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zassu

23
Fev20

Versejando com imagem - Da terra..., José António Silva

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DA TERRA…

20200211_143505

 

 Da terra, das raízes, do suor salgado do rosto

Do labor de mãos nodosas e sedentas da jornada

Vem o prémio generoso e gárrulo que é o mosto

Tinto e alegre ardor da alma libertada.

 

As palavras, fáceis, escorregam aos bagos,

Inchadas de sumo e espuma de laço

Ressumam, dançantes, de todos os tragos

E trazem no casco o calor de um abraço.

 

Ergam os copos em pâmpanos gestos

Para brindar a dádiva desta natureza

De duros granitos e aráveis modestos.

 

Riqueza arrancada à terra todo o ano

Que no jarro enfeita a alva mesa

De todo e qualquer lar transmontano.

Da terra..., José António da Silva

José António Silva, Professor

20200211_141840

22
Fev20

Versejando com imagem - Não só vinho, Ricardo Reis

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

NÃO SÓ VINHO

20200211_141351

Não só vinho, mas nele o olvido, deito

Na taça: serei ledo, porque a dita

É ignara. Quem, lembrando

Ou prevendo, sorrira?

Dos brutos, não a vida, senão a alma,

Consigamos, pensando; recolhidos

No impalpável destino

Que não ‘spera nem lembra.

Com mão mortal elevo à mortal boca

Em frágil taça o passageiro vinho,

Baços os olhos feitos

Para deixar de ver.

Não só o vinho, Ricardo Reis

13-6-1926

Ricardo Reis, in "Odes"

Heterónimo de Fernando Pessoa

20200211_141939

Casa do Vinho, Valpaços - (Trás-os-Montes)-Norte de Portugal

17
Fev20

Versejando com imagem - Tu Sentado à tua mesa, Sophia de Mello Breyner Andresen

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TU SENTADO À TUA MESA

20200211_141402

 

Tu sentado à tua mesa

Bebes vinho comes pão

Quem é que plantou a vinha?

Quem é que semeia o grão?

 

Lá no socalco da serra

Anda a cavar teu irmão

Debruçado sobre a terra

P'ra que tenhas vinho e pão

 

Para além daquela serra

P'ra que tenhas vinho e pão

Abrindo o corpo da terra

Dobra o corpo o teu irmão

 

Sua mão concha do cacho

sua mão concha do grão

Em cada gesto que faz

Põe a vida em comunhão.

 

Tu sentado... e Sophia de M. B. Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen, de "Poemas Dispersos"

in "Obra Poética",  da "CAMINHO" 2010.

20200211_141818

Casa do Vinho, Valpaços - Norte de Portugal

16
Fev20

Versejando com imagem - A amendoeira do cômoro, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

A AMENDOEIRA DO CÔMORO

 

2020.- Alfandega da Fé (253)

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos, irmã, vamos ao campo:

Doce é o perfume

que entra, com sol, em nossa casa.

 

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos colher duas pétalas

das mais belas,

                               das mais brancas,

e pô-las no regaço da brisa.

A brisa tem palavras de bondade

e irá ter

                com uns lábios roxos,

uma alma triste,

e levará um pouco de beleza.

 

A amendoeira do cômoro floriu.

Vamos, irmã, vamos ao campo.

Naquele altar de flores

rezaremos a Deus.

 

António Cabral

in Poemas Durienses

 

2020.- Alfandega da Fé (264)

14
Fev20

Ao Acaso... Uma retificação e um pequeno apontamento a propósito da memória de Miguel Torga em Chaves

 

AO ACASO…

 

UMA RETIFICAÇÃO E UM PEQUENO APONTAMENTO

A PROPÓSITO DA MEMÓRIA DE MIGUEL TORGA EM CHAVES

 

20200214_114418

No dia 5 do corrente mês, sob esta mesma rubrica, e com o título «Onde para a memória do ‘nosso’ Miguel Torga em Chaves?», a certa altura dizíamos que “nós, flavienses, e responsáveis autarcas, fomos, até ao momento, incapazes de, com dignidade, na nossa terra, perpetuar a memória deste Grande Homem Transmontano, amigo de Chaves e das suas gentes!”.

 

Pedimos desculpa pela nossa imprecisão!

 

Acontece que, hoje, no passeio matinal, que habitualmente fazemos pelas margens urbanas do Tâmega na nossa cidade, Ao Acaso… vendo aqueles dois corações com cadeados apostos no relvado das Termas, e lembrando-nos que hoje é Dia de Namorados – embora não liguemos muito à importada efeméride – na espectativa de encontrar ali hoje algo de novo, «embicamos» e fomos ver aquela «escultura», mais em pormenor.

 

Continuamos a defender, como já o fizemos noutro local e num outro nosso blogue, que se trata de uma «obra» de gosto duvidoso. E depois do que, mais em pormenor, vimos hoje, mais convencido ficámos.

 

Tem cor vermelha, quando talvez devesse ser rosa, embora não mandada fazer pelos partidários de cor rosa ou vermelha. Condiziria melhor o laranja.

 

Mas… como dizíamos, olhando a «obra», mais em pormenor, verificámos que, colada ao plinto, onde os corações dos namorados se procuram enlaçar, vimos uma placa com o seguinte soneto:

 

AMOR

A jovem deusa passa

Com véus discretos sobre a virgindade;

Olha e não olha, como a mocidade;

E um jovem deus pressente aquela graça.

 

Depois, a vide do desejo enlaça

Numa só volta a dupla divindade;

E os jovens deuses abrem-se à verdade,

Sedentos de beber na mesma taça.

 

É um vinho amargo que lhes cresta a boca;

Um condão vago que os desperta e toca

De humana e dolorosa consciência.

 

E abraçam-se de novo, já sem asas.

Homens apenas. Vivos como brasas,

A queimar o que resta da inocência.

 

Para nosso espanto, o poema de quem era?

 

De Miguel Torga. Da sua obra «Libertação».

 

Aqui fica, assim, a retificação e as nossas desculpas pela imprecisão do post do passado dia 5.

 

Contudo, e pelo que vimos hoje em pormenor, mais se enraizou em nós o que pensamos quanto àquela «obra».

 

É, positivamente, pouco adequada à memória que, na nossa terra, deveríamos preservar do nosso escritor maior, transmontano.

 

Esta «obra», na nossa modesta opinião, é mesmo pindérica, face à grandeza do homem que se pretende homenagear com a sua escrita!

20200214_114359

(A placa e o soneto aposto no plinto)

12
Fev20

Palavras Soltas - Autêntico e genuíno

 

PALAVRAS SOLTAS

 

AUTÊNTICO E GENUÍNO

 


Se não for verdadeiro para comigo mesmo,
malograr-se-á o sentimento da minha vida
e fracassarei naquilo que para mim
significa ser humano.

 

Charles Taylor,

in «A Ética da Autenticidade»

 


Tinha, há pouco mais de hora e meia, pegado, pela segunda vez, na leitura da «A Ética da Autenticidade», de Charles Taylor.

E acabava de repisar sobre este parágrafo:


O que precisamos de explicar é o que é peculiar ao nosso tempo. Não se trata apenas de que as pessoas sacrifiquem pela carreira as suas relações sentimentais e a atenção aos filhos. Talvez sempre se tenha passado algo semelhante. A questão é que hoje em dia muitas pessoas se sentem chamadas a fazê-lo, sentem que devem fazê-lo, sentem que as suas vidas seriam de algum modo desperdiçadas ou não realizadas se não o fizessem”.

 

E a notícia, numa pequena pausa, enquanto nos púnhamos em contacto com as redes sociais, nomeadamente o Facebook, caiu-nos abrupta, inesperada e brutal – João Geraldes, aos 66 anos, acabava de nos privar com a sua presença e convivência pessoal!

 

Sinceramente não sabíamos do seu estado de saúde!

 

Já há duas boas dezenas de anos que não convivíamos profissional e pessoalmente. Apenas esporadicamente nos cruzámos e nos encontrávamos um com o outro.

 

E víamos sempre nele aquela postura apaziguadora, calma, gentil e afável.

 

Tal como sempre aconteceu quando, desempenhando funções autárquicas na Câmara Municipal de Chaves, nos encontrávamos para tratar de assuntos de carácter técnico, relacionados com os projetos e ações que a Câmara pretendia levar a cabo, e, na qual, o Eng. João Geraldes, desempenhava as funções de Chefe de Divisão.

 

Foi sempre, positivamente, um verdadeiro chefe e um profissional competente. Sério.

 

Nunca foi qualquer obstáculo ao nosso relacionamento pessoal e profissional, quer eventuais posicionamentos ideológicos, quer político-partidários. Nossa relação nunca se pautou por esses parâmetros, quer um, como eleito; quer outro, como funcionário. Apenas o desenvolvimento das terras e das populações a quem servíamos era o que nos norteava.

 

Ao contrário das palavras acima citadas de Charles Taylor, a sua vida e realização profissional – a sua carreira – não contendeu com as suas relações sentimentais e atenção às filhas e netos.

 

Apesar do apelo ou chamada dos tempos que correm em por a carreira profissional à sua frente, o Eng. Geraldes soube estabelecer um correto equilíbrio entre carreira e vida familiar.

 

Ficava particularmente sensibilizado com as manifestações de carinho que, nas redes sociais, manifestava para com seus netos.

 

E o amor que, passados 47 anos de relacionamento, manifestava a sua esposa. Por isso, não resistimos a citar as suas últimas públicas palavras, que deixava a sua mulher, em forma de poema:


Meu amor, o importante é o sorriso
Para seguir viagem
Com a coragem, que é preciso...

Não adianta, deitar contas a vida
A ternura dos sessenta
Não tem conta, nem medida!

 

Cremos que o Eng. Geraldes, como homem e ser humano, nos seus ainda curtos 66 anos de existência, não fracassou.

 

A atestá-lo aqui fica o seu rasgado sorriso, quando é beijado por um dos seus netos.

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João Geraldes foi, manifestamente, um ser humano autêntico e verdadeiramente genuíno.

 

Obrigado, João Geraldes, por este legado ou lição de vida que nos deixaste do teu viver.

 

Até sempre!

 

António de Souza e Silva

 

 

11
Fev20

Versejando com imagem - Vindima, Miguel Torga

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

VINDIMA

 

20200211_141746

 

Mosto, descantes e um rumor de passos

Na terra recalcada dos vinhedos.

Um fermentar de forças e cansaços

Em altas confidências e segredos.

 

Laivos de sangue nos poentes baços.

Doçura quente em corações azedos.

E, sobretudo, pés, olhos e braços

Alegres como peças de brinquedos.

 

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe

A medida precisa que lhe cabe

No tempo, na alegria e na tristeza.

 

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.

Ergue-se em cheio a taça

À própria confusão da natureza.

 

 

Miguel Torga, In “O outro livro de Job”

20200211_141908

Na «Casa do Vinho», Valpaços-Norte de Portugal

09
Fev20

Versejando com imagem - O Pinhão, António Cabral

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O PINHÃO

 

2019.- ADV - I (58)

 

Lá em baixo, na curva do rio,

vazadouro e fornalha, está o Pinhão.

 

Belo!, belo- dirá o turista.

E o burocrata: progressivo.

 

Mas o Pinhão não é nada disso,

é mais do que isso, não é nada

 

do que mostram os documentários de cinema

ou qualquer “Life” comercial.

 

Pinhão!, capital do suor, os teus caminhos

são pedaços de sangue coagulado.

 

António Cabral, In Poemas Durienses

05
Fev20

Ao Acaso... Onde pára a memória do «nosso» Miguel Torga em Chaves?

 

AO ACASO…

 

ONDE PARA A MEMÓRIA DO «NOSSO» MIGEUL TORGA EM CHAVES?

 

Grafiti - Destino, Miguel Torga

 

Já vai para mais de dois anos que, periodicamente, com os nossos amigos da fotografia – Fernando, Berto e João – temos vindo a percorrer todos os cantinhos (andanhos) do nosso Barroso.

 

Não há, por aquelas bandas, nenhuma terra, por onde Miguel Torga tenha passado, que o nosso poeta maior tenha, sobre ela, escrito as suas memórias e comentários nos seus Diários.

 

Como forma de reconhecimento, não só pelos comentários como pelo apreço que o homem Adolfo Rocha tinha pelas suas terras, os seus responsáveis institucionais não quiseram deixar em branco as palavras e comentários que Miguel Torga teceu sobre elas e suas gentes. E esculpiram, nos mais diversos suportes, as suas palavras, textos ou mensagens. Nomeadamente, no caso de Boticas, a sua estátua está bem destacada no centro da vila.

 

A maioria dos flavienses sabem que Miguel Torga, andarilho como era, não deixou um palmo do nosso Trás-os-Montes por percorrer e, não raras vezes, calcorrear a pé. Chaves, o seu concelho e as terras da «nossa» fronteira não foram exceção.

 

Particularmente, nos últimos dias da sua vida, religiosamente aportava a Chaves para, nas suas Caldas, vir tratar das maleitas de que padecia.

 

Lembramo-nos ainda duma célebre tarde de setembro, nos idos de 90 do século passado, quando autarca, juntamente com o Presidente da Câmara, fomos ter com ele ao recinto das Caldas para estar um pouco com ele e desejar-lhe as boas vindas.

 

E recordamo-nos bem dos conselhos que nos deu quanto ao serviço da causa pública e à postura ética que deveríamos ter como responsáveis políticos pelos desígnios da nossa terra: servir e nunca ser servido.

 

Miguel Torga, para além de um grande poeta/escritor, era um homem bom. Um Grande Homem. Fiel às suas raízes. Amante do seu país. Comungando a fundo a cultura Ibérica da qual ele, aliás, foi buscar, para constituir o seu nome literário, o nome de dois grandes vultos da nossa Ibéria Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno.

 

Já se passaram, há bem pouco, 25 anos da sua morte. Como o tempo passa!

 

E nós, flavienses, e responsáveis autarcas, fomos, até ao momento, incapazes de, com dignidade, na nossa terra, perpetuar a memória deste Grande Homem Transmontano, amigo de Chaves e das suas gentes!

 

Habitualmente fazemos o percurso pedestre ao longo das margens urbanas do Tâmega na nossa cidade.

 

Ao Acaso…, um dia destes, numa das estruturas da represa a seguir às «poldras», num grafite, nele aposto,  fomos encontrar este pequeno texto:

20200118_152144

Trata-se, naturalmente, de um escrito de, provavelmente, um flaviense anónimo que não se esqueceu das palavras e mensagem de Torga…

 

É certo que o que Miguel Torga escreveu não foi exatamente o que ali está escrito. Segundo a sua Antologia Poética, in Fernão de Magalhães, Lisboa: D. Quixote, 1999  – mais um grande transmontano desaparecido prematuramente – o texto exato é o seguinte:

Destino, Miguel Torga

Quando teremos coragem, nós, flavienses, de fazer perpetuar a memória deste Grande Transmontano na(s) nossa(s) terra(s) e/ou cidade?

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