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zassu

28
Fev18

Poesia e Arte 72

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

 

À NOITE


Musa cega, de versos luminosos
Cantados a Morfeu, deus sem memória,
No teu regaço, a glória
Dos poetas
Dura o que dura o sonho,
O transe inconsciente.
E tanto penitente
Sonha a eternidade
Na claridade
Astral
Dum poema perfeito,
Que se desmente
Desfeito
Em névoa
Logo de madrugada,
Quando a alma, acordada,
Sem mais inspiração,
Se mortifica em vão,
Só de bruma lembrada!


Coimbra, 16 de Janeiro de 1989

 

 

Isis e Morfeu - Pierre-Narcisse Guérin, 1811.jpg

 (Isis e Morfeu - Pierre-Narcisse Guérin, 1811)

27
Fev18

Poesia e Fotografia 597

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

PERENIDADE


Se eu não fosse poeta,
O dia de hoje seria apenas
Segunda-feira.
Igual a tantos outros,
De trabalho, de pressa e de canseira
E apagado nas horas.
Assim foi singular.
Ocioso,
Moroso
E repousado,
E teve
A duração num verso demorado.
Dez sílabas que agora
O amanhecem
E anoitecem
No meu ouvido,
Depois de acontecido.


Coimbra, 6 de Janeiro de 1989

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26
Fev18

Poesia e Fotografia 596

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

NATAL


Menino Jesus feliz
Que não creceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti.


Coimbra, 24 de Dezembro de 1988

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25
Fev18

Poesia e Fotografia 595

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

DESALENTO


Hora má,
Sem poesia.
Vazia
Como um sono pesado.
A voz não diz,
O ouvido não ouve.
E à tona do silêncio
Ondula, morta,
uma folha outonal.
A vida é triste
Se consiste
Apenas
Neste chouto animal
De passadas pequenas
No chão habitual.


Coimbra, 20 de Novembro de 1988

folha ao vento3.jpg

24
Fev18

Poesia e Fotografia 594

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

INFORMAÇÃO


Cumpriu-se a profecia:
Na data adivinhada,
O poeta nascia
E seria
Uma humana heresia
Desmascarada.


E nem sequer morreu, quando morreu.
Deixou versos a perpetuar
O escândalo universal
Da sua vil presença intemporal
No mundo.
E quem até ao fundo
Os lê
Peca por consciente conivência
Ou incauta inocência.


Coimbra, 26 de Setembro de 1988

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23
Fev18

Poesia e Fotografia 593

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

POENTE


Morre o sol nos confins do teu olhar.
Assim acaba o dia.
Numa discreta melancolia,
Os retolhos desmaiam na planura.
Cansados.
Os arados
descansam.
E há um aceno de fuga e de aventura
Nos largos horizontes que se alcançam.


Mairos, Chaves, 8 de Setembro de 1988

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22
Fev18

Poesia e Fotografia 592

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

QUEIXA


Vida!
Que te pedi a mais
Que um mortal mereça?
Ou queres que nenhum filho
Coneça
A plenitude?
Pude
O que me consentiste.
Mas vou triste
Do mundo.
Cavei,
Cavei,
E abri um poço sem chegar ao fundo.


Coimbra, 22 de Agosto de 1988

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21
Fev18

Poesia e Arte 71

 

POESIA E ARTE 

 

POEMAS NOS DIARIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

OFERENDA


Cumpro o que prometi:
Dou-te o melhor que tenho, versos.
Não queiras mais.
O resto
É o lastro reles da minha humanidade.
As doenças do corpo,
As misérias da alma
E o medo da morte,
Sujas negruras de que me envergonho.
Tudo, porém, é limpo e luminoso
Quando o sol radioso
Da poesia
Me visita.
E são esses instantes que deponho
No teu altar.
Instantes em que sonho
Que és a deusa capaz de me salvar.


Coimbra, 10 de Julho de 1988

Mahou Tatsu Ryu-abril 2015.jpg

 (Mahou Tatsu Ryu-abril 2015)

20
Fev18

Poesia e Fotografia 591

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DEE MIGUEL TORGA

 

 

ENIGMA


Guarda.
Guarda o segredo
Do meu amor.
Que nem por sombras possam suspeitar
Que todos os poemas que escrevi
Os soubeste primeiro.
Que fiz da tua imagem
A imagem do mundo.
E que nunca te vi ao natural,
Musa irreal,
Mulher incewrta da minha certeza,
Bela como a beleza.


Coimbra, 15 de Junho de 1988

2018.- Laza - Gran Folión (338).jpg

19
Fev18

Poesia e Fotografia 590

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

AMOR


Enches a noite e o sonho.
E, quando abre o dia,
Um freco orvalho de melancolia
Humedece a memória.
Dorme quem esquece a vida
longas horas,
E não sabe que moras
Neste mundo e em todos os momentos,
E acorda vazio
E recomeça
com pressa
A caminhada,
Sem nunca te encontrar,
Sem nunca te lembrar.


Coimbra, 3 de Junho de 1988

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