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zassu

12
Dez20

Versejando com imagem - A magnólia, de Luiza Neto Jorge

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A MAGNÓLIA

468960745

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria-na metáfora-

necessária,e leve,a cada um

onde se ecoa e resvala.

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

de O Seu Tempo a Seu Tempo

 

Luiza Neto Jorge

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10
Dez20

Versejando com imagem - Ícaro, de Sebastião Alba

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

ÍCARO

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Da Mafalala estorva-nos

a memória dos gregos

É um anjo negro segredado

e assim goza

de asas sussurrantes

Desce por entre

intervalos do vento

e findo o voo refunde

o modelo de cera

Como qualquer pássaro faz ninho

ele no vestido das mulheres

Sem céu fixo

exala a plumagem

da comum nudez interrompida.

 

Sebastião Alba

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(Ninfas observam Ícaro após sua queda, 1898. Herbert James Draper)

 

08
Dez20

Versejando com imagem - Noite luarenta, de António Gancho

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NOITE LUARENTA

Luar alentejano

Noite luarenta

Noite a luarar

Noite tão sangrenta

Noite a dar a dar

Na chaminé da planície

a solidão a cismar

na chaminé da planície

noite luarenta a dar a dar

Noite luarenta

noite de mistério

noite tão sangrenta

solidão cemitério

Na chaminé da planície

o Alentejo a solidar

noite luarenta que o visse

noite luarenta a dar a dar

Noite luarenta

noite luarol

na chaminé da planície

o temor e o tremor

O cavalo a luarar

a lua a fazer meiguice

noite luarenta a luarar

noite luarenta a luarice.

 

António Gancho,

in 'O Ar da Manhã'

Chamines-Alentejo-AS-9

06
Dez20

Versejando com imagem - Duas coisas agrícolas. de A. M. Pires Cabral

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DUAS COISAS AGRÍCOLAS

 

O Vinho

VI - Duas coisas Agrícolas - APC Vinho Oliveira

O vinho é que promove a lúcida evasão.

Nós apenas seguimos o seu rasto,

frágil, entrançado e perdendo-se

(perdendo-nos) na bruma: a redenção.

Se alguém fala então, e o que diz –

não ouvimos: os ouvidos ocupados

em sumir do rumor os mal unidos

elementos, a voz rouca, infiltrada.

A demora fabricando-se pelos seus

próprios meios, a fim de que o temido

regresso nunca, nunca acontecesse.

Mas sobrevém a manhã: fantasma nu,

em rigoroso retorno do país.

 

O Centeio

VI - Duas coisas Agrícolas - APC. Chaves

Onde os outros não se podem atrever –

lá está ele, o tosto mantimento,

em permanente ato de criar.

E preside, em sáfaras choupanas,

ao alimento breve, ancestral,

oferecendo seu parco conforto

aos ventres recessivos. A fome

dissimulada, cadafalso.

Oblíquo, esforço cereal,

quem te veja em teu alto endereço

ondulando aos verdes ventos de Abril,

oh, não diz de tuas diligências

e dial-

épica atitude. Eppur si muove!

 

A. M. Pires Cabral

"Aqui e Agora Assumir o Nordeste- Antologia",

com seleção e organização de.

Isabel Alves | Hercília Agarez,

extraído de  «Solo Arável»

04
Dez20

Versejando com imagem - Barco, de Gastão Cruz

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

BARCO

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Vou hoje começar a recordar-te

embora a luz entrando sob o arco

escasso da realidade possa dar-te

a ilusão ainda de que o barco

 

simplesmente balouça mas não parte

Já partiu afinal do porto parco

onde vieste perceber a arte

de nada ser; no mesmo barco marco

 

lugar como num ventre: igual escala

é a perda da vida que ganhá-la

 

 Gastão Cruz,

em “Repercussão”

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02
Dez20

Versejando com imagem - O pão, de Nuno Guimarães

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O PÃO

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(Foto de Gérard Fourel)

 

Não é ainda um seio

mas quase. Na brancura.

Porém, onda de leite

a branca levedura.

 

Um mecanismo incerto

de ferro e madrugada.

A fome e o excesso

futuros. Na seara.

 

A fome e a carência

de sol(o) para a boca.

Não é ainda um campo

de areia. Ou terra solta.

 

Um campo descampado

um canto com bolor.

É arte que se move

minéria como a água.

 

Engenho de palato.

Alvéolo de pulmão.

Respira-se o exemplo

de sol. Oxigénio.

 

Não é ainda um círculo

branco por toda a mesa:

manchado na toalha

de sombra e aspereza.

 

Não é ainda uma ave

descendo sobre a pele:

um mecanismo triste

movendo a boca breve.

 

Nuno Guimarães,

in 'O Corpo Agrário'

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(Foto de Gérard Fourel)

01
Dez20

Palavras Soltas - Eduardo Lourenço e a procura da identidade portuguesa no seu labirinto

PALAVRAS SOLTAS

 

EDUARDO LOURENÇO E A PROCURA DA IDENTIDADE PORTUGUESA NO SEU LABIRINTO

 

01.- Eduardo Lourenço

 

Mal abrimos os jornais de hoje, a notícia que mais nos despertou a atenção foi - «Morreu o ensaísta Eduardo Lourenço».

 

Eduardo Lourenço foi professor, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico e filósofo.

 

O poeta Herberto Hélder dizia que Lourenço era a imagem do ensaísta que permitia «a única reflexão inteligente sobre a política nacional».

 

Eduardo Prado Coelho considerava-o alguém para quem «a aventura do conhecimento e a aventura da vida se confundem permanentemente».

 

Fernando Namora, em 1986, dizia que Eduardo Lourenço era «um dos espíritos mais sagazes, de uma fulgurância estonteadora, que o ensaísmo português alguma vez produziu».

 

Conviveu com o escritor Vergílio Ferreira e, com ele, viria a ser associado a uma determinada forma de existencialismo, influenciado por filósofos como Heidegger, Nietzsche, Husserl, Kierkegaard e Sartre e pela leitura de escritores como Dostoievski, Kafka e Camus.

 

Foi sobretudo sobre poesia, mais do que a prosa, que incidiram os seus ensaios, de Luís de Camões a Miguel Torga, passando por Fernando Pessoa.

 

Homem de esquerda, mas com uma visão crítica dessa corrente, Eduardo Lourenço nunca se deixou enfeudar em qualquer escola de pensamento.

 

A palavra mais presente na sua obra é Portugal e a crise da identidade nacional.

 

No Diário de Notícias de hoje podemos ler: “A crise de identidade nacional era uma das suas preocupações e a polémica sobre a história da colonização portuguesa inquietava-o. Era claro: «Não sei porque é que neste momento parece haver uma necessidade de crucificar este velho país em função de uma intenção louvável, mas que ainda não redime aqueles que querem realmente a redenção, aqueles que foram objeto de uma pressão forte como o do nosso domínio enquanto colonizadores, de uma certa época. Já não podemos reparar nada, que essas coisas não têm reparação, (...)».

 

O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português, saída em 1978, e que a lemos com redobrada atenção em meados de 80 do século passado, foi a obra que mais o celebrou, porquanto se trata de um «discurso crítico sobre as imagens que de nós próprios temos forjado», solicitando que «os portugueses se reencontrassem com a verdadeira identidade e com a compreensão de uma realidade que estava para construir após o fim do império, sendo a boia de salvação a derradeira integração na Europa de que fazemos parte. Era hora de deitar borda fora, afirmava, "a espécie de enteroscopia delicada das qualidades imponderáveis deste Portugal perdido no labirinto de si mesmo”».

 

O tema da Europa, e do lugar de Portugal na Europa, é, pois, recorrente na obra de Eduardo Lourenço.

 

Recebeu vários prémios e galardões, quer nacionais, quer internacionais.

 

Deixamos aqui algumas frases soltas, extraídas de uma entrevista que Eduardo Lourenço deu à jornalista Isabel Lucas, a 31 de julho de 2017, com 94 anos, e que saiu na revista Ípsilon, do jornal Público.

 

Dizia:

Estamos em plena cultura de imagem. Não é de agora, terá vindo do século da fotografia. Hoje podemos estar uma vida inteira a ver cinema, televisão ou um ecrã e morrer sem ter entrado na vida” (sublinhado nosso).

 

Foi preciso o fim da II Guerra Mundial para que os portugueses se dessem conta de que a nossa situação, que até então parecia edificante e admirável — e admirada até —, não correspondia às novas exigências depois do triunfo das democracias. E a guerra de África determinou o nosso destino de outra maneira, pôs fim ao longo império de mais de 500 anos, perdemos o famoso império. A questão é saber em que medida é que o tivemos, ou em que medida era um império tão real para nós e tão vivido, como miticamente alguma literatura e alguma poesia mitificou, entre elas a maior mitificação e a última feita por Fernando Pessoa. Já não se podem escrever peças líricas sobre aqueles que morreram por esse império” (Sublinhado nosso).

 

No prosseguimento do que acima ficou dito, a jornalista Isabel Lucas perguntava-lhe:

- “Isso é bom ou mau?

Eduardo Lourenço respondia-lhe:

É a vida. É a História. E temos de viver isso como qualquer coisa mais do que um ressentimento. As colónias, os colonizados, tiveram a sua hora de afirmação. Era natural que se emancipassem. Nós, e a maior parte dos colonizadores europeus, prolongámos esse império para ser sem fim, prolongámos a supremacia europeia durante mais tempo do que ela era capaz. Hoje mudámos de paradigma, a Europa já não é o centro do mundo, mas também não é a periferia. Será sempre um objeto de meditação, de evocação, de nostalgia certamente. Porque uma parte da civilização europeia foi o paradigma de outras civilizações, mesmo de algumas anteriores à Europa. (...). Estamos sempre no futuro, o passado não determina de maneira fatal o nosso progresso e realiza os nossos sonhos. O homem é, por essência, alguém que vive dos sonhos maiores do que ele”.

 

Para Eduardo Lourenço o papel de Portugal na história foi uma “vontade de não abdicarmos do sonho”, uma “vontade um pouco louca”. “Portugal viajou uma viagem por conta própria, um sonho e esse sonho não tem fim e não terá fim (...) Os portugueses atreveram-se tanto quanto podiam, talvez, é esse atrevimento é aquele que ficará realmente na história de todos nós”.

 

Naquela mesma entrevista, a jornalista interrogava-o:

- “Referiu, (...), que falta à Europa uma coisa que os Estados Unidos têm: um livro. Enquanto portugueses, temos alguma espécie de livro?

Eduardo Lourenço respondeu:

É a única coisa de que não nos queixamos. Houve alguns momentos na história da literatura portuguesa em que Os Lusíadas não tiveram a visibilidade ou o papel que mais tarde vieram a ter, quando o Romantismo os releu e encontrou neles o fundamento da nossa perenidade mais aceitada e real - Garrett, naturalmente. Os Lusíadas nunca foram um livro popular, até porque o estado de alfabetização da nação era relativamente frágil até há quase 50 anos. Mas há uma coisa que este país sabe mesmo com um ambiente pouco letrado: Camões é o poeta nacional. Luís de Camões não é um santo propriamente dito, mas no nosso imaginário, ocupa o lugar de todos os santos”.

02.- Eduardo Lourenço

À pergunta:

- “Sempre analisou as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. A melhor maneira de conhecer um povo é a partir da literatura que ele produz?

Eduardo Lourenço respondeu:

Sim, a arte em geral. A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso, de mais enigmático e ao mesmo tempo de mais ambicioso. Penso que, de todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música. A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura”.

 

Uma das frases que mais nos captou a atenção nesta entrevista, eivada de profunda humildade, foi aquela quando afirmava que “eu nunca ocupei palco”.

 

Bem assim quando diz:

Não tenho obsessão por Portugal. Quando se nasce numa aldeia naquele tempo, Portugal não está à vista. Ser português, então, é falar português, ter uns certos hábitos que vêm do fundo dos tempos. É estar confinado num sítio incógnito, pouco visto, pouco sabido dos olhos do mundo; é estar isolado e ser feliz”.

 

E, perante a pergunta da jornalista:

- “E o que é ser feliz?

A resposta foi simples e pronta:

Nada. Viver nesse espaço que foi o espaço da inocência”.

 

A personalidade e a obra de Eduardo Lourenço, de certa forma, marcou-nos como homem e português.

 

Embora com a sua morte tenha saído de cena, deixa o palco todo para todos nós portugueses. E este pensamento bem socrático: “Sei tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois”.

 

E, como dizia, enfrentou a morte “como se todos aqueles que nos conheceram e nós amamos estivessem connosco”.

 

Foi, positivamente, uma coincidência um dos maiores pensadores de Portugal do século XX ter falecido exatamente no dia da Restauração da nossa Independência.

 

Hoje desapareceu um dos nossos maiores!

 

Mas fica a sua obra e o seu pensamento. O incitamento à procura constante da nossa identidade e de novas gestas permanece. De uma forma bem impressiva e desafiante para todos nós, portugueses.

03.- Eduardo Lourenço

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