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zassu

09
Jun20

Poesia em tempos de desassossego - Sobre o poema, Herberto Helder

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

SOBRE O POEMA

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Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as órbitas, a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

 

— Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

 

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

 

Herberto Hélder

05
Jun20

Poesia em termpos de desassossego - Pedro Só, Fernando Assis Pacheco

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

PEDRO SÓ

 

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Passaram anos e anos

sobre esta roda da vida,

farinha que foi moída,

vai-se a ver, são desenganos

 

Atou-me a sorte este nó,

cobriu-me com estes panos.

Ao peso dos meus enganos

sai a farinha da mó.

 

Na palma da mão estendida

leio um caminho de pó

lembranças do homem só

São as andanças da vida

 

Foram dias, foram anos,

foi uma sorte moída,

vida que tenho vivida,

(vai-se a ver são desenganos)

 

Foram dias, foram anos,

for a sorte apodrecida.

Dentro da roda da vida

sinto roer os fusanos

 

Lembranças da minha vida

perdem-se em nuvens de pó.

Bem me chamam Pedro Só,

(nome de roda partida).

 Fernando Assis Pacheco

398709

  • Este poema tem uma música de Manuel Jorge Veloso, cantada por Manuel Freire

  • e filme - Pedro Só -, de Alfredo Tropa, 1970.
03
Jun20

Poesia em tempos de desassossego - Encontro, Almada Negreiros

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

ENCONTRO

9348177

Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá para o futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas

torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.

 

 

Almada Negreiros

01
Jun20

Dia Mundial da Criança - A Bailarina, Cecília Meireles

 

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

À ALICE

A BAILARINA

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Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá

Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

 

Cecília Meireles

01
Jun20

Poesia em tempos de desassossego - Comigo me desavim, Sá de Miranda

 

POESIA EM TEMPOS DE DESASSOSSEGO

 

COMIGO ME DESAVIM

 

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Comigo me desavim,

Sou posto em todo perigo;

Não posso viver comigo

Nem posso fugir de mim.

 

Com dor da gente fugia,

Antes que esta assi crecesse:

Agora já fugiria

De mim, se de mim pudesse.

Que meo espero ou que fim

Do vão trabalho que sigo,

Pois que trago a mim comigo

Tamanho imigo de mim?

 

Sá de Miranda, in 'Antologia Poética'

Pág. 2/2

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