas vidas seriam de algum modo desperdiçadas ou não realizadas se não o fizessem”.

 

E a notícia, numa pequena pausa, enquanto nos púnhamos em contacto com as redes sociais, nomeadamente o Facebook, caiu-nos abrupta, inesperada e brutal – João Geraldes, aos 66 anos, acabava de nos privar com a sua presença e convivência pessoal!

 

Sinceramente não sabíamos do seu estado de saúde!

 

Já há duas boas dezenas de anos que não convivíamos profissional e pessoalmente. Apenas esporadicamente nos cruzámos e nos encontrávamos um com o outro.

 

E víamos sempre nele aquela postura apaziguadora, calma, gentil e afável.

 

Tal como sempre aconteceu quando, desempenhando funções autárquicas na Câmara Municipal de Chaves, nos encontrávamos para tratar de assuntos de carácter técnico, relacionados com os projetos e ações que a Câmara pretendia levar a cabo, e, na qual, o Eng. João Geraldes, desempenhava as funções de Chefe de Divisão.

 

Foi sempre, positivamente, um verdadeiro chefe e um profissional competente. Sério.

 

Nunca foi qualquer obstáculo ao nosso relacionamento pessoal e profissional, quer eventuais posicionamentos ideológicos, quer político-partidários. Nossa relação nunca se pautou por esses parâmetros, quer um, como eleito; quer outro, como funcionário. Apenas o desenvolvimento das terras e das populações a quem servíamos era o que nos norteava.

 

Ao contrário das palavras acima citadas de Charles Taylor, a sua vida e realização profissional – a sua carreira – não contendeu com as suas relações sentimentais e atenção às filhas e netos.

 

Apesar do apelo ou chamada dos tempos que correm em por a carreira profissional à sua frente, o Eng. Geraldes soube estabelecer um correto equilíbrio entre carreira e vida familiar.

 

Ficava particularmente sensibilizado com as manifestações de carinho que, nas redes sociais, manifestava para com seus netos.

 

E o amor que, passados 47 anos de relacionamento, manifestava a sua esposa. Por isso, não resistimos a citar as suas últimas públicas palavras, que deixava a sua mulher, em forma de poema:


Meu amor, o importante é o sorriso
Para seguir viagem
Com a coragem, que é preciso...

Não adianta, deitar contas a vida
A ternura dos sessenta
Não tem conta, nem medida!

 

Cremos que o Eng. Geraldes, como homem e ser humano, nos seus ainda curtos 66 anos de existência, não fracassou.

 

A atestá-lo aqui fica o seu rasgado sorriso, quando é beijado por um dos seus netos.

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João Geraldes foi, manifestamente, um ser humano autêntico e verdadeiramente genuíno.

 

Obrigado, João Geraldes, por este legado ou lição de vida que nos deixaste do teu viver.

 

Até sempre!

 

António de Souza e Silva

 

 

11
Fev20

Versejando com imagem - Vindima, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VINDIMA

 

20200211_141746

 

Mosto, descantes e um rumor de passos

Na terra recalcada dos vinhedos.

Um fermentar de forças e cansaços

Em altas confidências e segredos.

 

Laivos de sangue nos poentes baços.

Doçura quente em corações azedos.

E, sobretudo, pés, olhos e braços

Alegres como peças de brinquedos.

 

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe

A medida precisa que lhe cabe

No tempo, na alegria e na tristeza.

 

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.

Ergue-se em cheio a taça

À própria confusão da natureza.

 

 

Miguel Torga, In “O outro livro de Job”

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Na «Casa do Vinho», Valpaços-Norte de Portugal

09
Fev20

Versejando com imagem - O Pinhão, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O PINHÃO

 

2019.- ADV - I (58)

 

Lá em baixo, na curva do rio,

vazadouro e fornalha, está o Pinhão.

 

Belo!, belo- dirá o turista.

E o burocrata: progressivo.

 

Mas o Pinhão não é nada disso,

é mais do que isso, não é nada

 

do que mostram os documentários de cinema

ou qualquer “Life” comercial.

 

Pinhão!, capital do suor, os teus caminhos

são pedaços de sangue coagulado.

 

António Cabral, In Poemas Durienses

05
Fev20

Ao Acaso... Onde pára a memória do «nosso» Miguel Torga em Chaves?

 

AO ACASO…

 

ONDE PARA A MEMÓRIA DO «NOSSO» MIGEUL TORGA EM CHAVES?

 

Grafiti - Destino, Miguel Torga

 

Já vai para mais de dois anos que, periodicamente, com os nossos amigos da fotografia – Fernando, Berto e João – temos vindo a percorrer todos os cantinhos (andanhos) do nosso Barroso.

 

Não há, por aquelas bandas, nenhuma terra, por onde Miguel Torga tenha passado, que o nosso poeta maior tenha, sobre ela, escrito as suas memórias e comentários nos seus Diários.

 

Como forma de reconhecimento, não só pelos comentários como pelo apreço que o homem Adolfo Rocha tinha pelas suas terras, os seus responsáveis institucionais não quiseram deixar em branco as palavras e comentários que Miguel Torga teceu sobre elas e suas gentes. E esculpiram, nos mais diversos suportes, as suas palavras, textos ou mensagens. Nomeadamente, no caso de Boticas, a sua estátua está bem destacada no centro da vila.

 

A maioria dos flavienses sabem que Miguel Torga, andarilho como era, não deixou um palmo do nosso Trás-os-Montes por percorrer e, não raras vezes, calcorrear a pé. Chaves, o seu concelho e as terras da «nossa» fronteira não foram exceção.

 

Particularmente, nos últimos dias da sua vida, religiosamente aportava a Chaves para, nas suas Caldas, vir tratar das maleitas de que padecia.

 

Lembramo-nos ainda duma célebre tarde de setembro, nos idos de 90 do século passado, quando autarca, juntamente com o Presidente da Câmara, fomos ter com ele ao recinto das Caldas para estar um pouco com ele e desejar-lhe as boas vindas.

 

E recordamo-nos bem dos conselhos que nos deu quanto ao serviço da causa pública e à postura ética que deveríamos ter como responsáveis políticos pelos desígnios da nossa terra: servir e nunca ser servido.

 

Miguel Torga, para além de um grande poeta/escritor, era um homem bom. Um Grande Homem. Fiel às suas raízes. Amante do seu país. Comungando a fundo a cultura Ibérica da qual ele, aliás, foi buscar, para constituir o seu nome literário, o nome de dois grandes vultos da nossa Ibéria Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno.

 

Já se passaram, há bem pouco, 25 anos da sua morte. Como o tempo passa!

 

E nós, flavienses, e responsáveis autarcas, fomos, até ao momento, incapazes de, com dignidade, na nossa terra, perpetuar a memória deste Grande Homem Transmontano, amigo de Chaves e das suas gentes!

 

Habitualmente fazemos o percurso pedestre ao longo das margens urbanas do Tâmega na nossa cidade.

 

Ao Acaso…, um dia destes, numa das estruturas da represa a seguir às «poldras», num grafite, nele aposto,  fomos encontrar este pequeno texto:

20200118_152144

Trata-se, naturalmente, de um escrito de, provavelmente, um flaviense anónimo que não se esqueceu das palavras e mensagem de Torga…

 

É certo que o que Miguel Torga escreveu não foi exatamente o que ali está escrito. Segundo a sua Antologia Poética, in Fernão de Magalhães, Lisboa: D. Quixote, 1999  – mais um grande transmontano desaparecido prematuramente – o texto exato é o seguinte:

Destino, Miguel Torga

Quando teremos coragem, nós, flavienses, de fazer perpetuar a memória deste Grande Transmontano na(s) nossa(s) terra(s) e/ou cidade?

25
Jan20

Versejando com imagem - Balada da morgue, de Miguel Torga

 

 

VERSAEJANDO COM IMAGEM

 

BALADA DA MORGUE

2012 - Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro 072

 

Olho este corpo morto aqui deitado

E sinto impulsos de beijá-lo e ter

Como ele não sei que enfado

Por quem vive e quer viver.

 

Que bruta sinceridade!

Que vaidade!

Que mentira! Que verdade!

Todo nu! Só tatuado

De livores,

Arco-íris gangrenado,

De mil cores.

 

Não é de mulher, não é;

Nem de homem, nem de animal

Irracional.

É de anjo predestinado

Que foi sacrificado

Para dar a noção exata da renúncia.

 

Ai dos enclausurados em sarcófagos!

Ai de quem morre vestido!

Nesta luxúria da morgue

Há todo o satanismo

Que nos foi prometido

No final...

São os gestos parados,

Os olhos vidrados,

Os ouvidos tapados,

Os sexos castrados,

E por cima de tudo o silêncio das bocas.

 

Quero Amar este sol da terra

Que mostra o calor do céu.

O alto céu onde mora

Um Deus que na mesma hora

Nos criou e nos perdeu.

 

Miguel Torga, Rampa, 1930

sarcófago

Fonte:- https://pixabay.com/pt/photos/sarc%C3%B3fago-egito-antiguidade-m%C3%BAmia-4078156/

24
Jan20

Versejando com imagem - Guardai-me!, mas de si! da vida não!, José Régio, in As Encruzilhadas de Deus

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

GUARDAI-ME!, MAS DE SI! DA VIDA NÃO!

Prometheus Bound, Peter Paul Rubens

Prometheus Bound, de Peter Paul Rubens

 

O seu olhar, então, fuzila como um facho.
Suas asas sem fim vibram no ar como um açoite...
E até no leito em que me deito o acho,
E nós lutamos toda a noite.




Até que, vencido, imbele
Ante o esplendor da sua face,
De repente me prostro, e beijo o chão diante de Ele,
Reconhecendo o seu disfarce.

E rezo-lhe: - “Meu Deus! perdão...: Senhor Papão!
“Eu não sou digno desta guerra!
“Poupe-me à sua Revelação!
“Deixe-me ser cá da terra!”

Quando uma súbita viragem
Me faz ver (truque velho!...)
Que estou em frente do espelho,
Diante da minha imagem.

 

José Régio
As Encruzilhadas de Deus

23
Jan20

Palavras Soltas - Lucidez na velhice ou tristeza?

 

PALAVRAS SOLTAS

 

LUCIDEZ NA VELHICE OU TRISTEZA?

 

01.- 'Woman_in_Three_Stages'_by_Edvard_Munch,_Bergen_Kunstmuseum

(Woman: Three Stages, Edvard Munch, 1894)

 

A velhice não é apenas um fenômeno biológico e psicológico.

Depende do modo como cada cultura

e sociedade concebem o que é ser jovem e velho,

bem como a intensidade do valor atribuído a cada uma dessas etapas da vida.

Particularmente hoje, com a aceleração do tempo

e a apologia da boa forma e da performance,

a velhice é repetidas vezes negada.

(…) ser velho é um destino,

e que, na passagem do tempo,

é a condição humana que prevalece.

 

Maria Ester de Freitas

 

 

É assim o resumo, acima citado, do texto que Maria Ester de Freitas faz no seu artigo «Velhice com destino», na Revista GV Executivo, 58 • VOL.5 • Nº5 • NOV./DEZ. 2006, na rubrica «Especial Longevidade».

 

E não resistimos em citar a primeira parte do seu artigo:

“Apesar de as sociedades contemporâneas, particularmente as ocidentais, valorizarem exageradamente a juventude e a beleza corporal, como atesta o crescimento vertiginoso da indústria de bens e serviços estéticos, cosméticos e de cirurgias plásticas, a busca do rejuvenescimento e da beleza duradoura perde-se nas brumas do tempo. Mitos dão conta de alguns exemplos, como o caso da discórdia, no Olimpo, entre Afrodite, Hera e Atena, para a escolha da mais bela. Ou mesmo a tragédia que se abate sobre Narciso, o jovem eternamente  belo. Personagens históricos belos e sedutores podem ser representados por Cleópatra e seus cuidados com a pele ou por Casanova e seu zelo com o corpo e a mente. A literatura adulta também dá o seu testemunho da obsessão pela beleza e juventude com Dorian Gray; com o acordo de alma feito por Fausto e Mefistófeles; com o encanto físico e linguístico de Don Juan, etc. Em todos esses casos, existe um embate entre o Bem e o Mal, cujo final quase sempre é o de uma alma perdida vagando ou da morte pura e simples. O Bem é quase sempre jovem e lindo, enquanto a feiura tem a cara velha

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e malvada do Mal. Juventude e velhice. O significado de belo é difícil de ser consensual, porém o que é a juventude é quase um ponto pacífico, ainda que os limites que separam os jovens dos velhos sejam culturalmente determinados e historicamente mutáveis. A juventude é o momento da vida em que existe o futuro, no qual as capacidades físicas e intelectuais estão em ascensão e o organismo se fortifica e torna-se mais resistente. Já na velhice, o futuro não existe e o presente é ambíguo, ao passo que o passado retorna na forma de lembranças, delírios, devaneios, hábitos empedernidos e teimosias irascíveis. Ser velho e doente são quase sinônimos. Numa comparação como essa, não poderiam deixar de ser compreensíveis os motivos que levam indivíduos e sociedades a considerar a velhice um estorvo, um mal a ser evitado, um tabu e uma fase da vida a ser negada. O orgulho próprio da juventude, e de uma vida adulta saudável, leva-nos a esquecer (ou a negar) que cada um de nós traz o velho dentro de si. Eufemismos como “a melhor idade” traduzem muito mais uma ironia e um cinismo que um consolo ou uma verdade, pois ninguém em sã consciência diria que no momento em que o corpo se degrada de todas as formas se tem o melhor da vida. Por outro lado, a lucidez aparece como o maior elogio que se pode fazer a alguém. A expressão “mas ele continua lúcido” é uma forma de mascarar as outras deficiências e valorizar o que ainda resta do sujeito, como se ele apresentasse um atributo positivo pelo qual é responsável e que é digno de registo.

Envelhecer é um tema que incomoda os jovens, adultos e velhos. Incomoda os velhos porque eles podem ficar ainda mais velhos; mas provoca em todos nós a necessidade de pensar no próprio destino, na transformação a ser operada pelo tempo, pensar que existe uma lei da vida que faz do declínio algo inexorável.

A velhice chega, inevitavelmente, com o tempo: ela se enreda na passagem dos nossos melhores dias e de forma tão silenciosa que não percebemos o ponto de inflexão que nos transforma em velhos. É claro que observamos mudanças na aparência, no vigor físico, nas falhas da memória e em outros sinais, mas não sabemos exatamente em que momento ficamos velhos, em que momento o nosso organismo começou a exibir os traços do declínio. A velhice é um fenômeno biológico dinâmico que provoca alterações profundas no nosso corpo, além daquelas que aparecem no espelho”.

 

A autora acima fala-nos que, na velhice, «a lucidez aparece como o maior elogio que se pode fazer a alguém».

 

É esta também a opinião do nosso Teixeira de Pascoaes no texto que aqui deixamos, da sua obra «Saudade e Saudosismo»:

“A mocidade é noivado, como a velhice é viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, é noivo ainda; e um velho, embora casado, é já viúvo... um solitário guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu espírito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza é o que resta dum incêndio, essa purificação suprema. Por isso, a consciência é um atributo da velhice, e também a ciência. A consciência é a ciência connosco, a ciência identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice é uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera límpida ou varrida pelo zéfiro da morte, a única Deusa verdadeira”.

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(Guido Reni – São Mateus e o Anjo)

Ligeiramente diferente era a opinião «caustica» do «agreste» Miguel Torga quando, em 1 de maio de 1974, falando da velhice, sentenciava: «A Velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez».

 

Neste ponto, Chico Buarque, em certo sentido, segue o nosso poeta transmontano quando afirma que «nem toda a loucura é genial, nem toda a lucidez é velhice».

 

Outros autores «pintam-nos» a velhice com cores menos sombrios e mais garridas.

 

E o caso Cláudia Márcia Teixeira Santos et al., quando nos fala dos pintores, no artigo «A temática da velhice em pinturas expressionistas»:

“O ápice do expressionismo, ocorrido no início do século XX, trouxe às telas de seus precursores cores vivas e expressivas, deixando obras extraordinárias de seus representantes. Dentre estes, vários pintores retrataram com grande beleza a faceta da evolução humana na fase do envelhecimento, contribuindo para o entendimento dessa fase da vida de forma nostálgica e engrandecedora por meio de cores, formas e expressões”.

van-gogh

(Vicent van Gogh, At Eternity's Gate, 1882)

Em jeito de remate, e face a opiniões tão díspares quanto a esta fase da vida humana, estamos com Stendhal quando nos diz que a velhice é essa época da vida em que se julga a vida e em que os prazeres do orgulho se revelam em toda a sua miséria.

 

Quem sabe, talvez o que resta, mesmo no fim de tudo, seja

 

Tristêza

O sol do outomno, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir...

Eis como a minha vida vae passando
Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir
Silencios da minh'alma e o resurgir
De mortos que me fôram sepultando...

E fico mudo, extatico, parado
E quasi sem sentidos, mergulhando
Na minha viva e funda intimidade...

Só a longinqua estrela em mim actua...
Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
Petreficada esphinge de saudade...

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'

04.- assistência-ao-idoso

21
Jan20

Versejando com imagem - A Baco, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A BACO

 

2013 - Vista sobre o Pinhão (12)

Vou-te cantando, Baco!

Não pela colheita de hoje, que é pequena,

Mas pela de amanhã, muito maior!

Vou-te pondo nos cornos estas flores,

Que não querem ser líricas nem puras,

Mas humanas, sinceras e maduras.

 

Vou-te cantando, e vou cantando o sol,

A terra, a água, o lume e o suor.

Vou erguendo o meu hino

Como levanta a enxada  o cavador!

 

Lá nesse Olimpo em geios,

Único Olimpo etéreo em que acredito,

Aí me prosterno, rendo e te repito

Que és eterno,

Mais do que Deus e mais do que o seu mito!

 

Beijo-te  os pés — os cascos de reixelo;

Olho-te os olhos de pupila em fenda;

E sabendo que és  fauno, ou sátiro ou demónio,

Sei que não és mentira nem és lenda!

 

Dionisos do Douro!

Pêlos no púbis como um homem,

Calos nas mãos ossudas!

E bêbado de mosto e de alegria,

À luz  da negra noite e do claro dia!

 

Cachos de alvaralhão de cada lado

Da marca universal da natureza!

Ela, roxa e retesa

Como expressão  da vida!

À beleza Sempre no seu lugar, erguida!

 

E folhas de formosa pelos ombros,

Pelos rins, pelos braços,

Por onde a seiva rasga o seu caminho.

E a cabeça coberta

De cheiro a sémen e a rosmaninho!

 

Modula a sensual respiração

Do arcaboiço fundo do teu peito

Uma flauta de cana alegre e musical.

E és humano,

Quanto mais és viril e animal!

 

Eis os meus versos, pois, filho de Agosto

E dos xistos abertos!

Versos que não medi, que não contei,

Mas que estão certos, 

Pela sagrada fé com que tos dei!

 

 

Miguel Torga,

Odes (Coimbra, 1946) 

19
Jan20

Ao Acaso... Capela do Socorro (Vila do Conde-Porto)

 

AO ACASO…

 

CAPELA  DO SOCORRO 

(VILA DO CONDE – PORTO)

 

E o sol desmaia na cal

Da capela a branquejar

Da Senhora do Socorro

Onde sonhei me ir casar

José Régio

 

sem título (1 de 1)

Habitualmente, quando efetuamos qualquer escapadinha de fim-se-semana, procuramos programar a visita ao local (ou locais) para onde nos dirigimos, sabendo o que ver, onde comer e dormir, embora saibamos que nem sempre as coisas correm como o programado.

 

Contudo, o essencial é sempre visto.

 

Ora, desta vez, quando nos dirigimos à cidade de Vila do Conde, no distrito do Porto, banhada pelo rio Ave, assim não aconteceu.

 

Seguimos a máxima de Eduardo Lourenço quando afirma que “mais importante que o destino é a viagem”. E, na peugada de Fernando Pessoa, deixámo-nos levar pelo que ele diz quando “afinal, a melhor maneira de viajar é sentir”.

 

E foi, em Vila do Conde, o que fizemos: deixámo-nos levar por aquilo que em nós os sentidos mais nos despertaram.

 

É vidente que não podíamos deixar de visitar – na medida do possível – o Convento de Santa Clara, hoje a adaptar-se para uma unidade hoteleira de luxo; a Igreja de Santa Clara, contígua ao Mosteiro com o mesmo nome; o Aqueduto; a Igreja Matriz de Vila do Conde; o Largo D. Afonso Sanches, o Pelourinho, a réplica da Nau Quinhentista; a Igreja Nosso Senhor dos Navegantes; o Museu das Rendas de Bilros; a capela de Nossa Senhora da Guia; o Centro de Memória; o Mercado Municipal do Engenheiro Duarte Pacheco, a Casa José Régio, o Memorial aos Náufragos; a Alfandega Régia – Museu da Construção Naval; o Monumento ao Pescador; a Marginal Atlântica com as suas praias; o Forte de São João Baptista, também referido como Castelo de Vila do Conde; Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção,  na foz do rio Ave; a Igreja de São Simão e São Judas Tadeu; a Igreja e Convento de São Francisco; a Capela de Santo Amaro; a Pedra da Marca; o Cais das Lavandeiras; a Capela de São Bento; a Capela da Senhora da Agonia; o antigo Convento do Carmo, para referir os mais importantes e que nos vem agora à lembrança.

 

É evidente que nem tudo foi visto com o pormenor que estes lugares e edifícios/monumentos requeriam. Mas, o essencial, foi visto e analisado, sendo depois objeto de publicação em posts neste ou noutro blogue da nossa autoria.

 

De tudo quanto num fim de semana de inverno pudemos ver, e percorrendo o casario histórico de Vila do Conde, Ao Acaso… houve um imóvel que, particularmente, nos despertou a atenção.

 

Andávamos percorrendo a marginal do Ave, apreciando o seu casario e toda a sua envolvente, bem assim a sua estatuária pública urbana,

2020.- Vila do Conde (Porto) (202a)

(Aspeto parcial do «Monumento a D. João II», do escultor José Rodrigues, com o Mosteiro de Santa Clara ao fundo)

2020.- Vila do Conde (Porto) (204a)

(Um dos elementos do «Monumento a D. João II», do escultor José Rodrigues - Perspetiva I) 

2020.- Vila do Conde (Porto) (205a)

(Um dos elementos do «Monumento a D. João II», do escultor José Rodrigues - Perspetiva II) 

2020.- Vila do Conde (Porto) (215b)

(Monumento à mulher do pescador)

2020.- Vila do Conde (Porto) (221)

(Pormenor do Monumento à mulher do pescador)

quando nos demos conta – e nos surpreendeu – uma estranha construção num bairro tipicamente marítimo. 

2020.- Vila do Conde (Porto) (169a)

(Edifício por detrás da réplica à Nau Quinhentista)

2020.- Vila do Conde (Porto) (190a)

Cheios de curiosidade, saindo da marginal, embrenhámo-nos no casario histórico vila-condense para irmos ter à Capela de Nossa Senhora do Socorro, também conhecida por Capela do Socorro ou Ermida de Nossa Senhora da Boa Viagem.

 

Eis o aspeto que apresenta a sua fachada principal.

2020.- Vila do Conde (Porto) (268a)

Demos uma volta pelo pequeno e estreito adro que a rodeia.

2020.- Vila do Conde (Porto) (232a)

(Perspetiva I)

2020.- Vila do Conde (Porto) (235a)

(Perspetiva II)

 

O exterior é de planta quadrada; o interior, é circular e elíptica, e tem uma cúpula do tipo mesquita.

 

Entrámos.

 

O seu interior está coberto de azulejos do século XVIII que relatam aspetos da vida da Virgem Maria.

 

Esta Virgem é especialmente venerada pelos pescadores do estuário do rio Ave.

 

E, pelos vistos, esta «estranha» capela está classificada como Imóvel de Interesse Público, nos termos do Decreto nº 95/78, DR, I Série, nº 20, de 12 de setembro de 1978.

 

Nesta conformidade, vejamos o que a Direção-Geral do Património Cultural nos diz quanto a este imóvel classificado:

 

“Situada junto ao rio, a capela do Socorro destaca-se pela configuração dos volumes que a compõem, e por se encontrar num plano ligeiramente mais elevado, limitado por um murete, a que se acede através de uma pequena escadaria. Este templo insere-se no conjunto de ermidas e capelas de planta centralizada, que surgiram no nosso país no decorrer do século XVII, em maior número na região de Aveiro e Coimbra […]. Contudo, e ao contrário do que aconteceu em boa parte dos exemplos subsistentes, em Vila do Conde foi utilizado um modelo de planta quadrada, coberto por uma abóbada semiesférica, de grandes dimensões.

A cornija, que remata o corpo quadrangular, exibe uma série de elementos de granito que decoram e animam o volume inferior e, no extremo esquerdo do alçado Norte, uma sineira. A entrada é definida, nesta fachada, por um vão de arco perfeito em granito.

Trata-se de uma edificação seiscentista, erguida no início do século XVII, mais precisamente, em 1603, a expensas do piloto-mor da Carreira da Índia, Gaspar Manuel, e sua mulher, como atesta a inscrição existente no portal. É possível que o casal tenha patrocinado a construção deste templo com o objetivo de criar um mausoléu, onde ambos pudessem ser sepultados, o que veio a acontecer sete anos depois, em 1610, data em que faleceu Gaspar Manuel. A sua campa (e a sua mulher), rasa mas com brasão de armas e inscrição, mantém-se no interior do templo.

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Todavia, neste espaço, é o conjunto azulejar barroco e o retábulo-mor, de talha branca e dourada, de gosto rococó, que se revestem de especial importância, emprestando à capela uma dinâmica e cenografia, próprias de uma época posterior à da sua edificação.

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No altar de talha rococó, está uma imagem de Nossa Senhora segurando o Menino Jesus e uma âncora.

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Os azulejos encontram-se divididos em dois níveis, muito possivelmente executados em épocas distintas e por artistas diferenciados. Assim, no inferior observam-se cenas de paisagens enquadradas por anjos de grandes dimensões, a que se sobrepõem cenas da vida da Virgem: Adoração dos Magos, Fuga para o Egipto, Jesus entre os Doutores, Apresentação da Virgem, Casamento de Nossa Senhora, Anunciação e Adoração dos pastores.

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(Painel do lado da sacristia)

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(Painel da Anunciação)

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(Painel da Adoração ao Menino dos Reis Magos)

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(Painel do lado da sacristia - Pormenor)

Os painéis figurativos foram atribuídos por Santos Simões ao Mestre P.M.P., o pintor de azulejo ativo no primeiro quartel do século XVIII, mas do qual se desconhece o nome […]. Este, pertence ainda ao denominado "ciclo dos grandes mestres", revelando a ascendência dos Oliveira Bernardes, mas desenvolvendo a sua obra num sentido mais ingénuo e menos erudito […]. Nos estudos e biografias relativas a este pintor, José Meco tem vindo a manter os azulejos da capela do Socorro no acervo pictórico do Mestre P.M.P., mas sem avançar nenhuma data mais específica para a sua execução”.

 

A autoria do texto é de Rosário Carvalho.

 

Por sua vez, no sítio da web da Paróquia de São João Batista de Vila do Conde e, a certa altura, diz-se: “a invocação da Virgem e o estilo arquitetónico da capela refletem os gostos de Gaspar Manuel, cuja sepultura ainda hoje pode ser encontrada no chão da capela. Piloto-mor era o funcionário marítimo responsável pela chefia do serviço de pilotagem dos portos, bem como pela superintendência de todos os seus pilotos da barra e práticos, cargo que era exercido por Gaspar Manuel no extremo oriente, de influência portuguesa. O gosto pela arquitetura oriental do seu construtor conferiu à capela um aspeto de “pagode indiano”. O interior, contudo, é bem típico da arquitetura portuguesa: revestido a azulejos do séc. XVIII que retratam aspetos da vida da virgem Maria; possui retábulo em talha rocócó, com a imagem de Nossa Senhora, segurando o menino e uma âncora”.

 

Saímos do local da capela e, poucos metros depois, rodando à direita, descendo uma escadas, dirigimos-mos à Alfandega Régia – Museu da Construção Naval.

 

Mas esta visita e este local, bem assim outros, como dissemos, será objeto de um ou outros posts.

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