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zassu

21
Jul17

Poesia e Arte 50

 

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

GUEVARA


Não choro, que não quero
Manchar de pranto
Um sudário de força combativa.
Reteso a dor, e canto
A tua morte viva.


A tua morte morta
Pelo próprio terror em que ficaram
À sua frente
Aqueles que te mataram
Sem poderem matar o combatente.


O combatente eterno que ficaste,
Ressuscitado
Na voluntária crucificação.
Herói a conquistar o inconquistado,
Já sem armas na mão.


Quem te abateu, perdeu a guerra santa
Da liberdade.
Fez brilhar na manhã do mundo inteiro
Um sol de redentora claridade:
O teu rosto de Cristo guerrilheiro.


Coimbra, 11 de Outubro de 1967

che_guevara_sangue.jpg

Hasta Siempre - Natalie Cardone

20
Jul17

Poesia e Arte 49

 

 

POESIA E ARTE

 

POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUELO TORGA

 

CEIFEIRA


Acendo a luz da coragem
E dou luz ao que pareces,
Mulher que nunca pariste!
Já que ninguém te resiste,
Que te resista a verdade.
Que seja ela a mostrar
Que lucidez pode olhar
O teu rosto de alvaiade.


Tens o nome de ceifeira,
E afrontas esse nome
De sol, suor e fartura.
Sujas o chão da planura
Só a mover a gadanha.
E a jorna de terror
Que te paga o lavrador,
É roubada, não é ganha!


Ceifas a seara humana,
E não cantas a ceifar!
Fica o restolho a chorar
Quando um rasto de pragana
Te segue pelos outeiros...
Mas levas mortos contigo!
E enches os teus celeiros
Da podridão desse trigo!


Chaves, 27 de Setembro de 1967

Silva_Porto-05.jpg

 (Pintor Silva Porto)

 

19
Jul17

Poesia e Fotografia 412

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

AGONIA


Canto a pedir socorro.
A noite que atravesso é negra, e tenho medo,
Mas nem sequer o eco
Da minha voz
Vem ter comigo
E dar-me confiança.
Cala-se, ou foge noutra direcção,
Ansioso, ele próprio, de encontrar abrigo
E segurança.
E o canto vai crescendo de aflição
À medida que aumenta a escuridão
E o meu terror avança.


S. Martinho de Anta, 13 de Setembro de 1967Hombre-gritando-con-trastorno-explosivo-intermiten

 

 

18
Jul17

Poesia e Fotografia 411

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

BÚZIO


Encosto o ouvido à concha do silêncio.
Oiço um rumor de angústia na lembrança.
É o mar humano do desassossego
A ressoar...
Vinda de muito longe,
Peregrina do tempo,
A baça ondulação do sofrimento,
Baça também na imensa solidão...
Voz abafada, que não renuncia
A ter eco e razão
No surdo litoral da tirania.


Coimbra, 11 de Setembro de 1967

búzio.png

17
Jul17

Poesia e Fotografia 410

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

TEATRO


A triste lei dos anos!
Sou agora o inverso do menino.
Conheço de antemão os desenganos,
Sonho que sonho, penso que imagino.


Arquiteto na areia,
A saber que o castelo vai cair.
Quando a ilusão semeia,
Sinto a desilusão que hei-de sentir.


Comprei com sofrimento a lucidez
De não ser inocente.
E faço dos papéis no entremez:
O do que julga ver, e o do vidente.


Miramar, 22 de Agosto de 1967

DSCF4398.jpg

16
Jul17

Poesia e Arte 48

 

 

POESIA E ARTE
 
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

ESPERANÇA


Quero que sejas
A última palavra
Da minha boca.
A mortalha de sol
Que me cubra e resuma.
Mas como à despedida só há bruma
No entendimento,
E o próprio alento
Atraiçoa a vontade,
Grito agora o teu nome aos quatro ventos.
Juro-te, enquanto possa, lealdade
Por toda a vida e em todos os momentos.


Miramar, 19 de Agosto de 1967

 

o_grito - Edward Munch.jpg

O Grito - Edward Munch

15
Jul17

Poesia e Fotografia 409

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

VAZIO


Morre o sol decepado nas searas.
Como é triste o restolho das colheitas!
Todas as contas feitas,
Todo o pão entulhado.
Já nem sequer o braço enamorado
Da planura
A cingir a cintura
Das paveias...
Ah! fome insatisfeita, que semeias
E não sabes colher!
Faz outra vez nascer,
Imaginado,
O trigo que nos campos reverdece,
Ondula, grado,
E nunca amadurece!


Alhais, Vila Nova de Paiva, 9 de Julho de 1967

2015 - Alanhosa+Senhora da Saúde (26).jpg

14
Jul17

Poesia e Fotografia 408

 

 

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PÂNICO


Quase no fim, e ainda a soletrar
O livro de viver!
Difícil de entender,
Cada sinal
É um laço de recusas e promessas.
Alfas e betas de um mistério tal,
Que me parecem cifras às avessas.


Sessenta anos de tenacidade
A cantar a lição como um forçado.
A juntar, na cartilha, as letras do meu fado
Desgarradas num mar de nevoeiro.
Um mar de confusões
E de aflições,
Com fossas abissais do verdadeiro.


E o tempo passa,
E a morte ameaça,
E eu neste crescente desespero
De ver que não aprendo a solfa do destino!
A ver com amargura
Que sei e saberei desta aventura
Apenas o que sinto e o que imagino.


Coimbra, 4 de Maio de 1967

nevoeiro.jpg

13
Jul17

Poesia e Fotografia 407

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

CEIFA


Ceifo a larga seara dos meus anos:
Encho a tulha de mágoas.
Mas este joio, em mim, é natural
Como o trigo aos montões noutras herdades.
O mal nasce do mal.
Semeei ventos, colho tempestades.


Só reparei no erro da lavoura
Quando o sol aloira o desengano.
Mas nem então, humano,
Me arrependi.
Olhei com pena o sáfaro oceano,
Sem pena da abundância que perdi.


E cantei, como cantam
Os pobres inspirados.
Cantei contente
Como toda a gente.
Cantei os meus cuidados
Descuidados.


Cantei a fome sem nenhuma esperança.
A negra fome da inquietação
Que não quer a fartura granjeada
Com lisonjas a Ceres e ao arado.
A fome alimentada
Pelo gosto do pão imaginado.


Coimbra, 2 de Março de 1967

alentejo.jpg

12
Jul17

Poesia e Fotogradia 406

 

 

POESIA E FOTOGRAFIA
 
POEMAS NOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

PÉTALAS


Infantil e alada,
A brisa do teu espanto
Salta de monte em monte
E roça-me o ouvido:
- Que maravilha é esta?


- É o meu berço florido;
O duro chão da minha terra em festa!

Barca de Alva, 26 de Fevereiro de 1967

DSCF5014.jpg

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