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zassu

30
Nov17

Poesia e Arte 62

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

A S. FRANCISCO DE ASSIS

 


Louvado sejas, meu irmão poeta,
Pela beleza excelsa do teu canto,
O mais singelo,
Singular
E santo
De quantos se entoaram neste mundo.
Louvado sejas pelo profundo
Sentimento de paz
Que nele nos dás,
Cego a exaltar o sol,
Podre a exaltar a vida,
E até rendido aos pés da própria morte,
Nessa nocturna irmã sem caridade.
E louvado também pela humildade
Tutelar
Da tua inspiração,
Que soube, humanamente, ser do chão,
Mesmo erguida nas asas e a voar…


Coimbra, 12 de Agosto de 1981

oracao-de-sao-francisco-de-assis.jpg

29
Nov17

Poesia e Fotografia 525

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

REMEMORAÇÃO


Sim, a vida não presta.
Mas foi bonita a festa
Da mocidade.
O corpo são, a alma sã, e todos os sentidos
Na sua virgindade
Castamente despidos.

Lembrá-lo, agora, dá não sei que paz.
Esta paz medular
De já ter sido,
E ter sido capaz
De uma hora solar
Gravada a fogo no tempo perdido.


Coimbra, 14 de Maio de 1981

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28
Nov17

Poesia e Fotografia 524

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SONAMBULISMO


Não me perguntem pela alma, agora,
Que não sei responder.
Mesmo o poema tem de ser sucinto.
Nestes dias assim,
Baços, horizontais,
Em que a terra é de cinza e o céu de fumo,
Ou a vida me mente,
Ou eu lhe minto.
Sofro como que ausente
Da própria dor que sinto.


Coimbra, 8 de Abril de 1981

a0134769075_10.jpg

27
Nov17

Poesia e Arte 61

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LUTA


O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.

Nada conquisto, porque são moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato
E desbarato
As próprias ilusões.


Coimbra, 11 de Março de 1981

dom-quixote.jpg

26
Nov17

Poesia e Fotografia 523

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DEPOIMENTO


De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.


A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
A mais funda sentia
A dor de me perder.


Coimbra, 15 de Fevereiro de 1981

The_Wall_from_the_south.jpg

25
Nov17

Poesia e Arte 60

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

EURIDÍCE


Vem pela mão de Orfeu.
Vem, através dos tempos
E da morte,
Realizar, enfim,
O seu noivado eterno.
Do negro inferno
Do esquecimento,
Vem, casta e feminina,
Oculta no seu próprio encantamento.
Vem só em pensamento.
Ele é que a imagina.


Coimbra, 11 de Novembro de 1980

Orpheus_and_Eurydice_by_Peter_Paul_Rubens.jpg

(Orfeu e Eurydice - Peter Paul Rubens)

24
Nov17

Poesia e Fotografia 522

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

QUIETUDE


Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira.


S. Martinho de Anta, 7 de Setembro de 1980

2017.- Barroso (Boticas-Fuji) (69).jpg

23
Nov17

Poesia e Fotografia 521

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ATLANTES


Teve de se afundar um continente
Para que um dos seus cumes,
Magicamente emerso,
Fosse por nós achado,
Loucos descobridores
De terras que faltavam
Na imaginação.
Povoámo-lo, então,
Da nossa portuguesa
Vitalidade,
A renovar presenças do passado.
E agora, alcandorados
Nesta gávea de pedra,
A navegar parados,
Perguntamos ao mar
E aos pontos cardeais
Se seremos gigantes encantados
Em homens naturais.


Cabo Girão, 30 de Agosto de 1980

maxresdefault0.jpg

22
Nov17

Poesia e Fotografia 520

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ENCOMENDAÇÃO


Alma penada
Condenada
À vida,
Não paro de viver.
Sempre a acender
A luz interrompida,
Perturbo o sono de quem dorme ao lado.
Dia e noite acordado
E ofegante,
Lavro como um arado
Obstinado
Os pousios do tempo circunstante.


E, fora de sazão
E de razão,
Sem ouvir os gemidos
Dos sentidos,
Semeio e reverdeço a terra desolada
Da minha solidão.
Canto com emoção
Desencantada
Versos serôdios que a geada cresta.
Versos sem voz futura,
Mas que são, nesta hora de amargura,
A única certeza que me resta.


Coimbra, 16 de Agosto de 1980

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21
Nov17

Poesia e Arte 59

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DEE MIGUEL TORGA

 

REGISTO


Canto agora em surdina.
Se ergo a voz, desafino.
Em vão me desentranho e obstino:
Erro os versos agudos do poema.
Grave a alma só sabe articular
Graves sons murmurados,
Prelúdios de silêncio dedilhados
Num alaúde lasso.
Soluços soluçados
A compasso…


Coimbra, 30 de Julho de 1980

Michelangelo_Merisi_da_Caravaggio_-_Lute_Player_-_

(Michelangelo Merisi da Caravaggio - Lute Player)

 

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