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zassu

25
Mai13

Encontro(s) - Cena 10:- "Envelhecer nas terras do Barroso" e outras considerações

 

 

 

SESSÃO DE ENCERRAMENTO

DO

I CONGRESSO INTERNACIONAL

 

A ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL, GERONTOLOGIA E GERIATRIA

A INTERVENÇÃO SOCIAL, CULTURAL E EDUCATIVA NA TERCEIRA IDADE

 

 

 

 

Foi com muito gosto que estive presente no I Congresso Internacional subordinado ao tema "A Animação Sociocultural, Gerontologia e Geriatria - A Intervenção Social, Cultural e Educariva na Terceira Idade" que decorreu na vila de Boticas, Trás-os-Montes, Barroso, nos dias 23, 24 e 25 do corrente mês de Maio.

 

Assisti à maior parte dos Painéis que constavam do Programa.

 

Temas candentes os que aqui se trataram, a necessitarem de uma profunda e profícua reflexão não só por parte dos investigadores, docentes e técnicos das áreas nele tratado, em especial dos que se dedicam à animação sociocultural, à gerontologia e à geriatria mas, e essencialmente, de uma consciencialização mais profunda da sociedade em geral.

 

Perante uma sociedade que, no futuro, contará com uma parcela importante, maior e significativa de gerontes, em comparação com as outras classes etárias, qual o papel que estes podem e devem desempenhar na sociedade do futuro?

 

Urge pensar em formas institucionais que, para além de se preocuparem com os cuidados ao idoso, em termos de concitar um melhor envelhecimento, de uma forma ativa, este também possa, e deva, ser produtivo, contribuindo, assim, para que esta fatia,  ou parcela cada vez mais significativa da sociedade, dê o seu contributo, alicerçada na experiência de toda uma vida, para a construção de uma sociedade mais solidária, mais justa, mais equitativa e mais ética, porque baseada numa profunda necessidade de uma efetiva relação e convivência intergeracional que conta com todos como iguais.

 

Neste sentido, há que revolucionar mentalidades, criando uma cultura social que olha para esta parcela cada vez mais significativa da população do fututro não com comiseração e benevolência, segregando-a, mas com atores, partícipes importantes na construção da sociedade do futuro.

 

Por isso, há que criar novos palcos, novos espaços de representação para estes importantes atores, a exigir uma alteração radical das políticas públicas seguidas até aqui.

 

Os idosos e reformados, não podem ser olhados, ou sequer tratados, pelos decisores políticos, como a parte mais fraca, com os quais se têm a maior falta de respeito e com os quais se cometem as maiores atropelias em termos dos seus direitos e dignidade, tal como infelizmente está a acontecer nos tempos que correm.

 

Há que contar com eles. Fazendo-os entrar na agenda política, não pelos piores motivos, outrossim, como um ativo importante da sociedade. Por tal fato não devem ser provocados, muito pelo contrário, devem ser apreciados, acarinhados, contando com eles para as novas tarefas do futuro. Porque, nos tempos da crise para a qual nos lançaram, eles têm sido, em grande medida, o suporte económico, moral, afetivo e efetivo das novas gerações.

 

É com o seu saber e experiência de vida, juntamente com as novas gerações, que uma outra sociedade será possível erguer-se. Uma sociedade sem exclusões e de partilha.

 

Deixo agora aqui as palavras sábias do Padre Fontes, proferidas na Sessão de Encerramento do Congresso. Palavras que ele tão bem soube apanhar da voz e extrair do sentir do povo do barroso com quem lidou e viveu uma vida inteira quando fala de:

 

ENVELHECER NAS TERRAS DE BARROSO

 

"Há uma arte de envelhecer, viver com regras ditadas pela tradição, da sabedoria popular barrosã. Vamos dar uma olhadela aos ditos e provérbios que andam de boca em boca e marcam a conduta geral de novos e velhos. Já que ditos velhos são evangelhos.

 

São muitos e valiosos os valores positivos,  apreciados pelas famílias dos nossos idosos e pela sociedade que os rodeia.

 

Velhos são os trapos, para dizer que ainda tem muito para dar. Quem de novo baila bem, de velho jeito lhe tem. Bailar cantar faz bem: quem canta seu mal espanta. Gostam de contar, cantar, rezar, ser ouvidos, orgulham-se até do sofrimento passado. Dizia uma idosa desgostosa da vida de emigrante: en France rien chante, au Portugal, tout le monde chante.

 

É triste ser velho, dizem em desabafo. Um velho triste é um triste velho. Para muitos é a única idade que não se recorda, nem deixa saudades. Bocage escrevia: já Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento…

 

São o equilíbrio e estabilidade da família, pelo saber de experiencia feito. Os avôs são pais duas vezes, além da genética, passam a tradição, a cultura barrosã, os contos, as lendas, as artes e ofícios, as rezas e mezinhas, a medicina ervanária, o cancioneiro e jogos infantis, a religiosidade popular, aos netos. Sentem-se válidos, com gosto e ilusão pela vida. Quem corre por gosto não cansa.

 

Têm o seu lugar de destaque na família, na mesa, e na comunidade da aldeia e é cabeça de casal, representa a família, conforme as posses ocupa o seu tempo, na agricultura, vai coas vacas, apoiado no cajato, com a rês, leva o burro a comer, vai à erva para os porcos de ceva, torna a água aos lameiros, vai à feira e as festas da sua devoção, cumpre promessas aos santos, vai aos velórios e funerais, cuida das campas dos seus.

 

O velho tinha razão. Atrás de mim virá, quem bom de mim fará. Serve de consolação para os mais velhos quando econhecidos. O velho e o menino vão para onde lhe fizerem carinho.

 

Envelhecer e viver no mundo rural Barrosão, na casinha pobre, mas cheia de memórias e vivências, com o seu pé-de-meia, a reforma poupada, para o fim da vida, ou para amimar filhos e netos, com nova ou velha profissão, prolonga a vida e dá-lhe sabor.

 

Hoje o telefone, substituiu as cartas. Muitos não sabem ler.  O Ipad, o skype, o facebook aproximam os avós dos netos e filhos distantes mantendo a proximidade e companhia, se iniciados e ensinados a descobrir esta nova tecnologia.

 

Gosta de regressar vivo ou morto ao seu torrão natal, onde é estimado, chorado e sufragado, onde repousam os antepassados. Ruim é o passaro que não volta à sua ribeira.  

 

São os idosos os mais resistentes povoadores, animadores e defensores enraizados, heróis vencedores,  combatentes na agricultura, defesa do ambiente, educadores, moradores, conservadores de cultura popular, jogos, medicina, religiosidade popular, que merecem carinho, dedicação, atenção, na esperança de um futuro promissor de bem estar com a natureza e a família. Em aldeias desertas restam eles como guias turísticos,  de rostos e mãos enrugadas, alvos de fotógrafos e cineastas, jornalistas. São enciclopédia aberta, inédita, neste Barroso  antigo, velho, paraíso a descobrir.

Cada idoso que morre é uma biblioteca que se enterra, e perde, se não for registada. Mais velho que a Sé de Braga, diz-se para valorizar o saber do idoso. O diabo sabe muito, porque é velho.

 

ASPETOS NEGATIVOS

 

A ameaça de maus tratos, a doença, a solidão, o abandono, a pressão para fazer testamento, escritura, doação, ou venda de bens, o perigo da braseira, de caírem ao lume de morrerem sem amparo, são muitas vezes pressões que aceleram o fim, o desgosto de viver, lagrimas de desconforto. Chegam a pedir a Deus que os leve, desabafam dizendo que são um estorvo, que já não servem para nada.

 

O que o berço dá a tumba o leva. Acabadas as obras da casa diz-se: ninho feito, pássaro morto. Velho mudado é velho enterrado. Alguns mudam cada mês, andam à roda pelos filhos, ou estranhos, muitas vezes no estrangeiro desgostosos, fechados, onde não conhecem nada nem ninguém. Pedra mudada não cria musgo. Nem sempre se adaptam ao novo ambiente, às noras ou sogras.   Filhos criados, trabalhos dobrados.

 

São muitas vezes os únicos moradores na aldeia, no bairro.

 

Lembramos a lenda do filho que leva o velho ao monte e ao deixa-lo lhe dá a capa, o velho lhe diz: leva metade da capa, para quando fores velho  te trouxerem para o monte.  Filho és pai serás como fizeres assim toparás. Casa de pais, escola de filhos. Cada um sair aos seus não é pecado.

 

Quem faz testamento, antes que morra, merece com uma cachaporra. Os novíssimos do velho são 4: Muita tosse, pouca posse, pingar-lhe o nariz, não saber o que diz. Cabra manca não tem sesta, e se a tem pouco lhe presta. Burro velho, erva tenra. Burro velho não aprende línguas. Burro velho não toma andadura e se a tem pouco lhe dura. Velhos ao canto.  Homem velho, mulher nova, filhos até à cova. Casamento e mortalha no céu se talham.

 

Em toda a Europa na terceira quarta da quaresma serrava-se a velha, avó. Em Vilar de Perdizes mantemos o ritual que consiste num cantar um responso em latim de noite à porta das avós, terminando com ruídos de latas, serras, gritos. Em Tourém é de dia que os rapazes da escola vão atormentar cada velha até lhe darem um pouco de palha que simboliza a velha e vão queimá-la com barulho de muitos chocalhos que abanam com gritos e choros: minha velhinha... Em S. António de Monforte os homens fazem sair de casa as avós, que vão todas juntas pela manhã passar o dia, fora da aldeia, no monte Pitorca, só regressando à noite.

 

Muitos são vítimas do abandono dos filhos, emigrados ou não. É melhor ser cão na vila, que velho em muitas aldeias, criticam algumas famílias. Outros ficam-lhes com as magras reformas, em troca ou promessa de cuidados, usando as economias dos pensionistas para combater a crise atual e o desemprego de filhos e netos.

 

O cancioneiro Barrosão está cheio de romances, cantigas  referindo-se aos defeitos e valores do idoso.

 

Hei-de amar-te até à morte

Até depois de morrer,

Até debaixo da terra,

Meu amor podendo ser.

 

Do tempo que já passou

Do tempo que já  lá vai.

Minha mãe já se não lembra,

Quando namorou meu pai.

 

 

Eu  casei-me com um velho

Hei-de me fartar de rir

Fiz-lhe a cama alta

Onde não possa subir.

 

Casei-me com uma velha

Por causa da filharada.

Pega o diabo da velha

Trás-me dez duma ninhada.

 

Minha sogra morreu ontem,

O diabo vá com ela.

Deixou-me a chave da adega

O vinho bebeu-o ela…

 

Eu hei-de morrer cantando,

Já que chorando nasci

Não tenho porque chorar

Chore o diabo por ti.

 

Bocage poeta de sonetos brilhantes, confessou:

Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento… eu me arrependo…. Oh se me creste gente impia, rasga meus versos cre na eternidade.

 

Citando Camões, grande Camões…só terei paz na sepultura."

 

Zassu

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