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zassu

30
Set20

Versejando com imagem - Vieste como um barco carregado de vento, de Maria do Rosário Pedreira

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO

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Vieste como um barco carregado de vento, abrindo

feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa

que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste

o tempo de iludires a arquitetura fria do estaleiro

 

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,

se partiste,

que dentro de mim se acanham as certezas e

tu vais sempre ardendo, embora como um lume

de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

 

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar

o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;

e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:

o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,

exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam

no cais como se transportassem no corpo o vaivém

dos barcos. Dizem-me os seus passos

 

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam

sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei

que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde

para quase tudo. Por isso, vou para casa

 

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

 

Maria do Rosário Pedreira, 

O Canto do Vento nos Ciprestes

26
Set20

Versejando com imagem - Não gosto, de Adília Lopes

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NÃO GOSTO

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 tanto de livros

como Mallarmé

parece que gostava

eu não sou um livro

e quando me dizem

gosto muito dos seus livros

gostava de poder dizer

como o poeta Cesariny

olha

eu gostava

é que tu gostasses de mim

os livros não são feitos

de carne e osso

e quando tenho

vontade de chorar

abrir um livro

não me chega

preciso de um abraço

mas graças a Deus

o mundo não é um livro

e o acaso não existe

no entanto gosto muito

de livros

e acredito na Ressurreição

de livros

e acredito que no Céu

haja bibliotecas

e se possa ler e escrever

 

Adília Lopes

 

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24
Set20

Versejando com imagem - O brilho de teus olhos, de Daniel Maia-Pinto Rodrigues

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O BRILHO DOS TEUS OLHOS

 

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I

Decerto que já te falei da contemporaneidade
e mesmo do brilho dos teus olhos.

Hoje talvez estivesse mais inclinado
exatamente
a falar do brilho dos teus olhos

na vulgar distância
entre o teu queixo e os teus seios
no traço oscilante e perfumado das clavículas
na claridade envergonhada das omoplatas.

II

Da contemporaneidade tu já sabes o que penso
agora talvez comesse qualquer coisa.

Perdão, querida, tens anchovas no armário?
vês!? com alcaparra... it's wonderful!
vinho, meu amor vinho pelas gargantas de veludo.

III

Não adormeças logo agora
que eu estava mais fluente e disposto
a falar-te, ainda que de novo, na contemporaneidade

ou não adormeça eu
logo agora
que o teu cabelo se encosta
à suavidade das almofada
animando o amor do Donald e da Daisy
que, entretanto, já transpuseram
a barreira lisa do pano e do desenho
e se encaminham já para o quarto ao lado.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues,

 in 'O Valete do Sétimo Naipe'

20
Set20

Versejando com imagem - Fronteira, Fernando Pinto do Amaral

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

FRONTEIRA

Eu-fui-a-Veneza-

É doce

a tentação do labirinto

assim que o sono chega e se propaga

ao contorno das coisas. mal as sinto

quando confundo a onda sempre vaga

 

deste falso cansaço que regressa

ao som da minha estranha e dócil fala

cada vez mais submersa como essa

pequena luz da rua que resvala

 

pelo interior da noite. É quase um sonho

A respirar lá fora enquanto o quarto

se dilui na fronteira que transponho

e afoga a consciência de onde parto

 

agora sem direito nem avesso

no incerto momento em que adormeço.

 

 

Fernando Pinto do Amaral

 

18
Set20

Versejando com imagem - As crianças adoecem no inverno, Francisco José Viegas

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

AS CRIANÇAS ADOECEM NO INVERNO

 

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As crianças adoecem no Inverno,
tossem de noite,
morres por elas nesses momentos
em que precisam de ti.

Vigias o seu sono,
entregas o teu, despertas com facilidade,
olhas uma a uma as horas que passam
como se todas as crianças nascessem no Inverno.



Francisco José Viegas,

in ' O Puro e o Impuro'

 

16
Set20

Versejando com imagem - Os amantes de Pompeia, de Paulo Teixeira

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OS AMANTES DE POMPEIA

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Eles conheceram-se neste abraço

em que levam tanto tempo,

embalados na cadência,

 

de uma canção desconhecida

e no mover das mãos que hesitam

entre o animal e a planta.

 

O tempo privou-os de vida

mas não um do outro, tangíveis

nos membros onde o desejo

 

lateja ainda,

gestos como medusas esvaindo-se

no sangue em que se fundiram para sempre.

 

Geraram esta outra placenta

com a urgência de quem sabe

que bebe em cada trago despedida:

 

lenta colheita da alma

que palidamente assoma

em cada poro,

 

subtil, alada, como pluma

que sem ser vista

se solta.

 

Neste abraço que os reteve até à sufocação,

depois que se abateram o céu e o horizonte,

o mundo foi-lhes langor

 

e memória acesa;

petrificados, mortos,

estão diante do nosso olhar,

 

na posição aflita em que os une,

mais que o esterno e a pelve,

o duplo receio da imortalidade.

 

Paulo Teixeira, in «Orbe»

14
Set20

Versejando com imagem - Contagem decrescente, Jorge Gomes Miranda

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CONTAGEM DECRESCENTE

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Acompanhas a passagem de mais um ano

com humor negro

e juras de mudança de vida.

 

A teu lado os amigos

comprometem-se – pelo menos esta noite –

a não deixar que diante de ti se abra

um abismo de sujeições.

 

Mas pouco a pouco

distrai-os a contagem decrescente,

um fogo-de-artifício

no céu televisionado.

 

Habituaste-te

a acertar as horas

pelo rumor de uma estrela,

acendendo cigarro atrás de cigarro,

 

embora às vezes ainda esperes

Qualquer recompensa

do tempo inamovível.

 

 

Jorge Gomes Miranda, 2003

12
Set20

Versejando com imagem - A infância de Herberto Hélder, José Tolentino Mendonça

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A INFÂNCIA DE HERBERTO HELDER

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No princípio era a ilha

embora se diga

o Espírito de Deus

abraçava as águas

 

Nesse tempo

estendia-me na terra

para olhar as estrelas

e não pensava

que esses corpos de fogo

pudessem ser perigosos

 

Nesse tempo

marcava a latitude das estrelas

ordenando berlindes

sobre a erva

 

Não sabia que todo o poema

é um tumulto

que pode abalar

a ordem do universo agora

acredito

 

Eu era quase um anjo

escrevi relatórios

precisos

acerca do silêncio

 

Nesse tempo

ainda era possível

encontrar Deus

pelos baldios

Isso foi antes

de aprender a álgebra

 

José Tolentino Mendonça

 

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Herberto Hélder

 

 

10
Set20

Versejando com imagem - Deceção à regra, João Luís Barreto Guimarães

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DECEÇÃO À REGRA

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Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum, mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

 

João Luís Barreto Guimarães

08
Set20

Versejando com imagem - Morangos - Rui Pires Cabral

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

MORANGOS

Morangos+Praia

No começo do amor, quando as cidades

nos eram desconhecidas, de que nos serviria

a certeza da morte se podíamos correr

de ponta a ponta a veia elétrica da noite

e acabar na praia a comer morangos

ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

 

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,

como pudemos pensar que seria assim

para sempre? Ou que a música e o desejo

nos conduziriam de estação em estação

até ao pleno futuro que julgávamos

 

merecer? Afinal, o futuro era isto.

Não estamos mais sábios, não temos

melhores razões. Na viagem necessária

para o escuro, o amor é um passageiro

ocasional e difícil. E a partir de certa altura

todas as cidades se parecem.

 

Rui Pires Cabral,

in 'Longe da Aldeia'

 

Pág. 1/2

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