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zassu

06
Set20

Versejando com imagem - Realidade, Luís Quintais

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

REALIDADE

20200118_154255

Olho para a realidade desprovida de silêncios.

As coisas são o que são. Porém, há que ter em conta

a gravidade que as prende à terra.

 

Os signos são os poucos recados que a vida pouca nos traz.

São o muito desta vida

onde árvores se perfilam nas avenidas, e nas avenidas

 

o frágil contraponto de domingo se passeia

atento à soalheira chegada de famílias-à-beira-Tejo

alheias à semana que aí vem, onde cada um por si,

 

e a desrazão por todos,

irá colher as incertezas do amanhã.

Dos sentidos todos o que resta são olhos fechados,

tato de treva onde a realidade acaba

como um promontório sobre o Outono: onde começo

a contar as folhas, a memória da sua queda, a avisada música.

 

 Luís Quintais

04
Set20

Versejando com imagem - Iniciação ao remorso, Jorge Melícias

VERSEJANDO COM IMAGEM 

 

INICIAÇÃO AO REMORSO

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Há os que vêm de longe, trazendo nas mãos

e nas pálpebras o mar exilado.

À porta descalçam as sandálias

gastas de inventariar o pó,

e antes que entrem na casa do poema

coroam-se de silêncio e silvas.

Percorrem depois longamente as paredes

fechando janelas onde não existem,

e rente à cegueira vão recolhendo as aves

que tropeçam na luz dos dedos.

Grandes rios negros atravessam a noite e os pulsos,

e as palavras doem nas unhas como espinhos acesos.

E há os outros, os que rondaram desde sempre

a casa sem se atreverem a entrar.

Falo dos que percorrem a lâmina do poema

medindo a eternidade pela distância

que vai dos lábios ao nome.

Dos que bebem as árvores entornadas nas palavras,

e esperam que dos gestos caiam os últimos deuses

destronados pelo rasgar dos frutos.

Falo dos que vêm do lado da loucura

e trazem na boca os olhos

com que quiseram acender todos os fogos.

Dos que viajam a cinza e o assombro,

demorando-se em tudo o que mais ninguém tropeça.

 

Jorge Melícias

02
Set20

Versejando com imagem - Nunca gostei de portas, José Miguel Silva

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NUNCA GOSTEI DE PORTAS

28.- 2020.- Lubián 01 (115)

Eu nunca gostei de portas, sempre as vi como

um grosseiro despotismo. Não percebia por

que razão davam passagem a uns e outros não.

Rebelei-me contra elas, tornei-me arrombador.

Decidido a contestar os seus desígnios, passei

os melhores anos da minha juventude a estudar

o idioma das fechaduras. Aos poucos, alcancei

uma secreta mestria: nenhuma resistia à sedução

dos meus arames. As portas franqueadas, e não

o que atrás delas se defende, procurava. Poucas

vezes roubei. Esta alegria me bastava - introduzir

desordem na composta segurança duma casa.

Agora que penso nisso, acho que havia algo

de bárbaro nessa minha obsessão por destruir

a ilusória placidez das fortalezas, os escudos

da propriedade, da suficiência. Porta atrás

de porta, a minha vida passou. Até chegar aqui,

a este lugar indistinto. Também nele há uma porta.

Não me seria difícil arrombá-la. Não fosse dar-se

o caso (e esse é o castigo da minha soberba)

de não saber se estou no céu ou no inferno.

 

 

José Miguel Silva,

in Erros Individuais, ed. Relógio D' Água

Pág. 2/2

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