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zassu

11
Jul17

Poesia e Fotografia 405

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

NATAL


Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças de são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.


S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966

FB_IMG_1441838180697.jpg

11
Jul17

Poesia e Fotografia 404

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ALENTEJO


Terra parida,
Num parto repousado,
Por não sei que matrona natureza
De ventre desmedido,
Olho, pasmado,
A tua imensidão.
Um corpo nu, em lume ou regelado,
Que tem o rosto da serenidade.


Viana do Alentejo, 18 de Dezembro de 1966

lua e seara 008.JPG

09
Jul17

Poesia e Fotografia 403

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

COLUNA


Paralelo ao destino
Inteiro ou mutilado
Doutros irmãos,
O fuste, a prumo, vai da terra ao céu,
Da base ao capitel.
Os dentes do cinzel
E a mão crispada
Deixaram no granito
A imagem figurada
Dum sobranceiro grito
Da condição humana,
Erguido na planície alentejana.


Évora, 9 de Dezembro de 1966

2013 - Évora 489.jpg

08
Jul17

Poesia e Fotografia 402

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

OUTONO


Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que o gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


Almalaguês, 16 de Outubro de 1966

_NOC6910.jpg

07
Jul17

Poesia e Fotografia 401

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PANORAMA


Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras,
Sem gritos,
Sem o eco sequer duma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! povo amordaçado
Por não sei que mordaça consentida!


São Martinho de Anta, 28 de Setembro de 1966

2017.- Régua (Julho) (81).jpg

06
Jul17

Poesia e Fotografia 400

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

MAR SONORO


Rumor das ondas, música salgada,
Eterna sinfonia
Da energia inquieta:
Que búzio te ressoa a nostalgia,
Além do meu ouvido de poeta?


Miramar, 28 de Agosto de 1966

DSCF7004.jpg

05
Jul17

Poesia e Fotografia 399

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ENCONTRO


O desespero tem agora a imagem
Do seu tamanho:
O mar sem fim, que o areal debrua.
Milhas e milhas de tristeza nua,
Que nenhum sonho veste.
A rasa imensidão
Dum coração
Que pulsa aflito a paz celeste.


Miramar, 17 de Agosto de 1966

DSCF6998.jpg

 

04
Jul17

Poesia e Fotografia 398

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

DESACERTO


Ternura em movimento,
Vamos os dois - o sol e a sombra juntos,
O futuro e o passado no presente.
O que te digo é urgente;
O que tu me respondes não tem pressa.
A minha voz acaba na vertente
Onde a tua começa.


Apertamos as mãos enamoradas.
Uma quente, outra fria...
E sorrimos às flores que no caminho
Nos olham com os seus olhos perfumados,
Tu, de pura alegria;
Eu, de melancolia...
Um a cuidar, e o outro sem cuidados.


Canta um ribeiro ao lado.
Ambos o ouvimos, mas diversamente.
O que em ti é promessa de frescura
À terra da semente semeada,
Em mim é já certeza de secura
De raiz arrancada.


Almas amantes e desencontradas
Na breve conjugação
Que tiveram na vida,
Levo de ti um halo de pureza,
Deixo-te a inquietação duma lembrança...
E é inútil pedir mais à natureza,
Surda ao meu desespero é à tua confiança.


Coimbra, 26 de Junho de 1966

FB_IMG_1441836140570.jpg

 

04
Jul17

Poesia e Fotografia 397

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

SOL NEGRO


De que trevas me vem a claridade!
É da noite da minha humanidade
Que arranco chispas de revelação...
Desaterro a negrura,
E, quanto mais fundura,
Mais luz reluz no aço do enxadão.


Mas quem pode no curso duma vida
Remover toda a sombra de que é feito?
Nessa cama de sombra é que me deito
E acordo a tactear desde que vim...
Teimo, contudo, na teimosa empresa
De encher os olhos cegos de certeza
De que também há sol dentro de mim.


Coimbra, 20 de Junho de 1966

2017.- Régua (Julho) (107).jpg

02
Jul17

Poesia e Fotografia 396

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CHICOTE


Arre, burro madraço!
Qua carga! Qual cansaço!
Chouta! Chouta, com forças ou sem elas.
Firme nessas canelas
Até onde o exija a própria vida.
Que fique bem cumprida
A penitência.
Que nenhuma sensata resistência
Torne mais absurda a caminhada,
Curva inútil, traçada
De negrura a negrura:
O ventre e a sepultura.


Coimbra, 4 de Abril de 1966

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