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zassu

19
Jul22

Versejando com imagem - Dois vilancetes e uma sentença, D. Francisco de Portugal

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DOIS VILANCETES E UMA SENTENÇA

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VILANCETE

 

Meu amor, tanto vos amo,

Que meu desejo não ousa

Desejar nenhuma cousa

 

Porque se a desejasse

Logo a esperaria

E se a eu esperasse

Sei que vos anojaria.

Mil vezes a morte chamo

E meu desejo não ousa

Desejar-me outra cousa.

 

Agora, é a dor da ausência da amada o que o poeta sofre neste outro vilancete de elegante versificação:

 

VILANCETE

 

Meu bem sem vos ver

se vivo um dia

viver nam queria.

 

Caland’e sofrendo

meu mal sem medida,

mil mortes na vida

sinto não vos vendo.

E pois que vivendo

moiro todavia,

viver nam queria.

 

São poemas ao gosto de uma época que, na simplicidade da sua versificação, guardam o eterno do amor na ansiedade do desejo e dor do afastamento.

Termino esta pequena amostra da poesia de D. Francisco de Portugal com uma das suas sentenças rimadas:

 

SENTENÇA

Que grande espanto é cuidar

Como se sustém o mundo.

Quam perto está de pasmar

Quem às cousas vê o fundo.

 

D. Francisco de Portugal

Publicado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Transcritos de Sentenças de D. Francisco de Portugal, 1º Conde de Vimioso, seguidas das suas poesias publicadas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, revistas e prefaciaras por Mendes dos Remédios, Coimbra, França Amado Editor, 1905.

***

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma iluminura dos Irmãos Limbourg (início sec. XV), Les Trés Riches Heures du Duc du Berry, cena cortês no mês de Abril. 

 

16
Jul22

Versejando com imagem - Ode, de Manuel da Veiga Tagarro

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O D E

PINTASSILGO_(_Carduelis_magellanica_)

De um verde ramo o doce pintassilgo

Vozes ao vento dava;

Tais primores inventa

Que o Tejo que passava

Pirâmides de vidro trasladava.

 

Anfriso pobre, sobre a barca humilde,

Na mão o leme tinha

E, ouvindo o vário canto,

Pera a praia se vinha

Por gozar de mais perto a avezinha.

 

Chegou o peregrino à praia amena,

E o pássaro contente

Compassos de garganta

Dobra mais brandamente,

Como quem de desgostos vive ausente.

 

Anfriso, de sua barca debruçado,

Ao pranto as rédeas dava

Tendo os olhos na areia,

E quando os levantava

Ao pequeno cantor assi falava:

 

Músico ramalhete, que cantando

Ao tom das claras águas,

De cuidado isento e de mágoas,

Não sentistes de amor as duras fráguas;

 

Se faz das ondas órgãos de cristal

Este rio fermoso

A que os cantos largais

De álamo frondoso

Com vossa companhia venturoso;

 

Se as capelas de vozes acordadas

Quando as pintadas aves

Fazem salvas ao dia,

Alegres e suaves,

Ora agudos acentos, ora graves;

 

Se naquele sonoro ajuntamento

De solfa não aprendida

Lançais o contraponto

Com garganta subida.

Temei, pássaro, a sorte endurecida.

 

Temei do caçador os cegos laços

E temei muito mais

As redes do Amor,

Que se hoje cantais,

É porque vosso mal não adivinhais.

 

Não fieis nessas penas de ouro e verde

Nem no canto acordado,

Porque eu também cantei.

Ai, rigoroso fado!

Quantos tiros esta alma tem provado!”

 

Isso dizendo, o pássaro voava;

E ele, a proa virando,

Dividia as escumas

Suspiros derramando

Que os ventos pelos ares vão levando.

 

Manuel da Veiga Tagarro

Manuel da Veiga Tagarro foi um poeta português ativo durante o século XVII.  

A Laura Anfriso (Évora, 1627) é considerava a obra principal deste Autor.

 

13
Jul22

Versejando com imagem - A um mosquito, de Jacinto Freire de Andrade

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A UM MOSQUITO

Mosquito

Invencível mosquito,

Émulo do mais livre pensamento,

Sem corpo, e de todo espírito,

Que deste fim a um tão alto intento,

Quando precipitado

O céu de Délia acometeste ousado.

 

As portas de diamante

Cerradas ao clamor de tanta gente

Abriste triunfante,

Zombando da esperança impertinente,

Que entre temor, e espanto

Nunca acabou comigo esperar tanto.

 

Cupido, que inquieta

Délia sentiu ferida,

Espera, que o sinta,

A lança, que tiraste em sangue tinta,

Que o peito endurecido

É prova das setas de Cupido.

 

Porém de nada disto

Te mostres tão soberbo, e presumido,

Que podes sem ser visto

Passar a mais ferir, sem ser sentido,

E para castigar-te,

Não ocupas lugar nalguma parte.

 

Foras de amor ferido,

Se tivera o teu erro algum desconto,

Ou se achara Cupido

Aonde a ponta da seta pôr o ponto.

Condolação bastante;

Pois não picaste a Délia como amante.

 

Buscaste a noite escura

Por cometer a Délia mais oculto;

Quem medo te afigura,

Se não faz o teu corpo nenhum vulto,

Pobre de ti tão pobre,

Que a mesma luz do Sol te descobre.

 

Hidrópico mosquito,

Por beber sangue assim não te condeno,

Nem cometes delito,

Que com os olhos da alma tão pequeno,

Quando apenas te vejo,

Que desejas lugar para o desejo.

 

Tanto o saber Divino

Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,

Que Ambrósio Calepino

Não tem nome, que imprima o teu tamanho,

Porque o diminutivo

É mais em ti, que o teu superlativo.

 

Por tradição antiga

Deves graças a Deus humilde, e mudo;

Pois não falta quem diga,

Que de nada te fez, o que fez tudo:

Sendo que bem pudera

Fazer de ti nada, se quisera.

 

Causas ao Mundo todo

Admiração tão grande, que se espanta

De ver por novo modo

Em corpo tão pequeno traça tanta;

Porque o entendimento

Fábrica vê em ti sem fundamento.

 

Oh de suprema ideia,

Subtil debuxo, amostra primorosa!

Porque em ti mais campeia,

Que na máquina altiva, e majestosa:

Que em fazer-te tão pobre

Sua grandeza muito mais descobre.

 

Somente, se se adverte,

Dos vidraceiros és bem grande afronta;

Pois não têm para ver-te

Óculos nenhuns, que cheguem à conta;

Pois para ver mosquitos

É necessário ter graus infinitos.

 

E vós, que antes do dia

Das culpas castigais levando a palma,

Por nova tirania,

Que fizeste do corpo inferno da alma

Se fizeste do corpo inferno da alma:

Se por esta vitória

Tendes glória, ou vanglória.

Entre tantos rigores não durmais,

Pois se as almas sem culpas castigais,

Para desinquietar

Vosso rigor severo, e infinito

Basta só o sonida de um mosquito.

 

Jacinto Freire de Andrade

10
Jul22

Versejando com imagem - A uma regateira, de D. Tomás de Noronha

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A UMA REGATEIRA

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A minha Isabel

saiu esta tarde

A matar de amores,

A vendar gorazes.

 

Deitada ao pescoço

A beatilha leva,

Pois de desprezar

Somente se preza,

 

Por fresco apregoa

O peixe, meu bem,

E no apregoar fresco

Quanto sal que tem!

 

Gadelhinhas louras,

Que pelas gadelhas

A minha alma anda

Pendurada nelas.

 

Em continhas brancas

Extremos vermelhos.

Porém como ela

Não há tal extremo.

 

Memória de prata

Metida no dedo,

Vá-se embora o ouro,

Que não tem tal preço.

 

Sainha de pano,

Barra de veludo,

Mantilha vermelha,

Sapata em pantufo.

 

Ao passar lhe disse

Pela requebrar:

Senhora Isabel

Quem fora goraz!

 

Fizera-lhe eu logo

Depressa um Soneto,

Porque de poeta

Tenho meus dois dedos.

 

Porém nesse passo

Entrou Bastião,

Pediu-me dinheiro,

Dei a tudo de mão.

 

Dom Tomás de Noronha,

in «Antologia Poética»

07
Jul22

Versejando com imagem - Tirano Deus Cupido, de Soror Violante do Céu

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TIRANO DEUS CUPIDO

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Que suspensão, que enleio, que cuidado

É este meu, tirano deus Cupido?

Pois tirando-me enfim todo o sentido

Me deixa o sentimento duplicado.

 

Absorta no rigor de um duro fado,

Tanto de meus sentidos me divido,

Que tenho só de vida o bem sentido

E tenho já de morte o mal-logrado.

 

Enlevo-me no dano que me ofende,

Suspendo-me na causa de meu pranto

Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

 

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto

Que para quem de ti não se defende

Basta menos rigor, não rigor tanto.

 

Soror Violante do Céu,

in «Antologia Poética»

04
Jul22

Versejando com imagem - Mundo incerto, de D. Francisco Manuel de Melo

VERSEJANDO COM IMAGERM

 

MUNDO INCERTO

35.- 2022.- Ruta Pozo do Demo (119)

Eis aqui mil caminhos: Porventura

Qual destes leva a gente ao povoado?

Todos vão sós: só este vai trilhado;

Mas se, por ser trilhado, me assegura?

 

Não: que desde o princípio há que lhe dura

Do erro este costume, ao mundo dado;

Ser aquele caminho mais errado,

O que é de mais passagem e fermosura.

 

Em fim não passarei, temendo a sorte?

Também, tanto temor é desconcerto:

A quem passar avante, assim lhe importe.

 

Que farei logo, incerto em mundo incerto? -

Buscar nos Céus o verdadeiro Norte,

Pois na terra não há caminho certo.

 

Francisco Manuel de Melo,

in «Obras Métricas»

01
Jul22

Versejando com imagem - Retrato de um bêbado, de António Barbosa Bacelar

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

RETRATO DE UM BÊBADO

malhoa_bebados1

OS BÊBADOS ou FESTEJANDO O S. MARTINHO, óleo sobre tela executado em 1907

pelo pintor naturalista José Malhoa (1855-1933),

existente no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.

 

Perdi-me vendo a pipa, o torno aberto;

Minha alma está metida em vinho tinto;

Tão bêbado estou que já não sinto

Ser bêbado coberto ou encoberto.

 

Tenho a cama longe, o sono perto,

No chão estou e erguer-me não consinto,

A barriga de inchada aperta o cinto,

Falando estou dormindo qual desperto.

 

Venha mais vinho e dêem-mo vezes cento,

Que alegra o coração, sustenta a vida,

E pouco vai que engrosse o entendimento.

 

Vingar-me quero, que é grande a bebida;

Tudo o que não é beber é lixo e vento,

Que para tão grande gosto é curta a vida.

 

António Barbosa Bacelar,

in «Antologia Poética»

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