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zassu

19
Mar21

Versejando com imagem - Teus velhos sapatos manchados de terra, de Vinicius de Moraes

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TEUS VELHOS SAPATOS MANCHADOS DE TERRA

Paizinho 02

Meu pai,

dá-me os teus velhos sapatos

manchados de terra

dá-me o teu antigo paletó

sujo de ventos e de chuvas

dá-me o imemorial chapéu

com que cobrias a tua paciência

e os misteriosos papéis

em que teus versos inscreveste.

meu pai,

dá-me a tua pequena

chave das grandes portas

dá-me a tua lamparina de rolha,

estranha bailarina das insônias

meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.

 

Vinicius de Moraes

unnamed

18
Mar21

Palavras Soltas... - A Sociedade «sobremoderna» - Cap. IV - Cidade «sobremoderna» e processo de «metapolização»

PALAVRAS SOLTAS...

 

A SOCIEDADE «SOBREMODERNA»

  

CAPÍTULO IV

CIDADE «SOBREMODERNA» E PROCESSO DE «METAPOLIZAÇÃO»

05.- sampms7

Quando nos referíamos à urbanização e à cidade fordista, dizíamos que se tratava de uma formação de um «estrato urbano» desigualmente repartido, cujas características estavam fortemente ligadas não só a lógicas económicas, mas sobretudo, a lógicas sociais, políticas, culturais, científicas e técnicas coerentes, porque partilhavam os mesmos paradigmas ou noções vizinhas. A análise que temos vindo a realizar sobre as dinâmicas em ação nas novas formas de organização das atividades permite elaborar algumas hipóteses sobre as potenciais componentes económicas de uma nova coerência, de um novo ciclo, a que vimos apelidando de «sobremoderno».

 

Da mesma forma que as cidades precedentes não foram totalmente transformadas pelo fordismo, também as metrópoles atuais não serão totalmente subvertidas pela expressão utilizada por ASCHER de «metapolização». De resto não é adquirido que cada época construa coerências tão fortes como aquelas que caracterizaram «Os Trinta Gloriosos». Poderemos, contudo, por nos esforçar em encontrar ou identificar as transformações mais características, para eventual emergência de uma nova coerência de conjunto, sintetizando, assim, as dimensões territoriais das dinâmicas económicas «sobre modernas».

 

A globalização tende para o reforço dos centros metapolitanos e megapolitanos, grandes aglomerações urbanas e em continuum, concentrando aí as funções estratégicas das empresas multinacionais e os serviços «avançados» de que têm necessidade.

 

A recomposição das atividades dos grupos multinacionais aglomera as suas atividades comerciais e de I&D em espaços «metropolitanos», mas no interior das «metápoles» estas atividades possuem localizações relativamente variadas, embora situadas sobre eixos ou nós de transportes que lhes permitam comunicar em boas condições com os centros de negócios.

 

As atividades de produção e de administração estão menos dependentes das grandes aglomerações, tendendo a localizar-se em zonas bem servidas pelas redes de transporte de mercadorias, e as atividades administrativas procuram estar conectadas com as redes de telecomunicação.

 

O aprovisionamento e a distribuição exercem poderosos efeitos centralizadores, daí que as atividades logísticas tendem a autonomizar-se e a reagruparem-se em torno ou no interior das plataformas mono ou multimodais, podendo atrair para aí as empresas para as quais a ligação direta com o mercado é particularmente estratégica.

 

Estas lógicas de recomposição desenrolam-se num duplo contexto que favorece as localizações na proximidade ou dentro das grandes aglomerações urbanas: é aí que se encontra o mercado de trabalho com a mão de obra qualificada ou altamente qualificada de que têm necessidade as indústrias e os serviços em grande desenvolvimento; e é também aí que a produção de infraestruturas e de edifícios é a mais pertinente e a mais rendível de um ponto de vista estritamente económico.

 

Desta forma, as dinâmicas «sobremodermas» são, por isso, fortemente metropolitanas, contribuindo para a aludida formação das «metápoles».

 

Segundo ASCHER (:73), “alguns autores pretenderam, apesar disso, vislumbrar nas dinâmicas da «terceira Itália» ou na região de Choletais a emergência de novas modalidades de «distritos industriais», isto é, zonas não necessariamente metropolitanas, mas nas quais as formas de cooperação e as sinergias entre empresas de dimensão diversa permitem o desenvolvimento de uma «especialização flexível», particularmente competitiva”. Evidentemente que estas teses seduziram os partidários do «desenvolvimento endógeno», convencidos de que uma forte cultura local comum e uma mobilização coletiva podiam constituir os ingredientes necessários e decisivos do desenvolvimento económico e até da competitividade internacional.

 

Criticando a «utopia pós-industrial», alguns autores consideram que as problemáticas em termos de desenvolvimento endógeno exageram a «desintegração vertical» das grandes empresas e o papel do local. Muito pelo contrário, insistem mais na necessária integração dos territórios na economia globalizada. Insistem. É sobretudo nas «metápoles» que esta integração é mais fácil: é lá que, simultaneamente, as grandes empresas encontram os nós de comunicação e de interconexão das redes, os espaços diversificados para as suas diferentes funções, os mercados de trabalho de que necessitam, o potencial científico e técnico no qual se devem apoiar. É, concluem, nas «metápoles» que encontram as «externalidades» indispensáveis à sua competitividade e é também lá que as pequenas empresas podem achar o maior número de oportunidades.

 

Para estes autores, particularmente ASCHER, as «metápoles» servem assim de quadro para uma mutualização das despesas urbanas, as quais tomam cada vez mais a forma de centralizações funcionais: centros de negócios, centros comerciais, centros de comunicações avançadas, plataformas logísticas, tecnopolos, parques de atividades científicas e tecnológicas e também parques de lazer, etc.

 

É o aparecimento, no dizer de BARATA SALGUEIRO (:226), dos “«enclaves», na «mistura de usos», no «padrão aleatório» dos novos acontecimentos urbanos, que ora surgem no centro, ora na periferia, uns são fruto da reabilitação de imóveis degradados, outros nascem com a renovação de áreas obsoletas, outros ainda são construídos de raiz num sítio que rapidamente ganhou acessibilidade ou, pelo contrário, cujo isolamento permite adquirir o solo a baixos custos, como no caso da habitação social” Enfim, o surgimento da «cidade fragmentada», ainda segundo aquela autora. Mas a «cidade fragmentada» não substitui a «cidade segregada» na medida em que não desaparecem as situações de segregação sócio espacial. Em primeiro lugar, porque a fragmentação pode ser vista como uma segregação à escala micro, um patchwork ou manta de retalhos, em vez de organização em grandes manchas a que os modelos da «Escola Ecológica» nos habituaram; mas, por outro lado, existe uma profunda inércia nas sociedades e no espaço que dificulta a emergência do novo padrão. O que importa salientar é que, também, e paralelamente à segregação, surgem casos em que grupos sociais partilham o mesmo espaço. Isto é particularmente nítido nos bairros antigos com qualidade ambiental e patrimonial que têm sido objeto de ações pontuais de «nobilitação» (gentrification), surgindo prédios de prestígio em sítios pouco valorizados, onde os «sem abrigo» procuram as portas das grandes empresas ou as montras do comércio de luxo do centro para dormir, revelando igualmente uma apropriação mais variada dos territórios.

 

Assim, a multiplicidade dos atores económicos, políticos e sociais nas aglomerações, fazem da «metápole», na fórmula de PIERRE VELTZ, uma «seguradora de riscos»: em caso de falência de um subcontratado, torna-se mais fácil numa cidade muito grande do que numa pequena encontrar rapidamente um substituto; é mais fácil mudar de tecnologia e encontrar novos especialistas, enfim, fazer face a diferentes perturbações.

 

As metrópoles continuam e continuarão a crescer, a concentrar uma quota crescente dos homens e da riqueza, a estenderem-se sobre territórios cada vez mais vastos, a integrar no seu sistema quotidiano zonas urbanas e rurais cada vez mais afastadas, formando «metápoles» de várias centenas de milhares ou até de vários milhões de habitantes.

 

Nas grandes aglomerações, esta evolução coloca por vezes problemas difíceis e suscita interrogações que podem ser angustiantes quer para os habitantes das zonas metapolizadas, quer para os que lhes ficam à margem.

 

Apesar disso, nenhuma política de ordenamento do território nem nenhum urbanismo se pode opor radicalmente à «metapolização» não só porque ela é provocada por dinâmicas internacionais sobre as quais as políticas nacionais e locais – mesmo que a quisessem impedir sujeitar-se-iam a ficar à margem dos processos de reforma económica global –  e apenas tendo efeitos limitados, mas porque se inscrevem num processo histórico de urbanização ligado ao próprio desenvolvimento dos meios de troca e comunicação. A globalização da economia integra cada vez mais íntima e diretamente todos os sistemas de produção e de troca, mesmo os mais particulares, em redes mundiais, fazendo simultaneamente depender o desenvolvimento local das qualidades intrínsecas da sua economia-território e da sua articulação com os fluxos internacionais de bens, de informação e de pessoas.

17
Mar21

Versejando com imagem - Calçada de Carriche, de António Gedeão

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CALÇADA DE CARRICHE

unnamed

(Paula Rego)

Luísa sobe,

sobe a calçada,

sobe e não pode

que vai cansada.

Sobe, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe

sobe a calçada.

 

Saiu de casa

de madrugada;

regressa a casa

é já noite fechada.

Na mão grosseira,

de pele queimada,

leva a lancheira

desengonçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Luísa é nova,

desenxovalhada,

tem perna gorda,

bem torneada.

Ferve-lhe o sangue

de afogueada;

saltam-lhe os peitos

na caminhada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Passam magalas,

rapaziada,

palpam-lhe as coxas,

não dá por nada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Chegou a casa

não disse nada.

Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;

bebeu da sopa

numa golada;

lavou a loiça,

varreu a escada;

deu jeito à casa

desarranjada;

coseu a roupa

já remendada;

despiu-se à pressa,

desinteressada;

caiu na cama

de uma assentada;

chegou o homem,

viu-a deitada;

serviu-se dela,

não deu por nada.

Anda, Luísa.

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Na manhã débil,

sem alvorada,

salta da cama,

desembestada;

puxa da filha,

dá-lhe a mamada;

veste-se à pressa,

desengonçada;

anda, ciranda,

desaustinada;

range o soalho

a cada passada;

salta para a rua,

corre açodada,

galga o passeio,

desce a calçada,

desce a calçada,

chega à oficina

à hora marcada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga;

toca a sineta

na hora aprazada,

corre à cantina,

volta à toada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga.

Regressa a casa

é já noite fechada.

Luísa arqueja

pela calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Anda, Luísa,

Luísa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

António Gedeão,

in 'Teatro do Mundo'

D6zHSphU8AAeaZj

(Paula Rego)

 

16
Mar21

Palavras Soltas... - A Sociedade «sobremoderna» - Cap. III - Globalização e sociedade «sobremoderna»

PALAVRAS SOLTAS...

 

A SOCIEDADE «SOBREMODERNA»

  

CAPÍTULO III 

GLOBALIZAÇÃO E CIDADE «SOBREMODERNA»

06.- sc3a3o-paulo

Na esteira de ASCHER, as dinâmicas urbanas são «sobre modernas» por duas ordens de razões principais: pelas evoluções económicas, sociais, políticas e culturais, que determinam largamente a evolução das cidades e pelos discursos produzidos sobre as cidades e pelas práticas urbanísticas, que extraem de bases comuns as mesmas referências e ideologias científicas, técnicas, filosóficas e políticas.

 

De um ponto de vista económico, o novo ciclo que se inicia é marcado pela globalização (internacionalização), pela procura de novos tipos de produtividade, de flexibilidade, de polivalência, de procura sistemática de velocidade, de experimentação de novos modelos de organização industrial, do desenvolvimento dos transportes, das comunicações e da logística, ou seja, e no dizer de HOOGVELT, citado por FONT et al (:75) “(...) a fase expansiva do capitalismo mundial acabou. A referida fase caracterizava-se pela «extensão» dos fundamentos da economia, foi comércio e investimento produtivo, sempre e cada vez mais; esta fase agora foi superada pela do «aprofundamento», que não da «ampliação» da integração económica. Neste sentido prefiro utilizar o conceito de globalização para este fenómeno de «aprofundamento»

 

A globalização exprime-se por fenómenos múltiplos. As trocas internacionais crescem com maior velocidade que os produtos internos brutos e aos movimentos de mercadorias juntam-se os dos capitais cada vez mais importantes. As empresas desenvolvem-se cada vez mais no estrangeiro através do crescimento externo, por meio de franchises e de joint ventures e a nacionalidade destas empresas torna-se difusa, interpelando assim as autoridades públicas sobre a noção de política económica e industrial nacionais. As empresas globalizadas organizam-se em novas bases e o seu crescimento e extensão geográfica, a necessidade de coordenar atividades em diferentes países, provocam recomposições marcadas, ao mesmo tempo, por concentrações e desconcentrações, por centralizações e descentralizações.

 

O crescimento externo e as joint ventures obrigam as empresas a reorganizações quase permanentes, com a finalidade de integrarem as novas unidades, para evitarem empregos duplos ou triplos (várias unidades assumindo as mesmas funções ou produzindo os mesmos produtos), para racionalizarem os novos conjuntos, para integrarem cultural, comercial e tecnicamente as novas parcerias. As empresas, no dizer de ASCHER (:59-60), “são conduzidas a desconstruir e construir o conjunto das suas funções, reagrupando umas, separando outras, redefinindo os laços de funcionamento entre elas, da direção-geral aos serviços pós-venda, passando pela área comercial, pelo «marketing», pelo departamento financeiro, administrativo, pela investigação e desenvolvimento, pela produção, pelas compras... Para além das modalidades de gestão, a última moda parece ser a da «reconfiguração» (reingeneering), tornando-se a reorganização uma tarefa permanente nas grandes firmas”.

 

A extensão geográfica das empresas globalizadas, a desconcentração, ou até a descentralização das diversas tarefas e funções, e a redução da dimensão das unidades de produção provocam, em contrapartida, o crescimento e a centralização das funções centrais de coordenação, das de controle ou de direção, da função financeira e, em certos casos, da das compras (fala-se de world sourcing, quando esta está centralizada à escala internacional).

 

Uma outra característica da globalização é a de que ela engloba cada vez mais diretamente todas as atividades económicas, incluindo as das pequenas e médias empresas, pois não só devido ao facto de muitas destas últimas pertencerem a um grupo internacional, como também porque um número crescente dentre elas são fornecedoras ou clientes das multinacionais e, assim, as suas atividades estão cada vez mais, direta ou indiretamente, influenciadas pelas dinâmicas e pelos acontecimentos internacionais.

 

A globalização, concentrando nas cidades mais importantes as funções-chave da economia internacional, constitui assim uma dimensão importante de «metropolização» das mesmas. Ou seja, o conjunto das cidades ativas, para além das próprias global cities, inscreve-se, desta maneira, de forma cada vez mais nítida, nas dinâmicas da globalização, e os sistemas urbanos nacionais perdem a sua importância a favor das redes internacionais.

 

Finalmente, modificam-se também as relações entre as cidades, metrópoles e as regiões circundantes: estas últimas constituem cada vez menos uma retaguarda (hinterland) que abastece a cidade ou que para ela trabalha, e reciprocamente a cidade-centro oferece à região não só os serviços de «nível superior», mas sobretudo o acesso às redes de globalização.

 

Assim, e resumindo, o ciclo precedente apoiou-se nas tecnologias e nos mercados que permitiam, de forma muito alargada, «rendimentos crescentes», isto é, economias de escala. Quanto mais uma empresa produzia maciçamente um único produto, mais eficaz se revelava. A esta situação juntava-se o «ciclo internacional do produto», que permitia, depois da amortização dos investimentos e dos lucros nos mercados dos países desenvolvidos, realizar ainda alguns lucros suplementares com os «velhos» produtos, vendendo-os nos países menos desenvolvidos.

 

Os modelos taylorista e fordista tradicionais, muito coerentes com a dinâmica dos rendimentos crescentes, parecem agora largamente desadaptados a este novo contexto económico, comercial, tecnológico e social.

 

Num mercado globalizado onde se multiplicam as variáveis, num universo complexo e instável onde transformações menores podem desencadear mudanças importantes, reina uma incerteza crescente que constitui um obstáculo para os investimentos pesados e de longo prazo. No entanto, a antecipação é mais do que nunca indispensável e necessita, sobretudo, de um acréscimo de despesas para investigação. As empresas devem também tentar, por todas as formas, tornar os seus mercados o menos «incertos» quanto possível, dispondo assim de vantagens competitivas duradouras.

 

Não podendo nem prever as mudanças com antecedência, nem, por razões económicas e técnicas, armazenar produtos muito variados, nem, finalmente, antecipar as evoluções do mercado e das tecnologias, as empresas desenvolvem sistemas, ditos flexíveis, mais adaptados a uma gestão em ambiente de «racionalidade limitada». A flexibilidade é, seguramente, uma das palavras-chave do período contemporâneo e, por outro lado, a polivalência, um dos instrumentos-chave da flexibilidade e da procura de economias de gama, como uma noção atualmente central.

 

Se globalmente a flexibilidade e a procura de polivalência entram em rutura com a especialização taylorista, seria, no entanto, errado considerar que estas dimensões estavam completamente ausentes no modelo fordista. Ocupavam um lugar menor e os instrumentos para lá chegar eram diferentes, no entanto, estavam já presentes. A este propósito, HENRY FORD, citado por ASCHER (:65), dizia: “... uma empresa deve fazer mais do que manter a sua fábrica e a sua maquinaria em bom estado. Ela deve-as modificar constantemente para as adaptar às mudanças de plano, dos materiais e dos métodos de fabrico. Nada é permanente, nem mesmo a própria localização”.

 

Estas noções e conceções desempenham assim um papel cada vez mais importante no campo urbano. A incerteza modifica os horizontes do urbanismo, as formas de regulamentação e o jogo dos actores da produção urbana; a procura da flexibilidade privilegia as pequenas operações ou as que são realizáveis por etapas autónomas; e as exigências da polivalência repercutem-se nos programas dos equipamentos e favorecem a miscigenação funcional a diversas escalas.

 

A indústria fordista, baseada em grandes unidades de produção e na procura de economias de escala, tinha tendência para produzir ela própria tudo o que lhe era necessário, segundo um modelo dito de «interiorização» ou de «organização». Os métodos atuais de organização, com unidades de produção mais pequenas funcionando em fluxo contínuo, a procura de economias de investimento e de uso das técnicas avançadas de comunicação, conduzem a empresas a recorrer mais ao mercado do que anteriormente, a «exteriorizar» as tarefas que antes eram realizadas no seu interior, recorrendo de forma mais sistemática a todos os tipos de subcontratação. A arbitragem das relações entre a organização (com os seus custos de administração) e o mercado (com os custos ditos de «transação») tende, cada vez mais, a pender a favor deste último.

 

Por outro lado ainda, a «logística», termo que, de origem militar, significa a arte de combinar os meios de transporte, o reabastecimento e o alojamento das tropas, surge a desempenhar um papel crescente com a globalização, a qual alarga a esfera de funcionamento das empresas e dilata as distâncias internas e externas à empresa; ao funcionamento em fluxo contínuo – o just in time -, que reduz a dimensão unitária das entregas, embora multiplicando-as, e que atribui uma importância acrescida à sua rapidez e pontualidade; à redução do tamanho das unidades de produção e à subcontratação, que transformam as deslocações internas em transportes externos; às generalizadas exigências de velocidade e à redução dos custos de transporte. Para fazer face a estas novas condições, as empresas atribuem cada vez mais importância à função logística, embora com soluções organizacionais relativamente variadas.

 

O modelo de organização em hubs and spokeseixos» e «raios») desenvolve-se rapidamente nos transportes, no aprovisionamento e na distribuição através da multiplicação de «plataformas logísticas», constituindo um princípio estrutural determinante para a organização da própria logística.

 

Assistimos atualmente a uma multiplicação relativamente desordenada de plataformas logísticas, ao ponto de as coletividades territoriais, sobretudo, acreditarem identificar aí uma «nova maneira» de atrair empresas.

 

A logística surge, assim, como o resultado e o vetor de novos sistemas de fluxos entre as cidades e, no interior destas, e participa na transformação das dinâmicas urbanas, modificando a natureza e a localização das funções centrais.

 

Por último, as lógicas cada vez mais privadas de produção das cidades, das infraestruturas, dos edifícios e equipamentos reforçam as orientações nas grandes cidades e metrópoles, centralizando nelas mais fortemente as dinâmicas económicas.

 

É nelas que se concentram as empresas globalizadas que são também os principais mercados de construção, de obras públicas e de serviços em rede (transporte, eletricidade, cablagem, aquecimento urbano, água, saneamento). Em todos estes domínios, formam-se grandes empresas utilizadoras de tecnologias e métodos de organização muito eficientes, pelo que os investimentos são aí consideráveis.

 

É também nas grandes aglomerações que se instalam os novos transportes em sítio próprio (metros automatizados, elétricos rápidos, autocarros com reboque), que se escavam os túneis rodoviários, que se traçam as circulares periféricas caras, que se constroem edifícios complexos (gares, aerogares, imóveis de grande altura, palácios de congressos, etc.). É também nas grandes aglomerações que se implantam os TGV e as fibras óticas, criando-se assim um fosso tecnológico entre a construção e as obras públicas das grandes aglomerações e o resto da indústria da construção, que apenas se encarrega de obras modestas nas pequenas cidades.

 

Por outro lado, a existência de agentes económicos poderosos neste sector reforça o tropismo das grandes aglomerações. Assim se passa no sector imobiliário, entre outros.

 

Assiste-se, finalmente, hoje em dia, a uma viragem de sinal no que concerne às lógicas públicas de ordenamento que tendem a proceder da mesma forma que as privadas. Constata-se que as políticas voluntaristas que implantavam infraestruturas e equipamentos para desenvolver os territórios (por exemplo, nas pequenas e médias cidades) perderam importância a favor das que concentram os investimentos públicos nos locais onde eles são imediatamente necessários (nas grandes aglomerações em rápido crescimento).

 

Em suma, estas lógicas económicas de produção da cidade não só atraem os investimentos para as grandes aglomerações, como também mobilizam, para resolver os seus problemas, o potencial científico e técnico, contribuindo assim para desenvolver uma produtividade superior nas obras públicas e tornar cada vez mais eficazes as realizações urbanas nas grandes aglomerações.       

globalização_trabalhos_escolares

             

15
Mar21

Versejando com imagem - A mulher que passa, de Vinicius de Moraes

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A MULHER QUE PASSA

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Meu Deus, eu quero a mulher que passa. 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
Tem sete cores nos seus cabelos 
Sete esperanças na boca fresca! 

Oh! Como és linda, mulher que passas 
que me sacias e suplicias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Teus sentimentos são poesia 
Teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pelos leves são relva boa 
Fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
Longe das vozes da ventania. 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 

Como te adoro, mulher que passas 
Que vens e passas, que me sacias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Porque me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
Que te perdia se me encontravas 
E me encontrava se te perdias? 

Por que não voltas, mulher que passa? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
Sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida 
Para o que sofro não ser desgraça? 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
A minha amada mulher que passa! 

No santo nome do teu martírio 
Do teu martírio que nunca cessa 
Meu Deus, eu quero, quero depressa 
A minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacifica 
Que é tanto pura como devassa 
Que bóia leve como a cortiça 
E tem raízes como a fumaça.

 

Está naquela idade inquieta e duvidosa, 
Que não é dia claro e é já o alvorecer; 
Entreaberto botão, entrefechada rosa, 
Um pouco de menina e um pouco de mulher. 

Às vezes recatada, outras estouvadinha, 
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor; 
Tem coisas de criança e modos de mocinha, 
Estuda o catecismo e lê versos de amor. 

Outras vezes valsando, e seio lhe palpita, 
De cansaço talvez, talvez de comoção. 
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita, 
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração. 

Outras vezes beijando a boneca enfeitada, 
Olha furtivamente o primo que sorri; 
E se corre parece, à brisa enamorada, 
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri. 

Quando a sala atravessa, é raro que não lance 
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar 
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance 
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar. 

É que esta criatura, adorável, divina, 
Nem se pode explicar, nem se pode entender: 
Procura-se a mulher e encontra-se a menina, 
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!

 

Vinicius de Moraes

 

14
Mar21

Palavras Soltas... - A Sociedade «sobremoderna» - Cap. II - A cidade e o urbanismo «fordista»

PALAVRAS SOLTAS...

 

A SOCIEDADE «SOBREMODERNA»

 

CAPÍTULO II 

A CIDADE E O URBANISMO «FORDISTA»

04.- Hawthorne,_Illinois_Works_of_the_Western_Electric_Company,_1925

Os economistas «regulacionistas» chamaram «fordista» ao «modo de regulação» de que parecemos sair, particularmente depois da crise de 1973.

 

A noção de fordismo sublinha o lugar que ocupou a indústria automóvel na economia dos países industrializados, a partir dos anos 20.

 

Outros «teóricos» desempenharam um papel importante na formalização deste período: em primeiro lugar, TAYLOR, cujos princípios, elaborados desde o final do século XIX, levaram muito tempo a implantar-se – e ainda de forma muito imperfeita – nas indústria dos diferentes países ocidentais: a organização científica do trabalho, a racionalização através da decomposição em tarefas e funções elementares, a separação das funções «intelectuais» das manuais, a delegação da direção patronal despótico-neomilitar, acabaram por ficar, de facto, limitadas por inércias técnicas, sociais e culturais consideráveis.

 

KEYNES simboliza também de forma muito expressiva o período que se segue à crise dos anos 30. Isto porque, para lá das suas teorias económicas, ele trouxe toda uma filosofia de intervenção dos poderes públicos, legitimando a intervenção do Estado para assegurar conjuntamente o pleno emprego e uma certa distribuição dos lucros.

 

Taylorismo-fordismo-keynesianismo – uma forma de pensamento que caracteriza as conceções económicas do pós-guerra, apesar de eles serem relativamente mais antigos que esse ciclo e de não terem sido completamente simultâneos. A indústria nunca foi redutível aos princípios de TAYLOR e de FORD, nem as políticas económicas aos de KEYNES. Mas por questão de comodidade empregaremos o termo «fordismo» significando a sua utilização, não para nos dar conta de um período definido de forma precisa, mas antes de uma coerência de conjunto, mais ou menos atingida segundo a época e segundo os países, e da qual encontrámos os primeiros elementos desde os anos 20, e que se revelou particularmente eficaz durante os célebres «Trinta Gloriosos».

            ... E CORBUSIER.

Apresentando o nosso estudo como objeto as cidades e o urbanismo, podemos também, numa certa medida, qualificar este período de «taylorismo-fordismo-keynesiano-corbusiano», tal foi a forma como CORBUSIER, à sua maneira, simbolizou neste período a corrente dita do urbanismo moderno. Certamente que não foi o próprio quem concebeu muitas cidades, uma vez que isso esteve a cargo de muitos arquitetos, mas, pela importância dos seus escritos, pelas suas fórmulas, pela forma sistemática da sua pesquisa, pelo papel que desempenhou nos CIAM (Congrès Internationaux d’Architecture Moderne, 1933, Carta de Atenas), pelas reações que provocou, ele simboliza, melhor que ninguém, as teses «funcionalistas» desta época.

 

O urbanismo corbusiano decompôs a complexidade da urbe em funções elementares e procurou a eficiência na monofuncionalidade: um só gesto, uma só função tal como FORD, que atribui o primado ao movimento e à velocidade, funcionando a estrada como um «transportador», “tentando sistematizar as economias de escala ao tipificar o alojamento e industrializar a construção” (ASCHER: 57) e KEYNES,  que preconizou a intervenção do poder público sem pôr em causa as realizações privadas, exigindo a planificação para pôr fim à anarquia urbana e regular o mercado fundiário, propondo também toda a espécie de equipamentos sociais de «bem-estar».

 

O ciclo, que tão bem parecia ter funcionado, a tal ponto que é frequentemente glorificado sob a já aludida denominação de «Os Trinta Gloriosos», surge cada vez mais perturbado por disfuncionamentos e incoerências. TAYLOR, FORD, KEYNES e CORBUSIER já não constituem referência, sendo até acusados de todos os pecados.

 

Tal como no final do capítulo anterior dizíamos, a aproximação de um novo movimento, segundo alguns «estudiosos», e de acordo com uma aproximação em termos de ciclos, podemos então dizer ou pôr a hipótese que estamos perante um novo ciclo, classificado frequentemente de «pós-fordista».

 

Mas, tal como ASCHER (:58), esta denominação é um pouco ambígua, uma vez que supõe a ultrapassagem completa do fordismo e “dos paradigmas do ciclo precedente, o que não é exatamente o caso”.

 

Na esteira de ANTHONY GIDDENS, utilizaremos o termo «sobremodernidade», em vez de «pós-modernidade», termo utilizado por J.F. LYOTARD, para caracterizar este novo ciclo na medida em que o projeto de estruturação que caracteriza a modernidade, baseada no uso da razão e da ciência, está mais presente que nunca, tendo apenas mudado os paradigmas científicos quando “passaram do universo da complicação para o da complexidade” (ASCHER: 58).

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13
Mar21

Versejando com imagem - A mulher I, de Florbela Espanca

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A MULHER I

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Um ente de paixão e sacrifício,

De sofrimentos cheio, eis a mulher!

Esmaga o coração dentro do peito,

E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajosa, não fraquejes

Na luta; sê em Vénus sempre Marte;

Sempre o mundo é vil e infame e os homens

Se te sentem gemer hão de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinha,

Essa brancura ideal de puro arminho

Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então os vis: «Olhem, vejam

É aquela a infame!» e apedrejam

A pobrezita, a triste, a desgraçada!


Florbela Espanca

 

12
Mar21

Palavras soltas... - A Sociedade «sobremoderna» - Cap. I - Breves considerações sobre o aparecimento das cidades

PALAVRAS SOLTAS...

 

A SOCIEDADE «SOBREMODERNA»

 

CAPÍTULO I

 

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O APARECIMENTO DAS CIDADES

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O Capítulo que agora desenvolveremos faz parte de um velho e clássico debate iniciado principalmente na época de oitocentos, e fundamentalmente, no campo do pensamento sociológico, tendo influenciado largamente as ideias dominantes a propósito da cidade e do campo.

 

Nele, o juízo sobre a cidade é entendido como uma espécie de termo de comparação para exprimir apreciações sobre a modernidade e seus possíveis desenvolvimentos.

 

Assim, tanto em finais do século XIX como nos inícios do século XX, este debate exprimiu-se com frequência através da construção e emprego de categorias opostas, ou seja, de conjuntos de conceitos ou ideias com a finalidade de descrever a antítese entre a organização social e as modalidades culturais das sociedades pré-industriais, por um lado e, por outro, as próprias das sociedades industriais.

 

A mais célebre destas dicotomias é a distinção traçada por TONNIES (1887) entre «comunidade» (Gemeinschaft) e «sociedade» (Gesellschaft).

 

A expressão espacial da comunidade é tanto a aldeia rural como a cidade tradicional de dimensões limitadas; em contrapartida, a expressão espacial da sociedade é a metrópole industrial moderna ou, ainda mais, a cidade mundial.

 

Enquanto, no âmbito europeu, a discussão sobre a cidade e modernidade assume frequentemente tons pomposos e é conduzida, a miúdo, sob a forma de argumentação filosófica, nos Estados Unidos reveste-se de um carácter mais pragmático. Não é por acaso que aqui prevalece a ideia do continuuum urbano-rural, ou seja, de uma variedade de formas de disposição populacional situada ao longo de uma linha ideal que vai da aldeia rural à grande metrópole, mas de tal modo que os traços culturais «urbanos» e «rurais» se encontram sempre mesclados indissoluvelmente, ainda que em dosagens diferentes.

 

Este modo de formular o problema da relação entre cidade e modernidade, desde há vinte anos a esta parte, deixou de ter espaço no campo da sociologia urbana, contudo, tal circunstância não impede que este modelo dicotómico se volte a propor nos tempos atuais, em aspetos cruciais da análise sobre a cidade. Abordaremos sucintamente dois âmbitos. O primeiro, é representado pelo debate sob o «guarda-chuva» do tema da transição para uma condição pós-moderna e o papel que tem nele o fenómeno urbano, tendo participado nesta discussão tanto homens como HABERMAS e TOURAINE, GIDDENS a LASH; o segundo, refere-se à importância que fenómenos considerados típicos da cultura comunitária tiveram, e têm, no desenvolvimento socioeconómico de alguns sistemas contemporâneos com características especificadamente urbanas (de cariz mais italiano, incidindo  na análise sobre as regiões de economia de pequena empresa, dando realce a fatores como a confiança, a reciprocidade e o «self help».

 

Queríamos, contudo, realçar uma última alínea, correspondendo a uma perspetiva sociológica espacialista, expressa por sociólogos contemporâneos, como GIDDENS e DICKENS, mas também compartilhada por geógrafos, como HARVEY, PRED e os autores que pertencem ao filão da «time geography», ao darem um contributo importante, de renovação conceptual intensa, para a importância do espaço, ou, ainda melhor, do espaço-tempo, como dimensão constitutiva do comportamento e dos sistemas sociais.

 

Face ao exposto, entendemos que a cidade deverá ser analisada a diferentes dimensões e aspetos, desde a economia, a política, a geografia, a cultura, a morfologia social, etc., ou seja, o sistema(s) urbano(s) deve(m) ser interpretado(s) mais como uma entidade complexa e dotada de fortes relações entre os elementos singulares do que como um agregado de uma parte que se pode considerar separadamente.

 

Em suma, ao falar da cidade, existe pelo menos um motivo essencial – e reconhecido por muitos sociólogos, geógrafos, historiadores e economistas – que leva a evidenciar a relação entre esta e a dinâmica da economia, considerada numa ampla perspetiva histórica.

 

Assim, podem-se citar, pelos menos, dois grandes momentos «revolucionários» na história do desenvolvimento das sociedades humanas, que correspondem a fases de importância decisiva para a história do fenómeno urbano.

 

O primeiro corresponde à chamada Revolução Neolítica e ao desenvolvimento da agricultura, iniciada, pelos menos, 8 000 ou 9 000 anos antes de Cristo. Segundo muitos autores, este importante processo de transformação da base económica – que, das colheitas, da caça e da pesca passa a concentrar-se na produção agrícola e na pastorícia – impõe as bases para o nascimento da cidade. No seio de uma população mais densa e estável que dispõe de bens alimentares excedentes das necessidades imediatas, desenvolve-se uma divisão do trabalho maior, e, em particular, uma parte da população pode dedicar-se a diversas atividades – ao artesanato, atividades mercantis, funções administrativas, políticas, militares ou religiosas. Criam-se, portanto, as condições para o desenvolvimento de uma sociedade local articulada, de tipo «urbano».

 

O segundo momento de grande transformação histórica sucedeu no século XVIII com a Revolução Industrial. A partir de Inglaterra, para passar depois progressivamente a um número mais largo de países da Europa e da América do Norte, assistiu-se nessa época a um aumento, quer da população, quer da produtividade do trabalho, tanto nos sectores industriais emergentes como na própria agricultura. Graças a esse aumento de produtividade, houve menos necessidade de a maior parte da população se dedicar à produção de bens agrícolas e, por outro lado, tornou-se conveniente o desenvolvimento da produção de bens e sua troca num cenário nacional e internacional. Criaram-se assim as bases para uma expansão do fenómeno urbano – a cidade.

 

Os dois movimentos revolucionários referidos são assim aqueles em que a transformação da economia estabeleceu os pressupostos, respetivamente, para o nascimento da cidade e para um enorme crescimento da incidência do fenómeno urbano. Obviamente, a criação desses pressupostos não equivale, de uma forma automática, a uma provocação direta dos fenómenos atrás salientados. Juntamente com as causas económicas, intervêm, com não menos força, as de natureza política ou cultural, entre outras.

           

Se é exato que a Revolução Industrial criou as bases para uma expansão das cidades sem precedentes, também é certo que o conjunto das relações económicas e políticas de sinal capitalista, associadas a essa revolução, colocaram em movimento um entrelaçamento complexo de desequilíbrios à escala mundial, que incidiu profundamente, de modo diferenciado, nas diversas partes do nosso planeta, em fatores de crescimento urbano.

           

Em resumo, quando se fala do fenómeno urbano a uma escala de observação internacional, o próprio termo «cidade» oculta uma variedade extrema de condições económicas, modos de vida, formas de organização social e morfologias instaladas.

           

De qualquer modo, se se quisesse tentar dar conta da diferença dos tipos de cidade hoje presentes nos cinco continentes, haveria que ter presentes – e cruzar entre eles – pelo menos, duas ordens de fatores.

           

O primeiro refere-se à profundidade histórica do urbanismo. Com efeito, a cidade atual é o produto de uma longa sedimentação de características morfológicas e culturais, acumulados ao longo dos séculos. Se tomarmos conta, não podemos esquecer que há áreas mundiais nas quais existe uma continuidade do fenómeno urbano durante muitos séculos, ou mesmo milénios, enquanto noutras a cidade constitui um fenómeno relativamente recente, produto da colonização europeia.

 

O segundo refere-se aos diversos papéis que as áreas mundiais assumiram, na época industrial e, de forma particular, na sua fase mais recente, por efeito do que se definiu como divisão internacional do trabalho. A esta luz, com respeito à atitude assumida pela divisão internacional do trabalho, costuma-se classificar os países ao longo do um eixo centro-periferia (amplamente sobreponível à distinção Norte-Sul). Segundo este critério, poderíamos distinguir os seguintes tipos de contextos, à escala mundial, na ótica de MELA: 49:

  • as áreas fortes do centro da economia internacional, como os Estados Unidos, Japão e Europa centro-setentrional;
  • as áreas fracas do centro, como as correspondentes ao Meio-Dia italiano, às regiões meridionais e atlânticas da Espanha, Grécia, Portugal, Irlanda, etc.;
  • as novas áreas industriais, como as do Extremo Oriente (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Singapura e algumas regiões da China) e, parcialmente, algumas regiões da América Latina e da Índia;
  • as áreas da Europa Oriental em transformação após a extinção do modelo de «socialismo real»;
  • as áreas semiperiféricas do Sul, ou seja, os países menos desfavorecidos do dito Terceiro Mundo, como alguns árabes, latino-americanos e asiáticos;
  • as áreas periféricas do Sul, as mais diretamente ameaçadas pela fome e pobreza, como uma grande parte da África subsariana.

 

Em cada um destes contextos, o desenvolvimento urbano apresenta caracteres e problemas particulares, não reconduzíveis a uma só solução. Se agora, conjuntamente, tomarmos também em consideração as diferentes estratificações da história urbana, bem como dos seus sistemas, com base no critério acima referido, poder-se-á ficar com uma ideia da natureza poliédrica e fortemente desigual do urbanismo que se manifesta no dealbar do século XXI.

 

A juntar e a complicar ainda mais toda este «intrincado puzzle» poliédrico sobre as cidades e o urbanismo, na contemporaneidade, segundo alguns estudiosos, encontrar-nos-íamos no curso de um terceiro momento, não menos essencial de transição económica e tecnológica de base microeletrónica e das comunicações, o que teria como consequência uma ulterior mutação do fenómeno urbano, até à sua gradual extinção, em direção a um continuum de aglomerados populacionais, unidos por formas de comunicação à distância.

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11
Mar21

Versejando com imagem - A luz que vem das pedras, de Pedro Tamen

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A LUZ QUE VEM DAS PEDRAS

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A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,

tu a colhes, mulher, a distribuis

tão generosa e à janela do mundo.

O sal do mar percorre a tua língua;

não são de mais em ti as coisas mais.

Melhor que tudo, o voo dos insetos,

o ritmo noturno do girar dos bichos,

a chave do momento em que começa o canto

da ave ou da cigarra

— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere

a corda do que em ti faz acordar

os olhos densos de cada dia um só.

Quem está salvando nesta respiração

boca a boca real com o universo?


Pedro Tamen,

in "Agora, Estar"

10
Mar21

Palavras Soltas... - Breves notas sobre os artigos de Dematteis e Bagnasco - Cap. II - Porque é tão importante a análise social territorial

PALAVRAS SOLTAS...

 

BREVES NOTAS SOBRE OS ARTIGOS DE DEMATTEIS E BAGNASCO

 

CAPÍTULO II

PORQUE É TÃO IMPORTANTE A ANÁLISE SOCIAL TERRITORIAL

(ARNALDO BAGNASCO)

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Neste texto BAGNASCO, segundo PETSIMERIS, ao partir de algumas reflexões sobre as tendências significativas da economia contemporânea, como sejam, a crise da grande indústria, o descentramento dos polos urbano-industriais, a nova divisão internacional do trabalho, a interação entre os processos de organização territorial devidos ao capital internacional e os devidos ao desenvolvimento endógeno, a crise fiscal do Estado e o consequente debilitamento do Estado Providência, tenta caracterizar as relações inovadoras da dialética espaço/sociedade e a crescente importância dos factos locais para a organização das transformações estruturais e sociais.

 

Para BAGNASCO, ainda segundo PETSIMERIS, acabou-se um longo “trend” de homogeneização da sociedade no território. Não existe, desapareceu, já a tendência para a concentração industrial. E estamos perante uma diferenciação de formas organizativas do sistema económico que se manifestam de «formas distintas em lugares distintos».

 

Os modelos gerais ou dialéticos, refere ainda PETSIMERIS, no tocante a este artigo, já não são suficientes para analisar estes fenómenos. A exemplo do que já no Capítulo I DEMATTEIS apontava, precisamos de novos modelos interpretativos que «reconcetualizem» a importância da diferenciação espacial da sociedade. Para isso é, pois, necessário analisar a diversificação da economia em lugares distintos através de interações com formas sociais distinta.

 

E BAGNASCO, ainda na ótica de PETSIMERIS, faz uma tentativa pré-teórica, ao lançar «sugestões» sobre a importância da dimensão territorial, muitas vezes esquecida na análise social.

 

BAGNASCO, a final, sublinha a importância da produção de novos modelos, mais idóneos, para a análise de fenómenos muito complexos.

 

Sumariemos, um pouco mais em detalhe, este texto de BAGNASCO, tão brilhantemente esquematizado por PETSIMERIS.

 

1.- O estancamento ou declínio da ocupação na grande empresa e o descentramento dos polos urbano-industriais

 

O estancamento ou declínio da ocupação na grande empresa, face ao desenvolvimento da tecnologia e à modernização da indústria nos países industrializados, gerou uma tendência «à crise de proveito»  e o descentramento dos polos urbano-industriais, abrangendo, de uma forma mais ampla, a indústria manufatureira, provocando um aumento em flecha do desemprego e levando assim a novas formas de localismo social, não só com novas formas locais de economia paralela (e informal e doméstica) mas também com “redes sociais congruentes e referências simbólicas adequadas”.

 

É sabido que a grande empresa está, desde há muito tempo, numa fase de recessão. As causas são diversas. Contudo o custo do trabalho, em relação a outros parâmetros, parece jogar aqui um papel muito importante. Para BAGNASCO a empresa de menores dimensões adquire maior importância, recativando assim o mercado de trabalho em profunda crise.

 

Ainda segundo BAGNASCO a procura da pequena ou média dimensão da empresa não se deve apenas ao facto do custo da mão de obra ser mais barata ou à elasticidade no seu uso. Há outros motivos, como sejam, a dimensão ótima para uma certa escala de produção bem assim a elasticidade organizativa. Por outro lado, ainda, o desenvolvimento das indústrias energéticas e de informação «incitam», e tornam cada vez mais possível, esquemas descentrados de produção, com eficácia técnica semelhante à até então produção verticalizada. A reativação do mercado torna assim mais «móvel» a estrutura económica, inclusive no sentido espacial. A procura de um custo menor do trabalho põe em relevo, ou em evidência, os mercados de trabalho locais bem assim a sua descontinuidade territorial.

 

Desta forma, ao mesmo tempo que se verifica uma maior desconcentração dos polos urbano-industriais, pela procura de novas bolsas de trabalho mais barato, quer nas periferias das áreas metropolitanas, mais perto das áreas rurais, e pela entrada, cada vez maior do «braço feminino», assiste-se, por outro lado, à centralização das funções de gestão e de nível terciário superior nas grandes cidades e nos centros das áreas metropolitanas.

Para BAGNASCO, o conjunto destas circunstâncias levam a uma “redefinição na divisão regional do trabalho”. Mas, para compreender este aspeto acima referido, é necessário analisar os restantes. Assim:

 

2.- A importância da dimensão territorial na análise social 

2.1.- A crise fiscal do Estado e o consequente debilitamento do Estado Previdência

O redimensionamento da política social teve aqui duas consequências, mercê de políticas mais liberais. Por um lado, a compra e venda, de determinadas bens e serviços, obtidos pelos cidadãos junto de instituições públicas, a preços sociais, deixaram de ser prestados, entrando assim no esquema de mercado; por outro lado, uma série de deveres sobre a família, sobre redes de vizinhança de tipo associativo e outros foram realizados livremente de outro tipo. E, tais factos, deram lugar à tendência também para o aparecimento do localismo em termos de diferenciação do fator social que pode ser cultivada quer a nível regional (regiões, áreas) quer a nível microterritorial. Esta relevância do fator local é congruente com as mudanças macroestruturais embora não se possam considerar apenas como uma «adaptação passiva a um processo unívoco».

 

2.2.- A nova divisão internacional do trabalho e a interação entre os processos de organização territorial devidos ao capital internacional e ao desenvolvimento endógeno

No passado, a relação entre as áreas desenvolvidas e as áreas subdesenvolvidas estabelecia-se sobre uma divisão das funções segundo a qual os países subdesenvolvidos eram substancialmente abastecedores de matérias primas e produtos agrícolas. Nesta fase, que dura até ao final da II Grande Guerra Mundial, os investimentos dos países ditos «centrais» nas áreas desenvolvidas, da também dita «periferia», são de relativa importância e estão diretamente ligados às funções acima referidas.

 

Agora, nesta nova fase que se consolidou depois da II Grande Guerra Mundial, os investimentos dos países «centrais» nas «periferias» crescem e olham também, e especialmente, à produção manufatureira. Neste sentido, a economia mundial começa a reestruturar-se pela estruturação da divisão internacional do trabalho mais complexo e pelo aparecimento, na cena económica, principalmente depois de 1960, de alguns países da «periferia», ou do Terceiro Mundo, que chegam a ser exportadores de produtos da indústria manufatureira. Ou seja, o capital produtivo dos países «centrais» procura novas oportunidades de proveito no exterior. E, no cálculo das conveniências, o custo do trabalho, é um elemento crucial, junto com outros custos, como as matérias primas e os transportes para os mercados distribuidores e os gastos de infraestruturas, etc.

           

Todo este processo de reestruturação da economia abrange essencialmente os sectores têxtil, madeiras e calçado, mas também os produtos elétricos e eletrónicos, instrumentos óticos ou bens de investimento. Poderia parecer que todo este processo tinha apenas a ver, e fosse simplesmente organizado e determinado pelo capital multinacional. Segundo BAGNASCO, não só. Existe neste processo uma relação também muito forte entre a própria internacionalização do capital «central» e os processos endógenos nos países implicados, apelidados de «semiperiferias», «semi-industrializados» ou «emergentes».

 

É certo que as multinacionais foram decisivas no encaminhamento do processo, jogando um papel relevante no desenvolvimento posterior, contudo, os novos processos de divisão internacional do trabalho conduzem-nos diretamente a uma consequência específica de ordem espacial que nos interessa, isto é, é cada vez maior a relevância de novas áreas territoriais social e economicamente diferenciadas. E assim tal facto leva-nos, hoje em dia, a termos em conta a análise dos sistemas territoriais, ou seja, a análise do nível regional, aqui entendido no seu sentido mais amplo. Impõe-se, em suma, a compreensão dos processos históricos reais.

 

Ao contrário daqueles que outrora pensavam que o processo económico iria simplificar e homogeneizar a estrutura territorial, rompendo assim com as formas sociais locais diferenciadas, reconhece-se a importância de formas relevantes da sociedade local, mas não nos moldes de antanho.

 

Assim, e por mais incrível que pareça, as formas sociais locais diferenciadas nascem agora de novo. Contudo, tal facto, não significa que estejamos perante formas sociais de tipo pré-industrial.

 

O «centro» significava grande concentração industrial, alto nível de proletarização nas fábricas, organização formal, concentração da população, etc. Estas coisas continuam a existir (e sendo «centrais»), mas assistimos também ao aparecimento de “sujeitos das sociedades locais que são, também, sujeitos da sociedade global, implicados nas suas dinâmicas”, mas também «comprometidos» com as novas dinâmicas da sociedade local, redefinindo em parte os seus meios e contextos de ação. Desta forma, o fator local, por muito pequeno ou grande que seja, “não pode ser considerado simplesmente uma consequência de ação de forças externas (...) existe sempre uma interação e, na análise, consideram-se variáveis exógenas e endógenas. As características que assume o fator social não são um acidente que impeça ou modifique uma presumível e perfeita realização da ação do «centro»: são uma dimensão do processo”.

 

Os esquemas espaciais são sempre esquemas estruturais, contrapostos aos esquemas «históricos», construídos sobre o tempo, sublinha BAGNASCO.

 

Variáveis exógenas e endógenas, características estruturais e dinâmicas históricas “definiram-se a miúdo precisamente na análise da relação entre velho e novo”.

 

Chegados aqui poderíamos dizer que a maior mobilidade verificada hoje na indústria parece ligada a duas tendências: “a difusão de atividades à procura de determinadas condições favoráveis e, por outro lado, a «socialização territorial» de mais atividades em contextos determinados”.

 

3.- A importância da emergência de novos modelos para a análise de fenómenos mais complexos

A ideia de hierarquia, em contexto económico, utiliza-se normalmente para expressar as relações entre países e diferentes zonas.

 

Segundo BAGNASCO, citando G. ARRIGHI, “a coordenação da divisão internacional do trabalho no caso do velho capital comercial e financeiro era «anárquico-informal»”; por outro lado, “as empresas multinacionais, sediadas em diferentes países, tenderão a estabelecer coordenação «hierárquico-formal» através da divisão do trabalho «no seu interior»” Semelhante estratégia para além de ter dado um novo impulso a homogeneização das velhas diferenciações originais, por outro lado, estimulou o poder e a cultura dos estados nacionais e das sociedades locais.

 

Desta forma, o novo contexto económico não só se dá em função da divisão interna do trabalho da empresa multinacional como também é regulado por esta, por transações de mercado, intervenções públicas, com mais agentes, meios e estratégias que entram em jogo.

 

E, nesta conformidade, BAGNASCO deixa uma pergunta: o que sucederá quando e onde este processo se complexificar mais, quando se estabelecerem redes territoriais mais complexas de interações entre empresas externas e locais, quando a economia e a sociedade se complexificarem mais e aparecerem contextos com peso social próprio?

 

 

Muitos observadores, diz BAGNASCO, apoiando-se em WALLERSTEIN, estão dando conta já do aparecimento e emergência destes problemas, sublinhando a importância de tudo quanto está a suceder entre o «centro» e «periferia», imaginando uma fase na qual a «semiperiferia» vai ganhando mais importância numa análise mais diferencial e precisa em termos económicos e políticos.

 

E remata: “no plano do modo de produção, as teorias do capitalismo avançado mostraram importantes novidades estruturais que se referem, entre outras coisas, à articulação da dinâmica de classe com outras dinâmicas de interesses que se estabelecem entre economia e política. No plano do eixo territorial, os esquemas dualísticos dão o lugar a esquemas mais complexos e a novas formas sociais localizadas chegam a ser fenómenos a ter em conta”.

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