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zassu

16
Set13

Encontro(s) - Cena 12:- A Noite das Bruxas em Montalegre

 
 

A NOITE DAS BRUXAS EM MONTALEGRE

 

 

13. Setembro. 2013

 

 

Não acredito em bruxas, embora os nossos amigos espanhóis/galegos digam que elas existem, existem… (“no creo en brujas, pero que las hay, las hay”).

 

Nem tão pouco em feiticeiras, embora, alguns seres (principalmente femininos) possuam elixires e fórmulas de «encantamento» suscetíveis de nos porem doentes ou de nos curarem dos males de amor.

 

Julgo não ser nada supersticioso. Por isso, não sou muito dado a manifestações «puras» deste calibre. Assim como também não vou muito em carnavais. São tudo manifestações que, embora respeite, não entram abertamente na minha índole pesada de capricórnio.

 

Posto isto, não admira ter ido ou sequer participado nos eventos que, em Montalegre, a partir de 2002, ali têm sido levado a cabo – a Noite das Bruxas, em todas as sextas-feiras que coincidam com o dia 13.

 

Simplesmente, desde aquele ano, e até à presente data, este evento deixou de representar uma simples comemoração do dia 13, sexta-feira, passando a ser um fenómeno que foi muito para além das representações de bruxaria e feitiçaria e esconjuros. Ou seja, passou a ser um fenómeno com contornos antropológicos e sociológicos. A matriz fundacional está subjacente, contudo, numa sociedade de massas e globalizada, passou a ter mais duas vertentes: de cultura (de massas) e comercial.

 

E a partir, suponho, deste pressuposto, a edilidade montalegrense, e porventura o seu comércio local, têm feito uma aposta na comemoração desta data.

 

E está bem escolhida a terra. Perto de uma serra mítica – o Larouco – que foi palco, em tempos que já se perderam na bruma dos tempos, de deuses pagãos. E, embora aqui, tenha entrado o cristianismo, nunca as suas populações, de geração em geração, se esqueceram dos seus velhos e ancestrais deuses pagãos e de todas as superstições que, quer com a cultura castreja, quer com os celtas, lhes andam associadas.

 

Não espanta, por isso, que em tão boa hora tenha surgido um homem que, profundo conhecedor do seu povo e amante das suas tradições, tenha, subtilmente, feito a simbiose entre um certo passado e o presente. Não matando, de todo, aquele e, revitalizando, este.

 

Talvez aqui, por artes de encantamento, tenha aproveitado uma tradição ancestral e, revitalizando-a, a projetou para o futuro como um momento de valia cultural e social, no contexto de uma sociedade rural, interior, a necessitar de um novo desígnio, uma nova visão, capaz de projetar esta terra em termos de desenvolvimento, via a um futuro mais próspero e desenvolvido.

 

Padre Fontes é, pois, a alma deste evento ao qual a edilidade de Montalegre e, porventura, os seus comerciantes e residentes, lhe dão corpo.

Bem hajam os montalegrenses por tão bem saberem utilizar esta oportunidade!

 

De uma comemoração que começou por umas escassas centenas de pessoas, hoje Montalegre, nesta data, é demasiado pequena para receber tanta gente.

 

Há, assim, que repensar a forma de encarar e por em prática este evento, aliás como outros que, com certa projeção local, regional, nacional e, porque não dizê-lo, em certo sentido, internacional, que por aqui se vão realizando, como, nomeadamente, a Feira do Fumeiro, em Montalegre, e o Congresso de Medicina Popular, em Vilar de Perdizes.

 

Desde logo nos espaços envolventes ao centro urbano, dando-lhes qualidade de aparcamento suficiente para uma acolhida condigna, conjugando esses «criados» espaços urbanos em perfeito equilíbrio com o espaço natural envolvente. Que os tem e são tão belos!

 

Depois o centro urbano propriamente dito. Deve ser muito mais cuidado. Quer nos seus arruamentos, quer nas suas fachadas. Que devem ser típicas e devem evidenciar toda uma história medieval que lhe está associada, acrescentado a valia de autênticas obras de arte em arquitetura que deem a esta vila um outro «ar», o de que sabe bem o que quer, inserindo-se corretamente no século XXI em que vive.

 

E não nos podemos esquecer do seu comércio, em geral, e da restauração e hotelaria, em especial. Se a valência turística é aquela em que Montalegre está apostando, e forte, deve, pois, nesta vertente, ter especial cuidado. É certo que estas coisas não se fazem de um dia para o outro – levam muito tempo -, mas, plagiando outros, ontem já é tarde!

 

Queria agora referir em especial cinco pontos ou temas que, para além dos já referidos, penso que, com eles, se deve ter especial atenção.

 

O primeiro tem a ver com a animação de rua. Sinceramente gostaria de ver mais grupos locais, de Montalegre, Barroso, a serem eles os verdadeiros anfitriões dos forasteiros/turistas que nestes dias visitam Montalegre. Não sou contra os outros grupos. Queria apenas chamar a atenção para o entusiasmo e dinamismo das instituições locais na vivência e por em prática das tradições folclóricas, musicais e teatrais que mais os identificam.

 

Em segundo lugar – a organização. Sei que o ser barrosão se compagina com uma certa desorganização. Muitos até veem nela a sua singularidade. Devemos, contudo, primar pelo profissionalismo, em sabermos fazer bem-feitas as coisas!

 

Em terceiro lugar, o local do espetáculo –rei da noite e respetivo esconjuro – o Castelo. Há que repensar toda a sua envolvente. Aquele relvado, e a forma como estão dispostos os equipamentos para o espetáculo multimédia e pirómano, já não chega para, em segurança, comportar tantos milhares de pessoas. E não me parece difícil redimensionar aquele espaço. Há que valorizar de um outro jeito (em diálogo com o IGESPAR) toda a envolvente do Castelo, criando condições para a instalação de equipamentos fixos polivalentes, evitando instalações, de momento, a «troixe-moixe», de mamarrachos que, para esta ocasião, ali colocam. Até porque aquele Castelo bem merece! Como um ambiente de passeio, convívio; como de uma verdadeira praça pública se tratasse, aproveitando, por outro lado, a sua posição como um extraordinário miradouro.

 

Em quarto lugar – o espetáculo-rei. É bom que cada sexta-feira, dia 13, traga um tema diferente ao palco do Castelo de Montalegre. Que, aqui, possam atuar os mais diversos grupos e as mais diferentes correntes e tendências artísticas. Afinal a Noite de Bruxas é um evento que já ultrapassou as fronteiras do Alto Tâmega e Barroso! Por isso, fico deveras triste que, enquanto o espetáculo –rei e o respetivo esconjuro não se realiza, principalmente entre as 21. 30 horas e as 23, toda aquela assistência que vem chegando, ou das suas localidades ou dos diferentes restaurantes e tendas onde deram largas à degustação da gastronomia local, sentada em pleno relvado, apenas assista à projeção de simples e pobres «slides» alusivos ao mundo da bruxaria, acompanhada, quase exclusivamente, de uma música cafona e extraordinariamente brejeira, para não dizer de mau gosto, a roçar o pornográfico. Alguns poderão dizer que o povo gosta. Também no tempo dos romanos os circos promoviam toda aquela selvajaria, atrocidades e mortandades! E o povo também gostava… Mas quanto estamos hoje longe do «panis et circenses» do Império romano! Um espetáculo oferecido pela edilidade, para além da parte essencialmente lúdica, não deve deixar de lado (conter) algo (também) de informativo e formativo. Eu gostaria que Montalegre aproveitasse esta ocasião para, em espetáculos multimédia, dar a conhecer, a todos quantos a visitam neste dia, toda a riqueza das suas tradições e história. Da sua vila. Das suas freguesias. Das suas aldeias. Da sua extraordinária natureza. Das suas gentes – mulheres e homens extraordinários ao longo do tempo. Porque, assim, e ali, todos se podem orgulhar daquilo que são, da identidade que transportam, perante os milhares de forasteiros/turistas que ali vão. Sem tibiezas, temor ou vergonha daquilo que foram e são! E todos ficarão mais enriquecidos: uns, reforçando a sua identidade própria; outros, conhecendo um pouco mais do Portugal que somos!

 

 

Finalmente o último tema. Que, porventura, à partida poderá ser encarado com algum «melindre» e que, obviamente, tem a sua delicadeza. Mas creio estar à vontade para falar do assunto e tenho a certeza que serei bem interpretado pela pessoa de que vos vou falar. Amiúdo, oiço afirmar que a Noite das Bruxas é do Padre Fontes. Enquanto assistia ao espetáculo, todos, à minha volta, ansiavam pela vinda do Padre Fontes para «fazer o esconjuro». Ora, em bom abono da verdade, a Noite das Bruxas não é do Padre Fontes. Padre Fontes é uma grande personalidade do Barroso: um grande barrosão! E, entre as suas muitas iniciativas, a Noite das Bruxas é da sua paternidade. Contudo, a partir de certa altura, o filho, a filha aqui neste caso, deve seguir, com os seus próprios pés, o seu próprio caminho. Como bom pai, e enquanto puder, deve estar presente e participar em todas as cerimónias daquela que foi a sua criação. Mas, infelizmente, não somos infinitos. Nem tão pouco o Padre Fontes! Porque, como se sabe, os sacerdotes também morrem. Que viva por muitos anos, e bons, Padre Fontes! Mas há sempre um tempo de nos prepararmos para a partida, deixando que a vida continue. Espero, muito sinceramente, que este genuíno espetáculo perdure muito para além de Padre Fontes. Tal como as tradições e crenças barrosãs, que ele tão bem relata, e os deuses pagãos que habitam por todo o Larouco.

 

 

Aqui fica um conjunto de considerações que numa visita solitária (e muito pouco participativa) que pela primeira vez, no passado dia 13, fiz a Montalegre, a partir das 19 horas, para presenciar a Noite das Bruxas, percorrendo todas as ruas da vila e assistindo, do alto do relvado, encostado ao gradeamento de proteção ao Castelo, ao espetáculo-rei da noite e respetivo esconjuro.

 

Numa nota à margem, não resisto, em pleno período eleitoral autárquico, de vos dar conta deste apontamento. É certo que a gente era muita. Que, por tal fato, a minha visão foi muito dificultada de tudo quanto a cartazes dizia respeito. Por isso, posso, eventualmente, estar aqui a dizer-vos uma inverdade. Pode ser. Mas, pelos meus olhos, não minto, e uma coisa é certa: não vi nenhum cartaz de propaganda eleitoral afixado da oposição à atual Câmara de Montalegre. Apenas vi – e muitos poucos – do sucessor do atual Presidente. E um único, logo à entrada da vila, do candidato sucessor, Orlando, com toda a sua equipa.

 

Para mim, das duas, uma: ou a oposição ficou verdadeiramente «enfeitiçada» ou o «esconjuro» do Padre Fontes resultou em cheio, em claro benefício dos atuais detentores do poder municipal em Montalegre. Pois, porque raios de alguém deveria vir o mérito?

 

 

 

(Augusto Santos) Zassu

 

  

 

  

3 comentários

  • Imagem de perfil

    zassu

    18.09.13

    Meu caro,
    Hesitei muito nesta frase. Tem inteira razão. Vou, porque também assim estou convicto, corrigi-la. Obrigado!
  • Sem imagem de perfil

    José Goris

    18.09.13

    Pois fico muito grato, a nossa terra, a nossa língua e a nossa identidade, que é muito mais comum antes de com os castelhanos com os portugueses, certamente com o norte de Portugal, merecem o respeito de reconhecer o que @s galeg@s somos, a historiografia fiz com que estas cousas sucedam mas e bom ir corrigindo o que é sem dúvida injusto.
    Obrigado, um abraço.
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