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zassu

09
Nov20

Versejando com imagem - Da nossa morte, de José Augusto Batista

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DA NOSSA MORTE

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Agora é tarde.

Ninguém responde às cartas que escrevi e

atirei ao mar,

quando pensei que um dia serias como esse

marinheiro que num sonho antigo abençoava

o filho e depois partia nas asas do albatroz.

Agora é tarde.

Ninguém responde à sombria música dos meus

punhos golpeando a cadeira vazia, a mesa, as

folhas em branco onde uma única palavra se

aproxima,

manejando as suas armas-

três letras, três sinais de fogo.

Agora é tarde.

Ninguém cala os tempestuosos rios no fundo

dos meus olhos,

quando penso nos vermes, nas viscosidades

que te procuram através do cetim.

 


José Agostinho Batista

08
Nov20

Palavras Soltas - Ibéria - E porque não?

PALAVRAS SOLTAS

 

IBÉRIA,

- PORQUE NÃO?

PI

 

I

 

De entre os muitos «amigos» da nossa conta do Facebook, aqui há dias, demos conta que um deles – e que me desculpe o não nos lembrar do seu nome – punha em questão o termo «Ibéria», que habitualmente usamos quando diretamente postamos na Página ou nela partilhamos temas dos nossos blogues.

 

Em síntese, este nosso «amigo» argumenta que o termo «Ibéria» foi (e porventura ainda é) utilizado como carregada de obscuro sentido hegemónico, por parte de Espanha para, tal como no passado, exercer o domínio (político) de anexação de Portugal ao estado espanhol.

 

Sabemos da existência desta corrente iberista que apela(va) à criação de uma Federação Ibérica, e cuja origem remonta ao século XIX.

 

Mesmo nos finais do século passado, um ilustre escritor português – José Saramago – defendia a constituição de um único Estado na Península Ibérica, quando, em 1980, numa entrevista ao Diário de Notícias, afirmava: "Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla la Mancha, e tínhamos Portugal. (...) Não seríamos governados por espanhóis, haveria representantes de ambos os países, que teriam representação num parlamento único com todas as forças políticas da Ibéria, e tal como em Espanha, onde cada autonomia tem o seu parlamento próprio, nós também o teríamos".

 

 Estamos bem cientes dos adversários do iberismo quando, tal como nos diz Charles Vítor Berndt, na sua obra «Portugal como destino: Pessoa, Torga e Saramago», 2017, citando Paulo Bruno Rodrigues Ferreira, “(...) o próprio termo iberismo nunca foi bem-visto e aceite em Portugal, mesmo no auge das discussões em torno da criação de uma Federação Ibérica, nos meados do século XIX. Render-se ao iberismo seria, assim, para muitos portugueses, na altura, reconhecer sua inferioridade perante Castela e renunciar a sua própria identidade cultural. E foi por esse principal motivo, (...), por temer que acontecesse consigo o que aconteceu com as outras regiões da península, que Portugal resistiu não só às propostas de união política, mas procurou negar a sua proximidade histórica e cultural com Espanha. É necessário que se diga, ainda, que para além das propostas de união e aproximação política e económica, surgiram, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, correntes de pensamento, discussões, teorizações que defendiam (...) o [chamado] iberismo cultural. Assim, o próprio termo iberismo passou a ser ressignificado pelos intelectuais e escritores que advogavam em favor de uma maior aproximação cultural ibérica. Termos como hispanismo ou hispanidade começaram a ser mais recorrentes quando o assunto era tratar das relações de Portugal e Espanha”.

 

Na verdade, somos iberista, como “muitos foram os escritores e intelectuais, tanto portugueses quanto espanhóis, que teorizaram a respeito do que se costuma chamar de iberismo cultural ou hispanismo. (...) diante do fracasso das propostas de união política e da antipatia portuguesa com o termo iberismo, que parecia sempre implicar uma subjugação face a Castela, ao centralismo de Madrid, aqueles que defendiam uma maior aproximação de Portugal e Espanha preferiram concentrar seus ânimos em reconhecer as semelhanças culturais entre os dois países, valorizando as semelhanças linguísticas, históricas e o próprio clima e a geografia partilhados por ambos os países”. (idem).

 

II

 

Na peugada de Rafael de Labra e Miguel Unamuno, que enxergaram a pátria de Camões com outros olhos, o nosso iberismo, tal como o do nosso poeta maior, do Reino Maravilhoso de Portugal, não pode ser considerado de forma estreita e nacionalista.

 

Estamos com Torga quando afirma que “A ideia de nação, embora historicamente se justifique, pelo menos cá no Ocidente, não é de certeza a última palavra em matéria de arrumação do mundo. Uma noção mais ampla e profunda de comunidade de sentimentos e de interesses há-de substituir-se, inevitavelmente, a essa atual fraternidade murada e compartimentada” (ibidem).

 

Em «O iberismo telúrico de Torga», na «a Página da Educação», nº 171, o autor do artigo afirma: “Torga distinguia muito bem o que significava a Castela hegemónica, a Espanha aglutinadora, a Ibéria matricial, a filipização e o franquismo, e o que da Mãe primigénia se transmitira em herança genética para as gerações vindouras, por último configuradas, já menos por laços de sangue do que por afinidades, em comunidades autónomas ou independentes, como Portugal”.

 

Neste artigo, mais à frente, escreve-se, citando o nosso poeta maior: “Mobilado de valores morais e sentimentais, telúricos, intelectuais e outros, prendem-me ao chão nativo amarras indestrutíveis. Para poder partir teria de meter no bornal o Marão, o Douro, o Mondego, a luz de Coimbra, a biblioteca e as vogais da língua. Sou um prisioneiro irremediável numa penitenciária de valores tão entranhados na minha fisiologia que, longe deles, seria um cadáver a respirar".

 

Em suma, tal como Miguel Torga diz no seu Diário, “O meu iberismo é um sonho platónico de harmonia peninsular de nações. Todas irmã e todas independentes. Mas é também uma paixão escabreada, que arrefece mal se desenha no horizonte qualquer sinal de hegemonia política, económica ou cultural. Que exige reciprocidade na sua boa-fé e nos seus arroubos. Que quer apenas comungar fraternalmente num mais longo espaço de espiritualidade”.

 

Porque, na Península Ibérica somos:

Povo sem outro nome à flor do seu destino;

Povo substantivo masculino,

Seara humana à mesma intensa luz;

Povo vasco, andaluz,

Galego, asturiano,

Catalão, português:

O caminho é saibroso e franciscano

Do berço à sepultura;

Mas a grande aventura

Não é rasgar os pés

E chegar morto ao fim;

É nunca, por nenhuma razão,

Descrer do chão

Duro e ruim!

Miguel Torga

in Poemas Ibéricos

 

III

 

Ao escrever «Poemas Ibéricos», Miguel Torga mostra o seu otimismo quanto ao futuro de portugueses e espanhóis. Para ele, um povo que resistiu a aridez do solo, a invasões bárbaras, a regimes autoritários, tem a resistência necessária e suficiente para continuar a vida em tal terra e continuar a contribuir, face à sua História e Cultura, para o progresso da Humanidade.

 

Mas, já na fase final da sua vida, há um Torga, resignado e complacente, que, a determinada altura, falando das pátrias, profere: “a regra, agora, é pensar em função de continentes e não de países e em vez de Portugal talvez fosse melhor escrever Europa" (...) o espaço vital diminui, e já nem como cidadão do mundo o homem respira com desafogo".

 

Mas não abdicava de afirmar que "há um meio específico onde cada indivíduo é menos infeliz. E o meu é este, de que conheço as agressões possíveis, e de que me sei defender instintivamente".

 

Concordamos com muitos autores que reconhecem Miguel Torga como o escritor mais "português" do século XX e um dos maiores lusomundialistas de todos os tempos.

 

IV

 

Só que, nos finais do século XX e no dealbar do XXI, ventos de mudança agitam o panorama das sociedades modernas.

 

Com o desaparecimento dos dois blocos hegemónicos, saídos da II Guerra Mundial, e com o acelerado progresso das tecnologias da informação e comunicação, uma nova realidade política e económica aparece, com o capitalismo financeiro, que não tem, nem conhece fronteiras.

 

Nos tempos que correm, toda a estrutura política e democrática, saída do século XIX, entrou em crise.

 

Os estados, ditos modernos, com que nos habituámos a lidar – e, consequentemente, confiar – estão, positivamente, caindo em desuso.

 

O poder mudou dos estados para ir parar às grandes multinacionais.

 

Estamos, assim, perante estados a quem compete decidir, mas cujo poder já não se encontra nas suas mãos.

 

Exige-se uma Nova Ordem Mundial! Teremos que a reinventar. as instituições nacionais e internacionais que nos governam nada regulam. Cada vez mais se assiste a um enorme fosse entre uma enorme multidão de pobres, espalhados por todos os continentes deste nosso Planeta e a um ínfimo punhado de pessoas e organizações que são os donos disto tudo!

 

A este propósito vale a pena atentar sobre o conteúdo de uma entrevista que, em 2011, Zygmunt Bauman, sociólogo, recentemente falecido, dava, em londres, a um programa, de Porto Alegre/BrasilFronteiras do Pensamento – e que aqui deixamos para reflexão dos nossos leitores.

 

Tenhamos particular atenção quando nos fala no mundo interdependente em que vivemos – no qual dependemos uns dos outros -; no dilema ambiental a que estamos sujeitos, face à enorme suscetibilidade do nosso Planeta e esgotamento dos recursos, e à circunstância de repensarmos as instituições democráticas que nos governam, porquanto, no mundo global em que vivemos, não servem o cidadão. O cidadão não se revê nelas. Por isso a desconfiança que o cidadão tem da política e dos políticos. Há que reinventar novas instituições, equivalentes às dos estados-nação, dando o toque de finados às que hoje nos governam, as quais, antes de nos libertarem, agora, aprisionam-nos.

 

O grande problema que se põe hoje em dia, neste novo mundo e sociedade em que vivemos, já não é lutarmos contra este ou aquele estado-nação, mas, num mundo globalizado, reconhecermos que, cada vez mais somos (estamos) interdependentes e que a nova ordem social e convivência humana tem (deve) assentar da preservação da identidade de cada povo e do diálogo entre culturas, em ordem a uma convivência pacífica mundial.

 

Sabemos, no estádio de evolução da sociedade em que estamos, tratar-se de uma utopia.

 

Inexoravelmente, será esse o nosso destino, sob pena de a Humanidade, juntamente com o Planeta em que vivemos, entrarmos em crise irreversível.

ENTREVISTA COM ZYGMUNT BAUMAN - FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

Como se vê, só na medida em que nos assumirmos na nossa identidade própria como Ibéricos, num mundo e numa sociedade globalizada, em completa transformação, é que poderemos, evidenciando a nossa diversidade, é que poderemos sobreviver.

 

Hoje, o nosso inimigo não é a Espanha; pelo contrário, é um outro bem mais poderoso e mortal para a nossa identidade como povo!

07
Nov20

Versejando com imagem - Mahler, de José Emílio-Nelson

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

MAHLAER

(A Canção de Deus e Morte)

13073009

No jardim das almas

A fala caída.

Como se fosse a canção de

Deus e Morte.

A canção do cadáver

Sombrosa e rente.

Uivo. Brechas.

Ululante.

Compassadamente

O coração solto

Rasgado contra o céu maciço.

E de abismo ou de crateras

Um ardil. Incessante

Profundidade e permanência interminável

Na terra ímpia.

O relâmpago rasteja Deus.

Abre-se a solidão

Nos ombros do Inferno.

 

Quem vislumbra pérfido

No alçapão da sombra?

E o ricochete da luz?

Que castigo inexpiável?

Haverá uma música da fatalidade?

E quem lhe deve obedecer?

Sou miserável e perturbante.

Dou-me à paisagem destituída.

À árvore devastadora. À borboleta esmagada.

(O restolho enovelando.

Um bestiário precipitando-se.

Sacudindo-me.

Que aurora imprevista

Impulsivamente no mundo?)

Cantava a impaciência

Melancólica.

A dor radiante.

 

A vastidão.

 

José Emílio-Nelson,

in 'A Palidez do Pensamento'

EXCERTO DO FILME «MORTE EM VENEZA»

(Banda sonora - G. Mahler - 5ª Sinfonia, andamento 4, Adagietto)

 

06
Nov20

Ao Acaso... Trenó

 

AO ACASO...

 

TRENÓ

dsc06725

Levamos a vida sonhando:

em riqueza, impérios, poder e influência,

julgando nessa busca a procura da felicidade.

Queremos viver em palácios,

julgando-nos príncipes, princesas, reis e rainhas.

Colecionamos tudo o que de melhor possa haver.

Muitas vezes – ou quase sempre – não olhando a meios.

Queremos,

como aquele magnata da imprensa e das finanças,

ter tudo a nossos pés.

 

Ao fim e ao cabo,

não somos imortais.

A vida não é uma reta infinita:

é um fio que,

desenovelado, tem um fim.

 

A certa altura,

no acaso deste nosso caminhar,

quando vemos,

tantos e tantas que nos acompanharam,

e fizeram parte das nossas vidas,

partir,

damos connosco,

uma outra vez,

a sonhar.

 

Sonhamos.

Mas agora não é com um «Kumblain Jan»,

no «Xanadú»,

de uma terra Florida qualquer.

 

Nossa máscara transforma-se

na persona de Peter Pan,

tal qual um William Randoph Heart qualquer.

 

Na hora da partida,

temos saudades:

daquele «pimpolho» que fomos.

E, nossa última palavra,

resume-se simplesmente

- «Rosebud».

 

Que palavra enigmática será essa que,

nos momentos finais da partida,

nos persegue?

Será a riqueza

que perdemos, ou a que deixamos?

Será a nostalgia da vida faustosa,

que deixamos para trás?

Será do principesco palácio que deixamos,

sabendo que vamos ocupar um tão simples,

em escassos dois metros quadrados?

Será a consciência aguda

que a vida e o poder se esvai?

Que é tudo efémero?

 

«Rosebud».

Que enigma é esse,

que nos prende tão demoradamente a uma tela,

obcecados por encontrar o seu significado?

 

Nada é nada mais nada menos

que descobrirmos que,

lá para trás,

deixámos o que era mais importante na vida:

o fascínio das pequenas coisas,

simples, mas belas,

da nossa infância.

Do nosso lar infantil:

perdido!

 

nona

Citizen Kane

 

05
Nov20

Versejando com imagem - Estes homens, de José Manuel Mendes

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

ESTES HOMENS

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estes homens

abrem as portas

do sol nascente

 

conhecem os íntimos latejos

da cal as soltas águas

os fermentos as uvas

os cílios discretos do pão

 

amam as urzes e as fontes

o suor dos fenos

a febre moira de um corpo

de mulher

 

estes homens

partem a pedra

com martelos de solidão

(os olhos abismados

nos goivos

da lonjura)

 

erguem as paredes

as janelas crepusculares

as esfaimadas antenas das cidades:

céu de cimento; baba remota

do cansaço

 

estes homens

tamisam cores: viajam nos navios

pescam no cisco das pérolas

do vidro

são garimpeiros

de uma esponja

de coral

 

moldam nas forjas

as sílabas secretas

do ferro

afeiçoam os seixos e o linho

o bafo marítimo

das palavras

 

estes homens

dizem casa com dezembro

nas veias

ternura com a sede de uma seara

grávida

assobiam comovidos contra as sombras

trazem na algibeira

o trevo rugoso das cantigas

 

estes homens:

guardadores de cabras

e de mágoas

de espantos e revoltas

servos emigrantes

contrabandistas

soldados andarilhos do mar

carabineiros da má sorte

trepadores das sete colinas

operários

azeitoneiros

ratinhos

levantam por maio

os cantis do lume: voz de musgo

concha entreaberta

 

 

estes homens

(pátria viva; horizonte

de prata

à flor da bruma)

modelam nos andaimes

do tempo

o oiro (medular) da

liberdade

 

José Manuel Mendes,

 in 'Os Dias do Trigo (15)'

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03
Nov20

Palavras Soltas - Verdade (Mentira) e Política

PALAVRAS SOLTAS

 

VERDADE (MENTIRA) E POLÍTICA

 

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(“A verdade saindo do poço” Jean-Leon Gérôme, 1896)

 

As eleições norte-americanas, que hoje se disputam, são apelidadas, e consideradas por muitos observadores, como as eleições da década. Pelo caráter excecional que a pandemia lhes imprimiu; pela singularidade dos opositores à presidência em confronto – os mais velhos da história das eleições americanas.

 

Não somos – nem de perto nem de longe – adepto do sistema da democracia americana.

 

Ao longo de décadas, o Ocidente Europeu deixou-se (e ainda continua a deixar-se) dominar sob o jugo imperialista americano, não encontrando o seu próprio caminho, face aos desafios que o novo século nos impõe, particularmente no que concerne a uma forma outra de exploração dos recursos escassos do nosso Planeta.

 

Torcemos para que o Partido Democrata, na pessoa do seu ancião, Joe Biden, vença estas eleições. Não que acreditemos nas suas propostas redentoras. Nem tão pouco que reposicione a hegemonia norte-americana face à agigantada economia chinesa e à preponderância política mundial que a Rússia «putiana» pretende assumir. O Império Americano - com o seu sonho - está em franca queda!

 

Torcemos por Joe Biden por uma razão fundamental – por acreditarmos no primado da política! Porque, apesar de sabermos que o cerne da política assenta na tensão e no debate entre a verdade e a mentira, lutamos veementemente contra aqueles que, usando sistematicamente a mentira, manipulam, lutam contra factos indesmentíveis e subjugam consciências, em especial as dos mais fracos e as dos pouco esclarecidos.

 

Lutamos contra aqueles que, no combate político, outra coisa não fazem senão a antipolítica!

 

Por tudo isto, e a este propósito, deixamos aos(às) nossos(as) leitores(as) uma reflexão e uma parábola. A reflexão incide sobre dois excertos de Hannah Arendt, no seu ensaio «Verdade e Política» . A parábola  - do século XXI - é sobre a «Verdade saindo do poço».

 

Fazemo-lo, essencialmente, por uma atitude pedagógica. Por acreditarmos estar a contribuir para um melhor esclarecimento da nossa atitude como cidadãos, num mundo tão conturbado, cheio de contradições e tão atreito à manipulação e à mentira, no mundo globalizado em que vivemos, potenciado pelas redes sociais, que a dita Sociedade da Informação - com as suas Tecnologias da Informação e da Comunicação  (TIC) - nos trouxe!

 

I

Excertos do ensaio «Verdade e Política»

 

“Os factos são a matéria das opiniões, inspiradas por diferentes interesses e diferentes paixões, podem diferir largamente e permanecer legítimas enquanto respeitarem a verdade de facto. A liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os factos não estiver garantida e se não forem os próprios factos o objeto do debate (...).

Mas existirá algum facto independente da opinião e da interpretação? Não demostraram gerações de historiadores e filósofos da história a impossibilidade de constatar factos sem os interpretar, na medida em que têm de começar por ser extraídos de um caos de puros acontecimentos (e os princípios de escolha não são certamente dados de facto), serem em seguida organizados numa história que não pode  não são certamente dados de facto), serem em seguida organizados numa história que não pode ser contada a não ser numa certa perspetiva, que nada tem a ver com o que aconteceu originalmente? Não há dúvida que estas dificuldades e muitas outras ainda, inerentes às ciências históricas, são reais, mas não constituem uma prova contra a existência da matéria factual, tal como não podem servir de justificação para o esbatimento das linhas de demarcação entre entre o facto, a opinião e a interpretação, nem de desculpa ao historiador para manipular os factos a seu bel-prazer. Mesmo se admitirmos que cada geração tem o direito de escrever a sua própria história, recusamo-nos a admitir que cada geração tenha o direito de recompor os factos de harmonia com a sua própria perspetiva; não admitimos o direito de se atentar contra a própria matéria factual. Para ilustrar este ponto e desculparmo-nos por não levar a questão mais longe: nos anos vinte, Clemenceau, pouco antes da sua morte, estava envolvido numa conversa amistosa com um representante da República de Weimar sobre as responsabilidades quanto ao desencadeamento da Primeira Guerra Mundial. Perguntaram a Clemenceau: «Na sua opinião, o que é que os historiadores futuros pensarão deste problema embaraçoso e controverso?» Ele respondeu: «Sobre isso nada sei, mas do que estou certo é que eles não dirão que a Bélgica invadiu a Alemanha» (...)

É verdade que seria necessário muito mais do que os caprichos de um historiador para eliminar da história o facto de que na noite de 4 de agosto de 1914, as tropas alemãs franquearam a fronteira belga; isso exigiria, nada mais, nada menos, do que o monopólio do poder sobre a totalidade do mundo civilizado. Ora um tal monopólio do poder está longe de ser inconcebível, e não é difícil imaginar qual seria o destino da verdade de facto se o interesse do poder, quer seja nacional ou social, tivesse a última palavra em tais questões. O que nos reconduz à nossa suspeita de que possa ser da natureza do domínio político estar em guerra contra a verdade em todas as suas formas, e daí à questão de saber por que é que uma submissão, mesmo em relação à verdade de facto, é sentida como uma atitude antipolítica”.

 

 

II

 

A parábola da Verdade e a Mentira

(Abraham Shapiro)

 

Certa vez, a Mentira e a Verdade se encontraram.

A Mentira disse para a Verdade:

- Bom dia, senhorita Verdade.

Ao ouvir isto, a Verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva e havia pássaros cantando. Ela viu que realmente tratava-se de um bom dia. Então respondeu:

- Bom dia, senhorita Mentira.

E a Mentira prosseguiu:

- Veja como está calor hoje.

Quando a Verdade percebeu que pela segunda vez a Mentira estava certa, relaxou.

Então a Mentira convidou a Verdade para um banho no rio [poço]. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:

- Venha, Verdade, a água está deliciosa.

Assim que a Verdade, sem suspeitar, tirou suas vestes e mergulhou, a Mentira saiu da água, vestiu-se com as roupas da Verdade e foi-se embora.

Ao constatar o que ocorrera, a Verdade, por sua vez, recusou-se a vestir-se com as vestes da Mentira. E por não ter do que se envergonhar, saiu a caminhar pelas ruas e vilas totalmente nua.

E desde então, é por este episódio que, aos olhos de muita gente, é mais fácil aceitar a Mentira vestida de Verdade, do que a Verdade nua e crua.

01
Nov20

Versejando com imagem - Agora que as palavras secaram, de Eduardo Pitta

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AGORA QUE AS PALAVRAS SECARAM

 

viela-dourada4-e1545506521634

Agora que as palavras secaram

e se fez noite

entre nós dois,

agora que ambos sabemos

da irreversibilidade

do tempo perdido,

resta-nos este poema de amor e solidão.

 

No mais é o recalcitrar dos dias,

perseguindo-nos, impiedosos,

com relógios,

pessoas,

paredes demasiado cinzentas,

todas as coisas inevitavelmente

lógicas.

 

Que a nossa nem sequer foi uma história

diferente.

A originalidade estava toda na pólvora

dos obuses, no circunstanciado

afivelar

dos sorrisos à nossa volta

e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

 

Eduardo Pitta,

in “Marcas de Água

Viela

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