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zassu

30
Out20

Versejando com imagem - Dia do Poeta - Aos poetas, de Miguel Torga

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DIA DO POETA

 

AOS POETAS

20200211_142127

Somos nós

As humanas cigarras.

Nós,

Desde o tempo de Esopo conhecidos...

Nós,

Preguiçosos insetos perseguidos.

 

Somos nós os ridículos comparsas

Da fábula burguesa da formiga.

Nós, a tribo faminta de ciganos

Que se abriga

Ao luar.

Nós, que nunca passamos,

A passar...

 

Somos nós, e só nós podemos ter

Asas sonoras.

Asas que em certas horas

Palpitam.

Asas que morrem, mas que ressuscitam

Da sepultura.

E que da planura

Da seara

Erguem a um campo de maior altura

A mão que só altura semeara.

 

Por isso a vós, Poetas, eu levanto

A taça fraternal deste meu canto,

E bebo em vossa honra o doce vinho

Da amizade e da paz.

Vinho que não é meu,

Mas sim do mosto que a beleza traz.

 

E vos digo e conjuro que canteis.

Que sejais menestréis

Duma gesta de amor universal.

Duma epopeia que não tenha reis,

Mas homens de tamanho natural.

 

Homens de toda a terra sem fronteiras.

De todos os feitios e maneiras,

Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.

Crias de Adão e Eva verdadeiras.

Homens da torre de Babel.

 

Homens do dia-a-dia

Que levantem paredes de ilusão.

Homens de pés no chão,

Que se calcem de sonho e de poesia

Pela graça infantil da vossa mão.

 

Miguel Torga,

in 'Odes'

Nota - Dia 20 do corrente mês, foi Dia do Poeta. Na altura, esquecemo-nos desta efeméride. Não queríamos deixar, contudo, passar o mês, lembrando um dos nossos poetas maiores, nascido neste Reino Maravilhoso, do nosso Portugal.

30
Out20

Versejando com imagem - Dia do Poeta - Aos poetas, de Miguel Torga

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DIA DO POETA

 

AOS POETAS

20200211_142127

Somos nós

As humanas cigarras.

Nós,

Desde o tempo de Esopo conhecidos...

Nós,

Preguiçosos insetos perseguidos.

 

Somos nós os ridículos comparsas

Da fábula burguesa da formiga.

Nós, a tribo faminta de ciganos

Que se abriga

Ao luar.

Nós, que nunca passamos,

A passar...

 

Somos nós, e só nós podemos ter

Asas sonoras.

Asas que em certas horas

Palpitam.

Asas que morrem, mas que ressuscitam

Da sepultura.

E que da planura

Da seara

Erguem a um campo de maior altura

A mão que só altura semeara.

 

Por isso a vós, Poetas, eu levanto

A taça fraternal deste meu canto,

E bebo em vossa honra o doce vinho

Da amizade e da paz.

Vinho que não é meu,

Mas sim do mosto que a beleza traz.

 

E vos digo e conjuro que canteis.

Que sejais menestréis

Duma gesta de amor universal.

Duma epopeia que não tenha reis,

Mas homens de tamanho natural.

 

Homens de toda a terra sem fronteiras.

De todos os feitios e maneiras,

Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.

Crias de Adão e Eva verdadeiras.

Homens da torre de Babel.

 

Homens do dia-a-dia

Que levantem paredes de ilusão.

Homens de pés no chão,

Que se calcem de sonho e de poesia

Pela graça infantil da vossa mão.

 

Miguel Torga,

in 'Odes'

Nota - Dia 20 do corrente mês, foi Dia do Poeta. Na altura, esquecemo-nos desta efeméride. Não queríamos deixar, contudo, passar o mês, lembrando um dos nossos poetas maiores, nascido neste Reino Maravilhoso, do nosso Portugal.

28
Out20

Versejando com imagem - Escrevias pela noite fora, Hélder Moura Pereira

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

ESCREVIAS PELA NOITE FORA

20141223205151-book1

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava

o que ia ficando nas pausas entre cada

sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,

faz de conta que não sei as coisas que não queres

que saiba, acabei por te pensar com crianças

à volta. Agora há prédios onde havia

laranjeiras e romãs no chão e as palavras

nem o sabem dizer, apenas apontam a rua

que foi comum, o quarto estreito. Um livro

é suficiente neste passeio. Quando não escreves

estás a ler e ao lado das árvores o silêncio

é maior. Decerto te digo o que penso

baixando a cabeça e tu respondes sempre

com a cabeça inclinada e o fumo suspenso

no ar. As verdades nunca se disseram. Queria

prender-te, tornar a perder-te, achar-te

assim por acaso no meu dia livre a meio

da semana. Mantêm-se as causas iguais

das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina

dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono

custa. Porque estou contigo e me deixas

a tua imagem passa pelas noites sem sono,

está aqui a cadeira em que te sentaste

a escrever lendo. Pudesse eu propor-te

vida menos igual, outras iguais obrigações.

Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

 

Hélder Moura Pereira, 

De Novo as Sombras e as Calmas,

Lisboa: Contexto, 1990.

in «Poemário»

26
Out20

Versejando com imagem - Visão dezasseis, de Jaime Rocha

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VISÃO DEZASSEIS

palavras1

Deixando nele marcas como se estivesse dentro

de um círculo de fogo. Ou como um assassino

emparedado na cal a quem lançassem musgo

até à morte. Há ali um espaço solto, o sítio onde

os pássaros devoram os peixes. E uma zona escura

com um manto redondo tapando a luz, uma espécie

de cegueira em cujo centro existe um castanheiro

e uma caixa vazia. Um papel voa, desliza junto

a um muro e é daí que a música se espalha presa a

um fio de cobre. É nesse momento que a imagem

dela se forma e se despedaça. O seu corpo

é agora o vento.

 

Jaime Rocha,

in 'Os Que Vão Morrer'

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24
Out20

Versejando com imagem - Princípios, Nuno Júdice

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

PRINCÍPIOS

 

verão-mitologia-1024x915

Podíamos saber um pouco mais

da morte. Mas não seria isso que nos faria

ter vontade de morrer mais

depressa.

 

Podíamos saber um pouco mais

da vida. Talvez não precisássemos de viver

tanto, quando só o que é preciso é saber

que temos de viver.

 

Podíamos saber um pouco mais

do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar

de amar ao saber exatamente o que é o amor, ou

amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada

sabemos do amor.

 

Nuno Júdice

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22
Out20

Versejando com imagem - Retórica da paisagem, Fernando Guerreiro

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

RETÓRICA DA PAISAGEM

Pássaros

O que se pede da poesia? Que nos entretenha os olhos

com as rendas sulfurosas de um doentio crepúsculo?

Com efeito, no poema, as palavras não nos servem

de cestos em que se recolham - dilatados, quase

a cair das árvores - os frutos. E, contudo, continuamos

a confundir os caminhos do poema com os do mundo

quando eles, na natureza, apenas nos apontam

a incerteza do destino. As palavras repetem-se -

frutos atirados sobre a mesa - e a morte,

para quem não acredita no poder de transfiguração

das metáforas, esgota da vida todo o sentido.

Diz-se: os ramos não crescem no quadro,

os pássaros deixam de assolar a paisagem -

e o pensamento, ao refletir-se, deixa a tela

pejada dos restos em que se perdeu pelo

horizonte. Mas todo o conhecimento

acaba no ponto em que o voo se

confunde com a linha acidentada da planície.

 

Fernando Guerreiro,

in 'Teoria da Literatura'

20
Out20

Versejando com imagem - O Poema, de Helga Moreira

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O POEMA

original

Sempre acontece sempre

em repetição nada serena

faço e desfaço um pouco

em lixo e roteiro o poema

 

que te envio. A ti primeiro.

Depois aquela parte

que não digo por pudor.

Isto é arte, apenas arte

 

apenas ódio, ou amor?

Já não distingo – ao que se chega!

um verso maior de um menor

 

alguns perfeitos. Que pena!

diz-me a voz interior

rasgo-os, levo-os à cena?

 

Helga Moreira

 (Quadrazais, Guarda, 29 /04/1950)

18
Out20

Versejando com imagem - Na praia, Luís Filipe Castro Mendes

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NUMA PRAIA

fotos-na-praia-ideias-e-exemplos-para-por-em-pratica-11

Em cada corpo recomeça o mundo,

mas onde então acaba este começo?

Amor não sabe mais o que é profundo,

vem da pele e respira só no verso.

 

Passamos a toalha pelo corpo,

com o suor a enxugar a morte:

há gotas de água fria no teu rosto,

em ti meus dedos leem sua sorte.

 

Um riso nos chamou, fulgor ou seta,

e o dia se refez sem mais promessa.

Nos meus dedos ficou a ferida aberta:

só no teu corpo o mundo recomeça.

 

Luís Filipe Castro Mendes

16
Out20

Versejando com imagem - Serenata à chuva, de Rosa Alice Branco

VERSEJANDO COM IMAGEM 

 

SERENATA À CHUVA

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Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.

Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela

abraçados caminham sob o teto

do guarda-chuva que os guarda.

Pelas ruas vão com a vontade de voltar

ao branco dos lençóis. Esse objeto prosaico

que às vezes se vira com o vento

torna-se objeto de poema. Dizer também

como a chuva é doce neste dia de verão.

Como o amor altera o sentido da chuva,

sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam

ao vestido. No interior da pele o poema mudou

desde que entraste no guarda-chuva esquecido

a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar

sem exceção. Eu que nunca uso guarda-chuva

assino incondicionalmente este poema.

 

Rosa Alice Branco,

in 'Soletrar o Dia'

14
Out20

Versejando com imagem - Dia de Aguaceiros, de Carlos Poças Falcão

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DIA DE AGUACEIROS

aguaceiros

Dia de aguaceiros. Sei que os jardins

não são os de Academos. Mas vou pelos passeios

entre a escrita das chuvadas no saibro e a discreta

disposição do Logos na murta dos canteiros.

 

Dia de amentilhos, gravetos, muros verdes:

as alamedas param e os cedros repousam

a terra tão porosa que facilmente encanta

- e eu cedo e levo ao chão a mão inteira, a medo.

 

Retiro-a manchada por um líquen de areia.

Aprendo por contacto que o Verbo nos irmana

baixando intelecções a corpos indefesos.

E um século à volta abre guarda-chuvas negros.

 

Carlos Poças Falcão,

 in 'A Nuvem'

Pág. 1/2

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