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zassu

31
Dez20

Versejando com imagem - Para voltar, de Alberto Pimenta

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PARA VOLTAR

 

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A ver-te

Um só instante,

A ti,

Que és mais bela que a lua,

Antes que a manhã recolha

As estrelas

Uma a uma

E as guarde

Do outro lado do céu,

 

Vou atravessar

O rio

Coberto de holofotes,

Que transformam o verde claro

Numa fosforescência

De água assustada.

 

Se não me matarem

Nem me apanharem vivo,

Mantém-te alerta

Mantém alerta

O desejo mais antigo

e o mais novo.

 

Vou passar

Do lado de fora

Da parede

Perfurada

Pelas balas:

 

Passa-me um lenço

De seda

Com o teu perfume.

 

Marca-o com o segredo

Dos teus lábios.

 

Alberto Pimenta,

in 'Marthiya de Abdel Hamid Segundo Alberto Pimenta'

29
Dez20

Versejando com imagem - A lágrima, de Diogo Alcoforado

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A LÁGRIMA

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7

Tornamo-la espelho. Certa, vem

dos dias longos, gastos, fulgurante

traçando o curso: aí, diante

do vidro se encontra, se retém

 

sobre a mesa, leve, a dor. De quantos

golpes, e sorrisos, se constrói? In-

dizível parte, e passa, e fin-

da alva, algures - se longe, tantos

 

olhos a espiam. Que som havia

antes, tal espaço? Palavra ou

tão só a noite? E (ainda) leda

 

se desdobra, a: sinal, ave, fria

corre, imagem dura que secou

no sulco, vão: a lágrima, a queda.

 

Diogo Alcoforado,

in 'Exercícios Circulares'

27
Dez20

Versejando com imagem - The bunting variations, de Luís Amorim de Sousa

VERSEJANDO COM IMAGEM

                

 THE BUNTING VARIATIONS

 

image

figos pingo-de-mel rainhas cláudias

e uma cabaça de vinho tinto da venda

pão de centeio também e uma mão cheia

de azeitonas miúdas e alhos bravos

é tudo quanto posso pôr na mesa

se por aqui passares ó caminheiro

na lareira há caruma e pinhas secas

que as minhas noites são frias e frugais

 

oiço lá fora o vento em seu vaivém

mas nenhum galho estala nos caminhos

 

que direção tomaste ó caminheiro

ó tu dos membros pesados?

 

Luís Amorim de Sousa

pin

25
Dez20

Versejando com imagem - Quando um homem quiser, Ary dos Santos

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

QUANDO UM HOMEM QUISER

QUANDO UM HOMEM QUISER

 

Tu que dormes à noite na calçada do relento

numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme

numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

e sofres o Natal da solidão sem um queixume

és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

Natal é em dezembro

mas em maio pode ser

Natal é em setembro

é quando um homem quiser

Natal é quando nasce

uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto

que há no ventre da mulher

 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

tu que inventas bonecas e comboios de luar

e mentes ao teu filho por não os poderes comprar

és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

Ary dos Santos,

 in 'As Palavras das Cantigas'

24
Dez20

Versejando com imagem - Natal, e não dezembro, de David Mourão-Ferreira

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Bom Natal

Entremos, apressados, friorentos,

numa gruta, no bojo de um navio,

num presépio, num prédio, num presídio,

no prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.

Entremos, e depressa, em qualquer sítio,

porque esta noite chama-se dezembro,

porque sofremos, porque temos frio.

 

Entremos, dois a dois: somos duzentos,

duzentos mil, doze milhões de nada.

Procuremos o rastro de uma casa,

a cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.

Das mãos dadas talvez o fogo nasça,

talvez seja Natal e não dezembro,

talvez universal a consoada.

 

David Mourão-Ferreira,

in 'Cancioneiro de Natal'

Natal-Matizes-Dumont-696x623

(Fonte:- Natal-Matizes-Dumont-696x623)

 

20
Dez20

Versejando com imagem - Os amigos que morrem, de Fiama Hasse Pais Brandão

VESEJANDO COM IMAGEM 

 

OS AMIGOS QUE MORREM

01.- 1200px-Fraxinus_excelsior_-_Ardenne_1a

Os amigos que morrem são arbóreos,

plantados e memoráveis como freixos.

Um freixo, que vejo entre árvores

como a aura, o tronco novo

sulcado de rasgões, a raiz curta

comparável à memória viva enterrada.

Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,

que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.

 

Fiama Hasse Pais Brandão

02.- P1070074

18
Dez20

Versejando com imagem - Varanda de Pilatos, de Armando Silva Carvalho

VERSEJANDO COM OMAGEM

 

VARANDA DE PILATOS

06.- 2020.- Alfandega da Fé (272)

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado.

Armando silva Carvalho

in 'Sol a Sol'

16
Dez20

Versejando com imagem - Vida sempre, de Casimiro de Brito

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VIDA SEMPRE

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Entre a vida e a morte há apenas

o simples fenómeno

de uma subtil transformação. A morte

não é morte da vida.

A morte não é inação, inutilidade.

A morte é apenas a face obscura,

mínima, em gestação

de uma viagem que não cessa de ser. Aventura

prolongada

desde o porão do tempo. Projetando-se

nas naves inconcebíveis do futuro.

 

A morte não é morte da vida: apenas

novas formas de vida. Nova

utilidade. Outro papel a desempenhar

no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio

do pó) e não se pertencer.

Nova claridade, respiração, naufrágio

na máquina incomparável do universo.

 

Casimiro de Brito,

in "Solidão Imperfeita"

near-death-experience (1)

14
Dez20

Versejando com imagem - Noite por ti despida, de Casimiro de Brito

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NOITE POR TI DESPIDA

Diego Fernandez

(Autor - Diego Fernandez)

 

Adulta é a noite onde cresce

o teu corpo azul. A claridade

que se dá em troca dos meus ombros

cansados. Reflexos

                                  coloridos. Amei

o amor. Amei-te meu amor sobre ervas

orvalhadas. Não eras tu porém

o fim dessa estrada

sem fim. Canto apenas (enquanto os álamos

amadurecem) a transparência, o caminho. A noite

por ti despida. Lume e perfume

do sol. Íntimo rumor do mundo.

 

Casimiro de Brito,

in "Solidão Imperfeita"

Pág. 1/2

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Comentários recentes

  • Jorge

    Olá, por acaso tem a análise deste poema?

  • Jorge

    Olá, por acaso tem a análise deste poema?

  • Aqui há coração

    Poesia em cada palavra.

  • Anónimo

    Depois de ler o texto e do qual gostei imenso (poi...

  • Anónimo

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