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zassu

20
Jan18

Poesia e Fotografia 564

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

OCEANO


Poema sem sossego e sem remate,
Harpejo horizontal do coração do mundo,
Há quantos anos já que te recito
Obsessivamente,
A medir cada verso
Em cada onda!
E nunca te entendi!
És um mistério cósmico e sagrado.
Um mistério que logo pressenti
Quando pela primeira vez te vi,
Maravilhado,
A marginar um
Portugal sonhado,
Tão perto e tão distante,
Sempre no mesmo instante
Morto e ressuscitado.


S. Pedro de Moel, 22 de Agosto de 1985

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19
Jan18

Poesia e Fotografia 563

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

FRUSTRAÇÃO


Tarde serena, com versos maduros
A reluzir na rama dos sentidos.
Tento colher os mais apetecidos,
Mas não chego a nenhum.
Anão nas horas cruciais da vida,
Em que o triunfo exige outra medida,
Deixo fugir das mãos os sonhos um a um.


Coimbra, 14 de Julho de 1985

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18
Jan18

Poesia e Fotografia 562

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

 

GLÓRIA


Depois do inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.


S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1985

CPIS - 2ª etapa (Verín-Viladerrei) (142).jpg

17
Jan18

Poesia e Fotografia 561

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

SURDINA


Não há musas aqui.
Há sombras tutelares
A que vivo obrigado
E devotado,
E me inspiram também.
Mas tão contidamente
Que o meu canto
É sempre como um salmo murmurado
Num altar.
Assim breve e embargado
Para não perturbar
No presente o silêncio do passado.


S. Martinho de Anta, 6 de Abril de 1985

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16
Jan18

Poesia e Fotografia 560

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

CODICILO


Acrescento
Que não fui feliz
Neste grato papel
De rouxinol humano,
Ano após ano,
Sem sossego e medida,
A cantar
Ao luar
Na árvore da vida.


Coimbra, 23 de Março de 1985

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15
Jan18

Poesia e Fotografia 559

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

NOCTURNO


Sim, fomos muito felizes.
Unimo-nos despidos
Como no paraíso Adão e Eva.
Não, não havia serpente.
Sorria simplesmente
A natureza,
Contente
Da inteligência das paixões terrenas.
No mais, tudo se consumou secretamente.
Nem Deus nos viu, porque eu sonhava apenas.


Coimbra, 17 de Fevereiro de 1985

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14
Jan18

Poesia e Fotografia 558

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

EXERCÍCIO ESPIRITUAL


Horas finais da vida,
Quantas, é que não sei.
Mas, as que forem, sejam de poesia.
Nimbadas pela graça
Do claro entendimento
E da pura emoção.
Horas de exaltação
Serena.
De tal modo pensadas e sentidas
Que, depois de vividas,
Nada mais valha a pena.


Coimbra, 11 de Fevereiro de 1985

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13
Jan18

Poesia e Fotografia 557

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

ÍMPETO


No cais deserto onde embarquei outrora,
Sonho agora
Outra aventura igual.
Fui Portugal
Na minha meninice.
Quem diz que já não posso
Rezar um padre-nosso
E partir em seu nome na velhice?


Lisboa, 17 de Janeiro de 1985

Miguel-Torga-escritor.jpg

12
Jan18

Poesia e Fotografia 556

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA 

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

MACERAÇÃO


Breves dias da vida.
Aprendi neles apenas a morrer.
Desde a manhã brumosa da partida
A este anoitecer
Sombrio da chegada,
Foi sempre o pesadelo de antever
O desfecho fatal da caminhada.


E pergunto a que vim
Assim
Clarividente.
Perdido e consciente
Da minha perdição,
Contra o instinto da conservação
A durar no meu corpo eternamente.


Coimbra, 2 de Janeiro de 1985

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11
Jan18

Poesia e Fotografia 555

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

CLANDESTINIDADE


Horas noturnas de libertação.
Todos os carcereiros na prisão
Do sono.
Dono
Dos sentimentos,
Do instinto
E da razão,
Sonho,
Penso,
Imagino.
Faço o pino
Deitado.
E às vezes é-me dado
Neste desatino,
Por invisíveis mãos
A que nem sequer posso agradecer,
Um poema obscuro
Que de manhã, à luz do sol, procuro
Claramente entender.


Coimbra, 15 de Dezembro de 1984

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