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zassu

29
Mar18

Poesia e Arte 78

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

JUÍZO FINAL

 

Longos dias de vida sem motivo.

As contas do rosário

Gastas de tantas rezas repetidas.

Preces vãs a deidades sonolentas,

Desatentas

A queixas de antemão desiludidas.

 

 

Sol ainda nos longes da memória

A redoirar as sebes dos caminhos

De criancice e ninhos

E arriscas lagartixas mutiladas.

E versos desde sempre, obsessivos

E sedativos

Como pensos em chagas gangrenadas.

 

Coimbra, 16 de Agosto de 1993

Afresco, O Juízo Final D' Michelangelo Buonarroti

 (Afresco, O Juízo Final D' Michelangelo Buonarroti - Capela Sistina, Palácio Apostólico, Cidade do Vaticano)

26
Mar18

Poesia e Fotografia 618

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

ARMADILHA

 

Vivo preso nas malhas dos meus sonhos

Desfeitos,

A lembrá-los.

E, quanto mais esbracejo,

Mais me enredo na trança

Da ratoeira.

É que todos eram a maneira

Airosa

De me salvar.

E nenhum consegui realizar,

Nem consigo esquecer.

Virados do avesso, são agora

Uma negra masmorra

De condenado.

Até onde não pude!

Até onde não sou!

A que alturas celestes quis subir!

A que lonjuras ir!

E não subi, nem fui, nem certamente vou.

 

Coimbra, 20 de Junho de 1993

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25
Mar18

Poesia e Fotografia 617

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

PRENDA DE ANIVERSÁRIO

 

É o que ficou.

A lembrança perene

Do que fomos, sentimos e pudemos

No tempo intemporal da juventude.

Ilusões de energia e de saúde

Em cada gesto que já não fazemos,

Mas apetecemos.

É o vazio de nós

Cheio de nós.

As indeléveis pegadas que deixamos

Nos líricos caminhos percorridos

Invisíveis à vista desarmada.

É o que ficou. O calor memorado

Da fogueira apagada.

Todos os Orientes da imaginação,

Visitados,

Presentes no arroz quotidiano

Comido destramente

Com triviais tridentes

Ocidentais.

É o que ficou e ficará, Mulher.

A cinza destes versos invernais

De amor e de tristeza,

É íntima certeza

De que é tudo verdade

O que de nós disser

A mudez da saudade.

 

Coimbra, 3 de Março de 1993

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24
Mar18

Poesia e Arte 77

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

ABSOLVIÇÃO

 

Incendeiam-me ainda os beijos que me não deste

E cegam-me os acenos que me não fizeste

Da janela irreal onde o teu vulto

Era uma alucinação dos meus sentidos.

Mas, decorrida a vida, e o oculto

Nestes versos doridos,

A saber que não sabes que te amei

E cantei,

E nem mesmo imaginas quem eu sou

E como é solitária e dói a minha humanidade,

Em vez de te acusar

E me culpar,

Maldigo o arbítrio da fatalidade

Que cruelmente nos desencontrou.

 

Coimbra, 11 de Dezembro de 1992

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 (Salvador Dali - Mulher na janela em Figueres)

23
Mar18

Poesia e Arte 76

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

CONFIDENCIAL

 

Não me perguntes, porque nada sei

Da vida,

Nem do amor,

Nem de Deus,

Nem da morte.

Vivo,

Amo,

Acredito sem crer,

E morro, antecipadamente

Ressuscitado.

O resto são palavras

Que decorei

De tanto as ouvir.

E a palavra

É o orgulho do silêncio envergonhado.

Num tempo de ponteiros, agendado,

Sem nada perguntar,

Vê, sem tempo, o que vês

Acontecer.

E na minha mudez

Aprende a adivinhar

O que de mim não possas entender.

 

Coimbra, 17 de Setembro de 1992

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22
Mar18

Poesia e Fotografia 616

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

SOLIDÃO

 

Pouco a pouco, vamos ficando sós,

Esquecidos ou lembrados

Como nomes de ruas secundárias

Que a custo recordamos

Para subscritar

A urgência de um beijo epistolar

Ainda inutilmente apetecido.

Mortos sem ter morrido,

Lúcidos defuntos,

Vemos a vida pertencer aos outros.

E descobrimos, na maneira deles,

Que nada somos

Para além do seu dissimulado

Enfado

Paciente.

E que lá fora, diariamente,

Conforme arde no céu,

O sol aquece

Ou arrefece

Os versáteis e alheios sentimentos.

E que fomos riscados

No rol da humanidade

A que já não pertencemos

De maneira nenhuma.

E que tudo em que nós era claridade

Se transformou em bruma.

 

Coimbra, 20 de Julho de 1992

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21
Mar18

Poesia e Fotografia 615

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

MEA CULPA

 

Vida!

Como eu te quero

Agora que te sei perdida!

Foste a minha riqueza

Desbaratada.

Em vez de te poupar,

Gastei-te sem saber o que fazia.

E não vivi.

Morri

Em cada hora cega que vivia.

 

 

São assim os humanos.

Temos quando não temos.

Quando já não podemos

Subir onde subimos

E onde nunca estivemos.

 

 

Triste, já nem aos deuses

Peço remissão

Do nefando pecado

De, em tantos anos de duração,

Ter durado

A ignorar em mim o meu condão

De milagre encarnado.

 

Coimbra, 7 de Junho de 1992

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20
Mar18

Poesia e Fotografia 614

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

CATEQUESE

 

Reza comigo, se te queres salvar.

Deus é pura poesia,

E o poema uma humilde petição

No templo sacrossanto da eternidade.

Reza comigo, a ler-me e a memorar

Os versos que mais possam alargar

O teu entendimento

De ti, do mundo e do negro inferno

De cada hora.

Purificada neles, terás centão

No coração

A paz aliviada que te falta agora.

 

Coimbra, 15 de Abril de 1992

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19
Mar18

Poesia e Fotografia 613

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

ECLIPSE

 

Pela primeira vez

Não vieste ao poema,

Sol do eterno retorno

Da inspiração.

E foi esta prosaica desolação

Num quarto de hospital

A ouvir versos profanos

Na lembrança.

Pobre dessa fiança

Tutelar,

Sem te poder louvar

Devidamente,

Menino Jesus eternamente

Oculto e manifesto,

Aqui lavro o protesto

De poeta traído

Que descrê

Da própria vocação,

Perdida a graça da iluminação

De quem sonha o que vê.

 

Coimbra, 24 de Dezembro de 1991

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18
Mar18

Poesia e Fotografia 612

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

EVASÃO

 

De luz estas horas clandestinas

E vagabundas,

Roubadas à razão e à lógica dois outros.

O sol ergue-se nelas com fulgor

Dobrado.

Não há sombras no largo descampado

Onde se esconda a alma envergonhada.

Pura, campeia, íntima e liberta,

Contente

Do ensejo gratuito da aventura.

Viver é ser no tempo intemporal.

É nunca, a ser o mesmo, ser igual.

É encontrar quando nada se procura.

 

Chaves, 6 de Setembro de 1991

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