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zassu

21
Ago17

Poesia e Arte 53

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PIETÀ


O Cristo agora és tu, José de Arimateia
Figurado.
És tu, crucificado
Na cruz pesada doutro penitente.
És ele, velho e doente,
Envolto no burel
Da eterna solidão,
A sopesar, cansado,
O corpo amortalhado
Da divina e humana perfeição.


Florença, 5 de Setembro de 1970

Pietà de Florença, de Miguel Ângelo.jpg

 (Pietà de Florença, de Miguel Ângelo)

20
Ago17

Poesia e Fotografia 435

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LAMENTO


Não vos poder levar, fragas doiradas,
E acrescentar às minhas!
Igualmente mesquinhas
Que ficassem
As asas do poeta que cantava,
Era, no entanto,
Já diversa a pedreira onde cortava
Os versos do seu canto...


Cortina d’Ampezzo, 2 de Setembro de 1970

08271613.JPG

19
Ago17

Poesia e Fotografia 434

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

RENO


Doiro feliz da Europa
Turvado de carvão e poesia,
A correr sem cachões
Num lírico cenário sem mortórios,
A que mar de harmonia
Leva as pulsações
De tantos corações
Contraditórios?


Colónia, 27 de Agosto de 1970

dsc_0100.jpg

18
Ago17

Poesia e Fotografia 433

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS DOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SEMELHANÇA

 

Quero que te pareças no poema.
Plena de juventude em cada verso
E pura em cada imagem.
Transcrita tal e qual
Na tua humanidade,
Toda de claridade matinal.


Por isso é que lavei as mãos e coração,
Limpei a pena,
Aguardei, paciente,
Que a inspiração viesse,
E dou, agora,
Compenetradamente a esta hora
Um sentido de prece.


Fica, pois, como és,
Branca de corpo e alma,
Sem apagar nos olhos
A luz adolescente.
Eva, antes da tentação...
Longe ainda do Adão,
E ainda mais longe da serpente...


Coimbra, 20 de Agosto de 1970

FB_IMG_1482878950912.jpg

17
Ago17

Poesia e Fotografia 432

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

BRASIL


Brasil onde vivi, Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!


Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar. Perder-te mais. Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.


Dois pólos de atração no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.


Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço Repartido!
Antes o desespero naufragasse
Entre o chão encontrado e o chão perdido.


Coimbra, 16 de Junho de 1970

minas-gerais-2.jpg

16
Ago17

Poesia e Fotografia 431

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DESCOBERTA


O tempo que levou a tua imagem
A encontrar nos meus olhos a medida
Dum íntimo destino,
Mar que juntas a pátria repartida
E lhe salgas o nome masculino!


A bordo, 22 de Março de 1970

1341324_39621325.jpg

15
Ago17

Poesia e Fotografia 430

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ÓPTICA


Azul de mar, negro de lava e cal.
Tintas ao natural
De um arco-íris denso e resumido,
Pintado no silêncio recolhido
Deste outro Portugal
Nos meus olhos agora amanhecido.


A bordo, ao romper do dia, entre o Pico e o Faial, 18 de Março de 1970

rainbow-1467988_960_720.jpg

14
Ago17

Poesia e Fotografia 429

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AUTO-RETRATO PORTUGUÊS


Nesga humana dum grande mapa humano,
Aqui, a ocidente e ao sol, dormito;
O manto do infinito
Veste-me a pequenez;
E o mar cerúleo, aberto à minha ilharga,
Alarga
O meu nirvana azul de português.


Rei que renunciou, cansado,
Ao ceptro da aflição,
Digo não,
Digo sim,
Com igual abandono...
Tão distante de mim
Como do trono...


Vivi antes da hora o que vivi.
E, agora, vegeto,
Feliz de nada ser,
De nada desejar,
E de nada sentir,
Agradecido ao mar de nunca me acordar,
E agradecido ao céu de sempre me cobrir.


Coimbra, 7 de Março de 1970

maxresdefault 01.jpg

13
Ago17

Poesia e Fotografia 428

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

LOA


É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.


S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1969

lareira-natal1.jpg

12
Ago17

Poesia e Arte 52

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CANTIGA DE AMIGO


El-Rei D. Dinis
Trovador
Nunca trovou de amor
À terra que mais quis
Da terra portuguesa,
Talvez a pensar
Que tanta aspereza
Só num transmontano,
Poeta também,
Podia encontrar
O calor humano
Dos filhos que tem...
E eu aqui ando
Porfiando,
A ver se consigo
Fazer-lhe, a seu mando,
Um cantar de amigo.


Além-Côa, 2 de Novembro de 1969

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