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zassu

30
Jan21

Versejando com imagem - A tua voz de primavera, de Florbela Espanca

VERSEJANDO COM IMAGEM 

 

A TUA VOZ DE PRIMAVERA

2021.- Amendoeiras em flor em Vila Nova (7)

(Flor de este ano)

Manto de seda azul, o céu reflete

Quanta alegria na minha alma vai!

Tenho os meus lábios húmidos: tomai

A flor e o mel que a vida nos promete!

 

Sinfonia de luz meu corpo não repete

O ritmo e a cor dum mesmo desejo... olhai!

Iguala o sol que sempre às ondas cai,

Sem que a visão dos poentes se complete!

 

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,

Se os roça ou prende a tua mão nervosa,

Têm a firmeza elástica dos gamos...

 

Para os teus beijos, sensual, flori!

E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,

Só me exalto e sou linda para ti!

 

Florbela Espanca,

in «A Mensageira das Violeta»

2021.- Amendoeiras em flor em Vila Nova (3)

(Flor de este ano)

28
Jan21

Poesia em tempos de desassossego - Fica comigo, de Eduarda Chiote

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

FICA COMIGO

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Mãe,

arqueia os joelhos

para que o crepúsculo do medo

possa ceder ao berço

onde repouse.

E não me toques. Não me toques,

não me beijes.

Deixa-me permanecer aninhado no vazio

qual bicho de

sono.

Não me despertes.

Mãe, sou um menino de leite.

Apaga o seio.

Fica comigo: a noite

começa.

 

Eduarda Chiote,

in 'Antologia Poética'

26
Jan21

Poesia em tempos de desassossego - Aos amigos, de Herberto Hélder

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

AOS AMIGOS

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Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.

Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,

com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente

dentro do fogo.

-Temos um talento doloroso e obscuro.

construímos um lugar de silêncio.

De paixão.

 

Herberto Hélder

FOGO

24
Jan21

Poesia em tempos de desassossego - Ainda não, de António José Forte

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

AINDA NÃO

retrato-de-mulher-com-flor-cobrindo-a-boca_a

Ainda não

não há dinheiro para partir de vez

não há espaço de mais para ficar

ainda não se pode abrir uma veia

e morrer antes de alguém chegar

 

ainda não há uma flor na boca

para os poetas que estão aqui de passagem

e outra escarlate na alma

para os postos à margem

 

ainda não há nada no pulmão direito

ainda não se respira como devia ser

ainda não é por isso que choramos às vezes

e que outras somos heróis a valer

 

ainda não é a pátria que é uma maçada

nem estar deste lado que custa a cabeça

ainda não há uma escada e outra escada depois

para descer à frente de quem quer que desça

 

ainda não há camas só para pesadelos

ainda não se ama só no chão

ainda não há uma granada

ainda não há um coração

 

António José Forte,

in 'Uma Faca nos Dentes'

flower-3239873_960_720

22
Jan21

Poesia em tempos de desassossego - Testamento, de Rui Knopfli

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

TESTAMENTO

GG - FIGURAS

Se por acaso morrer durante o sono

não quero que te preocupes inutilmente.

Será apenas uma noite sucedendo-se

a outra noite interminavelmente.

 

Se a doença me tolher na cama

e a morte aí me for buscar,

beija Amor, com a força de quem ama,

estes olhos cansados, no último instante.

 

Se, pela triste monotonia do entardecer,

me encontrarem estendido e morto,

quero que me venhas ver

e tocar o frio e sangue do corpo.

 

Se, pelo contrário, morrer na guerra

e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,

quero que saibas, Amor, quero que saibas,

pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

 

pela pólvora e pelas balas entranhadas

na dura carne gelada,

que morri sim, que me não repito,

mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

 

Rui Knopfli

19
Jan21

Poesia em tempos de desassossego - Uma chama não chama a mesma chama, E. M. de Melo e Castro

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

UMA CHAMA NÃO CHAMA A MESMA CHAMA

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uma chama não chama a mesma chama

á uma outra chama que se chama

em cada chama que chama pela chama

que a chama no chamar se incendeia

 

um nome não nome o mesmo nome

um outro nome nome que nomeia

em cada nome o meio pelo nome

que o nome no nome se incendeia

 

uma chama um nome a mesma chama

há um outro nome que se chama

em cada nome o chama pelo nome

que a chama no nome se incendeia

 

um nome uma chama o mesmo nome

há uma outra chama que nomeia

em cada chama o nome que se chama

o nome que na chama se incendeia

 

E. M. de Melo e Castro,

in 'Versus-in-Versus'

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17
Jan21

Poesia em tempos de desassossego - Stabat Mater, de José Bento

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

STABAT MATER

Pergolesi -  Stabat Mater

Estava a mãe de pé, já sem o filho

que fora a razão de ter aceite

um quotidiano rasteiro e o prodígio:

entre ambos, não ousava distingui-los.

 

Traspassara-se quando o viu deixar a casa

para se completar longe das mãos

que o receberam e fizeram crescer,

- nela sempre menino, e tão inerme

que de si nunca o desprenderia.

 

Soubera que ele fora domado, escarnecido,

mais bem pago para ser mais proveitoso,

soldado em guerras de outros

em que sempre foi um derrotado;

traído por mulheres de uma beleza

não somente fascínio e um ardil,

mas perdão para quem por elas se jogasse.

Mais que ninguém, ela sofrera-o sem dizê-lo.

 

 Devolveram-lho por fim, já só em parte,

para uni-lo na cama onde nascera.

 

Tudo nela ruiu, os seus escombros

são o mais intenso túmulo,

sem ter onde vá sorver a força

para sumir-se no apagamento

de si mesma e de tudo,

até da manhã que a saudou a anunciar-lhe

o fruto que sua flor tinha alcançado.

 

E pede que nenhuma luz venha acordá-la.

 

José Bento,

in 'Alguns Motetos'

15
Jan21

Versejando com imagem - E tudo é possível, de Ruy Belo

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

E TUDO É POSSÍVEL

IMG_8731.JPG

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

 

Ruy Belo

“E tudo era possivel”,
Primavera, Homem de Palavra[s]
In «Poemário»

Pág. 1/2

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