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zassu

31
Ago20

Versejando com imagem - Sabes, leitor, Daniel Faria

 

VERTSEJANDO COM IMAGEM

 

SABES, LEITOR

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Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página

e aproveito o facto de teres chegado agora

para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.

a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar

que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito acredita,

que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,

que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre

apesar de nós.

esta raiz para a palavra que ela lançou no poema

pode bem significar que no ramo que ficar desse lado

a flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,

mesmo que a recuses

nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,

a colherei

a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra

e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.

 

Daniel Faria,

in «Dos Líquidos», (2000)

 

 

29
Ago20

Versejando com imagem - Brincávamos a cair nos braços um do outro, Valter Hugo Mãe

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

BRINCÁVAMOS A CAIR NOS BRAÇOS UM DO OUTRO

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brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade

valter hugo mãe, in 'contabilidade'

27
Ago20

Versejando com imagem - Há nomes que ficam, Pedro Mexia

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

HÁ NOMES QUE FICAM (*)

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Há nomes que ficam, sem préstimo, nas agendas,
transitam de ano para ano por inerência
ou desleixo, por vezes o nome próprio
é uma referência obscura, e nunca houve apelido.
Os números, em poucos anos,
passam de mnemónicas a criptogramas,
indicam sem dúvida que nos cruzámos
com gente que se cruza connosco,
que trocámos telefones como se
trocássemos alguma coisa,
mas tudo muda, os conhecidos
tornam-se amigos e depois desconhecidos.
Estes nomes, posso riscá-los
como se fosse velho e eles mortos,
mas os números, como uma praga,
acumulam-se, escritos
com tintas diferentes
e por vezes nas letras erradas.
Não posso desfazer-me das agendas
nem começar uma todos os anos,
mas já não sou o mesmo:
os números observaram as minhas idades
e talvez pudesse agora marcar este
que não me diz nada
e contar tudo
a alguém que não se lembra de mim.
 
 

 


Pedro Mexia, in «Duplo Império»

(*) Do blog «Poemário - WordPress.com»

25
Ago20

Versejando com imagem - Crepúsculo de Agosto, Albano Dias Martins

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CREPÚSCULO DE AGOSTO

 

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Para a minha filha

Dos amigos que perdi

não falo. Sei

que estamos em agosto, mês

dos remos escaldantes, sei

que há lodo sob as algas,

sob a pele. Oblíqua,

sei também, a sombra

cai sobre as oliveiras. É

tempo de içares

tuas velas, teus ergueres

teus guindastes

junto ao rio.

Disponíveis estão

as luzes; preparadas,

ermas estão as águas.

 

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir

os móveis e o tato.

Preciso de opor o tempo ao tempo.

O espaço ao espaço.

 

Albano Dias Martins

23
Ago20

Versejando com imagem - Virgens que passais, António Nobre

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

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Virgens

que passais, ao Sol-poente,

Pelas estradas ermas, a cantar!

Eu quero ouvir uma canção ardente,

Que me transporte ao meu perdido lar.

 

Cantai-me, nessa voz omnipotente,

O sol que tomba, aureolando o Mar

A fartura da seara reluzente,

O vinho, a graça, a formosura, o luar!

 

Cantai! Cantai as límpidas cantigas!

Das ruínas do meu lar desaterrai

Todas aquelas ilusões antigas

 

Que eu vi morrer num sonho, como um ai....

Ó suaves e frescas raparigas,

adormecei-me nessa voz...cantai!

 

António Nobre

21
Ago20

Versejando com imagem - Crepuscular, Camilo Pessanha

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

CREPUSCULAR

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Há no ambiente um murmúrio de queixume,

De desejos de amor, dais comprimidos...

Uma ternura esparsa de balidos,

Sente-se esmorecer como um perfume.

 

As madressilvas murcham nos silvados

E o aroma que exalam pelo espaço,

Tem delíquios de gozo e de cansaço,

Nervosos, femininos, delicados.

 

Sentem-se espasmos, agonias dave,

Inapreensíveis, mínimas, serenas...

--- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,

O meu olhar no teu olhar suave.

 

As tuas mãos tão brancas danemia...

Os teus olhos tão meigos de tristeza...

--- É este enlanguescer da natureza,

Este vago sofrer do fim do dia.

 

Camilo Pessanha

19
Ago20

Versejando com imagem - Se me deixares, eu digo, António Botto

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

SE ME DEIXARES, EU DIGO

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Se me deixares, eu digo

O contrário a toda a gente;

E, n'este mundo de enganos,

Fala verdade quem mente.

Tu dizes que a minha boca

Já não acorda desejos,

Já não aquece outra boca,

Já não merece os teus beijos;

Mas, tem cuidado comigo,

Não procures ser ausente:

- Se me deixares, eu digo

O contrário a toda a gente.

 

António Botto, in 'Canções'

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