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zassu

10
Jan18

Poesia e Fotografia 554

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

D. DINIS


Dorme na tua glória, grande rei
Poeta!
Não acordes agora.
A hora
Não te merece.
A pátria continua,
Mas não parece
A mesma que te viu a majestade.
Dorme na eternidade
Paciente
De quem num areal
Semeou um futuro Portugal,
Confiado na graça da semente.


Lisboa, Mosteiro de Odivelas, 21 de Novembro de 1984

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09
Jan18

Poesia e Fotografia 553

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

RECATO


Lê.
Mas decifra,
Com razão
E o coração,
Versos que nem eu quero que o pareçam,
De tão negros que são.
Todo o poema é um teste
Que põe à prova a inquietação
De quem nele se aventura.
Este
Que te proponho a horas mortas,
E é um tronco de tortura
Penitente,
Abre-te cautamente
As portas
De uma pungente
Dor envergonhada,
Assim veladamente
Soluçada.


Coimbra, 17 de Novembro de 1984

inkpenhand.jpg

08
Jan18

Poesia e Fotografia 552

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

IDENTIFICAÇÃO


É debaixo do chão que me procuro.
Que fundura atingiu cada raiz?
Andei sempre seguro
À terra original
Ou levitei na vida?
O que disse, o que fiz,
Que força umbilical,
Obedecida,
O quis?


Nada que eu tenha sido
Tem sentido
Se ouvi, passiva,
A voz activa
Da condição.
Se, por abstracção,
Me esqueci que sou todo
Feito de lodo
Como Adão.


Coimbra, 28 de Outubro de 1984

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07
Jan18

Poesia e Fotografia 551

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIUOS DE MIGUEL TORGA

 

 

AUSÊNCIA


Desertaram do largo e dos meus olhos
As pombas que na hora de lirismo
Urbano
Eram neles a metáfora feliz.
Uma estátua de bronze, onde pousavam
E se amavam,
Lê não sei o que diz
Um decreto apagado no metal.
Com a sua preguiça habitual,
O rio vai correndo
Para o poente.
E sinto, angustiado,
o coração bater descompassado
Nos versos que a tristeza me consente.


Coimbra, 17 de Outubro de 1984

8713807.jpg

06
Jan18

Poesia e Fotografia 550

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

SINTONIA


Tarde triste.
É o outono doente que começa.
Cada folha parece que tem pressa
De morrer.
Madura e fatigada, a natureza,
Roída por não sei que súbita incerteza,
Até nos frutos quer apodrecer.


E há um desalento igual dentro de mim.
Uma renúncia assim
Calada e conformada.
Perdi o gosto verde de cantar.
A emoção vem à tona e degenera,
Infecunda, a negar
As muitas flores que dei na primavera.


S. Martinho de Anta, 23 de Setembro de 1984

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05
Jan18

Poesia e Fotografia 549

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

EPITÁFIO


Na terra dos meus versos,
Onde estão sepultados,
Sejam nesta memória memorados
Meus pais e meus avós
Pela voz
Que me deram
Para cantar
Os sonhos que tiveram
Todos os que viveram
Sem saber que viviam de os sonhar.


S. Martinho de Anta, 18 de Setembro de 1984

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04
Jan18

Poesia e Fotografia 548

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

AMPULHETA


Que tempo é o teu,
Que medes
Com princípio e fim?
O meu
Já antes era
E depois continua…
Rio barrento
De sofrimento,
Nasce onde desagua.


Chaves, 3 de Setembro de 1984

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03
Jan18

Poesia e Fotografia 547

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

MAR MATINAL


Toda a noite o rumor da tua voz
Dorida
Rolou nos meus ouvidos de poeta.
Toda a noite a indiscreta
Luz do meu pensamento
Varou em vão
A negra escuridão
Desse baço e salgado sofrimento.
E quando amanheceu
E a vida renasceu,
Eras um verso azul a ondular ao vento.

 


S. Pedro de Muel, 22 de Agosto de 1984

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02
Jan18

Poesia e Fotografia 546

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

IMPRECAÇÃO


A tristeza das horas recordadas!
Agonias ressuscitadas,
Venturas já sem gostos nos sentidos…
Ah, maldição dos velhos, recolhidos
No asilo dormente do passado,
Onde não há presente, nem futuro,
Nem consciência de que existe um muro
A dividir o tempo descampado!

 


Coimbra, 10 de Agosto de 1984

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01
Jan18

Poesia e Fotografia 545

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ACORDE


Mais um domingo inútil no calendário.
A não ser que um poema o torne necessário
À cósmica harmonia.
O gorjeio dum pássaro na paisagem
Parada
Torna-lhe a imagem
Animada
Nos olhos de quem ouve a melodia.

 


Coimbra, 29 de Julho de 1984

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