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zassu

20
Nov17

Poesia e Fotografia 519

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MELANCOLIA


Longamente esperei.
Nenhum encontro estava combinado.
Era apenas fiado
Na intuição do amor
Que confiava.
Afinal, não vieste.
E adivinho o motivo:
O lume da velhice não aquece.
Arde e parece
Vivo,
Mas arrefece.


Coimbra, 10 de Junho de 1980

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19
Nov17

Poesia e Arte 58

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LÁPIDE


Luís Vaz de Camões.
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A Pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura
Deu-lhe a vida
Perdida.
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.


Coimbra, 11 de Janeiro de 1980

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18
Nov17

Poesia e Arte 57

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NATIVIDADE


Nascer e renascer…
Ser homem quantas vezes for preciso.
E em todas colher,
No paraíso,
A mação proibida.
A comê-la, a saber
Que o castigo é perder
A inocência da vida.


Nascer e renascer…
Renovar sem descanso a condição.
Mas sem deixar de ser
O mesmo Adão
Impenitentemente natural,
Possuído da íntima certeza
De que não há pecado original
Que não seja o sinal doutra pureza.


Coimbra, 24 de Dezembro de 1979

The_Fall_of_Man-1616-Hendrik_Goltzius.jpg

(Hendrik Goltzius,1616 - The Fall of Man)

17
Nov17

Poesia e Fotografia 518

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

UM POEMA

 

Não tenhas medo, ouve:
É um poema.
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…

 

Coimbra, 7 de Outubro de 1979

tristezadeamor-21564-1.jpg

16
Nov17

Poesia e Fotografia 517

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 ECO


Desatei o nó cego do silêncio
E ouvi a minha voz.
Tão velha, tão cansada!
Como pode ser ela, assim tão desfigurada,
A que um dia se ergueu um desafio
E cantou a revolta,
A liberdade
E o amor?!
Grande senhor
Fantasioso,
O tempo dá e tira.
Afina
E desafina
A lira
Dos poetas.
E quando se aproxima
A barca de Caronte,
Num último capricho de os negar,
Reduz a fonte
À sede de a lembrar

São Martinho de Anta, 25 de Agosto de 1979

lira-23-cordas-em-nylon-mini-harpa-D_NQ_NP_13845-M

15
Nov17

Poesia e Fotografia 516

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PURIFICAÇÃO


Não é propositado o meu silêncio.
São as próprias palavras que não querem
Dizer nada de mim.
Cansaram-se do uso
E do abuso
Que fiz delas
A vida inteira.
Prostituídas na minha voz,
Que o tempo corrompeu,
Mentirosas nas horas mais sinceras,
Regressaram de novo à virgindade
Que lhe roubei.
E aguardam servir outra humanidade
Que começa por onde comecei.


Coimbra, 28 de Julho de 1979

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14
Nov17

Poesia e Arte 56

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

UM POEMA DE AMOR


É um poema de amor.
Começa num sorriso promissor
E acaba num soluço
De saudade.
Entre essas duas margens,
Um rio de silêncio.
Um rio largo, onde se espelha, baça,
A paisagem severa de uma vida,
A que faltou a graça
Dessa remota hora repetida.


Coimbra, 15 de Maio de 1979

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13
Nov17

Poesia e Fotografia 515

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ROGO


Não, não rezes por mim,
Nenhum deus me perdoa a humanidade.
Vim sem vontade
E vou desesperado.
Mas assinei a vida que vivi.
Doeu-me o que sofri.
Fui sempre o senhorio do meu fado.


Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação.
De quem sabe que nunca ressuscita.


Coimbra, 16 de Abril de 1979

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12
Nov17

Poesia e Fotografia 514

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LAVOURA


Lanço os versos à terra.
A lua é boa e o suor honrado.
E no chão semeado
Ergo uma negra cruz da minha altura.
Cruz tosca e sibilina
Que esconjura
E assina…


S. Martinho de Anta, 10 de Abril de 1979

semeando o futuro.jpg

11
Nov17

Poesia e Fotografia 513

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PERFIL


Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.


Coimbra, 2 de Março de 1979

PICT0002.JPG

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