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zassu

28
Jun22

Versejando com imagem - Desta água não beberei, de António Serrão de Castro

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DESTA ÁGUA NÃO BEBEREI

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Desta água não beberei

é um dito mui comum;

mas de vós não diz nenhum

deste pão não comerei,

porque muito certo sei

que quem pão alheio achou

que dele muito gostou,

seja de trigo ou centeio,

porque comer pão alheio

a ninguém enfastiou.

 

António Serrão de Castro,

in «Os Ratos da Inquisição»

25
Jun22

Versejando com imagem - A uma rosa, de Frei Jerónimo Baía

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A UMA ROSA

Rosas-vermelhas-Campinas-Flores-Ceasa-Campinas

Como tens tão pouca vida?

Quem tão depressa te mata?

Flor do mais ilustre sangue,

Que deu de Vénus a planta?

Uma Aurora só que vives,

Flores te chamam Monarca:

Na mesma terra do império,

Que foi berço, tens a campa.

Lástima da tarde chamam

A ti doce mimo da alva,

Gentil pérola nascida

Entre concha de esmeralda.

Águia nos voos florentes

Estendes ao Sol as asas,

Mas quando os raios lhe logras,

Fénix em raios te abrazas.

 

Em quanto em verde clausura

Te fecha o botão as galas,

Para os logros, que desejas,

Te dão vida as esperanças.

Mas quando a púrpura bela

Te serve já de mortalha,

Sentido o Sol chora raios,

Buscando a morte nas águas.

De fermosura tão rica

Não sei quem foi o pirata

Tão atrevido, que rouba

A joia da madrugada.

 

Frei Jerónimo Baía,

in «Antologia Poética»

22
Jun22

Versejando com imagem - À cruz, de André Nunes da Silva

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À CRUZ

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Se em golfo de sereias proceloso,

Empenho repetido do cuidado,

O sábio grego, ao duro mastro atado,

Às sereias escapa cauteloso;

 

Eu, no mar deste mundo tormentoso,

De sirtes e sereias povoado,

À vossa cruz, Senhor, sempre abraçado,

Os perigos escape venturoso.

 

Oh! Livrai-me, meu Deus, de tanto astuto

Labirinto, de tanto cego encanto,

Para que colha desta planta o fruto;

 

Que é justo, doce Amor, em risco tanto,

Se salva a Ulisses um madeiro bruto,

Que a mim me salve este madeiro santo.

 

André Nunes da Silva

19
Jun22

Versejando com imagem - À vaidade do mundo, de António da Fonseca Soares

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À VAIDADE DO MUNDO

nau-santa-maria4

É a vaidade, Fábio, desta vida

Rosa que na manhã lisonjeada

Púrpuras mil com ambição coroada

Airosa rompe, arrasta presumida;

 

É planta que de abril favorecida

Por mares de soberba desatada,

Florida galera empavesada,

Surca ufana, navega destemida;

 

É nau, enfim, que em breve ligeireza,

Com presunção de fénix generosa,

Galhardias apresta, alentos preza.

 

Mas ser planta, rosa e nau vistosa

De que importa, se aguarda sem defesa

Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

 

António da Fonseca Soares

(Frei António das Chagas)

Frei_António_das_Chagas

Frei António das Chagas (1631-1682), cujo nome secular era António da Fonseca Soares, era frade da Ordem de São Francisco. Filho de um juiz, participou na guerra da Restauração, escapando de ser condenado devido a um crime que cometera. É nesse período que se dedica à poesia, ganhando o cognome de Capitão das Boninas. Parte, entretanto, para o Brasil, regressando em 1656 e continuando a carreira das armas. Em 1663 deixa a vida militar e decide tomar ordens. Tornou-se pregador e fundou o seminário do Varatojo. O seu trabalho como pregador foi criticado pelo Padre António Vieira, que o achava excessivo e teatral. Dos tratados espirituais que escreveu destaca-se o “Tratado dos Gemidos Espirituais, vertidos de um pedernal humano a golpes de Amor Divino”. As suas cartas foram compiladas no volume "Cartas Espirituais" e os seus poemas foram publicados na Fénix Renascida.

Projeto Vercial

 

16
Jun22

Versejando com imagem - Epitáfio, de Tomás Pinto Brandão

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EPITÁFIO

game_of_thrones_season_8_photos_05

Caminhante que vais tão de corrida.

Pois em nada reparas na jornada.

Repara por tua vida no meu nada.

Que foi toda uma morte a minha vida.

 

Também do mundo andei muito partida,

Posto que em diligência malparada,

E por não ser verdade incorporada

Uma mentira sou desvanecida.

 

Eu tive ocupação sem exercício,

Eu fui mui conhecido sem ter nome,

Eu, ingrato, morri sem benefício.

 

Exemplo toma de mim, ó pobre homem,

Que se tratares mal, vives de vício,

E se viveres bem, morres de fome.

 

Tomás Pinto Brandão, in 'Antologia Poética'

13
Jun22

Versejando com imagem - Á sua esperança, de Francisco de Vasconcelos Coutinho

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À SUA ESPERANÇA

White and Yellow Plumeria Bunch

 

Esta esperança vã, doce tormento,

Com que amor lisonjeiro determina

Acumular estragos à ruína

Por levantar padrões ao escarmento,

 

Foi crepúsculo breve de um momento,

Delicado jasmim, frágil bonina,

Rosa, que se murchou duma aura fina,

Vidro, que se quebrou de um leve vento.

 

Morreu minha esperança às mãos de um rogo

E nas cinzas se alenta o meu cuidado,

Que amor nos impossíveis mais se inflama:

 

Mas se a esperança é ar, e amor é fogo,

Justo é que nela cresça o meu agrado,

Pois ao sopro do vento cresce a chama.

 

Francisco de Vasconcelos Coutinho, in «Fénix Renascida»

10
Jun22

Versejando com imagem - A vida é feno, de Soror Madalena da Glória

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A VIDA É FENO

A vida é feno

Esse sono, em que cego vás passando,

Essa vida mortal, em que confias,

Já nas asas do tempo vai voando

Porque da vida instantes são os dias:

Já que o tempo da vida vai correndo,

A flor da formosura descaindo,

Do sol o resplendor desfalecendo,

E a luz do desengano vem ferindo:

Quando tudo da vida vai morrendo,

E tudo enfim a morte desunindo;

Oh! Considera em tão penosa sorte,

Que a vida é feno, sendo raio a morte!

 

Soror Madalena da Glória, in 'Antologia Poética'

07
Jun22

Versejando com imagem - Negação do Amor, Anónimo, Fénix Renascida

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NEGAÇÃO DO AMOR

Fénix Renascida

Quem cuida haver amor vive enganado,

Engana-se quem tem tal pensamento,

São cuidados de amor torres de vento,

Que em fim o vento leva este cuidado.

 

Fundei-me no amor fiquei frustrado,

Que em tudo falso é o seu fundamento,

Não há no mundo amor que tenha assento,

E todo o bem da terra é bem sonhado.

 

É cego para o bem, como bem o cega,

E para o mal, fútil e cauteloso,

Traidor ao coração que se lhe entrega.

 

Fuji, homens, fuji deste aleivoso,

Que trata com rigor quem se lhe chega,

Fugi, que quem mais foge é venturoso.

 

Anónimo

in A Fénix Renascida ou Obras Poéticas dos melhores engenhos portugueses, IV Tomo, Lisboa, 1746.

02
Jun22

Versejando com imagem - Solilóquio, de Francisco de Pina e Melo

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SOLILÓQUIO

Solilóquio

Já que o sol pouco a pouco se desmaia

E meu mal cada vez mais se desvela,

Enquanto a pena, a ânsia, a mágoa vela,

Quero aqui estar sozinho nesta praia.

 

Que bravo o mar se vê! Como se ensaia

Na fúria e contra os ares se rebela!

Como se enrola! Como se encapela!

Parece quer sair da sua raia.

 

Mas também que inflexível, que constante

Aquela penha está à força dura

De tanto assalto e horror perseverante!

 

Ó empolado mar, penha segura,

Sois a imagem mais própria e semelhante

De meu fado e da minha desventura.

 

Francisco de Pina e Melo, in 'Rimas'

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