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29
Nov20

Versejando com imagem - Zero, de Eduardo Guerra Carneiro

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

ZERO

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Igual a zero a distância ao infinito

Impossível de tocar com nossos braços

 

Valores estranhos aos corpos

ignorados noite e dia

 

Zero a distância

zero o próprio espaço

 

Para quê voltar aos caminhos sem regresso

quando nossas mãos agarram toda a vida?

 

Eduardo Guerra Carneiro

(O perfil da estátua)

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NOTA

Este autor nasceu em Chaves. Para quem não conhece este escritor e jornalista, transcrevemos o que consta da Wikipédia.

 

  Eduardo Guerra Carneiro  (Chaves, 4 de outubro de 1942 — Lisboa, 2 de janeiro de 2004) foi um escritor e jornalista português.

 

Frequentou o curso de História da Faculdade de Letras do Porto.

 

Ainda muito jovem, fez parte, junto com António Cabral, Eurico Figueiredo, José Vasconcelos Viana e Nuno Barreto, entre outros, do movimento “Setentrião” de Vila Real, tendo sido cofundador da revista com o mesmo nome. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1962, O Perfil da Estátua, seguindo-se muitos outros de poesia e de crónicas, tais como: Isto Anda Tudo Ligado (poesia, 1970) É assim que se Faz a História (1973), Damas de Copas (1981), Contra a Corrente (1988), Profissão de Fé (1990), Lixo (1993), Outras Fitas, (1999) e A Noiva das Astúrias (2001). A sua produção literária manifesta-se, inicialmente, no surrealismo e, mais tarde, num lirismo neorromântico.

 

Como jornalista, exerceu, desde o final dos anos 60, a sua profissão em vários órgãos de informação, como o Primeiro de janeiro, Diário Popular, O Século , República, Se7e, entre outros, e em diversos programas de rádio, como “As Noites Longas do FM Estéreo”. Em 1975 foi cooperante na República Popular da Guiné Bissau onde fundou o jornal Nô Pintcha, ainda hoje o periódico de referência daquele país africano.

 

Foi um destacado cultor da crónica jornalística. Distinguido, duas vezes, com o prémio Júlio César Machado que prestigia os melhores textos sobre Lisboa, na imprensa diária.

 

Eduardo Guerra Carneiro está representado em diversas antologias. Traduziu também várias obras literárias para português, como o romance de Edgar Allan Poe Aventuras de Arthur Gordon Pym. Colaborou em várias obras cinematográficas, como “Jogo de Mão” de Monique Rutler, de que foi argumentista. O cantor Vitorino musicou o seu poema “Dama de Copas”, incluído no disco “Flor de la Mar”. Participou como ator no filme “Dina e Django” de Solveig Nordlund.

 

Sobre a sua poesia, escreveu Manuel João Gomes: «poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna, em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões, recordações da terra natal, paisagens, retratos».

Obras

O Perfil da Estátua (poesia, 1962)

Corpo Terra (poesia, 1966)

Algumas Palavras (poesia, 1969)

Isto Anda Tudo Ligado (poesia, 1970)

É Assim Que Se Faz a História (poesia, 1973)

Como Quem Não Quer a Coisa (poesia, 1978)

Dama de Copas (poesia, 1981)

Contra a Corrente (poesia, 1988)

Profissão de Fé (poesia, 1990)

Lixo (poesia, 1993)

O Revólver do Repórter (crónicas, 1994)

Outras Fitas (crónicas, 1999)

A Noiva das Astúrias (poesia, 2001)

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27
Nov20

Versejando com imagem - dois cimbalinos escaldados, de Inês Lourenço

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS

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Não sei, meu amigo, o que

irradiava mais calor, se

a chávena escaldada, se

o cimbalino fervente, se

as conversas sobre livros de poesia

que nesse tempo ainda

acreditávamos ser a maior

razão.

 

Curto, normal, cheio

o cimbalino, esse negro odor

com moldura branca

numa mesa de café, na cidade

onde habitávamos desde sempre.

 

Inês Lourenço,

in 'O Segundo Olhar'

25
Nov20

Versejando com imagem - O melro de visita, de Vasco Graça Moura

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O MELRO DE VISITA

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o amor não é uma saga cruel:

vejo-a cuidar das plantas no jardim,

brincam as filhas com lápis e papel

e eu escrevo sossegado. é bom assim.

 

na relva, um melro a saltitar, vilão

pretíssimo, esfuzia à cata de algum resto,

ou de mosca azarada: passa lesto

entre duas roseiras: já é verão.

 

mas o melro demanda outro quintal

e do poema, sem jeito e sem disfarce,

sai do bico amarelo em diagonal

 

desajeitada: esvoaça sem maneiras

como um pingo de tinta a escapar-se,

de verde prateado, as oliveiras.

 

Vasco Graça Moura

(Porto, 3/1/1942)

23
Nov20

Versejando com imagem - Esta noite não podemos falar, de João Miguel Fernandes Jorge

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

ESTA NOITE NÃO PODEMOS FALAR

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(Paul Klee - Eqauls Infinity, 1932)

Esta noite não podemos falar.

Que poderíamos dizer? Os sinais deste inverno

esta chuva jogo enigmático mobilizando

nossas vidas medos paixões

nossas ações amores nossa morte.

Os arquivos deste ritmo o segredo destas peças

antigas destas regras nossa vida nossa vida

até ao fim da noite como podemos então

nada dizer? Que fazemos nós do outro

se a serenidade não aparece quando queremos

e se queremos este espaço modos

este mortos. Impossível Equals Infinity

Klee 1932.Esta noite não podemos falar.

Na parede o retrato de Rimbaud. Os sinais.

 

João Miguel Fernandes Jorge

21
Nov20

Versejando com imagem - O pássaro da cabeça (versos para crianças), Manuel António Pina

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O PÁSSARO DA CABEÇA (VERSOS PARA CRIANÇAS)

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Sou o pássaro que canta

dentro da tua cabeça

que canta na tua garganta

canta onde lhe apeteça

 

Sou o pássaro que voa

dentro do teu coração

e do de qualquer pessoa

mesmo as que julgas que não

 

Sou o pássaro da imaginação

que voa até na prisão

e canta por tudo e por nada

mesmo com a boca fechada

 

E esta é a canção sem razão

que não serve para mais nada

senão para ser cantada

quando os amigos se vão

 

e ficas de novo sozinho

na solidão que começa

apenas com o passarinho

dentro da tua cabeça.

 

Manuel António Pina

Jon-Evans-Nightingale

19
Nov20

Versejando com imagem - Já estou a ficar velho, de António Franco Alexandre

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

JÁ ESTOU AS FICAR VELHO

depressao

Já estou a ficar velho, ainda que tenha

esta figura fixa sem idade,

e me mantenha em forma o aparelho

a que todos aqui somos sujeitos:

a correria cega, a suspensão elástica,

o salto em trave e trampolim de folhas,

e outras altas artes de ginástica.

Mas eu bem sei sentir além da aparência,

e já me aconteceu, ao visitar o canto

onde o mundo se acaba em chão de areia,

ali ver o meu fim anunciado.

Quando em tranquilo pouso assim medito,

peso, e calculo tudo aquilo

que não fiz, e não tive, e não alcanço

com o rosto extravagante que me deram,

já tudo bem pensado considero

se não devo encontrar algum consolo

na ciência que conduz o feiticeiro,

e acreditar também, como me diz,

que é, esta vida, emaranhada teia

de mal fiado, mal dobado fio,

e a morte tão somente um singular casulo

de onde sairei transfigurado.

Mas não sei de que valha imaginar

um outro ser incólume e perfeito

que da minha substância seja feito

e tome, noutro mundo, o meu lugar;

se me não lembra, como serei eu?

Se for quem sou, ainda que mude a capa,

há-de voltar aqui, onde hoje estou,

viver o mesmo instante, e ver

escapar-lhe das mãos o que me escapa;

veloz embora, e exímio no salto,

o que hoje perco, há-de então perdê-lo,

e faltar-lhe outra vez o que me falta.

 

António Franco Alexandre,

 in 'Aracne'

F1-C051

17
Nov20

Versejando com imagem - Travessia, Joaquim Miguel Magalhães

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TRAVESSIA

roupa estendida ao sol alfama

Por campos cobertos de sulfato

terra podre com barcos atolados

morros esventrados de carvão

chego entre monturos, traves de cimento

aos quintais apinhados de bidões

onde começa a cidade, às calçadas

com as antenas de televisão

as roupas ao vento sobre o cheiro

de comidas, bombazinas, sarjas, terilenes,

acrílicos, pergamóides,

sedas falsas.

O necrotério dos andares

 

Joaquim Miguel Magalhães

 

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15
Nov20

Versejando com imagem - Revolução Orbital, de Manuel Gusmão

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

REVOLUÇÃO ORBITAL

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Revolução orbital: vai-se a rosa transformando

na coisa múltipla, amante e amada, na ação

que assim a faz e nos acidentes mínimos – paisagens,

estações dos dias e das noites, dos anos da história.

Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz

desenham. E a rosa é uma hélice que vibra

no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões,

do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos

que se respondem: como um coração que deflagra

a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces

e o chão sobre que danças.

 

Manuel Gusmão,

in 'Dois sóis, a Rosa – a Arquitetura do Mundo'

13
Nov20

Versejando com imagem - Humidade, de José Henrique dos Santos Barros

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

HUMIDADE

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(Velha bordando - Eccelos - [Óleo em Tela [3x70 cm ]) 

 

O melhor é abrir a porta minha mãe

respirar o cansaço por fora enquanto bordas

borda a borda o barco se parte todo

um mau fogo o abrasa.

 

Nós estamos silenciosos e húmidos.

Escuta a pulsação como doem os pulsos

pulos da infância o respirar da arca

entrar o sol ao fechá-lo dentro

 

José Henrique dos Santos Barros

in 'A Humidade (3)'

11
Nov20

Versejando com imagem - Pernoitas em mim, de Al Berto

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PERNOITAS EM MIM

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pernoitas em mim

e se por acaso te toco a memória... amas

ou finges morrer

 

pressinto o aroma luminoso dos fogos

escuto o rumor da terra molhada

a fala queimada das estrelas

 

é noite ainda

o corpo ausente instala-se vagarosamente

envelheço com a nómada solidão das aves

 

já não possuo a brancura oculta das palavras

e nenhum lume irrompe para beberes

 

Al Berto

(in 'Rumor dos Fogos')

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Pág. 1/2

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